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11/23/25

 


É importante registrar os tipos de movimento que foram

analisados e serviram de base para os primeiros estudos da

MR. McCarthy e Zald, por exemplo, pesquisaram movimentos

de direitos civis (a NAACP -Associa<;ao Nacional para o Desenvolvimento de Pessoas Negras -, a Uniao Americana de Liberdades Civis etc.); movimentos de mulheres (NOW - Organiza<;ao

Nacional de Mulheres, e outros). Eram todos movimentos liderados pelas camadas médias da popula<;ao,. em que se destaca-

54 O paradigma norte-americano

vam, por um lado, a diversidade de temas e problemáticas ( ' 11

tratamento de algumas organiza1:;6es como movimentos sociu i

Por outro lado, aqueles movimentos de fato promoveram cam

panhas nacionais e utilizaram as técnicas mais avan1:;adas d iH

poníveis - em termos de equipamentos tecnológicos, contato

com a mídia e com a própria popula1:;ao, obten1:;ao de recurso11

financeiros. Estratégias isoladas de mobiliza1:;ao de recursos fo

ram profissionalizadas. Estes elementos nao serao encontrado

nos movimentos sociais populares latino-americanos dos ano

70 e 80, mas irao aparecer nos anos 90 em movimentos intt•r

nacionais, com demandas globalizadas, conforme discussao

ser apresentada na terceira parte deste livro.

Observa-se também que os primeiros estudos da RM, po

exemplo na análise do movimento pelos direitos civis nos Estado

Unidos, enfatizaram a rede endógena e os recursos internos versw1

o papel dos recursos externos. Foram feitos recortes e selecionu

dos dados que favoreceram a confirma1:;ao de suas hipóteses

pressupostos. Na MR as ideologias foram desprezadas, pois argu

mentava-se que as mobiliza1:;6es por descontentamento era m

constantes e nao específicas de certos períodos ou condi<;oes estru

turais. Segundo Mayer ( 1992), as ideologías e motiva<;oes ideo] 1

gicas nao teriam desempenhado papel importante nas mobiliz11

1:;6es dos anos 60, já que a maioria das a1:;oes tinha um discun111

que nada mais fazia do que reivindicar a extensao dos valor<•

liberais básicos que dominavam o discurso público america no

há mais de um século. Ou seja, nao teriam sido as ideologias dt•

origem alienígena que alimentaram ou fomentaram as mobi li

za1:;6es. Concordamos com as observa1:;6es de Mayer e achamoH

que a falta de enfase nas ideologias se deu pelo fato de nao ter hu

vido grandes conjuntos de novas cren1:;as ou valores a dar form11

a um novo corpo ideológico - corpo este desenvolvido pelas camadas médias da popula1:;ao norte-americana, ávidas por se int<•­

grar a sociedade de consumo existente; mas a falta de enfase

também parte do próprio referencial teórico da RM, que excluíu

as ideologías como fator explicativo importante por e nao considerava a dimensao de luta social dos movimentos Tilly ( 197 )

e McAdam ( 1982) contribuirao para a incorpora1:;ao das ideologias como elemento importante dos movimentos no paradigma

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lf•orias contemporáneas norte-americanas da a{:ÜO coletiva e dos MS 55

11orte-americano,'° exemplo do estudo de McAdam sobre o mov1 mento dos dir os civis e o papel da Igreja Batista nele.

Apesar de a MR priorizar a análise económica em seus pri111 •iros estudos, observa-se que a análise política está presente

1 1 1 1s entrelinhas. lsto porque o campo de surgimento dos novos

111ovimentos sociais, a sociedade civil com suas associac;oes

1111L6nomas, passou a ser valorizado por se tratar de um espac;o

pl uralista, um canal de expressao. Deixou-se de ter a visa.o da

ociedade civil como um pesadelo, o espac;o da sociedade das

1 1 1assas irracionais que a abordagem tradicional descrevia. Os

1 1ovos grupos e movimentos, por serem dotados de racionalidade

n trumental, eram compatíveis com o jogo democrático e o refor1;11vam. Nao representariam um perigo para a democracia, ao

1·ontrário, eram um sinal de sua vitalidade. Mas a MR nao usa

11 categoría "sociedade civil". Ela atém-se ao campo das catego1·ias funcionalistas: organizac;oes, estruturas, instituic;oes etc.,

nao se libertando do funcionalismo que a princípio negara.

2 - Principais críticas a teoria da

Mobiliza�ao de Recursos

Provavelmente a principal crítica a MR nao foi formulada

11 ela em si, mas a teoría que lhe deu origem e sustentac;ao: a

da escolhas racionais. lsto porque esta última baseia-se no modelo das ciencias naturais, tratando os indivíduos como seres

1 1bstratos, universalizando a experiencia de um tipo particular

d ser humano: a rac;a branca, as camadas médias da populat;ao, em países do capitalismo desenvolvido do Ocidente. Com

isto introduziu o que se convencionou chamar de um bias político, um viés. Os grupos sociais subordinados, suas lutas, seus

princípios, cultura, valores, normas, objetivos, projetos etc. sao

Himplesmente ignorados, como se nao existissem.

Myra Marx Ferree ( 1985, 1992) é urna das :autoras que faz

ríticas contundentes a MR, sustentando que sua visa.o dos

movimentos sociais é burocrática.

Entretanto foi Jean Cohen ( 1985) que elaborou a crítica mais

completa e mais citada pelos próprios teóricos da MR, quando

56 O paradigma norte-americano

lhe fizeram alterac;oes ao final dos anos 80 e nos anos 90. Ela

destacou que a MR excluía valores, normas, ideologías, projetos, cultura e identidade dos grupos sociais estudados. A despeito das diferenc;as entre as várias versoes da teoría, ela analisou

as ac;oes coletivas segundo urna lógica de interac;ao custo-benefício, insistindo sobre a racionalidade instrumental e estratégica da ac;ao coletiva. Cohen argüiu ainda que Olson errou em

caracterizar aqueles que se mobilizam nas ac;oes coletivas como

indivíduos desorganizados, porque eles se organizam em grupos

de solidariedade.

Segundo Cohen e Arato ( 1992), os teóricos da MR compartilham os seguintes pressupostos: os movimentos sociais devem

ser entendidos em termos de urna teoría de conflito da ac;ao

coletiva; nao há nenhuma diferenc;a fundamental entre ac;ao coletiva institucional e nao-institucional; ambas as ac;oes (institucionalizadas e nao-institucionalizadas) envolvem conflitos de interesses construídos dentro de relac;oes de poder institucionalizadas; as ac;oes coletivas envolvem a busca racional de interesses pelos grupos; demandas e reivindicac;oes sao produtos permanentes de relac;oes de poder e nao podem explicar a formac;ao

dos movimentos; movimentos formam-se devido a mudanc;as nos

recursos, na organizac;ao e nas oportunidades para a ac;ao coletiva; o sucesso de um movimento envolve o reconhecimento do

grupo como ator político ou o aumento de beneficios materiais;

e, finalmente, a mobilizac;ao envolve organizac;oes formais em

ampla escala, burocráticas e com propósitos especiais. Concluem

os autores que organizac;ao e racionalidade sao palavras-chave

nesta abordagem (Cohen/Arato, 1992: 498).

Piven e Cloward ( 1992) argumentaram que a MR comete

um erro ao apontar similaridades entre o comportamento convencional e o de protesto, sem compreender suas diferenc;as. A

MR tendeu a normatizar o protesto coletivo, esquecendo-se das

diferenc;as entre os modos de ac;ao legais - permitidos - e os

proibidos pela ordem estabelecida, isto é, pela lei. Como resultado,

o impacto das ac;oes coletivas também é normatizado pela MR,

assim como outras formas convencionais de organizac;ao, reduzindo os protestos políticos das camadas populares a irrupc;oes irracionais e apolíticas. Tilly é um dos alvos das críticas de Piven e

Teorías contemporáneas norte-americanas da a�ao coletiva e dos MS 57

Cloward. Eles afirmam que Tilly confunde o nao-normativo com o

normativo, ignorando o poderoso papel das normas de regulamentac;ao na vida social, {Principalmente na esfera da dominac;ao e da

subordinac;ao Os autores destacam que os protestos sao contra a

política formaÍ; as pessoas buscam quebrar as regras definidas, os

modos permitidos da ac;ao política.

Piven e Cloward criticam também Zald, McCarthy e Gamson

por incluírem como movimentos sociais diferentes _formas de

a�let1va. le-s--tentam am a emonstrar que a refutac;ao as

abordagens clássicas americanas, premissa básica na primeira

fase da MR, também estava errada. Ou seja, as teorias sobre os

descontentamentos e privac;oes teriam muitos elementos para

explicar lacunas na MR, tais como o porque das alterac;oes no

comportamento das pessoas ao se juntarem as ac;oes coletivas e

adotarem posturas nao-normativas, caracterizadas como desordem ou rebeliao pela abordagem tradicional. Além disso, apontaram os equívocos da teoria do ponto de vista político: o de considerar os movimentos dos subordinados em geral como apolíticos

e irracionais.

Mas a crítica metodológica mais contundente a MR foi

realizada por Margit Mayer ( 1992). Ela refere-se ao individualismo metodológico implícito no approach. A sociedade é vista

nao como urna organizac;ao composta por classes sociais e suas

relac;oes, mas como um arranjo estático das elites e nao-elites,

relativamente homogeneo, em que há grupos incluídos e excluídos. O objetivo dos excluídos seria lutar para ser incluídos.

Pressup6e-se urna sociedade aberta, em que os diferentes grupos

terao sucesso conforme o grau de sua organizac;ao. Gamson ( 1975)

e Jenkins ( 1985) aventaram reformas sociais sui generis, em

que o Estado seria o agente da institucionalizac;ao dos movimentos sociais ao reconhecer sua legitimidade.

Mayer destaca que a MR silencia em relac;ao ao papel das

normas, crenc;as e emoc;oes nos comportamentos coletivos ou na

sociedade de massa, conforme a tradic;ao anterior. O approach

criado por ela foi "adequado" nos anos 60 e 70, na sociedade norte­

-americana, porque o sistema de crenc;as dos movimentos estudados era extensao de conceitos básicos do liberalismo, na filosofia

americana. Aquele approach tinha forc;a motivacional e ideológica

58 O paradigma norte-americano

coincidente com valores já consagrados na sociedade local, e nao

precisava ser explicado. As categorias desenvolvidas pela MR para

a interpreta<_;ao dos métodos de organiza<_;ao e mobiliza<_;ao dos

movimentos, se aplicadas a outros períodos históricos, mostram-se

inadequadas, segundo Mayer, porque os movimentos nao exibem

mais aquelas características dos anos 60 e 70 e nao aparentam ser

dirigidos por racionalidades estratégicas. Assim, vários movimentos atuais da sociedade norte-americana, e de outras partes do

mundo, nao encontram lugar no esquema interpretativo da MR,

dentre eles o movimento pela paz, os ecológicos, os das mulheres,

os de grupos locais que defendem interesses de minorias étnicas

etc. Todos eles sao descentralizados, formados por grupos de afinidades, e ocupam lugares que eles mesmos constroem. Seus participantes estao constantemente correndo riscos (de ser presos, espancados, deportados, processados etc.). Possuem um sistema de cren­

<;as e ideologias que desempenham importante papel no processo

de mobiliza<_;ao. Nenhuma destas características encaixa-se na imagem construída e projetada pela MR. Ao contrário, os movimentos

deveriam demonstrar e provar, segundo Gamson por exemplo, urna

clara divisao interna de trabalho, líderes que seriam planejadores

de decisoes inteligentes, administrando os recursos centralizadamente. As atividades de baixo risco seriam um dos indicadores de

seus sucessos (Mayer, 1992: 179).

Mayer ve ainda duas grandes lacunas na MR: a negligencia no processo de interpreta<;ao das carencias e descontentamentos, em que a enfase numa racionalidade instrumental-propositiva nao deixa espa<;o para tratar daquele processo; e urna

lacuna em rela<;ao ao sistema político. Ela conclui que a teoria

da Mobiliza<_;ao de Recursos exclui as novidades, e foram justamente estas novidades - nos movimentos ecológicos, pela paz,

das mulheres etc. - que criaram urna nova agenda e um novo

paradigma na Europa, expresso na teoria dos Novos Movimentos Sociais (NMS), que criaram ainda urna nova arena de rela­

<;6es entre o Estado e a sociedade civil. A MR trata superficialmente esta última questao, e de forma enviesada, como resposta

das elites, como por exemplo em Tarrow. Poucos estudos atentaram para a institucionaliza<_;ao das demandas dos movimentos e para os efeitos deste processo sobre eles próprios e sobre

o sistema político como um todo.

Teorias contemporiineas norte-americanas da a<;iio coletiva e dos MS 59

Finalmente, Mayer destaca ainda que a constru<;ao de novos

canais e novas arenas do sistema político vigente, para estabilizar, como conquista, ou desestabilizar, como política de desestrutura<;ao, também nao é considerado na MR, assim como nao

se analisa o papel dos partidos e os conflitos ideológicos. Cumpre

registrar que estamos de acordo com a análisie de Mayer e acrescentamos: a MR possui todas as !acunas assinaladas e nao aborda,

ou o faz de forma equivocada, inúmeras questoes porque excluí da

análise política a problemática das rela<;6es entre as classes sociais,

o sistema de domina<;ao e as formas de reprodu<;ao do capital e da

for<;a de trabalho. Com isso a análise das relac;oes sociais torna-se

parcial e superficial. A MR nao se propoe a fazer este tipo de

abordagem nem tem instrumentos conceituais ou metodológicos

para tanto.

Zald e McCarthy também reformularam suas concep<;6es iniciais e continuaram produzindo estudos sobre os movimentos sociais

ao longo dos anos 80 e 90. Em 1988 criaram o conceito de micromobiliza<;ao, numa tentativa de inserir o nível micro em suas análises

macroestruturais. Esta categoria é retomada por K.landermans quando procura descrever a rede de grupos e associa<;6es informais que

sustentam um movimento. McCarthy, em conjunto com Woolfson

( 1992), destacou a importancia da rede de rela<;6es já existentes

em termos de suportes materiais, tais como telefone, fax, microcomputadores etc. , como potencializadores das a<;6es de um grupo. É

interessante que questoes importantes como esta, a da rede de rela<;6es anteriores, sejam apenas tangenciadas. Um mundo de problemas decorrentes do universo de rela<;6es sociopolíticas e culturais dos atores, amalgamados por urna dada cultura política, é

absolutamente ignorado. Primeiro porque o referencial teórico utilizado nao possibilita a visao daqueles fenómenos. Segundo porque,

deliberadamente, existe a recusa a urna análise do processo político mais geral. A teoria limita-se as constata<;6es empíricas: os

recursos materiais!

Clarence Y. H. Lo ( 1992), adepta da MR, procurou aperfei­

<;oar a teoría a partir do conhecido conceito de comunidade. Lo

retomou os estudos de Janowitz ( 1951) para explicar que por

meio desse conceito é possível entender a importancia das comunidades étnicas na política local. Ela argumenta que várias

mudan<;as políticas foram obtidas na história patrocinadas por

60 O paradigma norte-americano

grupos com fortes la�os em certas comunidades geográficas. Assim, em alguns movimentos antinucleares da Califórnia, os principais ativistas estavam agrupados na Universidade de Berkeley

e em alguns colleges da regia.o. Organiza�oes e movimentos étnicos e raciais estruturaram-se ao redor de algumas Igrejas. Desse

modo, destaca-se nao apenas a demanda mas as estruturas de

suporte dos movimentos.

Lo argumentou também que, em vez de analisar os movimentos sociais apenas com categorías do capitalismo avan�ado,

deveriam ser utilizados conceitos derivados de épocas passadas,

similares aos da fase da manufatura artesanal, ou seja, categorías do pré-capitalismo. Isto porque considera que o esquema

de Zald e McCarthy nao abrange os movimentos oriundos dos

excluídos da política, aqueles que nao obtem recursos nas transa�6es de mercado, mas tem suas a�6es embutidas nas rela�6es

sociais da comunidade. Observa-se que o autor, ao categorizar

os movimentos em capitalistas e pré-capitalistas, comete vários

equívocos, já bastante criticados nas velhas teorías funcionalistas

da moderniza�ao e outras. A bipolaridade comunidade versus

sociedade é retomada. Disto resultou urna tipología para os

movimentos sociais que gira em torno da mobiliza�ao de recursos

para o mercado empresarial ou para o mercado comunal. Os

movimentos que atuam segundo lobbies seriam do primeiro grupo - incluindo-se os ambientalistas. Na segunda categoría teríamos os comunitários, como os movimentos reivindicatórios urbanos, de moradores, tanto de protesto como aqueles pela aquisi�ao de melhorias. A exclusa.o social - fenómeno típicamente

capitalista marca da era da globaliza�ao - nao é tratada como

fator gerador do movimento dos "excluídos da política", isto porque suas a�oes seriam vistas como pré-capitalistas.

A nosso ver, as lacunas principais da MR esta.o na ausencia

de urna análise do contexto social e político; no desconhecimento

das políticas públicas e do papel do Estado na sociedade em geral,

e junto aos movimentos sociais em particular; no fato de se ignorar o caráter das lutas dos atores, assim como as experiencias de

lutas sociais anteriores vivenciadas por eles; e na omissao do papel

da cultura nas a�6es coletivas em geral, e nos movimentos em

particular. Esta última lacuna foi o ponto principal dos críticos e

revisores da MR, baseados principalmente no papel que a MR tem

Teorias contemporaneas norte-americanas da a�ao coletiva e dos MS 61

no paradigma europeu dos Novos Movimentos Sociais e na abordagem clássica americana. As demais lacunas também iremos encontrar no paradigma dos N ovos Movimentos Sociais, parcialmente

superadas, depois do advento da MR, por Tarrow - quando resgata o processo político em sua análise -· e por Tilly - quando

traz de volta a agao do Estado junto as lutas sociais.

A seguir apresentaremos o trabalho de dois pesquisadores

norte-americanos que se destacaram no período da primeira

fase da MR e que tiveram contribuigao significativa para a fase

seguinte, ao final dos anos 80. Embora nao tenham se atido

exclusivamente as premissas da MR, eles representam um tipo

de transigao entre essa teoria e a da Mobilizagao Política (MP),

a ser tratada no próximo capítulo.

3 - A preocupa�ao com as causas: das mobiliza�oes:

Anthony Oberschall

Oberschall participa do debate e da produgao sobre a MR

desde os anos 70. Em 1973 ele publicou Social Confiict and

Social Movement. Em 1993, portanto vinte anos depois, publicaría Social Movements: Ideologies, Interests and Identities, em

que faz urna reflexao sobre as mudangas operadas na teoria e na

prática dos movimentos sociais. Ele afirma que este campo de

estudos cresceu aos trancos e barrancos, enriquecido por pesquisas empíricas e utilizando-se de urna grande variedade de métodos de investigagao. Admitindo mudangas na área que ajudou

a construir - a teoria da MR -, faz em 93 urna revisao de sua

produgao. A partir de urna abordagem eminentemente sociológica, analisa a organizagao social da socieclade como resultado de

adaptag6es as inovag6es tecnológicas, forgas económicas e mudangas populacionais; estuda ainda os esforgos coletivos propositivos para formar ou alterar as instituigoes existentes em fungao

das necessidades e aspirag6es humanas, concluindo que as reformas sao realizadas devido as pressoes dos rnovimentos sociais.

Mesmo quando um movimento social nao obtém sucesso imediato, seus ideais e metas sao adotados mais tarde. Ele afirma que

"o comportamento coletivo e os movimentos sociais tem moldado

as instituigoes contemporaneas e provavelmente continuarao a

62 O paradigma norte-americano

fazer isto no tempo futuro" (Oberschall, 1993: 2). Eles devem 11

estudados juntos e sao formas de ac;oes coletivas que derivam el

assuntos públicos que necessitam de ac;oes conjuntas.

O comportamento coletivo refere-se ao expectro do comport 11

mento da multidao desde grevistas em piquetes, manifestac;fü1H

concentrac;oes públicas, manifestac;oes coletivas de cidadaos x1•1

cendo pacíficamente seus direitos ·constitucionais de reuniao, ¡wt 1

c;oes ao governo, até ac;oes potencialmente destrutivas, de revolt 11

populares. O autor afirma que os comportamentos coletivos sao l•pl

sódicos, nao ocorrem com freqüencia e sao incomuns. Atraem a l'll

riosidade, provocam comentários, condenac;ao, apoio etc. Já os movl

mentos sociais sao, em larga escala, esforc;os coletivos em busca el

mudanc;as ou para resistir a elas. Eles alteram a vida das pessou

Oberschall retoma os estudos de Le Bon, teórico francés q11

produziu no final do século passado teorias bastante conservado

ras a respeito do comportamento das massas. Apesar de concor·

dar com as críticas dirigidas aquele autor, Oberschall diz que

alguns argumentos de Le Bon sao úteis para explicar, por ex m

plo, o comportamento de seguidores fanáticos de movimento

religiosos, como os da seita People's Temple do reverendo Jorn• ,

na Califórnia. Ele também utiliza-se de argumentos de Georg

Rudé, um marxista.

As variáveis básicas de Oberschall sao as mesmas utiliz11

das pela MR, tanto para entender os comportamentos coletivo

como os movimentos sociais: a escolha racional dos indivíduo

baseada na lógica custo/benefício. Os comportamentos coletivoH

seriam adaptativos e normativos. As escolhas ocorrem nao apl'

nas em func;ao de critérios individuais, elas sao influenciada

pelas decisoes dos outros e disto resulta o caráter coletivo da ac;ao.

Isto significa que os custos e beneficios que outros esta.o avaliando

influenciam a minha decisao.

Para Oberschall, devido ao caráter adaptativo e normativo doH

comportamentos coletivos, um encontro, urna manifestac;ao política,

urna celebrac;ao coletiva, mesmo um motim destrutivo, podem st•r

entendidos com conceitos usuais e hipóteses das ciencias sociais. A

diferenc;a é que nurn motim a escolha dos custos e beneficios t•

diferente daquela feíta em outras situac;oes. Após longa análise sobn •

1 111 1w1temporaneas norte-americanas da ai;ao coletiva e dos MS 63

1 1111poriamentos coletivos, Oberschall pergunta: o que ocasiona

1111 1vl11H 1ntos sociais? Como alguns de seus assuntos se tornam

1 l lt 1 11 t 1 outros ignorados? Ele afinna que muitos movimentos

1111 . 1 1 1 1 ·orno urna reac;ao as mudanc;as ou as novas políticas que

1 1 11111 rwg-ativamente os interesses ou o modo de vida de muitas

1 11 11 . 1 1orque as autoridades sao, direta ou indiretamente, respon1 p1 •lns mudanc;as, os ativistas organizam a oposic;ao, atraem

¡ 11 1 11 1 buscam ades6es públicas para suas metas e objetivos. O

11 1111111 11,el antimilitarista nos Estados Unidos nos anos 60 é citado

1 111 1 111 1111 reac;ao a intervenc;ao militar daquele país na Indochina.

11 1 111110, os movimentos nao surgem como resultado de aconteci1 1 1 1 11 1 1bruptos ou dramáticos, mas devido ao aumento de experienl li l11H como injustas e desiguais; e podem ser estimulados por

11 1d1 10H que aumentam sua capacidade para agir coletivamente.

1 >hH( rva-se que, para Oberschall, além de entender o com11 l 111111111Lo coletivo precisamos também compreender as teorias

111 111 l11 nc;a social para obter explicac;6es sobre os movimentos

1111 l nsatisfac;ao ou solidariedade sao dois opostos que atuam

11 1 11 1 l 11 t o res primordiais na análise das condic;oes societais que

1 11 11m a erupc;ao dos movimentos sociais.

l 11 1 1•1 1 se ter um movimento social nao bastam urna causa

t 1 1 11 rna mensagem atrativa, diz Oberschall. Ele afirma que

¡ 1 1 1 1 1� o que haja marcos referenciais significativos e atrativos.

1111 · 1 1H1 1gens tem de ser comunicativas, os assuntos de interes­

¡i11li l ico, idéias, símbolos e palavras-chave devem ser criados.

1 1 1 11•1•HHidade de um corpo de ativistas, de fundos suficientes,

1t1 1 11 boletins, listas de nomes e enderec;os de membros e

1i ¡ i l 1 11 potenciais; é preciso preparar quadros, orc;amentos, obter

1l1 1 1 1 1111c,:o s a respeito das políticas e das prioridades públicas

le 11:1 1 1 Hu ma, organizar um movimento dá trabalho, assim como

1 1 1I111ll 1 oso organizar seus encontros, reu.ni6es e administrar

11 11111 ndas. Portanto, para Oberschall, rnovimento social sig1 1 1 11, prioritariamente, organizac;ao.

1 >l11 1t"l:lchall segue Gamson e outros ao tratar os movimentos

1111 11 1 11 Lenninologia Organizac;ao de Movimentos Sociais - OMS.

lt 1 1 11 wl ui que certo grau de estrutura formal está associado ao

11 1 11 P que há nela urna hierarquia interna com diferentes

1 '" 1• f"unc;6es. Há nonnatizac;6es internas em tennos de regu-

64 O paradigma norte-americano

lamentos e urna centraliza�ao do poder ao longo de urna linha de

autoridade. Mas estes requisitos sao construídos ao longo do tempo. No início as rela�6es sao predominantemente face a face.

As bases teóricas do pensamento de Oberschall, quanto a

tendencia a institucionaliza�ao das organiza�6es e movimentos,

estao em Weber - em seus estudos sobre os movimentos religiosos - e em Michels - nas já citadas leis de ferro das oligarquias. Embora discordando em parte, Oberschall utiliza-se da

abordagem do individualismo metodológico para analisar as

a�6es dos movimentos sociais, localizadas, no que se refere a

seu comportamento adaptativo e normativo. Identidade, coesao,

redes de trabalho, estrutura organizacional sao analisados como

fatores micro em rela�ao aqueles considerados macrossociais:

valores, ideologias, institucionaliza�ao. A transi�ao do micro ao

macrossocial esbo�a as teorias do Estado, do conflito, da mudan�a

social e da cultura. Os movimentos sociais sao vistos ao longo

de quatro dimens6es: reivindica�6es de descontentamento; valores e ideologias; capacidade de organiza�ao e mobiliza�ao; oportunidades de sucesso, cada urna delas tendo seu nível de abstra­

�ao e análise.

Como conclusao destacamos que Oberschall é um dos teóricos mais citados e utilizados na produ�ao norte-americana sobre os movimentos sociais nas últimas duas décadas. Sua contribui�ao ao paradigma norte-americano foi fundamental na teoría da MR e em sua reformula�ao nos anos 80 e 90.

4 - A abordagem histórica no paradigma

norte-americano: Charles Tilly -

as seqüencias históricas e a

análise dos recursos comunais

Embora muitos autores incluam o trabalho de Charles Tilly

na teoría da Mobiliza�ao de Recursos (e eles tem suas raz6es

para tal), achamos que <leve haver urna diferencia�ao, já que

ele possui características próprias, um estilo de abordagem que

fez escola e urna abordagem essencialmente histórica. Outros

autores relacionam o trabalho de Tilly ao paradigma dos Novos

ll•orias contemporaneas norte-americanas da a{:ao coletiva e dos MS 65

M nvimentos Sociais, como Foweraker ( 1995). D iscordamos des1 1 posic;:ao porque o próprio Tilly destaca o caráter estrutural de

1111H análises e tece críticas a abordagem centrada apenas nas

1

1

1 111¡.¡LQes da identidade e na perspectiva microssocial. O que ele

p1 1 1'!,i lha com o paradigma dos NMS é a questüo da solidariedad11, particularmente a solidariedade comunal.

Em 1978, Tilly publicava o seu From Mobilization to Revol 11l1on, estudo que se tornou um clássico contemporaneo pelas

l 111 1vac;:6es introduzidas na abordagem do comportamento coletivo.

11: 11• comec;:a por urna retrospectiva das teorias sobre a ac;:ao cole1 1v11 segundo a divisao das ciencias sociais, em tres grandes

1 111 t' •ntes, que imperou nas academias de várias partes do mundo

11111-1 anos 70: Durkheim, Weber e Marx. Mas ele nao ficou apenas

1111H Lres clássicos, resgatando os autores contemporaneos que esl 1 1daram movimentos, revoluc;:oes e ac;:oes coletivas em geral se­

¡i1111do aquelas abordagens. Após este trabalho, de caráter pio111• i ro, ele situa e inicia sua própria abordagem. Partindo de um

pro blema apontado por Marx, que considerou nao resolvido, sobre

1 1 1 i no as grandes mudanc;:as estruturais afetam os modelos preval 1 •1·ontes de ac;:ao coletiva, ele recorreu também a Weber e aos

l11HLoriadores ingleses marxistas, particulannente Hobsbawm,

.111 caracterizar o papel relevante da ideologia e das crenc;:as na

l11 rrnac;:ao das ac;:oes coletivas. Na Escola dos Annales, foi buscar

.1 rntegoria da longa durac;:ao, utilizada para. demonstrar como

11 Hol idariedade comunal interfere nas associac;:oes voluntárias.

O conceito de oportunidade de interesses - que se tornará

d1 •cisivo ao final dos anos 80 e nos 90, em relac;:ao ao paradigma

1111rLe-americano segundo a abordagem de Tarrow e outros -

l11i aplicado por Tilly para entender tanto as lutas históricas

violentas como os processos de barganha institucionalizados,

1111rna abordagem caracterizada por alguns autores como urna

110 va versao da teoria da modernizac;:ao, porque se reafirma que

11H rnudanc;:as coletivas em larga escala afetam as ac;:oes coletivas.

11: 1 mostra como o repertório das ac;:oes coletivas desenvolvido

poi· atores relaciona-se com suas formas de associac;:ao e com as

novas formas que emergem. Tilly aplica também a MR para

t 1 111-;sificar os tipos de mobilizac;:ao, em defensivas e ofensivas,

11 l1•m de desenvolver bastante a reflexao sobre a relac;:ao com as

66 O paradigma norte-americano

elites dos grupos organizados em ac;oes coletivas e os resultados

deste processo em termos políticos.

Ainda preocupado coro questoes abordadas pelas teorias

norte-americanas da ac;ao social, Tilly publicou em 1981, em conjunto coro Louise Tilly e Robert Tilly, Class Confiict and Collective Action, coletfmea de textos em que é retomado o trabalho

anterior na linha que o consagrará como um dos grandes pesquisadores norte-americanos sobre as ac;oes coletivas: seu estudo histórico nos séculos XVIII e XIX. A partir do impacto das mudanc;as locais nas estruturas de poder nacionais, Tilly chamou

a atenc;ao para os recursos comunitários, nos primeiros estágios

do capitalismo, particularmente os protestos comunais. Ele enfatizará a importancia de tais recursos também para o século XX

em movimentos, nos Estados Unidos, como aqueles pelos direitos civis e os dos estudantes, retomando teses de Gusfield.

A série de artigos publicada em 1981 pelos Tilly procurava

responder a urna questao de Moore ( 1978): quao freqüentemente,

e em que condic;oes, o conflito de classe prove as bases para a

ac;ao popular coletiva, ou seja, indagavam sobre as bases sociais

da revolta e da obediencia. A opc;ao pelo termo ac;ao coletiva, e

nao protesto, rebeliao, desordem ou qualquer outro, deu-se

porque ele entendia que nestes últimos termos já há um préjulgamento, do ponto de vista das autoridades, que prejudica o

entendimento dos fenómenos. Além disso, Tilly argumentou que

ac;ao coletiva é um termo mais amplo, nao se restringe aos protestos e rebelioes, e abrange também as petic;oes, marchas, manifestac;oes coletivas etc., num conjunto de ac;oes que contam

até coro o estímulo e/ou apoio das autoridades. Portanto, ele

C<?nclui, as ac;oes coletivas nao se resumem as manifestac;6es

contra a ordem vigente e podem ser assim definidas: "Toda

ocasiao na qual um conjunto de pessoas confiam e aplicam recursos, incluindo seus próprios esforc;os, para fins comuns". (Tilly,

1981: 17).

O trabalho histórico sobre as ac;oes coletivas consiste em

descobrir quais conjuntos de pessoas, recursos, fins comuns e as

formas de compromisso estao envolvidos em diferentes lugares

e tempos. Tilly procura estabelecer comparac;oes entre diferen-

ll 111 11111 1·ontemporáneas norte-americanas da arao coletiva e dos MS 67

1 11 riodos históricos, destacando o repertório das a�oes cole11 1 A sim, no século XVIII as pessoas aprenderam a fazer

11 v1 H, a invadir os campos e locais de trabalho, a realizar pro­

' ' 1111 por meio de encena�oes teatrais nas ruas, a queimar publi1 1 1 1 11 1 1 1 (, imagens fictícias de seus oponentes etc. Estas a�oes se

1 1 1·1 HHaram nas rebelioes por alimentos, invasoes no campo

1 11111 1·11 os coletores de impostos etc. Menos visíveis foram as de�

111 1 1 1d11s populares nas festas e assembléias de grupos corpo1 11 voH (comunidades, guildas, congrega�oes religiosas etc.), as

1 p 111IH produziram peti�oes, processos jurídicos, condena�oes e

' ' ' 1 111 smo deliberaram sobre atos de rebeliao. Já o século XIX

" I '" H ntou um repertório de a�oes coletivas totalmente diferente

11 1 l•:u ropa. As formas mais visíveis foram as demonstra�oes em

I' 1 1 1 1 1d s eventos de protesto, a greve, a competi�ao eleitoral, em a�oes

111111 urbanas que rurais. Os participantes se articularam em

o1 o ·ia�oes de interesses, dirigiam suas mensagens para públicos

• ¡ 111 • ficos e utilizavam muito a mensagem escrita, via panfletos,

tludxo-assinados, porta-estandartes, emblemas e insígnias. Ou

1 ju, as formas do século XIX eram mais organizadas do que as

1 111 H culo XVIII.

Tilly atribui as mudan�as nos comportamentos ao processo

p1 1IJ Lico, ao Estado, a estrutura de poder e a organiza�ao política.

\ rnncentra�ao do capital e o surgimento do Estado nacional

1 1 1111pletam a análise sobre o porque do declínio do repertório do

1wu lo XVIII e o surgimento de um novo repertório no século

1 . Tilly afirmou que as a�oes estatais, ao atingirem comunid11 l s em nível local, geraram resistencias, legitimando ou desle1 1Limando o repertório das disputas. Nao há portanto nenhuma

1 11 l'nse no processo de aprendizado das massas mobilizadas ou

11111 um acúmulo de suas for�as políticas. O fator gerador básico

d11H mudan�as está no sistema político institucionalizado.

Segundo Cohen e Arato ( 1992), o trabalho de Tilly mostra

q11 a moderna a�ao coletiva pressupoe o desenvolvimento da

,111(,onomia do social e de espa�os políticos dentro da sociedade

Pi vil e política, espa�os estes garantidos por direitos e embasados

por urna cultura política democrática e por institui�oes políticas

l ormais representativas. Mas, ainda segundo Cohen e Arato,

'l'illy nao ve nas a�oes coletivas devido ªº approach adotado, que

68 O paradigma norte-americano

exclui a identidade política dos atores coletivos, a cria9ao de

novos significados, novas organiza96es, novas identidades e novoH

espa9os sociais. Estes aspectos foram enfocados por Cohen já em

1985 quando afirmou: "Ele nao focaliza a rela9ao entre a emergencia de princípios universalísticos nos novos espa9os públicos

e a nova identidade coletiva, baseada em novas formas de vida

associativa, de atores coletivos. Ele olha somente a dimensao

daqueles processos que sao relevantes para a mobiliza9ao de

grupos organizados competindo pelo poder" (Cohen, 1985: 683).

Em 1995 Tilly publicou novo estudo sobre os movimentos

sociais. Em 1996, em conjunto com Tarrow e McAdam, organizou

um amplo programa de pesquisa envolvendo um mapeamento

dos litígios coletivos (contentions politics). Este termo passou a

designar o estudo dos movimentos sociais, os ciclos de protesto,

as revolu96es e as a96es coletivas de forma geral. O mapeamento dos litígios deverá abranger as histórias políticas locais, regionais e nacionais; as mudan9as ocorridas em categorías sociais;

as políticas estatais orientadas aos movimentos sociais, redes

sociais, grupos de interesses, partidos políticos e outras áreas

da vida pública coletiva como cidadania, nacionalismo etc.; e os

conflitos e violencias isolados, como o banditismo, crimes etc.

Voltaremos a este assunto e a obra de Tilly no próximo capítulo,

ao tratarmos da teoría da Mobiliza9ao Política.

_ _.._..

CAPÍTULO 111

RIAS SOBRE MOVIMENTOS

SOCIAIS NA ERA

DA GLOBALIZA�AO:

MOBILIZA�AO POLÍTICA - MP

U ( f'ormula<;ao da teoria da Mobiliza<;ao de

U .t c ursos e a busca de novos caminhos:

1 n fase no processo político, a redescoberta_

cla cultura e da psicologia social

.In nos anos_70, a partir de críticas enderei;adas ao utilita1 1 1 1 1 1 <' ao individualismo metodológico da MR, delineia-se urna

1 1 1 1v11 < 'lapa no paradigma norte-americano em que se destaca a

1 1 11 1·11 d' elementos conceituais que preencham as lacunas exis11 1 ti 1 •H d vi do ao enfoque exclusivamente económico da MR, amp l 111 1 1do assim seu campo explicativo. Disto resultou que, enquanl 11 11 M R destacou os aspectos organizacionais, principalmente

111 1·11 l ados a lógica económica que presidia as a¡;6es dos movi111 1 111 1.ol:l - tratados como urna organiza¡;ao formal -, a segunda

1 l 1 1 p11 destacou o desenvolvimento do processo político, o campo

d11 r1tl Lura foi reativado e a interpreta¡;ao das a¡;6es coletivas foi

1·1 d o<·ada como processo. Passou-se a enfatizar a estrutura das

1 1 1 1111·!,unidades políticas, o grau de organiza¡;ao dos grupos de1111111daLários, e a se aplicar a análise cultural na interpreta¡;ao

rl11H d iscursos dos atores dos movimentos. Ou seja, a linguagem,

69

70 O paradigma norte-americano

as idéias, os símbolos, as ideologias, as práticas de resistencia

cultural, tudo passou a ser visto como componente dos conflitos

expressos nos discursos, numa análise menos preocupada com

a desconstrur;ao de textos e mais interessada nos símbolos e

idéias presentes naqueles discursos, enquanto veículos de significados sociais que configuram as ar;oes coletivas.

Outro aspecto a ser assinalado refere-se aos tipos de movimento analisados na nova fase. Enquanto a MR se deteve a

analisar o movimento dos direitos civis, o das mulheres, aqueles

contra a guerra e as armas etc., agora observa-se que muitos

desses movimentos tiveram releituras, como o dos direitos civis.

As mudanr;as no tratamento metodológico acompanharam as

mudanr;as na vida real, onde passou a imperar a política do "politicamente correto", a exemplo dos conflitos raciais: os negros

deixam de ser chamados blacks e passam a ser denominados

african-american. Outros movimentos surgiram e passaram a

ser estudados: ecológicos, minorías nacionalistas, medicina alternativa, direitos dos animais, Nova Era, novos movimentos

religiosos etc. O movimento ecológico cresceu, se diversificou e

ganhou escopo internacional, na figura de organizar;oes como o

Greenpeace, a Rainforest etc. O movimento de gays e lésbicas

criou instituir;oes baseadas na era do políticamente correto, e o

movimento das mulheres, de forma geral, se alterou substancialmente. Conferencias internacionais, setores do feminismo radical e grupos institucionalizados passaram a compor, entre outros

temas, a nova agenda daquele movimento. O movimento pela

paz deixou de ser mera oposir;ao a guerra ou de se concentrar

em bandeiras do tipo paz e amor; a criar;ao de urna nova ordem

mundial holística passou a ser urna das grandes enfases.

Na nova fase destacam-se os trabalhos teóricos de Klandermas

( 1988, 1990, 1992, 1994, 1995), Friedman ( 1992), Tarrow ( 1988,

1992, 1994, 1996), Johnston ( 1994, 1995, 1996), Fantasía ( 1988,

1995), Taylor e Whittier ( 1995), Muller ( 1992, 1994), Morris

( 1992), Kriesi ( 1988, 1996), Laraña ( 1994), Inglehart ( 1990),

Amenta ( 1995), Meyer ( 1990, 1993 e 1996), Goodwin ( 1996),

Smith ( 1996), Traugott ( 1995), entre outros. (Tarrow, cuja obra

nao se iniciou na América mas na ltália, realiza o trabalho mais

abrangente, construindo urna ponte entre a abordagem ameri-

'ij?orias sobre MS na era da globalizai;iio: a MP 71

cana e a européia. Ele será estudado mais detalhadamente ao

final deste capítulo. Alguns autores que haviam produzido sob

a teoria da Mobilizac;ao de Recursos reformularam ou ampliaram suas abordagens em direc;ao dos aspectos político-culturais,

entre eles: Gamson ( 1988, 1992, 1995), Tilly ( 1994, 1995, 1996),

McAdams ( 1996), Snow e Benford ( 1988 e 199�2), Jenk.ins ( 1985),

Gusfield ( 1996), Oberschall ( 1993), Della Porta ( 1996) e o próprio

McCarthy ( 1996).

As abordagens dos autores nao sao uniforrnes, há enfases que

remetem a criac;ao de novas conceitos. Partindo de urna crítica a

análise inicial de Olson, · Zald e McCarthy, chamou-se atenc;ao,

para os recursos sociais da comunidade, para o contexto político

e para a rede de relac;oes sociais. Demonstrou-se que o movimento

dos direitos civis nos Estados Unidos, por exemplo, nao pode ser

explicado por variáveis só económicas. Com base em pesquisas

empíricas, argumentou-se que outros fatores macroestruturais

facilitaram a gerac;ao de protestos sociais, tais como: o nível de

organizac;ao do grupo em estado de carencia e a realidade política

de confrontac;ao posta pelos líderes desafiadores, num esquema

de rede de relac;oes sociais entre os grupos coletivos.

Em síntese, os protestos, descontentamentos, ressentimentos e outras formas de carencia existentes na comunidade - tao

caras aos teóricos clássicos das teorias da ac;ao social e desdenhadas inicialmente pela MR - foram também reconhecidos

como fontes de recursos. Ou seja: houve urna recuperac;ao dos

clássicos para explicar omissoes que a MR nao tratara. A enfase

na mobilizac;ao de recursos, como grande eixo articulador da

Leoria, continuou, mas a nova etapa nao considera apenas os

recursos económicos, e a lógica instrumental-racionalista deixou

de ser o eixo central condutor das análises. As táticas nao-convencionais - tratadas como atas anómalos pelos clássicos -

passaram a ser vistas como contendo um lado positivo para o

entendimento da mudanc;a social. Isto porque os protestos, por

exemplo, sao construídos socialmente e como tal geram energias

novas. Há a necessidade de intenso compromisso (pessoal e coletivo) para que um objetivo atinja suas metas.

O retorno da análise cultural na produc;ao teórica sobre a

ac;ao coletiva, especialmente nos Estados Unidos, realizou-se de

72 O paradigma norte-americano

forma um tanto peculiar. Trata-se da utilizac;ao de urna determinada interpretac;ao da cultura. Símbolos, valores, significados,

ícones, crenc;as, códigos culturais em geral, passaram a ser destacados segundo urna abordagem que lembra mais Durkheim do

que Weber ou Parsons, em suas teorias da ac;ao social e da cultura. Isto porque rejeitou-se a abordagem que trata a cultura como

um sistema, passando-se a ve-la como um processo. A cultura de

solidariedade, analisada por Fantasia por exemplo ( 1995), foi destacada segundo sua construc;ao num processo e nao como algo herdado e já pronto, ou criado a partir da inclusao em certo sistema

de relac;oes. Ela foi vista como sendo criada e recriada a partir de

um conjunto de representac;oes no desenrolar das ac;oes coletivas,

levando a formac;ao da consciencia coletiva. Neste ponto encontramos a forc;a do pensamento de Durkheim, quando ele afirma que

a cultura é constituída por representac;oes e nao por idéias, como

queria Weber. As representac;oes nao sao portanto as idéias de

indivíduos ou grupos perseguindo seus interesses, mas os veículos

de processos fundamentais nos quais símbolos publicamente compartilhados constituem grupos sociais (Durkheim, 1965, citado

em Swidler, 1995: 26). Ou seja, enquanto a perspectiva weberiana

toma o indivíduo como unidade da análise, a perspectiva durkheimiana toma o grupo e o processo que ele constrói. A consciencia

coletiva do grupo é algo muito similar a identidade coletiva da

abordagem da MP, por ser um repositório de normas e valores

que definem o comportamento dos movimentos. (Destacaremos

adiante outras limitac;oes ao uso da concepc;ao de cultura -

quando da análise do trabalho de Tarrow - e ao final deste

capítulo, ao sintetizarmos nossas críticas a MP.)

Weber e Parsons foram resgatados parcialmente por meio da

abordagem de Gertz, que redefine o objeto da análise cultural a

partir do estudo das práticas culturais. A análise das ac;oes coletivas buscará as representac;oes dos indivíduos sobre o objeto em

questao, a partir dos códigos e significados existentes. Ela se move

do interior dos indivíduos, de suas representac;oes mentais, para

o exterior, para suas práticas sociais. E para entender o exterior

entra-se na análise dos contextos. Os autores que avanc;aram mais

na criac;ao dos novos marcos explicativos destacarao a primazia do

contexto político (Tarrow, 1994).

Torías sobre MS na era da globalizar;ao: a MP 73

Pierre Bordieu e M. Foucault sao outras duas fontes refe­

,. • nciais básicas a respeito das práticas culturais, dentre os au1 ores contemporaneos que fundamentam a nova teoria e o parad igma político que ela gerou. lsto porque os frames de at;6es

1•oletivas - conceito a ser discutido abaixo - incorporaram o

plano simbólico, advindo de símbolos e crent;as preexistentes

1 tHSÍm como de novos valores criados em oposit;ao ao status quo

vigente, que emergem no decorrer das lutas dos movimentos.

l1: stes valores constituem o que Bordieu denominou de

1·apital cultural do grupo, traduzindo-se em hábitos (Bordieu,

1 984, 1990). V. Taylor e N. Whittier ( 1995) assinalam que fato1·1•s como educat;ao, genero, rat;a, etnicidade e background de

c·lasse, usualmente vistos como fatores estruturais nas teorias

produzidas até entao sao revistos. Os grupos com distintos con111 ntos de crent;as e habilidades, e recursos culturais, passam a

i ncorporar as novas abordagens. Alexander ( 1990) verá neste

processo a format;ao da resistencia dos grupos.

A teoría da Mobilizat;ao Política reintroduziu a psicologia

1wcial como instrumento para a compreensao dos comportamentos coletivos dos grupos sociais. Tres elementos foram trabal liados: a reconceituat;ao da figura do ator; as microrrelat;6es

Hociais face a face; e a busca de especificat;ao para os elementos

1\ · rados dentro de urna cultura sociopolítica, com determinados

H ignificados. Os descontentamentos, os valores e as ideologias

lhram resgatados por intermédio de um olhar que busca entender a identidade coletiva dos grupos e a interat;ao com sua cultura. Ou seja, a MP aproximou-se das teorias européias denorn inadas "Novos Movimentos Sociais". Coehn e Arato ( 1992) já

l wviam afirmado que os dois approachs - MP e NMS - nao

c•ram necessariamente incompatíveis, porque, em parte, ambos

c·ontam com características-chave da sociedade civil. Também

1�'oweraker ( 1995) faz afirmat;6es neste mesmo ·sentido.

Após décadas do apogeu da Escola ele Chicago, um de seus

p rcssupostos básicos, o interacionismo, ressurgiu com bastante

vigor, sob a forma de interacionismo simbólico, por meio da recup rat;ao dos trabalhos de Irving Goffman. Utilizando-se de um

de seus argumentos - as condit;6es estruturais sao necessárias

mas nao suficientes para explicar a a�ao humana -, a MP

74 O paradigma norte-americano

voltou-se para os estudos psicossociais enfatizando as regras de

interac;ao. É importante registrar que Goffman foi o mais importante teórico empírico do movimento interacionista simbólico.

Ele desenvolveu urna sociología da vida cotidiana em que procura mostrar a natureza tenue da vida social. É urna sociología

para entender um mundo onde a vida é um drama, em que homens e mulheres lutam para criar ou projetar urna imagem convincente do seu "eu" para os outros. Ele focalizou os conflitos e

tensoes experimentados pelos indivíduos, em diferentes contextos sociais, e seus esforc;os em tentar preservar urna imagem

para os outros indivíduos. Os interacionistas, na época em que produziram suas teorías, foram alvo de críticas acirradas por parte

de seus opositores, críticas talvez mais fortes do que as que receberam alguns dentistas sociais anteriores, que tinham perspectivas elitistas, conservadoras ou cépticas. As críticas básicas aos

interacionistas foram quanto ao tratamento que deram a questoes como objetividade, racionalidade etc. Entretanto, a maioria

de suas posic;oes foi retomada nos anos 90, nao mais como problemas mas como soluc;oes, e muitos pontos das críticas que

haviam sido vistos como negativos - por exemplo, o papel da

subjetividade na determinac;ao das ac;oes dos indivíduos - passaram a ser considerados positivos - como pista para o entendimento das escolhas e opc;oes dos grupos sociais, dentro de urna

trama de relac;oes sociais e contextos de oportunidades políticas.

Apesar de Snow e Benford ( 1992) e Gamson ( 1995) terem

retrabalhado vários postulados do interacionismo - procurando

adequá-los a análise estrutural-política da MP -, a forc;a dos

argumentos psicossociais é bastante forte na nova teoría. Inicialmente pensamos até em chamá-la MPC - Mobilizac;ao Político­

-Cultural. Mas depois observamos que a concepc;ao de cultura

oscila entre dois extremos: ou é restrita - muito próxima de urna

das versoes da abordagem antropológica de cultura, que a trata

como tradic;ao, valor, repositório do passado; ou é muito abrangente

e indeterminada - vista como processo de representac;oes. A

dimensao da práxis, da cultura como forc;a social transformadora,

constituinte de novas identidades sociais, nao é trabalhada, porque poucos autores da MP vinculam os próprios movimentos aos

processos de mudanc;a e transformac;ao social, preferindo abordá­

-los dentro de marcos teóricos dados pela ac;ao dos grupos de inl,1;1 n 1 lll1'0

lhllHltlIL11111111,.lp1'I1

Teorías sobre MS na era da globalizar;iio: a MP 75

l t1resses num campo de disputa pelo poder (Kriesi, 1996). Quando

o processo de mudarn;a social é destacado, ele se refere a mudarn;as

nstitucionais. O que existe é urna grande preocu.pac;ao em saber

1•omo as mudanc;as estruturais se transformam em ac;oes cole1 ivas (Tarrow e Klandermans, 1988). Uns poucos autores enfatizam

llH mudanc;as culturais ao se referirem ao processo de constru­

·1\0 da identidade. Mas estes estao mais próximos da teoría NMS

do que da MP (Taylor e Whirttier, 1995). Sendo assim, alteramos

nossa nomeac;ao inicial, reduzindo-a para MP - Mobilizac;ao

l 1olítica.

Mas nao só a psicología social foi acionacla pela MP, por

111 io do resgate de outras teorías do paradigma clássico aciona1 IHla. Progressivamente teorías de outros paradigmas foram

1 1corporadas, num esforc;o de articular explicac;oes gerais, de nivel

rnacro - com enfase em processos políticos e nao no campo de

1 1 Leresses económicos da MR - e explicac;oes do universo micro,

11Hpecíficas - com enfase na cultura e na política dos grupos e

111ovimentos. A política é vista associada a cultura dos grupos

1 t l'ganizados que criam espac;os próprios, por rneio de práticas

1•1 1 lturais, incorporando suas ideologías e suas crenc;as (Fantalu e Hirsch, 1995). Alguns autores ampliaram o leque de contrih11 ic;oes de outros paradigmas, introduzindo por exemplo persf H'Ctiva histórica, recuperada principalmente na linha de traballio dos historiadores ingleses: E. Hobsbawm, G. Rudé e E. P.

'l'hompson. A história nova reaparece especialmente nos traba1110 de Charles Tilly. Morris ( 1984) retomou a questao do pro1·11¡,¡so de formac;ao da consciencia política utilizando-se de algu1 1rns observac;oes de Gramsci. Ele analisou que:stoes de genero e

d1• rac;a na América, buscando compreender a consciencia de

11posic;ao. Procurou inserir as ac;oes coletivas em suas determina1;0 •s estruturais para obter um quadro de como aquelas intera1•11m, gerando estímulos ou inibindo a ac;ao coletiva. Sua enfase

1111 problemática da consciencia política é aplicada para entendl'r os movimentos de conflito e os de consenso, tipología assu11i ida pela maioria dos teóricos da MP.

Estudos recentes da MP tendem a enfatizar o papel da mídia,

1·11 1·· eterizando-a como filtro ou espelho dos movimentos sociais. A

1 1¡:or, esta questao nao é nova. Turner, em 1969,, já trabalhara em

76 O paradigma norte-americano

um artigo denominado "The Public Perception of Protest". Blumer

também a destacara ao falar dos movimentos da moda. A novidade está nos tipos de meios de comunicac;ao enfatizados nos anos

90, incluindo aí o uso da informática nas redes da Internet e a

utilizac;ao das teorias sobre as comunicac;oes, principalmente as de

Habermas.

Observe-se que chamamos a nova teoria de Mobilizac;ao

Política e afirmamos que busca referencias em diferentes paradigmas analíticos das ac;oes e movimentos sociais, vindo a se

constituir numa teoria diferenciada dentro do paradigma norte­

-americano. Alguns autores passaram a denominá-la "teoria do

processo político", como Goodwin ( 1996). Originalmente, esta

denominac;ao é atribuída a McAdam ( 1982), em seu livro sobre

o movimento negro nos Estados Unidos, onde destacou a importancia da Igreja Batista e do contexto político dos anos 50 e 60

para aquele movimento. Preferimos utilizar para tal abordagem

a primeira denominac;ao, "mobilizac;ao política", porque ela faz

urna análise restrita em termos políticos, nao captando de fato

a política como um todo, como um processo que envolve a sociedade política e a sociedade civil, fixando-se mais nas oportunidades políticas da sociedade política e nao vendo dinamismo na

sociedade civil. Retomaremos estes pontos ao final deste capítulo.

Por ora é importante destacar que a nova abordagem continua

atribuindo grande importancia as mobilizac;oes e preocupada

em entender seus motivos. O que há de comum entre estas mobilizac;oes e a MR e por que se trata de urna nova teoria? O que

mudou no paradigma até entao existente para lhe atribuirmos

algumas características novas?

Destaque-se, em primeiro lugar, que a nova teoria foi gerada a partir do debate e de análises comparativas entre os paradigmas predominantes na análise das ac;oes coletivas nas últimas

tres décadas, o da MR e o dos Novos Movimentos Sociais (ao

qual chamaremos NMS e analisaremos no capítulo IV). O paradigma da NMS sempre esteve fincado no primado da cultura

sobre outros campos e dimensoes da realidade social. A cultura,

conforme assinalamos anteriormente, já ti vera um lugar de destaque na abordagem clássica do paradigma norte-americano,

para explicar as privac;oes etc. Ela retornou como instrumento

Teorias sobre MS na era da globalizar;iio: a MP 77

• pi 1cuLivo, sendo urna categoria relevante na análise da MP.

lol 111 1(,1dades e ideologias passaram a ser vistas como recursos

, 1ill 11 rais. As precondic;oes culturais para as mobilizac;oes e para

" p 1•opria militancia também sao extremamente relevantes.

1°;m segundo lugar, a nova teoría foi buscar elementos junto

1 11111.ro paradigma que, no passado, só era lembrado em momen111 111uito específicos, quando se precisava reafirmar as próprias

1 111 11;oes ou para negá-lo: o paradigma marxista. É interessante

1 li 1 l1 1car que este processo ocorreu justamente no momento de crise

l 1 il . ti ' mundial do paradigma marxista, incluindo até a negac;ao

, ¡ 1 v11lidade de sua teoria a partir da queda dos regimes políticos

q11n o abrac;aram em seus processos revolucionários. Portanto, a

11i11u•nsao política, tanto no que se refere a conjuntura como a esf 1 11 l 11 ra, foi o grande elemento resgatado da abordagem marxista

1

1 1 1·1 1 a compreensao dos contextos em que atuam os atores, como

1· 111obilizam, e das estruturas de oportunidades políticas produ1d11H ou apropriadas pelos atores daquelas ac;oes. Mobilizac;ao e

1 1 ruLura das oportunidades políticas passarao a ser as duas cate1 1 11·i11s-chave e centrais. Destaque-se, entretanto, que os elemenl 1 11 pinc;ados do paradigma marxista foram codificados e utiliza­

, ¡, 1 de outra forma. As condic;oes estruturais - vistas como oporl 111 l idades políticas - sao analisadas pela MP de forma despol 1 l 1�ada, do ponto de vista dos interesses políticos, projetos e for­

' 111-1 sociais envolvidos. Todos os atores sao competidores num

llll'Hrno cenário, sem que haja contradic;ao de interesses, porque

11 11 nálise nao aborda a problemática das classes sociais.

Em terceiro lugar, a teoria da MP, ao resgatar algumas

1

11 t1rnissas do paradigma tradicional da ac;ao coletiva (como as

1 1 11vindicac;6es e privac;oes culturais) e alguns postulados de anál 11o1 s marxistas (de que reivindicac;oes sao frutos de condic;oes

e 11t.ruturais que criam as privac;oes), articulou estes resgates com

11 q uestao central da abordagem dos Novos Movimentos Sociais

1 1 1 da identidade coletiva) e construiu novas explicac;oes sobre

1 orno os adeptos de um movimento social pensam sobre si próp 1·ios, como compartilham suas experiencias e as reinterpretam

' tri contextos de interac;ao grupal.

Em quarto lugar, a nova teoría nao abandonou várias das

111· •missas da MR, entre elas a prioridade a análise estrutural.

78 O paradigma norte-americano

As oportunidades políticas, os símbolos e códigos construídos no

processo de mobilizac;ao etc. sao vistos como recursos, instrumentos, meios para certos fins, num ambiente onde se tem oportunidades e constrangimentos. Este ambiente tem fon;a de configurac;ao nos processos de litígios e contenc;oes. Ou seja, a questao da

lógica na racionalidade dos atores na ac;ao social nao foi abandonada, mas inserida num campo de disputas com variáveis mais

amplas do que as da pura racionalidade económica enfatizada

anteriormente pela MR. A objetividade daquelas ac;oes contém

a subjetividade dos indivíduos. A objetividade da MR, e também

do paradigma marxista, no que diz respeito a análise política

(nao a económica-determinista), buscará articulac;oes com a subjetividade do paradigma dos NMS. A enfase na análise institucional

e no papel das organizac;oes e instituic;oes junto aos movimentos

sociais também continuou, menos como organizac;oes de movimentos e mais como redes de articulac;oes que suportam e criam

as estruturas de oportunidades. Em síntese, o conjunto dos argumentos acima apresentados resultou em novos marcos referenciais

teóricos.

Finalmente, assinale-se que a nova teoria estabeleceu lac;os

entre as políticas institucionalizadas e os movimentos sociais

propriamente ditos. Os movimentos sociais tomam forma por

conjuntos de oportunidades e constrangimentos políticos externos existentes no contexto político em que estao inseridos. Algumas premissas da MR foram mantidas, como a que tratava

os movimentos sociais como processos de mobilizac;ao, que por

sua vez representavam a organizac;ao formal deste processo.

Outras premissas utilizadas já estavam presentes na análise

funcionalista clássica norte-americana, como o conceito de oportunidade estrutural de Merton ( 1968), retrabalhado sob um aspect¿ político. Mas, concordando com Goodwin ( 1996), os teóricos da MP nunca mencionaram o funcionalismo em seus trabalhos. De fato, existe grande diferenc;a entre o conservadorismo

da tradic;ao funcionalista e a MP. N ossa hipótese é que a questao da integrac;ao social constitui o ponto de aproximac;ao dos

dois approachs. Enquanto a integrac;ao dos indivíduos a sociedade moderna industrial de consumo era vista como algo natural, decorrente do progresso; na MP a integrac;ao ocorre num

Teorías sobre MS na era da globalizar;iio: a MP 79

1· mpo de lutas e disputas. Nao há mais uma ordem social de

oquilíbrio ou desequilíbrio, mas um contexto político favorável

ou desfavorável as mobilizac;oes.

2 - O debate da MR corn o paradig¡na europeu

dos Novos Movirnentos Sociais

na constru�ao da MP

O debate acima se fez a partir de críticas publicadas em

Social Research por Jean Cohen ( 1985), algumas das quais já

foram citadas no capítulo II; e dos trabalhos de Gamson, Snow,

'l'aylor, McAdam, Klandermans, Tarrow etc. Os dois últimos

1· alizaram acurada análise comparativa entre a MR e os NMS,

buscando a superac;ao desses últimos. A quase totalidade dos

autores criou urna nova categoria para explicitar ou aprofundar

() desenvolvimento de um aspecto das ac;oes coletivas, a luz das

críticas que aquele fenómeno ou problema recebera. O debate

ocorreu por meio de artigos e papers discutidos em congressos,

destacando-se urna conferencia realizada em 1988 na UniverHidade de Michigan, da qual resultou o livro Frontiers in Social

Movement Theory, 1992, organizado por A. Morris e C. M. Mueller;

c lestacaram-se também alguns encontros ocorridos em lthaca

( EUA) e Amsterda, em 1987, que resultaram em dois volumes

le International Social Movement Research, publicados na série

"Social Movements, Conflicts and Change'', editada desde 1979

pela JAI Press simultaneamente nos Estados Unidos e na

1 nglaterra.

Cohen contribuiu para o debate porque, além das críticas a

MR, mostrou as diferenc;as e as semelhanc;as entre esta abordag-em e o paradigma europeu dos Novos Movimentos Sociais,

nbrindo caminho para a MR buscar naquela abordagem formas

para superar o economicismo e a visao racional estratégica predominante em seus primeiros estudos. Cohen assinalou que "a

clespeito das diferenc;as cruciais ... ambos os paradigmas envolvem a contestac;ao entre grupos organizados com associac;oes

nutonomas e sofisticadas formas de redes de comunicac;ao, Ambos

nrgumentam que a ac;ao coletiva conflitual é normal e que os

participantes sao usualmente racionais, memhros bem integra-

80 O paradigma norte-americano

dos de organizac;oes. Em resumo, ac;ao coletiva envolve formas

de associac;ao específicas para o contexto de urna sociedade civil

moderna e pluralística. Além disso, as duas abordagens distinguem dois níveis de ac;ao coletiva: a dimensao manifesta em

urna mobilizac;ao em larga escala (greves, competic;oes, demonstrac;oes) e o nível menos visível, latente, de forma de organizac;ao e de comunicac;ao entre grupos relevantes para a vida cotidiana e para a continuidade da participac;ao do ator" (Cohen,

1985: 673).

 


Rudolf Heberle elaborou em 195 1 um dos primeiros livros

com título específico sobre os movimentos: Movimentos sociais:

uma introdw;ao a sociologia política. Sua meta era ambiciosa:

desenvolver urna teoria comparativa e sistemática dos movimentos sociais dentro do sistema da sociologia compreensiva. Sua

filiac;ao as teorias alemas levou-o a busca de fundamentos em

Tonnies ( 1955), Stein ( 1964) e Sombart (1909). Segundo

Wilkinson (1971), Heberle rejeita a identificac;ao exclusiva que

Stein faz do conceito de movimento social, restringindo-o ao

universo da classe operária, aos movimentos proletários da sociedade industrial. Para ele o conceito tem apHcabilidade mais ampla. De Tonnies, Heberle assimila os conceitos de coletivo social e

da bipolaridade comunidade-sociedade.

Para Heberle os movimentos sociais sao um tipo especial de

grupo social com urna estrutura particular. Eles conteriam grupos

organizados e nao-organizados. O autor se preocupa em distinguir

38 O paradigma norte-americano

os movimentos dos gro.pos corporativos de interesses, assim como

procura distinguir também movimentos genuínos, com caráter de

profundo significado histórico, de movimentos menores, efemeros,

e simples protestos. Haveria alguns critérios para a ac;ao de um

gru.po ser um movimento social: consciencia gro.pal, sentimento de

pertenc;a ao gru.po, solidariedade e identidade. Além disso, os movimentos estariam sempre integrados por modelos específicos de

compromissos coletivos, idéias constitutivas ou ideologías. Já nos

anos 50 ele apontava para urna tendencia dominante dos movimentos sociais que diz respeito a sua internacionalizac;ao. Ele

afirmava que um movimento nao necessariamente confina-se

num território nacional, podendo ter dimensoes multinacionais,

internacionais e supranacionais.

Heberle afirmava que os movimentos teriam duas func;oes­

-chave na sociedade: formac;ao da vontade comum ou da vontade política de um grupo, auxílio no processo de socializac;ao,

treinamento e recrutamento das elites políticas.

Os movimentos seriam sintomas de descontentamento dos

indivíduos com a ordem social vigente e seus objetivos principais seriam a mudanc;a dessa ordem. Em determinadas condic;oes, eles poderiam se tornar um perigo para a própria existencia dessa ordem social. O autor nao inova portanto ao tratar

das causas que dao origem aos movimentos sociais, porque elas

também situam-se na capacidade de satisfac;ao/insatisfac;ao dos

indivíduos diante das normas e valores vigentes. Assim, "o acordo

sobre valores e normas é a essencia da solidariedade social ou

do senso de comunidade. O senso de comunidade é o fundamento

de urna ordem social. Mesmo certas entidades sociais que existem por mero utilitarismo - como a maioria da.s relac;oes contratuais e associac;oes - nao podem ser mantidas a menos que

haja um mínimo de senso do comunitário entre seus membros"

(Heberle, 195 1, e Lyman, 1995: 57).

A questao do senso de comunidade é aplicada por Heberle

para analisar o comportamento de líderes e lideranc;as nacionais,

assim como movimentos de natureza sociopolítica. É aqui que

Heberle tem certa originalidade, ao tratar da dimensao política

dos movimentos. Ele amplia o leque das ac;oes coletivas a serem

As teorías clássicas sobre as ai;oes coletiuas 39

1 11n1iideradas movimentos sociais, incluindo as lutas dos campo1 1 1 1H s, dos negros, dos socialistas e dos nazi-fascistas. Além disso,

diH ingue movimentos sociais e políticos, segundo seus objetivos.

Ao assinalar os perigos para a sociedade, Heberle relacio1 1 11 rnovimento social a regimes políticos autoritários e totalitá­

' oH, que destruiriam o senso comunitário existente por meio de

w'd¡r"ncias baseadas no fanatismo de grupos entusiastas, gerando

d1 1Hi ntegrac;ao social. Observamos portanto o eixo funcional-sis­

! 1 in ico que norteia a análise do autor, baseado no binomio inte1 1·nc,:ao/desintegrac;ao social.

Heberle continuou produzindo estudos sobre os movimentos

1wi is até os anos 70. Com J. Gusfield, escreve para a Enciclop11dia Internacional de Ciencias Sociais, publicada em Londres

• 111 1972, o verbete "Movimento social".

1 - Quarta teoria sobre os movimentos soc1a1s no

paradigina clássico: o comportamento coletivo sob

a ótica do funcionalismo -Parson.s, Turner, Killian

e Smelser

4. 1 - Pressupostos teóricos básicós: a influencia de

Parsons

Como sabemos, em 1951 Parsons concluii sua teoría do siste1 1 111 social, combinando conceitos como valores centrais, normas,

p11 p is, estrutura, func;ao-equilíbrio e diferenciac;ao estrutural.

l 1

11 ra Parsons existem quatro dimensoes básicas dos sistemas

de a<;:ao: adaptac;ao, consecuc;ao de metas, latencia ou manutenc;ao

dn padrao e integrac;ao, cada urna desempenhando urna func;ao

11 Lrutural na sociedade. Curiosamente, o desenvolvimento do

lHl ma de ac;ao social parsoniano nao leva ao desenvolvimento

1 lo o Lor ou agente de ac;ao, mas ao do sistema social, por meio do

de H nvolvimento das ac;oes individuais, ou seja, pelos papéis de

l<tlus que aqueles indivíduos passam a desempenhar. Talvez

l11 11ha sido este o principal fator que levou Smelser a buscar em

1 '; 1 1·sons respaldo teórico para entender o comportamento coletivo

r loH grupos sociais expresso em movimentos.

40 O paradigma norte-americano

A teoria da ac;ao social de Parsons desemboca, segundo l.

Bottomore e Nisbet (1980), na concepc;ao do homem utilitarista

de Hobbes, com urna orientac;ao normativa instrumental, visando racionalmente metas, usando meios económicos e culturais

eficientes para atender a suas necessidades, assegurar sua sobrevivencia e maximizar seu equilíbrio. Em suma, o homem utilitarista disfarc;ado de social.

A aplicac;ao da teoria parsoniana aos movimentos sociais

deu origem a abordagem funcionalista, em que sao vistos como

comportamentos coletivos originados em períodos de inquietac;ao social, de incerteza, de impulsos reprimidos, de ac;oes frustradas, de mal-estar, de desconforto. Os hábitos e costumes que

durante longo tempo serviram para resolver os problemas da

vida do povo estariam se afrouxando. Isso significaria que as

formas anteriores de controle social estariam se desintegrando

(Pierson, 1965: 223). As categorias básicas utilizadas sao de origem durkheimiana (anomia/disnomia) e baseadas na teoria funcionalista de Merton (organizac;ao/desorganizac;ao). Urna crise

social é vista em termos de inquietac;ao social, e como indicadora

de mudanc;a social. O ponto referencial básico sao os comportamentos e condutas dos indivíduos, portadores de tensoes que,

quando comunicadas a outras pessoas, podem formar "reac;oes

circulares". Acredita-se na existencia de urna ordem social estática, que necessita ser controlada. O nao-controle ou sua desintegrac;ao é que possibilita a emergencia dos movimentos sociais.

Portanto, a existencia de um movimento social é um objeto estranho, exterior, aos sujeitos históricos. O próprio termo movimento social era utilizado entre aspas, e isto atesta a resistencia de se conceder algum tipo de dinamica aos comportamentos,

tidos como fixos e estáticos.

Por outro lado esses movimentos sociais teriam urna história natural, já que estariam respondendo a impulsos e manifestac;oes interiores, inerentes a natureza humana. o indivíduo

(que era visto isolado) contrapunha-se a sociedade a medida que

esta o oprimía, o bloqueava e o frustrava. Assim que as tensoes

adquiriam um caráter de insuportabilidade, os indivíduos se

aglutinavam ero torno de um objetivo comum e criavam novas

instituic;oes. A isto davam o nome de mudanc;a social.

As teorías clássicas sobre as ai;oes coletivas 41

Os primeiros cientistas sociais, sob a ótica positivista, viam

os movimentos sociais como esfon;os para promover mudanc;as.

Os cientistas sociais neopositivistas viram os movimentos sociais

como "esforgos da coletividade para promover ou resistir as mudangas" (Lee, 1969; Wilson, 197 4). Para estes últimos, os movirnentos sociais se diferenciam das instituigoes, das associagoes,

dos grupos de pressao, por se aterem a "promogao ou resistencia

a mudanga de valores e normas sociais" (Horton e Hunt, 1980).

As condigoes que propiciariam a emergencia dos movimentos

sociais seriam de tres ordens: cultural (mudanc;a de valores), social

(desorganizagao e descontentamento) e política (injustiga social).

A categoria básica de análise continua sendo o comportamento e a agao dos indivíduos; a mudanga social dá-se por meio

da mudanga do comportamento dos indivíduos em instituigoes.

Os movimentos operariam num cenário de irracionalidade, ou

nao-racionalidade, em oposigao a ordem racional vigente.

Este elemento leva-os a situar os movimentos sociais nos

indivíduos, e a retomada da explicagao em termos de questoes

antigas como as do "isolamento social", falta de lagos de família,

"descontentamento", "desajustamento" etc., ou seja, aquelas da

dicotomia comunidade versus sociedade, de Tonnies, vem a tona,

acrescidas das análises de cunho antropológico sobre os usos e

costumes dos povos. Sem nos estender sobre as premissas básicas da "nova" abordagem dos movimentos sociais, podemos

sintetizá-la nos seguintes pontos, a partir do próprio discurso

elaborado por ela:

1 - Os movimentos sociais ocorrem porque há pessoas desajustadas na ordem vigente.

2 - Esta ordem está submetida a um processo de mudanga

muito lento, ao longo do qual algumas pessoas ficam

insatisfeitas.

3 - Em sociedades estáveis, bem integradas, com muito

poucas tensoes sociais ou grupos alienados, há poucos

movimentos sociais.

4 - Os movimentos sociais sao, portanto, característicos de

sociedades em processo de mudanga, portanto desorganizadas.

42 O paradigma norte-americano

5 - As precondic;6es estruturais para o aparecimento de urna

ac;ao coletiva que geraria um movimento social sao: a)

bloqueio estrutural (barreiras na estrutura social que

impedem as pessoas de eliminar suas fontes de descontentamento); contato (interac;ao com os descontentes);

eficácia (expectativa de que a ac;ao proposta aliviará o

descontentamento); e ideología (massa de crenc;as que

justificam e apóiam a ac;ao proposta).

6 - Há urna estreita relac;ao entre movimento social e marginalidade. "A maioria dos movimentos extrai muitos

de seus primeiros membros e líderes dentre as pessoas

ou grupos marginais da sociedade" (Stockadale, 1970).

Observamos nas colocac;6es anteriores que:

1 - a "matriz" teórica da análise é a teoria da estratificac;ao

social da corrente funcionalista parsoniana, cujos elementos básicos sao: indivíduo-sociedade opondo-se a comunidade, e indivíduo feliz, integrado versus indivíduo desajustado, marginal. Os fatores constitutivos, geradores de

"ac;6es coletivas", sao: isolamento, percepc;ao de injustic;a,

mudanc;a de status social, falta de lac;os primários.

2 - os movimentos sociais sao vistos como mecanismos desintegradores da sociedade, ac;6es externas a sua dinamica, controláveis desde que enfrentem suas causas. A

lógica que permeia a abordagem é de causa-efeito, feíta de forma linear.

3 - para que os movimentos sociais pudessem ser controlados (é esta urna grande preocupac;ao dos analistas)

seria preciso esperar seu ciclo de evoluc;ao (inquietac;ao,

excitac;ao, formalizac;ao e institucionalizac;ao).

Observamos que estas análises homogeneízam diferentes

movimentos sociais em decorrencia do ponto de partida adotado,

ac;6es coletivas. Mas, ao mesmo tempo, sao vistos como urna forc;a

social de mudanc;a e como auxiliares da sociedade democrática:

"Conquanto nem sempre racionais e algumas vezes aborrecidos,

os movimentos sociais ajudam a sociedade democrática a fazer

frente as defasagens culturais e a permanecer razoavelmente

integrada" (Horton e Hunt, 1980: 420).

As teorias clássicas sobre as ai;oes coletivas 43

4.2 - O retorno da psicologia social para analisar os

comportamentos coletivos: Turner e Killian

Turner e Killian (1957), e logo a seguir Smelser (1962), consi­

<L ravam que o approach sociopolítico ignorava as formas elementares de comportamento político. Por isso colocaram abaixo

os vínculos entre política e estrutura. Baseados na teoría de

t >arsons, resgataram vários componentes de natureza psicológica

da Escola de Chicago ou da psicologia sociial de alguns intera­

·i onistas simbólicos, principalmente Blumeir. Buscando formular

u rna teoria geral sobre os comportamentos coletivos, alegaram

que os movimentos sociais seriam urna das formas de expressao

das ac;oes coletivas.

Em 1957, Turner e Killian publicaram Collective Behavior,

urna coletane1 com quase 600 páginas, sendo 208 dedicadas ao

•studo dos m• 1·;imentos sociais, que contou com a colaborac;ao de

•xpressivos estudiosos do assunto dos anos 40 e 50 e o reaproveilamento de vários textos da Escola de Chicago. O livro tornou-se

um clássico da sociologia, ganhando várias edic;oes e sendo citado

pela maioria dos pesquisadores da área. Ele aborda as caracterísLicas e os processos de um movimento social, os valores que o

rientam, a emergencia e a constrm;ao de novas normas de rela­

<;oes sociais e de novos significados da vida social. Estes novos

significados emergem do processo de interac;ao entre as pessoas,

deles resultando novas concepc;oes de justic;a/injustic;a, moralidade,

realidade etc.

Outras questoes tratadas por essa corrente sao: o controle

e o poder nas orientac;oes dos movimentos; os movimentos separatistas e a participac;ao orientada; os líderes e seguidores; e os

produtos dos movimentos.

Turner e Killian definem um movimento como a ac;ao de

urna coletividade com alguma continuidade para promover a

mudanc;a ou resistir a ela na sociedade ou no grupo do qual faz

parte (Turner e Killian, 1957: 308). A questao da continuidade

é um elemento-chave para distingui-lo de outros tipos de ac;ao

coletiva. É ela que garante a formulac;ao de objetivos, as estratégias, a divisa.o de func;oes - inclusive o papel dos líderes e a

formac;ao de um sentido de identidade grupal. Tudo isso se confi-


44 O paradigma norte-americano

gura a partir de regras baseadas em trac!i<;oes, formando o esprit

de corps do movimento.

Turner e Killian afirmam que há tres tipos de grupo que podem ser chamados de quase-movimento, porque possuem algumas -

características dos movimentos. Sao eles: movimentos de massa

como a imigrac;ao, em que certa dose de contato social influencia

o fenómeno; grupos formados por seguidores/admiradores de alguma figura pública que promoveu, por exemplo, um programa de

mudanc;a social; e os cultos, basicamente religiosos, em que há

demandas somente sobre o comportamento de seus membros.

Trataram eles também do tempo de durac;ao dos movimentos,

observando que "um movimento social nao pode continuar como

tal indefinidamente. Distinto das organizac;oes institucionalizadas,

marcadas pela estabilidade, o movimento social é por definic;ao

dinfunico. Quando perde essa característica, cessa de ser um movimento social, desaparece ou torna-se urna forma social diferente"

(Turner e Killian, 1957: 480). A determinac;ao desse processo depende dos efeitos que o movimento social tem sobre o meio ambiente

e vice-versa. Um movimento se institucionaliza quando alcanc;a

um alto grau de estabilidade interna, ganha posic;ao reconhecida

dentro de urna sociedade mais ampla, passa a ter algumas func;oes

nela e estabelece algumas áreas de competencia. A institucionalizac;ao impoe estabilidade adicional ao movimento e um de seus

aspectos-chave é determinar procedimentos de conduta para o grupo. Os autores concluem que todos os movimentos podem vir a ter

um caráter institucionalizado.

A problemática do ciclo de vida de um movimento foi tratada por eles do ponto de vista interno, em seus diferentes estágios, desde a origem até seu sucesso ou outra forma de desfecho.

Eles chamam a atenc;ao para o valor deste approach por enfatizar o processo - e este elemento será retomado nos anos 90

pelo próprio paradigma norte-americano, que o considerará básico

para distinguir um movimento de outras ac;oes coletivas. Há um

processo social em andamento.

A abordagem de Turner e Killian foi denominada por Gamson

( 1992) como a das "normas emergentes", em que o processo pelo

qual ocorre a mobilizac;ao coletiva torna-se o problema central a

As teorias clássicas sobre as a�oes coletivas 45

ser investigado. Eles repudiam as afirmac;oes que dizem ser as

ac;6es dos movimentos mais emocionais ou i:Jrracionais que outras

formas institucionalizadas. Emoc;ao e razao nao sao necessariamente irreconciliáveis, e dividir as ac;6es ern racionais e irracionais significa negar a complexidade do comportamento humano

(cf. Gamson, 1992: 54).

A abordagem de Turner e Killian foi criticada por Wilson

(1973), entre outros pontos, porque rejeitava a clássica distinc;ao

entre movimentos reformistas e movimentos revolucionários. Esta

distinc;ao foi retomada por Aberle ( 1966), outro estudioso do assunto, que a desdobrou em tres formas (rnovimentos transformativos, reformativos e redentores), e utilizada posteriormente

por Hobsbawm (1970). Em 1989, Guiddens iincluiu a classificac;ao

de Aberle em seus estudos sobre os movirnentos sociais.

Cumpre destacar ainda que a teoría de Turner e Killian foi

recuperada nos anos 90 por Gusfield (1996), como urna via frutífera para o entendimento dos novos movimentos sociais.

4.3 - Smelser e a teoria estruturc.il-funcionalista

sobre os movimentos sociais

O trabal�er é o segundo destaque em nossa exposic;ao das teorias comportamentalistas sob a ótica da psicología

social. Em 1963 ele publicava hra QQ_rtlll1).I1amen.tn coletivo.

Posteriormente, sua abordagem foi considerada por Bobbio, Pasquino e Matteucci, nocYerbete "movimento social" do conhecido

Dicionário de política (1985) por eles organizado, como urna das

correntes significativas no estudo dos movimentos sociais.

A teoría de Smelser sobre os comportamentos coletivos nao­

-convencionais tenta demonstrar como eles diferem dos comportamentos rotineiros. Eles teriam componentes irracionais e excepcionais e seriam respostas cognitivas inadequadas para as tens6es estruturais que emergiam da modernizac;ao. Para Smelser,

a terminología "comportamento coletivo" incluí fenómenos .e.orno

respostas ao panico, ciclos da moda, desfiles e carreatas, boom

financeiro, ressurgimento de religioes, explos6es hostis e movimentos de valores orientados - incluindo revoluc;6es políticas

e religiosas, formac;ao de seitas, movimentos nacionalistas etc.

46 O paradigma norte-americano

1 (Smelser, 1963: 2). Rejeitando os conceitos de "comportamento dl1

1 massas", de Orte u Gasset (1987) e Brow (1954), de "dinamicu

, coletiva", de Lang e Lang (1961), e o critério físico/temporal e aH

� c aracterísticas particulares da comunicac;ao ou interac;ao de

l Blumer - de quem extrai muitos elementos para sua análise -,

8 Smelser elege o termo "comportamento coletivo" e as categoriaH

'' "explos6es coletivas" e "movimentos coletivos" para expressar o tipo

0 de fenómeno social analisado como comportamento coletivo. As ex-

-

¡:¡ plosoes coletivas referem-se a panicos, loucuras, hostilidades e outraH

�situac;oes abruptas. Os movimentos coletivos referem-se aos esfor­

<;¡

c;os coletivos para modificar normas e valores, os quais freqüentcrjffiente (mas nao sempre) se desenvolvem por longos períodos. Pod -

nJIIlOS observar que, para Smelser, o universo dos comportamentoH

c�oletivos se refere a comportamentos nao-institucionalizados.

Smelser também tentou formular urna explicac;ao global

pipara os movimentos sociais, buscando nos comportamentos cole-etivos os(parametros para detectar processos de mudanc;a social

:nfllais geril.. As tensoes sociais seriam um dos indicadores básiC1J�os. Durante episódios de comportamento coletivo, tem-se a oport'1:unidade de observar certos elementos sociais como os mitos, as

¡cjdeologias e o potencial de violencia da sociedade, pois todos

e}eles ·vem a tona. Tais episódios seriam urna espécie de laboratórijio de estudo de comportamentos usualmente dormentes (ou

q(Ue, ao se manifestar, revelam processos latentes na sociedade,

p;;·ara usar a terminología de Merton, também pertencente a esccPla funcional-sistemica norte-amencana):-E ntretanto, a preocupc;;ac;ao fundamental de Sµielser foi diagñosticar eomQ se instituciSonalizam as ac;oes sociais nao-estruturadas que se encontram

sa;:>b tensoes. Ou seja, � busca da integrac;ao social� do controle

soc>cial, é urna meta desta corrente.

Seriam quatro os componentes básicos das ac;oes sociais na

te.eoria de Smelser: l. as metas gerais e os valores - que fornece �m o mais amplo guia ao comportamento social orientado; 2.

as ll regras - que regem a consecuc;ao dos propósitos e esta.o base.'-adas em normas; 3. a mobilizac;ao da energía individual -

pa1tra atingir os fins estabelecidos dentro da estrutura normativa;

4. as facilidades de que dispoem os agentes para o conhecimento

do , ambiente. A dinamica do social se dá pelo encontro desses

As teorias clássicas sobre as a�oes coletivas 47

'

¡11 d rn componentes. Os comportamentos coletivos podem se ex1 "' 111· com valores previamente orientados ou nao. Os movimen1 • mm valores orientados sao a«;oes coletivas mobilizadas em

111111111 le cren«;as geralmente imaginadas para a reconstitui«;ao

11 v11 lores perdidos; os movimentos nao-orientados mobilizam-se

111 r iorne da reconstitui�ao de normas (Smelser, 1963: 9).

1 ' •gundo urna abordagem eminentemente funcionalista,

1 1 111IH 'r ve no funcionamento do sistema social a resposta para

11 111·gi mento de novas cren«;as e indaga como elas interferem

1111 romportamentos coletivos.

I' ra concluir este tópico, registre-se apenas que os estudos

d1 Hrnel ser nao tem sido citados no resgate de teorias do pas1trlo que iremos encontrar nos anos 90. Embora o campo da

I ' lc-ologia social ganhe centralidade neste último período, serao

l l l11n1cr e Tumer/Killian os autores mais citados. A rejei«;ao ao

• 1 1 1111 •rvadorismo da abordagem funcionalista parece explicar o

1 qu cimento contemporaneo de Smelser", embora se trabalhe

• 1 1 111 ulgumas de suas categorias, como a die estrutura de oporf 11 r ddades políticas, que já estava presente em Merton, um clás1·0 da análise istemica-fimcioeal. Retomaremos esta questao no

p roximo capítulo.

·

Quinta teoria sobre os movimentos sociais

no paradigma clássico: as teori.as

organizacionais-comportamentalistas

- Selzinick, Gusfield, Messinger

Selzinick (1952), Gusfield (1955) e Messinger (1955) foram

11 principais pesquisadores desta corrente teórica que buscou

1 1 11 produ«;ao de Weber sobre a burocracia e na de Mich�lls

! 1 !>59) sobre a lei de ferro das oligarquias os fundamentos para

1 1 11L nder os comportamentos coletivos agn1pados em organiza1·n s com objetivos específicos. Gusfield ( 1966), ao analisar o

111ovimento American Temperance, dividiu os movimentos em

f 1· s categorias: de classe, de status e expressivos. Movimentos

e le classe organizam-se instrumentalmente, ao redor de alguns

1 1 1L resses de seu público-alvo, de sua clientela. Movimentos de

48 O paradigma norte-americano

status sao aqueles voltados para si próprios, para alcanc;ar ou

manter o prestígio do grupo. Movimentos e�pressiv:os sao marcados por comportamentos menos objetivos ou pela procura dl•

metas relacionadas com descontentamentos (Gusfield, 1966: 23).

No início dos anos 70, Gusfield chamou a atengao para a importancia dos recursos comunais, a despeito da modernizac;ao, do

desenvolvimento económico, da racionalidade etc. Tilly ( 1978)

também caminhará nesta direc;ao.

Assim como a corrente da sociedade de massas, este approach

nao criou nenhuma teoría específica sobre os movimentos sociais,

mas abriu caminho para a gerac;ao da teoría que viría a ser um

novo marco no paradigma norte-americano, a da Mobilizac;ao de

Recursos. Zald, urna das pioneiras da nova corrente, publicou em

1966, em co-autoria com Roberta Ash, um estudo em que procuraram ampliar a abordagem dos institucionalistas, examinando

os movimentos sociais em termos de resultados e processos.

Segundo Zald ( 1992), o approach organizacional-institucional permanece viável na agenda do futuro, e podemos observar sua retomada nos trabalhos de Zald e McCarthy ( 1987) e de

Lofland ( 1985).

CAPÍTULO 11

l O RIAS CONTEMPOIRÁNE,AS

NORTE-AMERICANAS

DA Af;AO COLETIVA

DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

'11. oria da Mobiliza�ao de Recursos:

01 on, Zald e McCarthy

l rn nsformac;6es políticas ocorridas na sociedade norte1111 1 1•1111n nos anos 60 levaram ao surgimento de urna nova

111 1 • 111 P i n terpretativa sobre os movimentos sociais, a chamal 1 1 1 •1 11 111 da Mobilizac;ao de Recursos (MR). Ela comec;ou por

1 1 1 11 1· n ··nfase que o paradigma tradicional dava aos senti1 1 11111 1• ressentimentos dos grupos coletivos, assim como o

1/ 1•1 1 1111•/i e minentemente psicossocial dos clássicos, centrado

111 r1111d iGües de privac;ao material e cultural dos indivíduos.

p 1rnlogia foi rejeitada como foco explicativo básico das ac;6es

1 1 11 l 1 v1 1H, assim como todas as análises centradas no compor1 11111 111 o coletivo dos grupos sociais e a visao dos movimentos

1 11 1 11 11 romo momentos de quebra das normas daqueles gru1 > papel das crenc;as compartilhadas e o da identidade .

1 11il, LraLados pelo paradigma clássico, foram rejeitados por1

1'' 1 • 1·1 1 1n analisados sob o prisma do comportamento irracio111tl d11H massas (visto como sinónimo de alta dose de patologia

1 11 111 I ) .

49

50 O paradigma norte-americano

A fragilidade do paradigma tradicional para explicar os movimentos sociais da década de 60 (que emergiram desde os anos

50), os dos direitos civis, aqueles contra a guerra do Vietna, os

do feminismo etc., que também contavam com a participac;ao de

militantes advindos das camadas médias da populac;ao, levou a

formulac;ao da teoria da MR. As teorias das tens6es estruturais,

privac;oes, descontentamentos etc. eram, para os criadores da MR,

insuficientes para explicar os novas movimentos. A nova teoria

enquadrou as ac;oes coletivas em explicac;oes comportamentalistas

organizacionais, rejeitando portanto a enfase anterior dada pelo

paradigma clássico aos sentimentos, descontentamentos e quebras

de normas, todos de origem pessoal.

Margit Mayer ( 1991) elaborou urna hipótese bastante sugestiva sobre o sucesso do paradigma MR nos Estados Unidos. Ela

afirma que a teoría "surgiu numa certa conjuntura histórica e

representa a racionalizac;ao teórica de contradic;oes historicamente determinadas e sua práxis correspondente. Em outras palavras, a MR emergiu de um esforc;o para analisar os movimentos

sociais dos anos 60 e, como conseqüencia, reflete suas condic;oes

de emergencia, dinamica, desenvolvimento, estrutura de organizac;ao etc., em contraste com as abordagens clássicas que procuravam explicar os movimentos de massa dos anos 20 e 30, os

quais eram totalmente diferentes dos tipos de movimento dos

anos 60" (M. Mayer, 1991: 182).

Olson ( 1965) foi um autor que muito contribuiu para as

mudanc;as no paradigma tradicional. Seguiram-se a ele os trabalhos de Oberschall ( 1973), McCarthy e Zald ( 1973), Gusfield

( 1970). Outros autores, como Tilly ( 1978), com approachs específicos e de natureza mais histórica - conforme apresentaremos

adiante -, também contribuíram para o desenvolvimento da MR.

Durante duas décadas a MR predominou na maioria dos

estudos feitos sobre os movimentos sociais nos Estados Unidos.

Ela se alterou ao longo deste período, incorporando temas e

problemas que nao vinham senda contemplados, bem como críticas, mas manteve sua base explicativa principal: os movimentos sociais sao abordados como grupos de interesses. Enquanto

tais sao vistos como organizac;oes e analisados sob a ótica da

J

Teorias contemporiineas norte-americanas da a�i:io coletiva e dos MS 51

burocracia de urna instituic;ao. As ferramentas básicas utilizadas na abordagem advem de categorias económicas. Eckstein

( 1989) afirma que a MR é talvez a escola de pensamento naomarxista mais bem estruturada, explicando os movimentos

sociais nao em ambito individual mas organizacional.

A variável mais importante da MR, como o próprio nome

indica, é a dos recursos: humanos, financeiros e de infra-estrutura

variada. Os movimentos surgiriam quando os recursos se tornas- /

sem viáveis. Posteriormente esta asserc;ao foi alterada: os movimentos surgem quando se estruturam oportunidades políticas para

ac;oes coletivas, assim como quando facilidades ie líderes estao em

disponibilidade. Os movimentos também estruturam o seu cotidiano

segundo o estoque de recursos que possuem, sendo os principais

os económicos, humanos e de comunicac;ao.

Na MR os movimentos nao sao vistos de forma distinta dos

partidos, lobbies e grupos de interesses, como no paradigma

clássico. Ao contrário, eles jogam e disputam seu público consumidor, de adeptos ou financiadores, num mesmo campo. Eles

também competem entre si pelas mesmas fontes de recursos e

oportunidades. Em 1975 Gamson afirmou que "em lugar da

velha dualidade entre políticas extremistas e políticas pluralistas, há somente políticas". A rebeliao é somente outra política,

com outro significado. Ou seja, o protesto político passou a ser

visto como um recurso como qualquer outro, que pode ser trocado num mercado de bens políticos. Demandatários e seus adversários trocam bens num mercado de barganhas, num processo

em que todos os atores agem racionalmente, segundo cálculos

de custos e beneficios. A enfase toda é colocada numa visao exclusivamente economicista, baseada na lógica racional da interac;ao entre os indivíduos, que buscam atingir metas e objetivos,

e em estratégias que avaliam os custos e benefícios das ac;oes.

A base do modelo é a teoria do utilitarismo.

Olson ( 1965) comec;a e termina sua teoria pelos indivíduos.

O problema da ac;ao coletiva era agregativo: como envolver um

grupo em possíveis interesses por determinados bens coletivos.

Em seu livro sobre a lógica da ac;ao coletiva, Olson estuda nao

movimentos sociais mas grupos de interesses, observando que

52 O paradigma norte-americano

nos grupos compostos por muitos membros é mais fácil organizar os interesses coletivos do que nos pequenos, destacando o

papel dos líderes organizadores daqueles interesses.

McCarthy e Zald ( 1973 e 1977) foram os autores mais

importantes da primeira fase da MR no tocante a explicac;ao dos

movimentos sociais. Utilizando-se de conceitos correntes nas

análises das corporac;6es económicas, no mundo das organizac;oes empresariais, desenvolvidos particularmente por Olson,

avaliavam os membros de um movimento como um grupo de

interesses, que, como tais, eram consumidores de um mercado

de bens. O modelo de compra e venda e competic;ao por produtos

também foi aplicado. Os líderes de um movimento eram considerados gerentes ou administradores de um grupo de interesses. Enquanto tais, os diferentes grupos sociais competiriam

entre si para obter recursos para suas ac;6es, assim como a

adesao de suas clientelas e as atenc;oes das agencias governamentais. Eles competiriam também na luta pela manipulac;ao

de imagens pela mídia, assim como por sua atenc;ao. McCarthy

e Zald utilizaram metáforas avanc;adas do capitalismo burocratizado para descrever as relac;6es entre movimentos e grupos de

interesses, assim como suas relac;6es com outras parcelas da

sociedade. Eles trabalharam com categorías como "organizac;ao

de movimentos sociais". Isto porque os movimentos seriam estimulados nao apenas pelos interesses de seus membros, mas

também pelos de agentes governamentais, entidades particulares e muitas outras organizac;6es interessados na promoc;ao do

produto objeto de demanda do movimento ou que ganhariam

algo com ela.

Os movimentos que teriam sucesso seriam aqueles que possuíssem atributos de urna organizac;ao formal hierárquica. Seus

líderes eram seus organizadores: profissionais com dedicac;ao

integral ao trabalho e capacidade para mobilizac;ao efetiva de

suportes externos. Podemos observar que os pioneiros da MR

concebiam os movimentos sociais em termos de um setor de

mercado, livre, em competic;ao com outros grupos, num mercado �berto de grupos e idéias. Os movimentos competiriam com

outras organizac;6es, nao-movimentos, para obter adeptos, recursos, e no cálculo e execuc;ao de suas tarefas.

Teorias contemporfineas norte-americanas da a1;iio coletiva e dos MS 53

A mobiliza<;ao das bases do movimento é também analisada

segundo a ática económica. Existiria um modo de administra<;ao

empresarial dos recursos disponíveis e as bases demandatárias

seriam um deles. As estratégias de mobiliza<;ao de recursos financeiros junto as bases - demandatárias ou simpatizantes

das causas em a<;ao - seriam cuidadosamente planejadas. O

correio, a mala direta, os eventos, a utiliza<;ao de urna rede de

infra-estrutura de apoio - escolas, igrejas,. sindicatos, associa­

<;ües etc. - seriam instrumentos básicos para viabilizar a mobili- ,

za<;ao. Em síntese, os movimentos nao deveriam ser analisados/

apenas como se analisa urna organiza<;ao empresarial. Eles seriam, por si sós, indústrias económicas.

Zald e McCarthy subdividiram os movimentos em duas

grandes categorias: de consenso e de conflito. Os primeiros nao

produziriam as mesmas mobiliza<;ües que os segundos, mas

poderiam até obter mais sucesso, dado sua maior possibilidade

de aceita<;ao pela sociedade e, conseqüentemente, de mobiliza<;ao

e apoio para a obten<;ao de recursos financeiros. Esta classifica­

<;ao norteou o trabalho de vários pesquisadores nos Estados

Unidos ao longo dos anos 70 e 80, sendo ainda bastante utilizada nos anos 90. Em 1988, McCarthy, em colabora<;ao com

Woolfson, aprofundou aquela tipologia inserindo a questao da

mudam;a social. Os movimentos da esfera do conflito objetivariam mudam;as sociais - como os movimentos feminista, dos

trabalhadores, de pessoas pobres, pelos direitos civis etc. Os

movimentos na área do consenso - que nao contestam a ordem

e o status quo vigente - buscariam apenas alargar algumas

fronteiras dentro de seus objetivos. Mas estas considera<;oes

foram feitas nos anos 80 e já se referem a outra etapa do paradigma norte-americano.

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