de qualquer injeção e variar o local de vacinação. As regiões lateral do pescoço ou do tórax, dorsal, paralombar e,
principalmente, a interescapular devem ser evitadas para a aplicação de qualquer injeção. A exérese de um sarcoma
localizado nessas regiões é difícil, sobretudo quando o tumor alcança proporções maiores, comprometendo estruturas ou
órgãos adjacentes.
8
Recomendase que as vacinas contra a panleucopenia felina e o herpesvírus felino tipo 1 sejam administradas abaixo do
cotovelo direito; já a vacina contra o vírus da leucemia felina abaixo do joelho esquerdo; e a vacina antirrábica abaixo do
joelho direito, todas pela via SC.
8 Dessa forma, caso ocorra o desenvolvimento do sarcoma, é possível a remoção com
amplas margens de segurança e com pouca ou nenhuma manipulação da massa tumoral. Além disso, o VAFSTF (2005),
para prevenir o surgimento de sarcomas nos gatos, sugere vacinar gatos que vivem em uma população de risco, indivíduos
com risco real de exposição e desenvolvimento das enfermidades, bem como aumentar o tempo de reforço das vacinas.
Tabela 55.1 Protocolos terapêuticos antineoplásicos utilizados no tratamento de sarcoma de aplicação em gatos.
Protocolos e quimioterápicos Doses Dias de administração
Doxorrubicina 25 mg/m
2
, IV Repetiracada21dias (4ciclos)
Doxorrubicina 25 mg/m
2
, IV Administraraciclofosfamida10diasapósadoxorrubicina
Ciclofosfamida* 200a300 mg/m
2
, VO Repetiresteprotocoloacada21dias (4ciclos)
Mitoxantrona 4a6 mg/m
2
, IV Administraraciclofosfamida10diasapósa mitoxantrona
Ciclofosfamida* 200a300 mg/m
2
, VO Repetiresteprotocoloacada21dias (4ciclos)
Ciclofosfamidaz 400 mg/m
2
, VO A cada21dias
Vincristina 0,7 mg/m
2
, IV A cada7dias
Mitoxantrona 6a6,5 mg/m
2
, IV Repetiracada21a30dias (4ciclos)
Carboplatina 250 mg/m
2
1,5 mg/cm
2
, IT
Repetiracada21a30dias (4ciclos)
Repetir semanalmente
Ifosfomida 350 mg/ m
2
, IV Repetiracada21dias
Casoocorraanorexiaou mielossupressãograve,administraraciclofosfamida nadosede100 mg/m2 no3
o
,4
o
,5
o
e6
odiaapósadoxorrubicina. IT = intratumoral; IV =
intravenosa; VO = viaoral.
Outra estratégia eficaz é a administração de vacinas por via nasal. É fundamental que novas pesquisas sejam conduzidas
para o desenvolvimento dessas vacinas, proporcionando eficácia equivalente à das vacinas injetáveis. Sempre que possível,
a via oral deve ser a primeira opção para a administração de antibióticos, antiinflamatórios, antiparasitários e outros
medicamentos.
Prognóstico
É variável e depende do tamanho, da localização e do estadiamento tumoral. Além disso, as margens de segurança, o
subtipo histológico do tumor e o uso das terapias adjuvantes interferem no prognóstico do paciente. Animais com tumores
de até 2 cm, sem metástases, submetidos à exérese completa e quimioterapia ou radioterapia têm o melhor prognóstico e
sobrevida de aproximadamente 2 anos. Contudo, a maioria dos animais apresenta tumores grandes, em localizações de
difícil remoção cirúrgica, nas quais raramente as margens de segurança são obtidas. Com frequência, esses tumores
recidivam em poucos meses. A cirurgia como modalidade terapêutica única remete a resultados pouco favoráveis,
especialmente se houver comprometimento das margens com células neoplásicas. O tempo médio de recorrência nos
pacientes submetidos ao procedimento cirúrgico inadequado são 2 meses, aos passo que, naqueles que passaram pela
exérese radical, ou seja, respeitandose os limites mínimos das margens, foi de 9 meses Nesses casos, o prognóstico é
desfavorável, principalmente nos gatos que não receberam quimioterapia ou radioterapia adjuvante. Outro fator importante
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
10.
11.
e que interfere no prognóstico é a graduação histológica do tumor. Um estudo mostrou que os sarcomas com grau III são
mais propensos ao desenvolvimento de metástases quando comparados com os graus I e II.
9
Perspectivas futuras
A investigação no âmbito molecular por intermédio das expressões gênicas de diversos tumores é uma realidade na
Medicina Veterinária, porém pouco usada no estudo dos sarcomas de tecidos moles vacinais em felinos. Os microarrays
são técnicas que permitem a avaliação do genoma para, assim, detectar aberrações cromossômicas que possam implicar
tumorigênese, bem como a determinação do prognóstico e a conduta terapêuticaalvo específica por meio das detecções de
anormalidades genéticas por essa técnica molecular.
10
Algumas perspectivas no tratamento dos sarcomas de aplicação permanecem em investigação. Entre as terapiasalvoespecíficas, o STI571 (imatinibe), um inibidor de tirosinoquinase, tem apresentado atuação in vitro sobre células de
sarcomas vacinais de cobaias. Esse fármaco bloqueia a via de sinalização do PDGF e seu receptor, inibindo a multiplicação
das células.
A atividade do taxol, um quimioterápico utilizado no tratamento de neoplasias mamárias, tem sido estudada em células
de sarcomas vacinais in vitro. Apesar da efetividade, estudos adicionais devem ser conduzidos para determinar sua
distribuição, disponibilidade e toxicidade.
Há evidências de que animais de outras espécies, como os cães, também desenvolvem sarcomas pósvacinais. O aspecto
histopatológico é semelhante ao dos sarcomas felinos, cujo depósito de alumínio pode ser observado pelo método do ácido
aurintricarboxílico em metade dos sarcomas considerados pósvacinais em cães.
Resultados dos estudos préclínicos mostram que a terapia gênica com gene terapêutico que codifica a interleucina 12
(IL12) exibe efeitos antitumorais pronunciados em vários modelos de tumor, entre eles, os sarcomas de tecidos moles em
felinos.
11
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Introdução
A alimentação adequada merece atenção especial em qualquer fase do ciclo de vida de cães e gatos, sendo fator essencial à
saúde e longevidade desses animais. A terapia nutricional em animais portadores de câncer deve contemplar inúmeras
variáveis, relacionadas com o tipo de tumor, o protocolo quimioterápico, as intervenções cirúrgicas, as alterações
metabólicas induzidas pela neoplasia, características individuais do animal e a cooperação dos proprietários. Existem
poucos estudos em Medicina Veterinária relativos a esse tema. Assim, a presente revisão objetiva descrever as principais
alterações no metabolismo de cães e gatos decorrentes do processo neoplásico, bem como discutir e apresentar princípios
de suporte nutricional, dietas e emprego de nutracêuticos imunomoduladores, aspectos fundamentais como terapia
adjuvante ao tratamento quimioterápico e cirúrgico dos pacientes. As informações aqui apresentadas foram obtidas da
literatura científica em Medicina Veterinária e Medicina Humana, baseandose também na experiência vivida na parceria
dos Serviços de Nutrição Clínica de Cães e Gatos e Oncologia Veterinária do Hospital Veterinário Governador Laudo Natel
da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
(FCAVUNESP).
Caquexia
A caquexia provocada pelo câncer é uma síndrome paraneoplásica comum em Medicina Veterinária. Palavra derivada do
grego, composta por kakos que significa “mal” e hexis que significa “condição”, caracterizase por perda tecidual acelerada,
anorexia, depauperação da musculatura esquelética, miopatia, perda acelerada de gordura, atrofia de vísceras e náusea.
16 As
alterações bioquímicas e hematológicas encontradas incluem anemia, hipoalbuminemia, hiperglicemia, hiperlactacidemia,
hiperlipidemia e tolerância reduzida à glicose.
Um dos componentes importantes na gênese da caquexia secundária ao câncer é a anorexia, que pode ser consequente à
redução da percepção de sabor e olfato, satisfação precoce à ingestão alimentar, à resposta inadequada a peptídios
orexigênicos, ao aumento de triptofano cerebral e à produção de citocinas.
7 No momento do diagnóstico, cerca de 15 a 40%
dos pacientes humanos com câncer estão anoréticos e esses valores podem aumentar para 80% em estádios mais avançados
da doença.
8,9
A perda de peso precoce no desenvolvimento do câncer é com frequência uma das características da síndrome, sendo
proveniente do catabolismo muscular e gorduroso, que ocorre, em geral, na mesma intensidade.
10,11 Essas mudanças
parecem ser dirigidas por citocinas próinflamatórias, alterações neuroendócrinas axiais e fatores catabólicos derivados do
tumor maligno
10
, que conduzem a alterações no metabolismo de gorduras, carboidratos e proteínas.
11,12
O comprometimento do estado nutricional é aceito como parte da evolução do doente com câncer e também como
possível consequência de seu tratamento. Dados em relação a seres humanos indicam prevalência de perda de peso e
desnutrição com variação de 9,0% em pacientes com câncer de mama a 80% em pacientes com câncer de esôfago.
13
■
Acreditase que cerca de 20% dessas pessoas venham a óbito pela desnutrição, e não em decorrência da doença em si.
14 Em
cães e gatos, a prevalência da perda de peso não está bem definida. Daniel e Mauldin estimaram que, em aproximadamente
25% dos cães e 40% dos gatos, isso já tenha ocorrido quando a doença é diagnosticada.
15 Em outro estudo mais recente,
Michel et al. encontraram apenas 4,0% de cães caquéticos, definidos com escore corpóreo menor ou igual a 3, na
classificação de 9 pontos. Os autores apontaram a escassez de informações a respeito e a necessidade de mais estudos para
se quantificar a verdadeira prevalência de caquexia em animais portadores de câncer.
16
A etiologia da desnutrição em pacientes com câncer é multifatorial e decorre de efeitos sistêmicos ou locais do tumor ou
de efeitos adversos ao tratamento.
17 Os sistêmicos, como anorexia e alterações metabólicas, são múltiplos e variados em
tipo e gravidade, dependentes da neoplasia.
17 Os locais em geral estão associados a má absorção, constipação intestinal,
diarreia, disfagia e vômito. Sinais como fadiga, depressão, ansiedade ou dor, consequentes ao tratamento ou à própria
doença, também interferem na ingestão de alimentos. Durante a terapia quimioterápica da neoplasia, podem ocorrer redução
do apetite, satisfação precoce, fadiga, disfagia, inflamação oral, aumento de sensibilidade a odores, mudanças no paladar,
diarreia, constipação, náusea e vômito.
18
Fisiopatologia
A fisiopatogenia exata da caquexia cancerosa é ainda desconhecida. As anormalidades metabólicas características da
síndrome são principalmente atribuídas ao aumento do consumo de energia pelo tumor, à liberação de fatores que agem no
centro da saciedade e promovem redução do consumo alimentar e às citocinas produzidas tanto pelo hospedeiro quanto pela
neoplasia.
A caquexia pode ser classificada em primária ou secundária. A primária relacionase às consequências metabólicas e
inflamatórias associadas à presença do tumor, que resultam em consumo progressivo e frequentemente irreversível de
proteína visceral, musculatura esquelética e tecido adiposo. A secundária resulta da diminuição da ingestão e absorção de
nutrientes por obstruções tumorais do trato gastrintestinal, anorexia consequente ao efeito do tratamento e ressecções
viscerais extensas. Para seres humanos, existe associação inversa entre a perda de peso e o tempo de sobrevida. Pacientes
humanos com câncer de próstata mal nutridos e anoréticos, por exemplo, permaneceram hospitalizados por período duas
vezes maior e apresentaram tempo de sobrevida inferior ao de pacientes bem nutridos.
19
Do ponto de vista clínico, a caquexia associada ao câncer pode ser subdividida em três fases. A primeira é a préclínica
ou silenciosa, em que os pacientes não apresentam sinais clínicos da doença, mas sim alterações bioquímicas como
hiperlactacidemia, hiperinsulinemia e alteração de aminoácidos e lipídeos sanguíneos. A segunda fase é a clínica, em que os
pacientes apresentamse anoréticos, letárgicos e iniciamse as primeiras evidências de redução de peso corporal. A terceira
ou fase final caracterizase por marcada perda de peso e evidências bioquímicas de equilíbrio nitrogenado negativo.
20 A
Figura 56.1 ilustra cães portadores de caquexia clínica avançada.
Principais fatores de desenvolvimento
Citocinas
Citocinas são glicoproteínas solúveis com pequeno peso molecular. São produzidas por macrófagos e linfócitos do
hospedeiro em resposta aos estímulos tumorais, atuando como mensageiros intercelulares. Concentrações circulantes
mensuráveis de citocinas ocorrem, em geral, em situações de hiperestímulo da produção e, provavelmente, refletem a perda
dos mecanismos de homeostase. Têm sido consideradas importantes fatores humorais envolvidos na caquexia do câncer.
Propõese que diversas citocinas sejam mediadoras do processo, destacandose o fator de necrose tumoral alfa (tumor
necrosis factor alpha – TNFalfa), a interleucina1 (IL1), a interleucina6 (IL6) e o interferongama (IFNgama), em
geral encontrados em concentrações elevadas em pacientes com câncer. Na Figura 56.2, encontrase um resumo dos efeitos
do TNFalfa, da IL1 e da IL6 nos animais.
As citocinas IL1, IL6 e TNFalfa apresentam diversas atividades biológicas que ajudam a coordenar as respostas do
organismo contra as infecções. Estimulam os hepatócitos a sintetizar as proteínas de fase aguda e o endotélio da medula
óssea a liberar neutrófilos. As proteínas de fase aguda atuam como opsoninas, ao passo que a eliminação de patógenos
opsonizados é aumentada pelo maior recrutamento de neutrófilos da medula óssea. Essas três citocinas também são
pirógenos endógenos, elevam a temperatura corpórea para debelar infecções. Um importante efeito dessas substâncias se
verifica sobre o hipotálamo, o qual altera a regulação da temperatura corpórea, e sobre as células musculares e adiposas,
modificando a mobilização de energia para aumentar a temperatura corpórea. Em temperaturas elevadas, a replicação
bacteriana e viral é reduzida, ao passo que o processamento de antígenos é aumentado. O estabelecimento da resposta
imune adaptativa também é favorecido por essas citocinas pelo estímulo à migração de linfócitos B e T para os linfonodos
e pelo estímulo à maturação dessas células.
21
Figura 56.1 A a D. Cães acometidos por caquexia clínica.
Figura 56.2 Efeitos do fator de necrose tumoral alfa, da interleucina1 e da interleucina6 nos animais. IL1 = interleucina1; IL6 = interleucina6; TNFalfa = fator de necrose tumoral alfa.
As citocinas atuam sinergicamente, o TNFalfa induz a secreção da IL1 e ambos estimulam outras citocinas, como a IL6, desencadeandose uma cascata metabólica.
Receptores de TNFalfa e IL1 são encontrados na área reguladora da ingestão alimentar do hipotálamo. A infusão de
IL1 em ratos normais reduziu a ingestão alimentar, o número e o tamanho das refeições.
7 A administração crônica dessas
citocinas, isoladas ou combinadas, é capaz de reduzir a ingestão de alimentos e reproduzir características da síndrome da
anorexiacaquexia do câncer.
1,10
Fator de necrose tumoral alfa
O TNFalfa, também conhecido como caquexina, é um polipeptídio produzido por monócitos e macrófagos mediante
estímulo das células do sistema reticuloendotelial. É considerado mediador primário no desenvolvimento das respostas
sistêmicas secundárias a infecção, trauma e inflamação. A exposição persistente ao TNFalfa promove lipólise,
glicogenólise e mobilização de substratos energéticos periféricos, principalmente aminoácidos e triglicerídios, que são
direcionados para o fígado.
22
Interleucina-1
A IL1 compreende uma família com dois agonistas (alfa e beta) e dois antagonistas (IL1 receptor antagonista ou IL1ra).
Macrófagos, monócitos, células endoteliais, fibroblastos, epitélio intestinal, eosinófilos, neutrófilos e mastócitos podem
sintetizar IL1. Sua infusão induz a saciedade, sendo considerada antagonista do neuropeptídio Y, um peptídio com ação
orexígena.
23 Segundo Carvalho et al., parece produzir os mesmos efeitos do TNFalfa, mas não age sobre os músculos e
seus efeitos em produzir caquexia são menos potentes.
24
Interleucina-6
A IL6 é produzida pelas mesmas células que produzem a IL1, mediante indução por lipossacarídeo, lectina e outras
citocinas, como IL1 e TNFalfa.
22 Apresenta efeitos semelhantes, mas menos potentes que os da IL1. Elevadas
concentrações circulantes de IL6 estão associadas à perda de peso em alguns pacientes com linfoma, câncer de pulmão e
neoplasias colorretais em seres humanos e ratos.
25
Interferon-gama
O IFNgama é citocina produzida por células T ativadas e natural killer (NK). Potencializa o efeito do TNFalfa e aumenta
a expressão gênica do ácido ribonucleico mensageiro (messenger ribonucleic acid – mRNA) engatilhado pelo TNFalfa nos
macrófagos expostos à endotoxina. Seus efeitos sobre a redução da ingestão alimentar e inibição da lipase lipoproteica nos
adipócitos são semelhantes aos do TNFalfa.
A Figura 56.3 ilustra a ação das citocinas nos diferentes tecidos e seu envolvimento no desenvolvimento da caquexia.
Alterações hormonais
O controle da ingestão alimentar tem regulação cerebral, localizada no hipotálamo, eixo hipotalâmicohipofisário e sistema
autônomo (simpático e parassimpático). Essa regulação, ou controle, se faz por mecanismos de ordem comportamental,
como ingestão de alimentos e padrões de atividade e de sono, ou fisiológicos, como ajuste da temperatura corpórea, gasto
energético basal e ativação da resposta aguda ao estresse.
26
Vários neuropeptídios centrais e gastrintestinais, como leptina, neuropeptídio Y (NPY), melanocortina, grelina, insulina,
galamina, colecistocinina e endorfinas, atuam na regulação da ingestão de alimentos e no gasto energético. Alterações nas
concentrações dessas substâncias contribuem para a caquexia.
27,28
Figura 56.3 Efeito pleiotrópico das citocinas e sua relação com o desenvolvimento da caquexia. AA = aminoácidos.
Leptina
A perda de peso é potente estimulador da ingestão de alimentos em seres humanos e animais saudáveis. Nessa condição,
neuropeptídios orexigênicos são produzidos e neuropeptídios anorexigênicos são inibidos, o que ocorre por meio de
interação hormonal entre glucagon e colecistocinina. A leptina, hormônio secretado pelo tecido adiposo, integra o circuito
homeostático de regulação do peso corpóreo, importante no desencadeamento da resposta adaptativa ao jejum. A perda de
peso ocasiona redução na concentração de leptina proporcional à diminuição da gordura corpórea.
1 Baixas concentrações de
leptina no cérebro aumentam a atividade dos sinais orexigênicos hipotalâmicos, que estimulam o apetite, causam redução
do gasto energético e diminuem a atividade dos sinais anorexigênicos. Por sua vez, elevadas concentrações de leptina
cerebral estão relacionadas à saciedade e ao aumento do gasto energético basal.
Em pacientes com câncer, a elevação das concentrações de citocinas pode causar aumento das concentrações de leptina ou
interferir no feedback negativo de sua sinalização hipotalâmica. Com isso, ocorre interferência no mecanismo fisiológico
normal de detecção de redução alimentar e peso corpóreo, de modo que, mesmo anorético e perdendo peso, o portador de
neoplasia permanece com supressão do apetite e aumento da taxa metabólica.
29
Neuropeptídio Y
Hormônio também associado à caquexia, o NPY é distribuído de modo abundante no cérebro e considerado o mais potente
peptídio orexigênico. É ativado pela diminuição da leptina, faz parte de uma rede interconectada de substâncias
orexigênicas, como galamina, insulina, peptídios opioides e outros. Entre suas ações, destacamse o aumento da ingestão
de alimentos, a diminuição do gasto energético e o aumento da lipogênese, promovendo equilíbrio energético positivo e
aumento da reserva de gordura.
30 Estudos mostraram que os sistemas de controle da alimentação relacionados ao NPY são
ineficazes em animais anoréticos portadores de tumor. A liberação de NPY no hipotálamo pode estar reduzida em animais
com tumores, sendo esse efeito mais intenso à medida que a anorexia progride.
28
Melanocortina
Constitui família de peptídios regulatórios que inclui o hormônio adrenocorticotrófico (adrenocorticotropic hormone –
ACTH) e o hormônio estimulante dos melanócitos (melanocytestimulating hormone – MSH). Esse grupo de peptídios e
seus receptores auxiliam na regulação do apetite e da temperatura corpórea. Em pacientes com neoplasia, apesar da perda
de peso, esse sistema permanece ativo. Normalmente, esperar seia regulação negativa dos sistemas anorexigênicos
relacionados à melanocortina, de modo que sua atividade durante a caquexia neoplásica aumenta ainda mais a taxa
metabólica, a anorexia e a perda de peso.
30
Grelina
A grelina é hormônio peptídico predominantemente secretado por células epiteliais da região fúndica gástrica. É importante
regulador de apetite e peso corpóreo, atua por meio de mecanismos centrais que envolvem o NPY e o peptídio agoutiassociado, ambos potentes estimulantes do apetite no eixo hipotalâmico. As concentrações plasmáticas de grelina podem
estar diminuídas em pacientes com anorexiacaquexia. Isso ocorre em decorrência de bloqueio na resposta adaptativa ao
jejum, consequente à diminuição da expressão do mRNA da grelina no estômago, diminuindo assim o apetite. No entanto,
ainda existem controvérsias a respeito das concentrações de grelina na circulação e sua ação em pacientes com neoplasia.
31
Alterações metabólicas
Metabolismo dos carboidratos
As principais alterações metabólicas nos pacientes com câncer talvez ocorram no metabolismo dos carboidratos. As células
neoplásicas malignas parecem ser capazes de captar de 10 a 50 vezes mais glicose do que as células normais, de forma que
a presença do tumor aumenta o consumo de glicose. Experimentalmente, verificouse que a taxa de captação de glicose
pelas células tumorais está fortemente relacionada com o grau de malignidade e o poder de invasão dessas células.
32 Seria
esperado, então, que a concentração plasmática de glicose diminuísse nos pacientes com câncer, mas isso não ocorre.
Há aumento da neoglicogênese hepática, o fígado passa a sintetizar glicose de modo contínuo a partir de substratos como
aminoácidos provindos dos músculos, glicerol advindo da lipólise e do lactato liberado pelas células neoplásicas. Nas
células neoplásicas, a glicose é degradada a lactato via glicólise anaeróbica. O lactato, por sua vez, é reconvertido em
glicose no fígado, no ciclo de Cori (Figura 56.4). Essa via metabólica resulta no consumo de seis moléculas de adenosina
trifosfato (adenosine triphosphate – ATP), de maneira que a manutenção desse processo resulta em gasto energético pelo
hospedeiro, que precisa consumir energia para converter o lactato em glicose, e em ganho de energia pelo tumor. Esse
mecanismo causa espoliação energética do hospedeiro, contribuindo para degradação tecidual e perda de peso e de massa
magra nesses pacientes.
24,6,3337 Para se ter dimensão desse processo, pacientes com neoplasias malignas em estádios
avançados e com perda de peso progressiva apresentam atividade do ciclo de Cori aproximadamente duas a três vezes
maior que a medida nos pacientes com câncer sem perda de peso ou em indivíduos normais.
38
Pacientes com neoplasia podem desenvolver, também, intolerância à glicose e resistência à ação da insulina.
Resumidamente, a primeira é ocasionada pela diminuição da sensibilidade dos receptores das células beta e a segunda pela
redução da sensibilidade dos tecidos periféricos ao hormônio.
39,40 Os resultados desse processo são o aumento de glicemia
e insulinemia e respostas alteradas à infusão de glicose, lactato, ou à alimentação.
Cães com linfoma, mesmo antes do aparecimento de sinais clínicos de caquexia, já podem apresentar alterações no
metabolismo dos carboidratos. Evidências indicam que essas alterações também podem ocorrer em cães com neoplasias
malignas não hematopoéticas, que apresentaram maior elevação da insulina e do lactato plasmático do que cães saudáveis,
em resposta ao teste intravenoso de tolerância à glicose.
41,42 Resultados semelhantes foram encontrados por Burt et al. em
ratos acometidos por sarcoma.
43
Essa alteração metabólica parece não se reverter com a remissão da neoplasia. Ogilvie et al. não observaram redução da
hiperlactacidemia e hiperinsulinemia em cães com linfoma após extirpação completa dos tumores ou remissão
quimioterápica com doxorrubicina.
44 No entanto, devese considerar que mais recentemente essas alterações passaram a ser
discutidas e não se tem, ainda, consenso sobre sua extensão e significado. Porém, segundo um estudo realizado por Silva
45
,
em que avaliou as concentrações de lactato em 17 cães com diferentes neoplasias, foi verificado que o aumento do
metabólito apresentou correspondência com o escore de condição corporal abaixo ou acima do ideal, sexo feminino, idade
acima de 7 anos e castração, assim como a hiperlactacidemia ocorreu em animais com neoplasias de origem de células
redondas e mesenquimais, como ilustrado pela Figura 56.5.
Este resultado sugere que o aumento da concentração de lactato em cães portadores de neoplasia pode ser dependente de
algumas variáveis individuais, como sexo, peso e escore corporal e tipo de tumor. Mais estudos sobre o metabolismo dos
carboidratos são necessários para melhor entendimento a respeito dessa alteração.
Essas alterações metabólicas sugerem alguns cuidados especiais que devem ser tomados no manejo clínico desses
pacientes. A infusão de glicose ou lactato, por exemplo, pode ser contraindicada. Vail et al. documentaram exacerbação da
hiperlactacidemia em cães com linfoma mediante infusão de solução de Ringer com lactato de sódio.
34 As concentrações de
lactato desses animais demonstraramse elevadas antes, durante e após o término da infusão, em comparação às de cães
saudáveis. O aumento no lactato sanguíneo induzido pela administração de solução de ringer com lactato pode criar carga
metabólica adicional, implicando maior gasto energético pelo cão (no ciclo de Cori) e possível exacerbação de acidose
metabólica, o que contraindica a infusão dessa solução nesses pacientes.
Figura 56.4 Alterações no metabolismo dos carboidratos em pacientes com neoplasia. ATP = adenosina trifosfato.
Figura 56.5 Mapa perceptual gerado pela análise de correspondência multivariada obtida entre as variáveis: concentração
de lactato, ECC, grupo de neoplasia, sexo, idade e castração. ECC1: 1 a 3; ECC2: 4 a 6 e ECC3: 7 a 9; Cont = grupocontrole, Neo 1 = tumor de células redondas, Neo 2 = tumor de células epiteliais e mesenquimais; Idade 1: menos de 7
anos; Idade 2: 7 a 10 anos; Idade 3: mais de 10 anos; N cast = não castrado; Cast = castrado; Normo (Normolactacidemia)
= 0,22 a 1,44 mmol/ℓ; Hiper = (Hiperlactacidemia): acima de 1,44 mmol/ℓ (valores de referência segundo o laboratório).
Da mesma forma, minimizase o fornecimento de carboidratos na alimentação desses animais. Após uma refeição rica
em amido, a glicose se eleva por várias horas na corrente sanguínea. Em animais com essa alteração, a captação de glicose
pelo tumor resulta em aumento da quantidade total de lactato produzido, tornando necessário que o paciente utilize suas
reservas energéticas para converter o lactato em glicose novamente. A importância desse fato pôde ser verificada no estudo
de Ogilvie et al.
46 Os autores estudaram a importância da dieta na recuperação de 22 cães com linfoma linfoblástico
avançado. Os animais foram divididos em dois grupos, um foi alimentado com dieta rica em gordura, que apresentava 37%
de extrato etéreo e 14% de carboidratos sobre a matéria seca, e o outro recebeu dieta com elevado teor de amido, com 9,0%
de extrato etéreo e 58% de carboidratos. A remissão dos tumores foi alcançada com quimioterapia à base de doxorrubicina.
Como resultado, 9 dos 10 cães (90%) que receberam a dieta rica em gordura alcançaram remissão total e 8 dos 12 cães
(66,6%) alimentados com alimento rico em carboidratos alcançaram a remissão total das neoplasias. A glicose sanguínea
média e as concentrações de lactato e insulina, obtidas durante provas de tolerância ao alimento, foram menores nos cães
alimentados com a dieta rica em gordura. Esse estudo sugere que a modificação dietética é capaz de melhorar tanto a
resposta inicial à quimioterapia como as alterações relativas ao metabolismo de carboidratos dos pacientes.
Metabolismo das proteinas
As alterações metabólicas induzidas pela neoplasia se refletem de forma significativa sobre o turnover das proteínas
orgânicas, ou seja, o equilíbrio entre síntese e catabolismo proteicos.
1,38,47 As células neoplásicas utilizam os aminoácidos
como fonte de energia, via gliconeogênese, fato que se torna bastante importante a partir do momento em que a degradação
exacerbada passa a exceder a síntese de aminoácidos e proteínas.
As depleções proteicas manifestamse como atrofia da musculatura esquelética e de órgãos viscerais, miopatia e
hipoalbuminemia. Clinicamente, a redução do estoque proteico e a atrofia da musculatura esquelética diminuem, no animal
com câncer, sua capacidade de cicatrização de feridas, aumentam sua suscetibilidade a infecções e provocam diminuição da
capacidade funcional de órgãos.
O catabolismo proteico está aumentado para fornecer ao organismo aminoácidos para a gliconeogênese, o que resulta em
depleção de massa muscular esquelética. A redução na síntese proteica também concorre para esse quadro. Entre os fatores
endócrinometabólicos envolvidos, estão a resistência insulínica e a menor disponibilidade tecidual de aminoácidos que
propiciem síntese proteica.
23,48 Diferentes vias proteolíticas foram relatadas como responsáveis pelo maior catabolismo dos
músculos esqueléticos:
• O sistema lisossomal, que envolve principalmente a degradação de proteínas extracelulares e receptores de superfície de
membranas
• O sistema citosólico cálciodependente, que atua em situações de trauma tecidual, necrose e autólise, promovendo
proteólise
• A via ubiquitinadependente de energia, responsável por acelerada proteólise em condições de estresse, como jejum,
sepse, acidose metabólica, diabetes e durante a caquexia do câncer.
49
Cães com câncer apresentaram concentrações plasmáticas significativamente mais baixas de treonina, glutamina, glicina,
valina, cistina e arginina e concentrações mais elevadas de isoleucina e fenilalanina, quando comparados com cães
normais.
33 Essas alterações do perfil de aminoácidos plasmáticos não se normalizaram após a extirpação cirúrgica dos
tumores, o que sugere que o câncer induza alterações a longo prazo no metabolismo proteico de cães.
37
Estudos recentes isolaram dos esplenócitos de ratos com adenocarcinoma uma glicoproteína sulfatada de baixo peso
molecular, denominada fator indutor de proteólise (proteolysis inducing factor – PIF), que induz o catabolismo dos
músculos esqueléticos e a caquexia in vivo. Essa proteína também foi isolada da urina de pacientes humanos portadores de
câncer que apresentavam caquexia, mas não foi encontrada na urina de indivíduos normais ou em pacientes com perda de
peso decorrente de trauma, cirurgia e sepse, nem em pacientes com neoplasia que apresentavam manutenção do peso
corpóreo.
50
Metabolismo das gorduras
A perda de massa gorda corporal é a responsável pela maior parte da redução de peso nos pacientes com
neoplasia.
1,3,5,20,37,51 Animais e pessoas acometidos por câncer podem apresentar alterações significativas no metabolismo
dos lipídios, como redução da lipogênese e aumento da lipólise, que resultam em elevação nas concentrações sanguíneas de
ácidos graxos livres, lipoproteínas de muito baixa densidade e triglicerídios, e da atividade da lipoproteína lipase
hormôniodependente, com diminuição nas concentrações da lipoproteína lipase derivada do endotélio.
52 Cães acometidos
por linfoma demonstraram alteração nas concentrações de colesterol associado a lipoproteínas e nas concentrações de
triglicerídios associados a lipoproteínas.
36,37 Essas alterações metabólicas podem estar relacionadas com muitos problemas
clínicos, como a imunossupressão, podendo resultar em menor sobrevida dos pacientes.
53
O catabolismo do tecido adiposo na caquexia, entre outros fatores, tem sido atribuído à produção pelo tumor do fator
mobilizador de lipídios (FML), o qual sensibiliza o tecido adiposo estimulando a atividade lipolítica.
47 Estudos com
modelos animais sugerem que a produção de FML pelos tumores indutores de caquexia contribui para a diminuição da
gordura corporal e o aumento do gasto energético, não existindo relação, no entanto, com a anorexia. Ratos que receberam
FML apresentaram decréscimo de peso corpóreo, a maior parte por diminuição do tecido adiposo, sem ocorrer alteração no
consumo de líquidos ou alimento.
7
Ao contrário do que ocorre com carboidratos e proteínas, observouse que algumas células tumorais apresentam
dificuldade para utilizar os lipídios como substrato energético. Esses achados apoiam a hipótese de que os alimentos com
aumento relativo nos teores de gordura podem ser benéficos aos pacientes com neoplasia.
10 Além disso, os lipídios
apresentam 2,25 vezes mais energia do que proteínas e carboidratos, de modo que sua elevação aumenta o teor energético
do alimento e favorece o fornecimento de calorias aos pacientes.
Além de sua função energética, alguns ácidos graxos apresentam importantes funções metabólicas, como precursores dos
eicosanoides.
54 Os ácidos graxos polinsaturados da família ômega3 inibiram a tumorigênese e a disseminação do câncer
em alguns modelos experimentais, confirmando os dados obtidos em investigações sobre prevenção e tratamento do câncer
em seres humanos.
55 Estudos in vivo demonstraram que o ácido eicosapentaenoico (ômega3) tem ação tumoricida seletiva
sem causar lise de células normais
56 e reduz a degradação proteica sem alterar sua síntese, demonstrando, assim, efeito
anticaquético. Esse ácido graxo parece, também, amenizar a acidose láctica induzida por endotoxinas em cobaias.
57
A administração de ácidos graxos ômega3 reduziu a produção de citocinas indesejáveis, como TNFalfa, interleucina1beta, interleucina1 alfa e interleucina2 alfa.
51 Saker sugere que aumento nos teores de ácidos graxos ômega3 com
redução nos de ômega6 no alimento pode conferir atividade antitumoral à dieta.
58 Outros benefícios verificados em
pacientes alimentados com dietas ricas em ácidos graxos polinsaturados ômega3 foram maior tempo de sobrevida e
melhora na qualidade de vida.
59
Metabolismo energético
■
Um dos fatores associados à perda de peso no câncer é o aumento do gasto energético pelo paciente.
60 O metabolismo
energético pode ser definido como a soma de reações químicas complexas e integradas, por meio das quais os animais
obtêm energia do ambiente e, assim, mantêm o funcionamento de todos os processos biológicos.
Animais com neoplasia podem apresentar importante alteração do gasto energético. Essa alteração, no entanto, não é
uniforme, podendose verificar hipermetabolismo, normometabolismo, ou hipometabolismo, a depender do tipo e estádio
do tumor e do tratamento empregado. Estudos por calorimetria indireta encontraram em pacientes com câncer taxa
metabólica basal variando de 60% a mais de 150% do valor normal.
39 A elevação da taxa metabólica basal é, até certo
ponto, compensada pela diminuição do gasto energético muscular voluntário, que representa em indivíduos normais
aproximadamente 25% do gasto energético diário. Essa diminuição se dá por redução na atividade física, apatia, depressão
e fadiga do paciente. Apesar da controvérsia sobre o assunto, acreditase que exista um estado de hipermetabolismo ou
catabolismo persistente nos estádios mais avançados da doença de muitos pacientes. As explicações para esse quadro estão
relacionadas à soma de vários processos em curso, como a avidez das células neoplásicas malignas em captar glicose e
aminoácidos e as alterações metabólicas e hormonais consequentes aos fatores produzidos pelo tumor e resposta orgânica
do paciente, anteriormente descritos. Com isso, estabelecese persistente desequilíbrio entre a ingestão de alimentos e o
gasto energético, um processo significativo que pode contribuir para a perda de peso dos animais.
Estudos demonstraram que as proteínas mitocondriais denominadas desacopladoras (uncoupling proteins – UCP) estão
envolvidas no controle do metabolismo energético e no desenvolvimento de caquexia no câncer. A UCP1 é expressa no
tecido adiposo marrom, que tem como função oxidar o excesso de gordura e gerar calor, a UCP2 é distribuída e expressa
na maioria dos tecidos corpóreos e a UCP3 é expressa no tecido adiposo marrom e na musculatura esquelética. A síntese
das UCP é mediada por sinais orexigênicos e anorexigênicos. Os sinais orexigênicos diminuem e os anorexigênicos
aumentam a atividade do sistema nervoso simpático, responsável por regular o gasto energético, interferindo na regulação
térmica promovida pelas UCP. A ativação das UCP no músculo e tecido adiposo branco pelas citocinas parece ser
importante mecanismo molecular responsável pelo aumento da produção de calor nos animais com neoplasia.
Recomendações e suporte nutricional
A terapia nutricional é componente importante no tratamento de todo paciente com neoplasia, em especial no portador de
caquexia neoplásica. Nutrientes específicos podem reduzir a toxicidade associada ao uso de quimioterápicos ou
radioterapia, melhorar a resposta imunológica e fornecer substrato proteicoenergético adequado para os pacientes. Os
objetivos do suporte nutricional são prevenir ou corrigir deficiências nutricionais, minimizar os efeitos secundários do
tratamento antineoplásico, melhorar a qualidade de vida e auxiliar na recuperação da condição corpórea do paciente. Outro
aspecto importante no processo alimentar é educar e orientar os proprietários sobre as alterações no metabolismo e as
necessidades nutricionais especiais desses pacientes.
O estabelecimento do suporte nutricional de cães e gatos com câncer iniciase com a estimativa de suas necessidades
proteicoenergéticas, calculadas a partir de seu peso e condição corporal. Essa estimativa deve considerar também os
resultados dos exames laboratoriais e as informações colhidas no inquérito alimentar, incluindo qualidade e composição
nutricional do alimento, quantidade fornecida e efetivamente consumida, hábitos alimentares do paciente e outras
informações. Esse conjunto de observações deve, então, ser integrado aos conhecimentos disponíveis sobre a neoplasia
específica que o paciente apresenta e os protocolos quimioterápicos ou cirúrgicos que foram ou serão implementados.
Uma vez estabelecido o alimento apropriado, o médicoveterinário deve definir sua quantidade e forma de administração.
Pacientes com consumo voluntário de alimentos têm manejo alimentar simples. No entanto, aqueles com hiporexia ou
anorexia devem receber alimentação intensiva, por via enteral ou parenteral. Para isso, o profissional deve estar habilitado a
reconhecer a importância desses procedimentos e a executálos de modo adequado.
O perfil nutricional adequado de alimento destinado a cães e gatos portadores de neoplasia é, na realidade, algo subjetivo
à prática clíniconutricional de alguns profissionais que estudam o tema, com poucos estudos científicos publicados sobre o
assunto. Os teores de proteína, energia, gordura e outros nutrientes são, na realidade, variáveis e, na prática, um intervalo
de fornecimento pode ser considerado adequado. O que é satisfatório para um paciente pode não ser para outro,
principalmente quando se somam doenças, como neoplasia acompanhada de cardiopatia ou nefropatia, alterando, assim, o
perfil nutricional necessário ao animal. Ogilvie e Marks e Roudebush et al. propuseram algumas recomendações
nutricionais, apresentadas na Tabela 56.1.
41,59 Além dessas, são apresentados os teores nutricionais médios de alimentos
comerciais de alta energia, que talvez possam ser empregados satisfatoriamente em muitas situações.
Proteína
■
*
■
■
A elevação do teor proteico do alimento tem por base aumentar o fornecimento de aminoácidos para o paciente, na tentativa
de compensar a maior demanda desses compostos. O objetivo é permitir que o animal consiga atender ao acelerado
catabolismo proteico e, de alguma forma, manter ou até mesmo aumentar sua massa muscular, em situações de magreza ou
caquexia. Essa elevada demanda é consequente à gliconeogênese hepática, captação e uso de aminoácidos pelo tumor,
síntese de proteinas de fase aguda, síntese de compostos imunes, como células e anticorpos e reparação tecidual, entre
outros. Existe correlação importante entre a massa magra de pacientes hospitalizados e sua aptidão imune e sobrevida.
Pacientes em escore de condição corporal baixo, com perda das reservas nutricionais orgânicas, demonstraram maior
mortalidade do que aqueles em boa condição nutricional ou mesmo com sobrepeso.
61
Carboidratos
Intolerância aos carboidratos, que se reflete em hiperglicemia e hiperinsulinemia, pode estar presente nos pacientes. Isso
sugere que o amido passe a ser fonte menos interessante de energia. Amido tem para cães e gatos função energética na
dieta, mas, como carnívoros, não têm necessidade metabólica desse composto. Toda a glicose sanguínea de cães e gatos
pode ser sintetizada a partir de aminoácidos e glicerol. O consumo de glicose pelo tumor pode refletirse, também, em
gasto energético pelo hospedeiro e hiperlactacidemia, como abordado no item Metabolismo dos carboidratos, neste
capítulo. Em razão dessas alterações metabólicas, tornase prudente reduzir o fornecimento de carboidratos para animais
com neoplasia.
Tabela 56.1 Recomendações nutricionais sugeridas para cães e gatos com câncer e teores nutricionais de dietas
comerciais com elevada energia*.
Recomendações Proteína bruta (%) Carboidratos
(%)
Gordura
(%)
Ácidos
graxos
omêga3***(%)
Arginina
(%)
Fibra bruta
(%)
Cães com câncer 30-45 < 25 25-40 > 5 > 2,5 > 2,5
Gatos com câncer 40-50 < 25 25-40 > 5 > 2,5 > 2,5
Produtos(%)
Dietas comerciaisdealtaenergiaparacães
(seca)**
30-36 20-33 18-22 - - 2,5-3,5
Dietas comerciaisdealtaenergiaparagatos
(seca)**
34-42 20-30 18-22 - - 2,5-3,5
Valoresexpressosem porcentagem de matériaseca.**Valores médiosdealgunsprodutos comerciaisdisponíveis,podendoserversões superpremiodealimentospara
⸲㐠lhotes.***A relaçãoômega-6:ômega-3deveestarentre1:1e0,5:1. Osácidosgraxoseicosapentaenoicoedocosaexaenoicosão maisefetivosqueoácidoalfalinolênicoesãoencontradosapenasem óleosdepeixeealgumasalgas. Adaptadade Olgiviee Marks,2000,e Roudebush etal.,2004.
49,51
Gordura
A gordura é o composto com maior digestibilidade, teor energético e que mais confere palatabilidade à dieta. Assim, quanto
mais gordura, maior a densidade energética e possivelmente maior a palatabilidade do alimento. Isso é importante em
pacientes hiporéticos ou com aumento da taxa metabólica, situações frequentes nos animais com câncer. O fornecimento de
alimentos com elevada energia faz com que mais facilmente os animais consigam ingerir calorias suficientes a fim de
manterem o equilíbrio energético, necessitando para isso consumir menor volume de alimento. Além disso, a gordura
parece ser utilizada com menor eficiência pelas células neoplásicas, de modo que existiria menor competição entre o
hospedeiro e o tumor no uso desse nutriente.
Fibra
Um bom funcionamento intestinal depende de quantidade adequada de fibra. No entanto, a partir de certo ponto, a fibra
passa a prejudicar o aproveitamento da dieta, por diminuir a digestibilidade dos nutrientes e diluir a energia do alimento, o
que não é recomendável em determinados pacientes com neoplasia. Outro aspecto importante em relação à fibra, que leva
■
às recomendações da Tabela 56.1, é que sua fermentação intestinal gera a produção de ácidos graxos de cadeia curta, em
especial o ácido butírico, o que é importante para a saúde intestinal e o controle de algumas neoplasias, como será visto
adiante.
As recomendações de arginina, glutamina e ácidos graxos ômega3 devemse a seu papel metabólico e modulador na
inflamação, ações que também serão discutidas mais adiante.
Dieta caseira para animais portadores de neoplasia
Por vezes, por questões de custo, disponibilidade ou recusa por parte do animal, o fornecimento de alimentos
industrializados se torna difícil. Em relação à palatabilidade, alguns cães estão acostumados à dieta caseira ou as alterações
da neoplasia ou quimioterapia tornam seu apetite bastante seletivo, sendo mais fácil lhes fornecer esse tipo de alimento.
Nessas situações, o médicoveterinário pode lançar mão de uma formulação caseira. O estabelecimento de dieta caseira, no
entanto, é mais complexo do que o uso de alimento industrializado. O proprietário deve estar disposto a cozinhar para seu
animal, o que toma tempo e nem sempre é fácil. O custo do alimento, também, pode ser caro, em razão da necessidade de
se empregar considerável proporção de carnes.
Devese sempre conversar e instruir de modo adequado o proprietário para que este esteja consciente da necessidade de
manter o mais próximo possível a receita original prescrita para o animal. Modificações, às vezes consideradas pequenas e
sem importância pelo proprietário, podem alterar de maneira significativa a composição nutricional do alimento. Na Tabela
56.2, são apresentadas duas receitas caseiras para cães e gatos com neoplasia. As duas fórmulas servem tanto para cães
como para gatos. A primeira dieta apresenta como fonte proteica músculo bovino e a segunda, carne de frango.
Tabela 56.2 Receitas de alimento caseiro para cães e gatos com neoplasia.
Composição (%damatéria seca) Fórmula (%damatéria original)
Proteínabruta 41,7 Arroz cozido 30
Carboidrato 27,8 Músculogordo 42
Extratoetéreo 24,4 Fígado 8
Fibrabruta 1,4 Cenoura 15
Matéria mineral 4,7 Carbonatodecálcio 0,6
Umidade 53 Leveduradecerveja 0,8
Cálcio 0,8 Suplemento mineralevitamínico* 0,6
Fósforo 0,5 Sal 0,1
Potássio 0,6 Óleodesoja 3
Sódio 0,24 Energia metabolizável 2,33kcal/g
Magnésio 0,05 – –
Composição (%damatéria seca) Fórmula (%damatéria original)
Proteínabruta 45 Arroz cozido 32
Carboidrato 27,8 Músculogordo 36
Extratoetéreo 23,1 Fígado 8
Fibrabruta 1,5 Cenoura 15
Matéria mineral 3,7 Carbonatodecálcio 0,6
*
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