O Estado é, na análise de Castells, o grande elemento responsável pela coesao social. Ele tem a capacidade de regular as
1· �la<;6es políticas de classe, desempenhando um papel de árbitro,
c·onforme destacou Lojkine ao criticá-lo. O Estado integraría e
11nificaria o conflito social. "O movimento social é entao definido por sua exterioridade ao poder do Estado, seu grau de 'pu
,. •za' consistindo na sua capacidade de emergir 'fora' da cena
política e das organiza<;6es partidárias" (Lojkine, 1980: 3 10). A
planifica<;ao urbana seria o grande instrumento gerador de mudan<;as sociais, por meio de estratégias de domina<;ao, integra<;ao
ou regula<;ao das contradi<;6es existentes, em políticas públicas
ou pela institucionaliza<;ao das demandas via órgaos disciplinares.
Neste sentido suas análises se aproximam bastante das norteamericanas, na corrente teórica da Mobiliza<;ao Política.
Nos anos 90, Castells retoma estudos sobre movimentos
HOciais trabalhando com análises comparativas. Ele realiza em
13erkeley - universidade em que se estabeleceu nos anos 90 -
u rna pesquisa sobre os Chiapas, do México (Castells, 1996).
, 'abemos que os Chiapas despertaram interesse internacional
pela forma básica de se comunicar - por meio da Internet. (P.
Rich e G. D. Los Reys - 1996 -, entre outros, também tem se
dedicado ao estudo deste movimento.)
1 96 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais
3.2 - Jordi Borja
Outro autor que analisa os movimentos urbanos sob o pri
ma histórico-estrutural, e que teve grande importancia nos pr1
meiros trabalhos sobre os MSU, é o espanhol Jordi Borja. BI
define "movimentos reivindicatórios urbanos como as ac;;oes colu
tivas da populac;;ao enquanto usuária da cidade, quer dizer, d
habitac;;oes e servic;;os, ac;;oes destinadas a evitar a degradac;;ao d
suas condic;;oes de vida, a obter a adequac;;ao destas as novas n
cessidades ou a perseguir um maior nível de equipamento. Esta11
ac;;oes dao lugar a efeitos urbanos (modificac;;ao da relac;;ao equipa
mento-populac;ao) e políticos (modificac;ao da relac;ao da popula
c;;ao com o poder no sistema urbano) específicos, que podem chegar
a modificar a lógica do desenvolvimento urbano" (Borja, 1975: 12).
Os elementos básicos da noc;ao de movimento social reivin
dicatório sao: ac;oes coletivas, utilizac;;ao da teoria marginalista do
usuário e necessidades coletivas. Ele distingue trés tipos de conflitos que geram os MSU. O primeiro envolve os agentes urbanos,
particularmente o Estado e a populac;ao usuária da cidade, e gira
ao redor dos equipamentos coletivos e da moradia, tendo has ¡.¡
sociais definidas em termos territoriais. O segundo é o conflito
entre o Estado e os capitalistas privados em relac;ao a reproduc;ao
de meios de produc;;ao para a vida cotidiana, como infra-estrutura, custos da reproduc;ao da forc;a de trabalho, uso da terra urbana e políticas urbanas etc. Aqui o papel dos técnicos do aparelho
estatal é muito importante, como elemento aguc;ador das contradic;;oes ao redor do Estado e suas relac;oes com as populac;;oes
demandatárias. Este ponto foi bastante importante na leitura
feíta de Borja nos países latino-americanos que estavam sob ditaduras militares. Seu destaque contra a neutralidade e racionalidade imparcial dos técnicos fundamentou muitos planos entre as
alas da esquerda engajadas na luta pela redemocratizac;;ao, ajudou que se desenvolvessem estratégias de formac;;ao dos quadros
estatais que cuidavam diretamente das políticas sociais, por meio
de cursos, seminários, encontros etc. O terceiro tipo de conflito
relaciona-se com a competic;ao entre os capitalistas, entre o grande e o pequeno capital, entre setores rentistas e os diretamente
produtivos. Aquí podem-se ter alianc;;as as mais díspares, inclusive do capital com movimentos populares contra o Estado.
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O paradigma marxista na análise dos mouimentos sociais 1 97
A estrutura expressa sempre a correla<;:ao de for<;:as e as mud11 rH;as sao mediadas pelas conjunturas políticas. Os conflitos tem
d ll"rentes fases e o impacto de um movimento é mediado pela
1 1maniza<;:ao interna do movimento assim como pela rea<;:ao dos
11pnrelhos de Estado. Neste sentido eles contribuem para as mud11 n<;:as na conjuntura política. Borja nao ve os movimentos como
1 1 11 >Lor de processos revolucionários e afirmava que quem assim os
v( secesquece do papel da ideologia dominante junto a eles, assim
1·orno do caráter secundário das contradi<;:6es urbanas. Borja classi1 c:ou os movimentos urbanos entre as classes populares em tres
l lpos: reivindicatórios, democráticos e de situa<;:ao dual de poder.
( )H primeiros sao movimentos baseados em urna ou mais contradi
·o 'S específicas, de resistencia ao capital mas de impacto mínimo
1>11 estrutura urbana. Os segundos envolvem urna série de demandns ao redor do consumo e da administra<;:ao urbana, assim como
11rn torno do sistema produtivo. Reivindicam políticas democráti1·11s urbanas, democratiza<;:ao de institui<;:6es locais, reformas urba1 111s, acesso democrático a moradia etc. O terceiro é um tipo espec· ial e só ocorre em determinadas situa<;:6es, como na Rússia em
1917. Eles tem a capacidade de transformar a estrutura urbana
n dao origem a novas formas de administra<;:ao, como a democracia
c·omunal, a justi<;:a popular etc. Surgem ou correspondem a períodos de crise social e também tem bases territoriais. Por isso necesHi Lam estar articulados, e subordinados, a lutas unificadas do
proletariado, assim como precisam de muitas alian<;:as políticas.
A contribui<;:ao de Borja situa-se portanto na análise das conLradi<;:6es urbanas, ao contrapor as necessidades geradas pelo próprio
processo de acumula<;:ao, tanto para o desenvolvimento da produ<;:ao,
propriamente dita, como para a reprodu<;:ao da for<;:a de trabalho. O
papel do Estado é destacado como agu<;:ador dessas contradi<;:6es.
l�ntretanto, a no<;:ao de sistema urbano torna sua análise um tanto
rnecanicista. A abordagem dos movimentos sociais é vista em termos
de fenómenos/produtos de rela<;:6es naturais. A certas necessidades
correspondem determinadas a<;:6es, que geram certos efeitos, e estes
legitimam as a<;:6es. A matriz teórica aqui nao é a marxista mas a
weberiana.
Nos anos 80 Borja continuou a produzir sobre o tema urbano, tratando das reformas e remodela<;:6es do espa<;:o físico-t rri-
1 98 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais
torial que viessem a alterar certas práticas sociais coletivaH.
Nos anos 90 participa ativamente da política administrativa d
Barcelona e consolida sua visao do processo de intervern;ao ur
bana a partir de premissas político-partidárias da social-demo
cracia. No Brasil ele passou a ser um interlocutor de algumaH
secretarias de Estado preocupadas com os processos de reno
vac;ao urbana, principalmente em administrac;oes ocupadas pelo
PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira.
3.3 - Jean Lojkine e a luta de classes na análise
dos movimentos sociais
J. Lojkine entendia os movimentos sociais como o lugar d
decomposic;ao da hegemonía dominante. O lugar de aparecimento
de urna nova hegemonia. A política é entendida também, e sobr -
tudo, como "o lugar onde se efetua a transic;ao de um modo d
produc;ao para outro, onde a luta de classes é levada 'até o fim"'
(Lojkine, 1980: 291). Portanto, os movimentos sociais sao vistoH
como "o mais alto grau de expressao da luta de classes", com poderes nao apenas de opor-se a classe dominante, mas também, e
fundamentalmente, de elaborar urna contra-hegemonía, segundo
os termos de Gramsci. Os movimentos sociais, enquanto expressao da luta de classes, necessitariam de um partido político capaz
de representar os interesses das classes dominadas. Observa-se
que há urna composic;ao das referencias de Gramsci com algumaH
posturas leninístas que enfatizam a questao da luta de classes
da necessidade do partido político. A teoría do capitalismo do
Estado monopolista, do PC frances dos anos 70, alicerc;ou as proposic;oes do autor. O conceito de "bloco de poder" de Poulantzas,
bastante utilizado na abordagem de Castells, foi descaracterizado
e substituído pela análise da subordinac;ao do Estado aos interesses do capital monopolista. lsto teria levado a urna convergencia
dos interesses do proletariado com setores nao-assalariados.
Lojkine esboc;a urna primeira definic;ao de movimento social
como aquele que se "caracteriza primeiramente pela capacidad
de um conjunto de agentes das classes dominadas diferenciar-s
dos papéis e func;oes pelos quais a classe (ou frac;ao de classe) dominante garante a subordinac;ao e a dependencia dessas classe
O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 9<
il11nri nadas com rela<;ao ao sistema socioeconómico em vigor"
11 180: 292). Esta defini<;ao deve ser explicitada para nao correr1110H o risco de interpreta<;oes funcionalistas e sistemicas (papéis
1 l 1 1 n<_;6es). A categoria central é dada pela capacidade de diferen1 n�ao, pois é esta que leva a forma<_;ao de for<;as embrionárias,
1 1 111lestatárias do poder.
Posteriormente, Lojkine define movimento social a partir da
1 11mbina<;ao de dois processos sociais, a saber: primeiro, um pro1 1 1Hso de "pór-se em movimento" de classes as fra<;oes de classes e
1 1 1rnadas sociais. Este processo define a intensidade e a extensiio
fo ampo social) do movimento, dadas pelo tipo de combina<_;ao que
1111 a base social e a organiza<;ao do movimento. Esta primeira di111 •nsao define a natureza sociológica das classes sociais que se
p11seram em movimento, assim como sua for<;a social, resultante
ria a<;ao da organiza<;ao sobre urna dada base social. Segundo, um
p1·ocesso que define a dimensao do movimento social como o "de11fio político do qual é portador".
Isto porque "o alcance histórico real de um movimento social
pode ser definido pela análise de sua rela<;ao com o poder político".
I•: dessa rela<;ao que surge a possibilidade de transforma<;ao do
1 istema socioeconómico no qual surgiu o movimento. O que permi1 i rá qualificar esse desafio será "a análise do conteúdo ideológico
1 político das reivindica<;oes apresentadas pelo rnovimento social,
1 lus a<_;oes propostas realizadas". Ou seja, essa análise permite
qualificar a "capacidade de questionamento da hegemonia política
da classe (ou fra<;ao de classe) dominante" ( 1980: 301). Lojkine
chama a aten<_;ao do poder da ideologia dominante sobre a sociedade e afirma que "urna classe dominada nao foge disso esponta11 amente". "É sempre a combina<;ao da a<;ao política de urna organ iza<;ao de classe independente com a sua 'experiencia' que vai
1 he dar a possibilidade de libertar-se realmente de sua servidao
ideológica" ( 1980: 299).
Observamos na defini<;ao acima que Lojkine avan<;ou bastante em rela<;ao a sua constru<_;ao anterior. Destaca-se a enfase
na capacidade de o movimento social transformar o sistema socio
•conómico do qual emergiu. Ele recuperou a concep<_;ao de movirnento social reformista/revolucionário utilizada por Hobsbawm,
por exemplo, no sentido de que a transforma<;ao nao é sinónimo
200 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais
de mudarn;a progressista, pois poderá também ser urna mudan<;
reformista ou reacionária.
Outro aspecto importante na interpretac;ao analítica d
Lojkine diz respeito a combinac;ao das ideologías e práticas d
base social do movimento com as práticas da organizac;ao qu
o puseram em marcha. Essa combinac;ao permitirá situar o
movimento na luta de classes propriamente dita, pois, a med l
da que nao existe movimento puro enquanto movimento social,
será da articulac;ao das forc;as que o acionaram - portanto do
conjunto de interesses que se aglutinam e constituem o movi
mento social como tal - que poderemos extrair os conflito
existentes e seu desafio político.
Os movimentos sociais urbanos
Partindo da noc;ao de urbano como um dos lugares decisi
vos da luta de classes e do processo de urbanizac;ao como part
da divisa.o social (e territorial) do trabalho, Lojkine afirma qu
nao há análise de movimento social urbano independente d
análise da articulac;ao com "movimentos sociais ligados a produ
c;ao" e que evoquem diretamente a questao do poder político. Ou
seja, um simples movimento reivindicatório só se transform
efetivamente em movimento social urbano se articular soment
os interesses fundamentais de urna classe, conflitantes e contra
ditórios. E isso só ocorre se houver urna articulac;ao com a lutu
política geral. Ele define movimento social urbano como "qucH
tionamento da nova divisao social e espacial das atividadeH
monopolistas nos grandes centros urbanos, por meio do fenómeno
da segregac;ao hábitat/trabalho". O urbano é visto como "o luga r
privilegiado da reproduc;ao socializada da? forc;as produtivaH
humanas e materiais, e portanto, ao mesmo tempo, do trabalha
dor morto e do trabalhador vivo" ( 1980: 3 13).
A definic;ao acima remete a reflexao das relac;6es que Sl'
dao no ambito das estruturas de produc;ao, relac;oes geradoraH
de vários processos sociais, destacando-se os de pauperizac;ao t•
espoliac;ao da forc;a de trabalho. Pensar o fenómeno da segrega
c;ao hábitat/trabalho significa pensar na divisao social do traba
lho no interior da sociedade. A distribuic;ao espacial da popula-
O paradigma marxista na análise dos mouimentos sociais 20 1
1 no Lem um caráter socioeconómico, sendo um reflexo da divisao
11 ·ial do trabalho e urna extensao dela. Assim, a explorac;ao da
1 1 11to-de-obra, que ocorre no ambito da produc;ao, corresponde a
l 1111 Los outros processos no ambito do local de moradia quanto
11 qualidade de vida, no que se refere a bens, servic;os e equipa111<111tos. Sao os processos de espoliac;ao e pauperizac;ao da classe
l r·n balhadora.
Os Movimentos Sociais Urbanos tem, para Lojkine, "a posl bilidade de contestar, diretamente, nao só o poder económico da
dnsse dominante, mas também o modo de reproduc;ao do conjunto
dn formac;ao social, tanto económica quanto social". Segundo o
nntor, a novidade dos atuais movimentos sociais urbanos, no capilnl ismo monopolista, está na articulac;ao das "antigas" e novas
rnntradic;oes no urbano dadas por: oposic;ao entre o financiamento
du aglomerac;ao dos meios de produc;ao e dos meios de consumo
t"Oletivos; esmagamento da forc;a de trabalho pelo uso exclusivarnente industrial do espac;o urbano; novas contradic;oes trazidas
p la mobilidade espacial e temporal do capitalismo monopolista;
t as novas formas de autonomizac;ao social e espacial das func;oes
t •conómicas das empresas monopolistas.
Observa-se em todas as colocac;oes acima que a análise movese o tempo todo por critérios muito precisos, racionais, os movirnentos parecem mais elementos de um plano estratégico do que
fontes de qualquer inovac;ao. A cultura é totalmente ignorada.
Nos anos 80, Lojkine também abandona este tipo de estudo e
análises, passando a se interessar por outiros temas de desenvolvimento do capitalismo.
4 - As abordagens históricas contemporaneas
na abordagem marxista
4. 1 - Eric Hobsbawm e as eras dos movimentos
Entre os analistas marxistas contemporaneos, Eric Hobsbawm é sem dúvida alguma um dos mais importantes. S us
estudos históricos tem sempre a preocupac;ao de recuper r as
202 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais
condi<;oes concretas de vida das classes trabalhadoras, suas lutas,
movimentos e projetos. A era do capital, um dos mais conhecidos textos de Hobsbawm, apresenta urna série de contribui<;:oes
para a constrw;ao da categoría movimento social, assim como
importantes subsídios para a compreensao de como abordá-la
do ponto de vista metodológico. Para o autor, os trabalhadores
europeus do século XIX foram empurrados para urna consciencia
comum nao apenas pela polarizagao social, mas por um estilo comum de vida, principalmente no meio urbano, no qual a taverna
era como a igreja do trabalhador europeu do século XIX. Ela
tinha um papel central na vida social e associativa, assim como
na formagao de um estilo comum de pensamento. Era o espago
de liberdade e de socializagao de informagoes, produzindo novas
interpretag6es. N este contexto histórico, a associagao - a formagao livre e consciente de condigoes democráticas para melhorias e defesa social - era a fórmula nova da época. Por meio
delas se desenvolveram os movimentos trabalhistas que abandonaram o liberalismo.
Em 1959 Hobsbawm demarcou urna diferenga fundamental nos estudos dos movimentos sociais ao distinguir, numa
nota de rodapé de um de seus livros, os movimentos revolucionários dos reformistas. Segundo ele, estes últimos "aceitam a
estrutura geral de urna instituigao ou de um sistema social, ou
a consideram capaz de aperfeigoamento ou de reformas onde os
abusos se manifestaram; os revolucionários insistem que ela
<leve ser transformada fundamentalmente ou, entao, substituída
(Hobsbawm, 1970). Por meio da separagao de critérios no estudo
da diferenciagao entre os reformistas e os revolucionários, o autor
chama a atengao para um ponto essencial: os comportamentos
diferenciados que advem das suas modalidades de agües e, conseqüentemente, o desenvolvimento e os efeitos de ambos serao também diferentes em termos de organizagao, estratégia, tática etc.
Na década de 90, Hobsbawm publica A era dos extremos,
urna grande leitura do século XX que ele chama de breve. Ali ele
trata das mudangas económicas e culturais no mundo contemporaneo e destaca o declínio do movimento operário após 1960
e o surgimento de novas forgas sociais, entre elas os partidos
verdes e os novos movimentos sociais, que reivindicam um novo
O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 20.1
l ugar na esquerda. Destaca que a maioria dessas for«;as rejeiiaram o universalismo da política democrática e cidada em favor
da política de alguma identidade grupal, utilizando-se de procedimentos em que há urna clara rejei«;ao as velhas formas de
l'azer política da esquerda. A adesao dos jovens aos novos movirnentos sociais, particularmente os de natureza ecológica, é inLerpretado em termos de mudan«;as culturais. Estes novos processos sao chamados "política de identidade", étnica/nacional ou
religiosa. Hobsbawm os interpretava como movimentos nostálgicos "que buscavam recuperar urna hipotética era passada de
ordem e seguran«;a, sem problemas. Tais movimentos eram mais
gritos de socorro que portadores de programas-gritos pedindo um
pouco de 'comunidade' a que pertencer num mundo anómico;
um pouco de família a que pertencer num mundo de seres socialmente isolados; um pouco de refúgio na selva" (Hobsbawm, 1995:
334-335).
Hobsbawm também analisa as revolu«;oes ocorridas no século
XX e chama a aten«;ao para dois pontos ao final desta época: a
atrofia da tradi«;ao de revolu«;ao estabelecida e a revivescencia das
massas. Ele destaca que poucas revolu«;oes desde 1917-18 foram
feítas a partir das bases: "A maioria o foi pelas minorías de ativistas
dos engajados e organizados, ou impostas de cima, como por golpes de exército ou conquista militar, o que nao significa que nao
tenham sido, nas circunstancias adequadas, autenticamente populares ... O ativismo de minorías, em forma de guerrilhas e terrorismo rurais ou urbanos, continuou, e na verdade se tornou
endemico no mundo desenvolvido e em partes significativas do sul
da Ásia e da zona islamica" (Hobsbawm, 19B5: 443).
4.2 - As análises de E. P. Thompson e
o papel da experiéncia
Seguindo a trilha de Hobsbawm, E. P. Thompson elaborou
a partir da década de 50 estudos brilhantes em que resgata a
história das classes trabalhadoras inglesas, abrangendo aspectos pouco estudados até entao.
Thompson retoma urna categoría básica de análise, nos marcos do materialismo histórico, que é a da experiencia histórica e
204 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais
cultural das pessoas. Adotando urna postura teórico-metodológicu
nada ortodoxa, ele se propoe a trabalhar com as experiencias daH
pessoas nao apenas como simples atos de idéias mas também
como sentimentos, valores, consciencia, enfim, experiencias acumuladas que se sedimentaram. Experiencia como práxis que envolve urna reflexao pessoal e do grupo social e nao apenas como
urna categoria de análise do pesquisador; experiencia como um
produto que surge na luta, na luta de classes. "Pela experiencia
os homens se tornam sujeitos, experimentam situac;oes e relac;oes
produtivas como necessidades e interesses, como antagonismos.
Eles tratam essa experiencia em sua consciencia e cultura e nao
apenas a introjetam. Ela nao tem um caráter só acumulativo. Ela
é fundamentalmente qualitativa" (Thompson, 1981).
Em suma, Thompson retrabalha questoes tais como valores, cultura e teoria política, de forma crítica, desmistificando
os argumentos que situam a experiencia como sinónimo de empirismo. Situa a experiencia como estatuto da práxis humana.
Podemos observar em suas formulac;oes que ele nao só retoma
o caminho trilhado pelos historicistas e pelos teóricos da consciencia, como Lukács, mas bebe em fontes da historiografia francesa
do grupo da revista Annales (M. Bloch e L. Febvre, por exemplo), os quais deram a história urna dimensao viva e atuante,
problematizando-a, trabalhando o campo das mentalidades coletivas, das crern;as, dos mitos, rituais, símbolos etc. Tudo isto
sem ir pelo caminho da fenomenologi::i., das percepc;oes e das
sensac;oes; e nem pela análise da semiótica, da codificac;ao do
conteúdo dos discursos. Ele segue a trilha deixada pelos próprios atores na história, em suas diferentes manifestac;oes, nos
locais vivenciados e por meio dos registros e memórias existentes. Situa e contextualiza seus personagens, para depois recuperar a trama e o drama de seu cotidiano. O aspecto mais relevante da análise de Thompson é que ele ve as classes como um
processo em formac;ao. É a luta que as forma. Nao se ignoram as
condic;oes materiais objetivas, elas sao cruciais, porém sem um
poder de determinac;ao exclusivo e final. A classe se constrói na
luta, daí a importancia do conceito de experiencia.
Para a análise dos movimentos sociais populares o legado
metodológico de Thompsom nos leva a observar o cotidiano das
O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 205
1·11madas populares, no sentido de apreender como o vivenciam. A
1"11Luagao de carencia ganha relevancia, nao pela objetividad da
rnisa em si, mas pela forma como as pessoas vivenciam as carenl'ias. Os sentimentos de injustiga e de exclusa.o surgem d sta
vivencia e podem, em determinados contextos, expressar-se socialrn nte como revolta. Sao momentos de ruptura da ordem na vida
das pessoas e nao da ordem social mais ampla. Thompson retoma
11 �déia marxista da classe como sujeito, da classe como categoria
h istórica, ampliando seu significado, enquanto relagao. A cons
·iencia vai sendo gerada na luta. Nao há um projeto político prev iamente demarcado, ele se constrói na práxis.
Thompson trabalha com urna importante categoria analítica gramsciana, contribuindo para a construgao de urna teoria
Hobre os movimentos sociais que é a de campo de forgas. Situando a análise num quadro de lutas de classes, como um processo
ativo e dinamico, permeado de conflitos e contradigoes que emanam de pólos com interesses antagónicos, cria-se um campo de
forgas. Este campo tem a ver com a idéia de relagao das forgas
sociais, políticas e militares, com as possibilidades e os limites dos
agentes em luta. As condigoes que configuram o processo de luta
nao sao apenas económicas mas, fundamentalmente, políticas e
culturais. A experiencia vivida e percebida pelos agentes, enquanto
um modo cultural, determina também os valores e as agües.
Por meio das análises de Thompson pode-se apreender as
formas pelas quais se formam os mecanismos de resistencia a
opressao, de rebeldia a ordem dominante, de luta pela manutengao
dos costumes e tradigoes, de construgao dos protestos. Os motins
do século XVIII aparecem, nos textos de Thompson, como lutas
de resistencia das turbas urbanas e, ao mesmo tempo, ultraje aos
símbolos da modernidade. Já no século XIX as lutas populares
avangaram no sentido de constituir núcleos e pólós de identidade:
e a organizagao popular em unioes e ligas. O motim é pré-político;
ancorava-se nas tradigoes, na moral. As uni6es sao formas políticas, ancoram-se em interesses de classe, económicos.
Algumas questoes podem ser problematizadas a partir destas posigoes: até que ponto a categoria da experiencia pode s r
universalizada? Ela dá conta de pensar a totalidade? No Bras il,
206 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais
por exemplo, onde nao há urna classe operária marcada pelo
elemento da tradic;ao, como pensar suas lutas? Por outro lado,
as classes populares em geral sao marcadas por um passado
rural, no campo, em que a religiosidade demarca o tempo e os
espac;os de atuac;ao. Até que ponto este elemento nao explicaría
o sucesso da Igreja Católica na organizac;ao das Comunidades
Eclesiais de Base nos anos 70 e os movimentos sociais que
gerou nos anos 70 e parte dos 80. Ela estaría atuando como elemento agregador das situa�6es de fragmentac;oes socioculturais
existentes nas periferias urbanas? Seria urna referencia estruturante, reconstituiría as descontinuidades de um processo histórico que o capitalismo fragmentou?
Para concluir é importante registrar a preocupac;ao de Thompson com a unidade das lutas, com unificac;ao das experiencias.
Unificac;ao que projeta a luta num cenário mais amplo, dando
visibilidade aos demandatários, construindo urna cultura política
a partir da aprendizagem que a experiencia legou.
4.3 - George Rudé e o papel das ideologias
nos movimentos sociais
George Rudé é outro importante autor que seguiu a linha
de estudos históricos desenvolvida por Hobsbawm. Sua contribuic;ao situa-se tanto no ambito do resultado de suas pesquisas
como no das metodologías que elaborou. Rudé preocupou-se com
a identidade do homem cornum, do participante anónimo dos
motins, manifestac;oes e revoluc;oes ocorridas sobretudo nas sociedades pré-industriais. Quem eram os atores e por que agiram daquela forma sao suas indagac;oes básicas, dentro de um
marco referencial teórico ero que a ideología do protesto ocupa
lugar de destaque. A ideología é vista como instrumento de luta
e mudanc;a social.
A partir de Gramsci e de sua construc;ao sobre o processo d '
elaborac;ao de contra-ideologías para destruir a hegemonía da
classe dominante, ele estuda as ideologías populares num campo
bastante amplo: o da ideología como um dos elementos consti·
tutivos de urna classe social. As ideologías populares sao apreendidas por meio do estudo das crenc;as, mentalidades e sensibili-
O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 20 /
dades efetivas, assim como pelo estudo das formas de difusa.o dm1
novas idéias e crern;as. Os principais tipos de fontes de dados d
seus estudos foram documentos militares e policiais; material d
arquivos judiciais: processos, senten9as, confissoes; e documenta9ao de tipo político: decretos, leis, debates parlamentares originários de subleva9oes sociais etc.
'
Rudé propos urna distin9ao geral entre multidao industrial
e multidao pré-industrial, argumentando que isto se fazia necessário dado o caráter diferenciado das subleva9oes populares
ocorridas nas sociedades pré-industriais, quando comparadas
com as ocorridas nas sociedades industriais. O ano de 1840 é
um ponto de ruptura entre as duas formas.
Do ponto de vista metodológico, Rudé nos proporciona um
guia eficaz para o estudo dos movimentos sociais: primeiro, localiza-se a explosao em seu contexto histórico. Segundo, delimita-se
a composi9ao e a dimensao da multidao atuante segundo os grupos
sociais que a compoem, a base social e a sua origem, ocupa9ao
'te. Terceiro, estuda-se o tipo de atividade da multidao, quais as
vítimas e os alvos dos ataques, assim como os objetivos, idéias e
motivos da explosao, suas cren9as coletivas, enfim, tudo que diz
respeito a fatos que levem a compreensao do porque da subleva9ao.
Em quarto lugar, Rudé destaca o grau de eficácia da repressao,
onde se pode observar o grau de efetividade do domínio social e
a capacidade de organiza9ao dos revoltosos. Finalmente, em quinto
l ugar, busca-se estabelecer a cronología da rebeliao, avaliando
Heu significado histórico e comparando-a com outros fenómenos
H imilares. Esta etapa gera um esbo90 da própria interpreta9ao,
'tapa final do trabalho.
0 PARADIGMA
LATINO-AMERJ(;ANO
2 1 2 O paradigma latino-americano
que estes programas sao relativamente recentes ou inexisten·
tes na grande maioria dos países latinos. Apenas Brasil, Méxi·
co, Argentina e Chile tém já urna tradic;ao firmada na área. É
importante registrar que o número considerável de trabalhos
sobre os movimentos sociais criou urna identidade temática entr
os pesquisadores, que passaram a se definir nao como sociólo·
gos, politicólogos etc., fuas como pesquisadores dos movimento11
sociais. O exame das características gerais destes trabalhos dev
ser precedido de urna breve leitura s9bre as análises corrente11
nas ciencias sociais latino-americanas nos anos 60 e ·10. Est
leitura nos possibilitará compreender a importancia que 011
estudos sobre os movimentos vieram a ter a partir dos anos 70,
a ponto de serem considerados urna área de renovac;ao da pro·
duc;ao de conhecimentos no contexto latino-americano, apesar
da pequena teorizac;ao realizada.
1 - Trajetória dos estudos anteriores:
as teorias da moderniza�ao, da marginalidade
e da dependencia na América Latina
A despeito das diferenc;as entre os processos histórico-cut
turais, que geraram proceSSOS economicos, políticos e SOCiaÍH
totalmente distintos, a utilizac;ao na América Latina d�odt•
los teóricos produzidos na Europa e nos Estados Unidos tem
longa tradic;ao, A teoría sobre a modernizac;ao que proliferou
nos anos 50 e 60 partia de modelos comparativos entre os pro
cessos históricos ocorrddos nos países de industrializac;ao ava n
c;ada e a América Latina, para citar um dos exemplos. Ela levou
a (abordagens evolucionistas e eta pistas e a diagnósticos equ i
vocados. A 'questao da marginalidade ocial"lfoi tratada como
um problema cultural a f
ser resolvido por intermédio de proccH
sos da educac;ao formal ou com o tempo)- quando o país H
desenvolvesse OU O "bolo" economico-desenvolvimentista CTl'H
cesse. A maioria das teorias elaboradas pela CEP� (Comiss o
Economica para Desenvolvimento da América Latina) estav
fundada naquele paradigma dualista de interpretac;ao da rea li
dade social: urna face moderna e outra atrasada. A contribui�1 lo
daqueles estudos para a compreensao da realidade latino-amt•
Características e especificidades dos movimentos latino-americano.� 2 1 ,1
1·icana estava na enfase que se atribuía a participac;ao sociul
dos indivíduos (vistos isoladamente), como parte do processo de
1 i Legra<;ao social. Deve-se destacar o trabalho de Germani ( 1966)
1obre a participa<;ao das popula<;oes récem-migrantes nas zonas
1 1 rbanas e o de Solari ( 1966) com respeito a zona rural, assim
1•omo a participa<;ao dos estudantes na época. Lipset ( 1967)
l nmbém deve ser citado enqua:nto um dos autores que influencia1•1 1 m vários trabalhos em toda a América Latina .. Mas a ótica prin- J -
1·i pal destes trabalhos partia de um estudo sobre as elites e os
processos de desenvolvimento. Estudavam-se as estruturas do
l•:stado, dos partidos políticos, a composi<;ao das elites etc. Os grupos populares só eram citados enquanto elementos de integra<;ao
1 1queles processos mais amplos, com urna abordagem essencial111 •nte behavorista, de busca de assimila<;ao dos valores e modos
1 lt• comportamento as sociedades desenvolvidas.
A novidade da teoria da dependencia elaborada por Cardo1w e Falleto ( 1970). foi justamente chamar a aten<;ao para as
1 1¡.¡pecificidades · da América Latina, argumentando que nela o
d •senvolvimento deveria ser visto no contexto da dinamica glol>nl da economia. Criou-se urna outra via que fugia do dilema
11lapista/dualista da teoria da moderniza<;ao e do determinismo
cln teoria do imperialismo, onde tudo era interpretado como
1 ncra conseqüencia das diretrizes económicas dos países domi11antes. M_sis este deslocamento em busca das especificidades
1 1correu num momento de militariza<;ao generalizada da Améri1•1 1 Latina, quando a democracia foi interrompida por golpes
111 i l itares-:-Este fato veio a orientar a centralidade do olhar da
' I uela teoria para o Estado, para a nova ordem social e os me1•11 n ismos de controle da sociedade, para o planejamento econ6-
111 ico das tecnoburocracias estatais etc.
Entretanto, a teoria da dependencia possibilitou releituras
l nnto da realidade como das teorias existentes, abrindo cami11 ho para a análise crítica das várias correntes da teoria da
1 narginalidade feita por Kowarick ( 1975). A busca da especificic lude levou ao aprofundamento da análise: os marginais eram
produtos do próprio modelo capitalista implantado nos países
1 1bdesenvolvidos; o problema nao era integrá-los ou nao -
c•omo afirmava a. teoria da moderniza<;ao a respeito da margi
/
214 O paradigma latino-americano
nalidade - mas entende-los dentro da lógica do próprio processo
de acumula<;ao, pois eles - pessoas alijadas do mercado formal
de trabalho, atuando junto ao setor de servi<;os - desempenha·
vam um papel estratégico para esta mesma acumula<;ao. A
marginalidade passou a ser analisada a partir de entao nao
somente como resultado de process_os de exclusao, mas também
como condi<;ao prévia a acumula<;ao, num processo de superexplora<;ao da for<;a de trabalho nos, centros urbanos e de disponibilidade de um grande exército de reserva de mao-de-obra desqualificada, oriunda do campo - dado o processo de desagrega<;ao
das rela<;oes socioeconomicas neste setor. O campo sempre foi
um celeiro disponível para repor continuamente os trabalhadores da cidade, ou para complementar os ciclos da produ<;ao nn
cidade por meio de expedientes na economia informal que bara·
teavam os custos da própria reprodu<;ao da for<;a de trabalho.
Neste cenário, as principais lutas sociais se desenrolavam ao
redor dos sindicatos - atrelados a estrutura estatal mas com
poder de interlocu<;ao entre os trabalhadores da economia for
mal, os empresários e o Estado.
2 - Hipóteses sobre o porque
do uso dos paradigmas europeus
nas pesquisas sobre os movimentos sociais
A teoria da dependencia e a da marginalidade estrutural
abriram caminho para que se focalizassem outros processos sin
gulares da realidade latino-americana, e surgiram num mo
mento histórico importante: de crescimento económico, control11
social pelos regimes. militares, arrocho salarial dos trabalhado
res, supressao das liberdades individuais, crescimento das d
mandas de consumo das camadas médias, expansao do ensino
superior e da tecnocracia estatal. N este cenário de repressao
das lutas sociais, surgiram inicialmente fuoviinentos de resiH
tencia a dilapida<;ao da for<;a de trabalho je depois de _clamoruH
pela redemocratiza<;ao do país. Urna nova via de estudos iW
ampliou nas ciencias sociais, a dos movimentos sociais. Nest11
mesma época os ecos de movimentos sociais ocorridos nos anoH
60 na Europa e nos Estados Unidos ainda se faziam present H
rr
Características e especificidades dos movimentos latino-americanos 15
na América Latina, mas neste continente foram os movimenloH
populares que ganharam centralidade.
No Brasil, os estudos académicos estavam naquele momento
num grande processo de renovac;ao, com dezenas de novos pesquiHadores participantes dos recém-estruturados ou inaugurados
·ursos de pós-graduac;ao em ciencias sociais, ávidos por entender
o processos sociais que estavam ocorrendo e desejosos de participar de alguma forma da luta contra o regime militar, tendo em
vista o controle social e a ausencia de espac;os para o debate. A
reestruturac;ao e a expansao dos programas de pós-graduac;ao no
país possibilitou a criac;ao de tais espac;os. A onda de estudos sobre
os movimentos populares surgiu neste contexto e as bases teóricas
Pxistentes eram as já desenvolvidas na Europa. A teoria da dependencia era utilizada para compor o cenário histórico explicativo
11nterior ao surgimento daqueles novos movimentos. Mas aquela
t, oria nao se desenvolveu na direc;ao de explicar a sociedade civil,
porque estava centrada mais nas explicac;oes do modelo institucional, em nível macro, de desenvolvirriento da sociedade como um
odo, implementado pelas políticas estatais. E os movimentos nao
H enquadravam nos carninhos da institucionalidade existente. O
contato com algumas teorias européias, como a de Castells -
que além de focalizar a sociedade civil era também de um guia
para a ac;ifo, no sentido de que conferia importancia aos movimentos e os via como. elementos estratégicos de urna redemol'ratizac;ao do Estado e da sociedade em geral -, proporcionou
os elementos teóricos necessários a nova gerac;ao de pesquisadores. A produc;ao de conhecimento e a elaborac;ao de estraté1•ias políticas se cruzaram. Os estudos ficaram mais no plano
d scritivo porque a visibilidade aparente dos dados que se cole1,avam e se registravam era o que mais se destacava, num procesHO muito vivo, em que os discursos dos novas atores eram supervalorizados. Havia urna base teórica que consistia mais num
¡ruia de orientac;ao político-estratégica para as ac;oes futuras do
que num referencial explicativo sobre o passado imediato. Estas
li o, segundo nosso ponto de vista, e em breves linhas, as explirac;oes básicas sobre o porqué do uso das teorias européias e do
rnráter mais empírico da maioria dos primeiros trabalhos latin o-americanos sobre os movimentos sociais.
2 16 O paradigma latino-americano
Neste cenário, acrescente-se que a produc;ao latino-ameri·
cana sobre os movimentos sociais muitas vezes esteve bastant
permeada por pressupostos ideológicos que derivavam de ma·
trizes político-pragmáticas de partidos políticos. Isto ocorreu
porque certos movimentos sociais do final dos anos 70 e início
dos 80 eram express6es políticas de forc;as políticas nacionaiH.
As reflex6es teóricas embasaram-se mais nas teorías européia8
por ser esta mais crítica e articulada a pressupostos da nova
esquerda que aquelas forc;as políticas adotaram. Ignorou-se urna
extensa produc;ao norte-americana por ser considerada "funcionalista". Certamente nao foram estes fatos a impedir o desenvolvimento de urna teoria própria, adequada a realidade latina,
mas eles contribuíram para a incorporac;ao exclusiva das teorías européias.
Cumpre destacar ainda que nao estamos postulando um
paradigma explicativo isolado do contexto mundial, especialmente quando se trata da última década, a era da globalizac;ao.
Apesar das diferenc;as dadas pela situac;ao de pobreza e de
desigualdade na América Latina, há processos mais gerais que
perpassam as regi6es mais ou menos desenvolvidas industrialmente e que marcam as relac;6es sociais em geral. A análise do
cenário económico deve apreender estes processos e saber como
explicar seu desenvolvimento nas realidades em questao.
A influencia teórica européia inicial se fez predominantemente por meio do paradigma marxista, e isto também se explica pela predominancia deste paradigma nos meios academicos,
principalmente nas universidades públicas e nas chamadas
comunitárias, nos anos 7d; e pelos projetos concretos de luta
para a redemocratizac;ao naquele período, elaborados pela esquerda a partir de leituras gramscianas. As teorías norte-americanas, fundadas nas ac;6es coletivas dos comportamentos sociais, tradicionalmente consideradas funcionalistas, conservadoras e utilitaristas, nao eram nem lembradas. Na verdade,
diante da realidade pujante de movimentos engajados na luta
social em toda a América Latina, o paradigma norte-americano
entao vigente, da Mobilizac;ao de Recursos, nao fazia o menor
sentido. Mas houve grande confusa.o também entre a realidado
dos fatos e a teorizac;ao da realidade. Como grande parte doH
)
Características e especificidades dos movimentos latino-americanos 217
11 •ntistas sociaiS<io período estava engajada em lutas sociais
1•oncretas, a teorizac;ao e delineamento das tarefas necessát'IHS na luta social cotidiana se confundiram. Disto resultou
11ina certa rigidez do pensamento, que, pretendendo ser crítico,
P tornou algumas vezes dogmático.
Alguns analistas, baseados em leituras mecanicistas do
1r1arxismo, buscaram métodos e procedimentos que desvelasIPm a realidade social, sua aparencia enganosa, fragmentada e
1 l usória. Estes métodos deveriam ser construídos por interméd io do pensamento abstrato, a partir de fatos da realidade. Este
procedimento seria o caminho que levaria a determinac;ao da
verdadeira natureza dos fat(j)S, de seu real significado, dentro
de um conjunto de significados, de forma que se articulassem a
11ma totalidade e nao fossem mais fatos isolados e aparentemente sem sentido. Entretanto, observa-se que naquele período, junto a preocupac;oes metodológicas advindas da dialétic ,
ocorriam também leituras deterministas dos processos de mudanc;a e transformac;ao da sociedade, articuladas como planos
PStratégicos na cena política, gerando muitas vezes certa ig�
dez no pensamento científico-académico. Esta rigidez decorria
da separac;ao entre o fluxo dos acontecimentos onde se inseria
o fenómeno a ser estudado e os caminhos que a reflexao tomava, baseados em procedimentos predeterminados. A razao nao
operava com a liberdade necessária para captar os ecos e resHOnáncias que os fenómenos provocavam na :r:ealidade social. A
poderosa influencia ideológica também fazia com que aqueles
'COs tivessem de ser postos de lado, abstraídos, pois eram ruidos que perturbavam a busca das grandes determinac;oes dos
fenómenos.
A abordagem marxista foi sendo substituída pela dos novos
Movimentos Sociais ao longo dos anos BOJE esta teoria, confoFrne já discutido no capítulo IV, sempre esteve em desacordo e
negou a abordagem ortodoxa marxista, especialmente a correnLe leninista. É importante observar também que aquela teoria
nunca negou a teoria da ac;ao, quer em sua versa.o americana contemporánea, quer na alero� weberiana, quer na francesa durkheiminiana. Assim, vários analistas brasileiros, que sempre esLigmatizaram toda e qualquer abordagem americana como funcio-
218 O paradigma latino-americano
nalista-conservadora e se filiavam as européias por considerá
-las progressistas e críticas, absorveram vários conceitos e categorias do paradigma norte-americano por desconhecer o debate
que ocorria no cenário internacional e as interac;6es que estavam ocorrendo. O próprio conceito de redes sociais, bastant
utilizado no Brasil a partir dos anos 90, tem urna longa trajetória dentro da teoria das redes sociais, desenvolvida nos Estados Unidos, e nao é urna criac;ao da teoria dos Novos Movimentos Sociais, como muitos pensam.
A produc;ao norte-americana desenvolveu a partir dos anos
70 um diálogo com a produc;ao européia que provocou um enriquecimento da reflexao teórica para os dois lados. Este diálogo,
expresso em inúmeros debates, nao foi abordado no Brasil, o
país de maior produc;ao de estudos sobre os movimentos sociais
na América Latina. lsto nao quer dizer que o paradigma norte
-americano tenha se alterado substancialmente, mas ele se desenvolveu em novas frentes, aumentou muito sua produc;ao sobr<'
os movimentos sociais, e várias teorias foram criadas. Enquanto isso as teorias marxistas estagnaram e declinaram ao longo
dos anos 80. A dos Novos Movimentos Sociais cresceu e se firmou neste mesmo período, para depois também se estagnar nos
anos 90. Este cenário levou urna certa "orfandade teórica" aos
analistas latino-americanos nos anos 90, por estarem bastant '
presos ao referencial europeu.
3 - Estudos sobre os movimentos socia1s
na América Latina depois de 1970
A seguir passaremos a citar alguns dos estudos publicados
sobre os movimentos sociais latino-americanos, por autores latino-americanos, excluindo-se os brasileiros, que serao citados
no início do próximo capítulo - dedicado exclusivamente ao
Brasil. Agrupando-se os estudos por país, e selecionando-so
alguns dos trabalhos dos autores, ternos: no México os trabalhos de Calderón de avaliac;ao de movimentos sociais em dez
países da América do Sul, junto com Camacho ( 1987); Navarro
e Montezuma ( 1984) e Ramirez ( 1986) sobre os movimentos
Características e especificidades dos movimentos llltino-a111eric<111os 1 t¡
populares; Pradilha ( 1988) sobre quest6es da habita<;ao popu
lar; Ziccardi ( 1983) sobre assentamentos em áreas de fav J· 1:1;
Casanova ( 1994) sobre movimentos da lgreja; Massolo (19 5)
sobre movimentos de mulheres e Guevara ( 1988) sobre o movimento estudantil. O Chile também apresenta um número xpressivo de publica1;6es onde se destacam: Pastrana ( 1980)
Espinosa ( 1981) sobre movimentos de moradores; Garretón
( 1989) sobre as mobiliza1;6es populares na época do regime militar; Frank e Fuentes (1987), ensaio de teses sobre os movimentos
sociais; Razeto ( 1984 e 1992) sobre a participa.1;ao comunitária. Na
Argentina ternos os trabalhos de Jelin ( 1985 e 1996) e os de Laclau
(1980) sobre os movimentos na fase do populismo. Na Costa Rica
Lemos os trabalhos de Camacho sobre os movimentos populares
( 1983, 1985 e 1987). Na Colómbia os de Fals Borda ( 1985) sobre
movimentos de educa1;ao popular e os de Cora.ggio sobre movimenLos pela habitac;;ao ( 1992). Coraggio pesquisou também os movimentos populares na Nicarágua ( 1985). Lungo ( 1988) estudou os
movimentos sociais da América Central, com destaque para El
Salvador. Os trabalhos de Alvarez e Escobar ( 1992), nos quais se
destaca o movimento das mulheres, passaram a ser um marco
referencial aos pesquisadores da área. Embora Alvarez tenha publicado a maioria de seus trabalhos no exterior, ela é de origem
latino-americana e tem desenvolvido muitos trabalhos de pesquisa no Brasil.
Deve-se destacar também o grande número de estudos
realizados por pesquisadores estrangeiros sobre os movimentos
sociais latino-americanos, publicados em seus países de origem
e pouco conhecidos ou divulgados nos países objeto das invesLiga1;6es. Grande parte deles partiram de institui1;6es universitárias no exterior. O interesse de academicos europeus e norte
-americanos pela América Latina, nas últimas décadas, concenLrou-se em núcleos e institutos de estudos e pesquisas latino
-americanos criados nas universidades. Com as políticas de diversificac;;ao cultural dos anos 90, estes centros de pesquisa e
reflexao tem se fortalecido, recebido e enviado inúmeros pesquisadores a América Latina. Em relac;;ao ao tema dos movimentos
sociais destacam-se, além de Touraine ( 1988) e Castells (1974
e 1975), já amplamente citados em capítulos anteriores, Main-
2 () O paradigma latino-americano
waring ( 1985, 1986, 1988, 1992) em trabalhos sobre os movimentos articulados as Comunidades de Base da lgreja; Eckstein
( 1977 e 1989) sobre a questao do poder nos movimentos sociais
e sobre a pobreza no México; Evers ( 1983 e 1984) sobre movimentos populares no Brasil e no Chile; Assies, Burgwal e Salman
( 1990) sobre os movimentos populares e nao-populares em várias regioes da América Latina, com inclusao de levantamento
bibliográfico e tentativa de sistematizac;ao teórica; Foweraker
( 1990, 1993 e 1995) sobre os movimentos sociais no México,
sendo um deles específico sobre o movimento dos professores e
um de sistematizac;ao das influencias teóricas; Friedman ( 1989)
sobre os movimentos de bairros; Hirschman ( 1984) sobre as experiencias populares comunitárias; Perlman ( 1976) sobre as
favelas no Rio de Janeiro; Karner ( 1987) sobre a pobreza na
Venezuela; Janssen ( 1984) sobre movimentos por moradia em
Bogotá; Leeds ( 1974) sobre assentamentos urbanos; Levine
( 1989) sobre movimentos de base ligados a lgreja; Müller
-Pluntenberg ( 1979) sobre movimentos populares; Slater ( 1985
e 1988) sobre os novos movimentos sociais; Maciel e Ortiz ( 1996)
sobre os chicanos; Campbell, Binford, Bartolomé e Barabas
( 1993) sobre as lutas dos zapotecs; Scheneider ( 1995) sobre os
protestos no Chile na fase de Pinochet. Oxhorn ( 1995) também
estudou as lutas pela redemocratizac;ao do Chile; Stockes ( 1995)
sobre os movimentos sociais no Peru; Collier, Quaratiello e
Rosset sobre os chiapas, assim como Ross ( 1995), sobre a luta
dos indígenas mexicanos que assombraram o mundo nos anos
90. Arrom e Ortoll ( 1996) fizeram urna pesquisa histórica sobre
os riots na América Latina nos séculos XVIII e XIX. Destaco
que selecionamos nestas citac;oes apenas textos publicados em
livros, abordando pesquisas sobre a realidade dos movimentos
sociais. Certamente o número de pesquisadores internacionais
que trabalham com a América Latina é muito maior e na temática dos movimentos sociais outros autores, com bons trabalhos,
poderao estar fora de nossa listagem, já que nos detivemos
apenas naqueles que se tornaram mais conhecidos ou foram
mais divulgados.
Harber ( 1996) destaca que a literatura que analisou os
movimentos latino-americanos no período de transic;ao do regí-
Características e especificidades dos mouimentos latino-arnerica1108
me militar a democracia foi extremamente otimista sobr • a
habilidade dos movimentos em criar espa<;os na política. EsL •¡.¡
cstudos teriam dado mais aten<;ao ao processo de construgao da
identidade política nos anos 70/80 e meno� ao desapontamenLo
ocorrido no final dos anos 80 e nos 90. Harber afirma que as
análises nao deram destaque aos processos institucionais de
relagao com Estado, partidos, sindicatos e estruturas de poder.
Urna das explica<;6es ao' autor é a de que muitos dos trabalhos
publicados foram realizados por ativistas ou ex-militantes dos
próprios movimentos, que utilizaram o paradigma marxista
porque esta análise enfatiza os processos de mudan<;a social.
Cardoso ( 1983 e 1994) também fez o mesmo tipo de observagao,
a qual está carreta do ponto de vista da simples constatagao
empírica mas incorreta do ponto de vista analítico, por ignorar
que nao se tratava de atos de vontades de indivíduos isolados
- militantes, no caso -, mas da constru<;ao e execu<;ao de um
projeto de mudan<;a social para a realidade social. Voltaremos
a este ponto quando da análise do caso brasileiro. A ótica de
análise de Harber e Cardoso destaca os aspectos institucionais,
com grande aten<;ao para o papel do Estado e dos atores político-institucionais. A sociedade civil é pouco considerada, numa
abordagem que se aproxima mais da teo:ria de Mobiliza<;ao
Política.
A distribui<;ao dos movimentos em termos espaciais foi
bastante diferenciada na América Latina, embora tenham acorrido na totalidade de seus países. Nos países mais industrializados, os movimentos surgiram em princípio nos grandes centros, articulados a redes movimentalistas em que se destacam
a Ig:reja, os sindicatos e alguns partidos de oposigao ao regime
político na época. Dos grandes centros eles se espalhavam para
outras regioes. Nos países de estrutura económica de base mais
ag:rária, os pequenos vilarejos aglutinaram as a<;6es, com caráter mais de rebelioes, mais próximas dos modelos clássicos de
rebeli6es populares (Wolf, 1969). Os repertórios utilizados também criaram agendas diferenciadas para os movimentos: qucstoes étnicas, suprimento de generas e servigos sociais de prim ira
necessidade - onde o alimento tem centralidade - demandas
por terra e moradia, por educa<;ao, e demandas consideradas
222 O paradigma latino-americano
"modernas" ao redor de questoes de genero - com destaq1111
para as lutas das mulheres em todas as frentes (vide Navarro ,
1989).
O Brasil concentrou a maioria dos movimentos nas últimuH
tres décadas, talvez devido a sua extensa.o territorial, ao núml'
ro de sua populac;ao - comparada com a dos outros país 'H
latinos - e ao grau de desenvolvimento industrial do paíH,
particularmente na regiao sul. México, Peru, Bolívia, Venezuela
e Colombia também apresentaram muitos movimentos populares. No México destacam-se os zapatistas, principalmente noH
anos 70, e os chiapas nos anos 90, estilos de ac;ao coletiva no
meio rural com métodos de ac;ao muito diferentes; enquanto OH
zapatistas foram caracterizados como anticapitalistas por protestar contra agentes do capitalismo agrário que violaram as terras e culturas de seus ancestrais (vide Zamosc, 1989), os chiapas
utilizaram a Internet e toda a infra-estrutura do capitalismo
para denunciar a mesma opressao que sofrem há séculos (vide
Castells, 1996). Na área da educac;ao, o México teve movimentos sociais dos professores tao importantes quanto os do Brasil
(vide Foweraker, 1993). Na Bolívia, os movimentos de populac;oes pobres de origem indígena foram os predominantes, como
dos Aymaras, além de inúmeros movimentos e protestos de
trabalhadores das minas (N ash, 1989).
O Peru foi palco de um dos movimentos mais controvertidos da realidade latino-americana, o Sendero Luminoso, caracterizado como de guerrilha rural (Wickham-Crowley e McClintock, 1989). Em dezembro de 1996 e janeiro de 1997, o Movimento Revolucionário Túpac Amaru, criado em 1983, desenvolveu urna das mais audaciosas ac;oes no continente latino-americano do século XX: a invasao e o aprisionamento de mais de
seiscentas pessoas que participavam de urna festa em homenagem ao aniversário do imperador japones, na casa do embaixador do Japao no Peru. A ac;ao foi realizada por cerca de quinze
membros da organizac;ao e entre os convidados da festa, que se
tornaram reféns dos tupamaros, estavam vários embaixadores,
representantes civis e militares - membros do governo peruano -, assim como personalidades do mundo empresarial em
Luac;ao no Peru. Os líderes do grupo demandavam a libertac;ao
d11
pn
!)
/\ 1
1 1
1\
l'il l' ll ('11 l'C H �rt"�lrbcpcdLLno
( 'aracterísticas e especificidades dos mouimentos latino··americanos 22 \
d11 mais de trezentos de seus companheiros, presos no Peru
pj la polícia do presidente Alberto K. Fujimori nos últimos anos.
1) fato foi manchete nos jornais do mundo todo. O New York
n mes caracterizou, em seus editoriais, o movimento como "guer1 1 ha marxista'', transmitindo urna mensagem em que marxis1110 e guerrilha eram tratados como sinónimos. Após 126 dias de
1•11 liveiro, ainda restavam 73 reféns; por meio de uma ac;ao violenl 11 das Forc;as Armadas peruanas, comandada pelo próprio presid nte Fujimori (que contou com o apoio de potencias internacio1ulis), 72 dos reféns foram libertados, um morreu e os 15 guer1·i lheiros morreram massacrados.
O Chile teve ciclos bem diferenciados de movimentos sot' iais, pré-regime militar - fase de intensa participac;ao polítirn, que culminou com a eleic;ao de Salvador Allende; e fase da
rcdemocratizac;ao, depois da era militar de Pinochet (Razeto,
1 984; Valdez, 1986; Oxhorn, 1995). Na Argentina destaca-se um
grande número de movimento de direitos humanos, sendo o das
"Maes da Prac;a de Maio" o mais significativo na história da
Lransic;ao política do país.
Na América Central, Nicarágua, Guatemala, Haiti, República Dominicana, Costa Rica, Panamá e El Salvador apresenLam quadros específicos de movimentos sociais, relacionados
com processos de libertac;ao nacional, ou co:m a atuac;ao de
pastorais da lgreja e movimentos de comunidades de base, ou
com ambos. O assassinato do arcebispo Romero, em El Salvador, por exemplo, é um marco histórico naquelas lutas (vide
Levine, 1986, e Scott, 1986). A regiao do Caribe também registra movimentos sociais. Cuba, pelas características de seu regime político, tem um cenário específico na área da ac;ao coletiva:
ou organizac;oes de moradores baseadas em critérios geográficoespaciais em ambito local, voltadas para tarefas coletivas cotidianas organizadas pela planificac;ao e administrac;ao central;
ou campanhas coletivas - também organizadas pelos órgaos de
planificac;ao com o objetivo de criar frentes de trabalho em áreas
definidas como prioritárias. Citem-se ainda alguns pré-movimentos sociais, tipo insurreic;ao ou rebeliao, organizados no xterior, a partir de cidadaos que lutam pela transformac;ao do
regime político lá existente.
224 O paradigma latino-americano
4 - O que um paradigma teórico latino-americano
sobre os movimentos sociais deve considerar
em termos de categorias históricas
4.1 - Diferen<;as históricas da realidade
latino-americana
Nao pretendemos nos deter longamente em toda extensao
e complexidade das diferern;as entre as realidades históricas
latino-americana e européia, que poderiam ser objeto de um ou
mais livros_ Apenas destacaremos aquelas diferern;as que caracterizam e explicam os modos e as formas diferenciados das suas
Jutas e movimentos e, conseqüentemente, exigem que as análises e as categorías teóricas utilizadas tenham como ponto de
partida tais especificidades_ Tomamos como referéncia o caso brasileiro, embora estejamos bastante conscientes das diferenc;as entre
os vários países latino-americanos, nao só económicas mas principalmente culturais_ Acreditamos que as semelhanc;as em relac;ao
as orientac;6es gerais em seus processos de desenvolvimento histórico sao maiores que suas diferenc;as_
Em primeiro lugar, destaquemos o passado colonial, escravocrata e/ou de servidao indígena, baseado na monocultura e/ou explorac;ao intensiva de seus recursos naturais. No século XX apenas
alguns dos países latinos se industrializaram, de forma parcial,
dependente e atrelada as necessidades dos carros-chefes da economía internacional capitalista desenvolvida (Freire, 1933; Azevedo,
1944; Prado Jr, 1969; Furtado, 1967; Oliveira, 1972).
Em segundo lugar, o tipo de Estado nacional configurado
foi fruto de Jutas internas intensas em que a maioria das elites
políticas sempre foi representante dos interesses económicos
subordinados ao grande capital internacional. A maioria das
coléinias passou por fases monárquicas e, sob a influéncia do
modelo norte-americano, e em alguns casos o europeu, tornaram-se repúblicas. As relac;6es entre a sociedade civil e o Estado
foram marcadas por períodos de vigéncia de regras autoritárias. Este fato conferirá a questao da cidadania urna feic;ao parLicular, pois nos períodos de transic;ao para a democracia o problema nao era apenas a reapropriac;ao do Estado pela sociedade
Características e especificidades dos movimentos latino-americano.9 22S
1· ivil, mas também de regulamenta�ao das regras de civilidad
,, cidadania dentro dessa própria sociedade, que se investia de
poderes arbitrários nas épocas de regimes de exce�ao.
Os regimes políticos existentes até os anos 30 deste século
d >correram de urna alian�a entre as oligarquias rurais apoiad as por setores do clero tradicional católico. O clientelismo
político desenvolveu-se neste período sob a forma do coronelismo
- política de troca de favores e prote�6es administradas por
políticos locais. A incipiente industrializa�ao de algumas cidacles se fez baseada na mao-de-obra imigrante, antes destinada
1 agricultura. A partir da década de 30 váriLos países come�aram a mudar o eixo de seu desenvolvimento económico para os
processos urbano-industriais de substitui�ao das importa�oes
baseados na mao-de-obra migrante interna; promoveram reformas político-administrativas nacionais no sentido de dotarem
os Estados com capacidade de regulamentar os conflitos sociais
' criaram estruturas-suporte para um plano embrionário de
desenvolvimento nacional (legisla�oes trabalhistas, sistemas
previdenciários, cria�ao/expansao da rede de escolas primárias
e de sistema universitário das escolas de filosofia etc.). As forc;as militares desempenharam papel de atores principais em
vários momentos da vida nacional e em outros foram retaguarda das for�as civis atuantes. Entre o final da Segunda Guerra
e os anos 60 a América Latina foi palco dos chamados regimes
políticos populistas (Wefort, 1978), baseados na política de trocas e de favores entre líderes políticos carismáticos e as massas
populares que ascendem a cena social por intermédio do voto e
de sua existencia no meio urbano, eleito agora como espa�o
fundamental dos projetos nacional-desenvolvimentistas, num
modelo de industrializa�ao de bens de consumo duráveis
(Fernandes, 1975; Oliveira, 1972). Este período gerou reformas
constitucionais e administrativas, intensa disputa político-partidária entre dezenas de partidos políticos, políticas sindicais
atreladas aos governos, surgimento de movimentos de base, em
ambito de bairros, e do trabalho da Igreja (Carnpello de Souza,
1973; Rodrigues, 1966; Moisés, 1978; Wanderley, 1986).
O passado colonial-imperial, a subseqüente república dos
coronéis e depois os líderes populistas levaram ao desenvolvi-
226 O paradigma latino-americano
mento de urna cultura política na sociedade latino-americun
em que se observa urna "naturalizac;ao" das relac;6es soci
entre os cidadaos (ou nao-cidadaos) e o Estado, ou seja, ar �1
c;ao de dominac;ao expressa em termos de clientelismo
paternalismo passou a ser a norma geral, vista como natur
pela própria populac;ao. Este fato dificultará a criac;ao de esp
c;os livres, democráticos ou a consolidac;ao e o aprofundamen
de períodos de democratizac;ao. A presenc;a dos militares,
trando e saindo do cenário político do jogo de poder, foi um
constante. Nos anos 60 a conjuntura política de vários país
da América Latina caminhou nesta direc;ao.
A partir dos anos 60 a alianc;a com o capital internacion
levou a mudanc;as no modelo económico e gerou modelos políti
cos específicos: foi a era dos regimes militares autoritários qu
sobreviveram por duas décadas em vários países latinos. A cen
tralizac;ao na política, no planejamento económico, o bipartida
rismo, um novo modelo de desenvolvimento baseado no trip
empresário nacional (urbano e industrial), capital internacional
e militares passou a predominar, baseado na ideologia da segu·
ranc;a nacional e desenvolvimento associados (Ianni, 1975).
O final dos anos 70 e os anos 80 foram períodos que entraram para a história como urna fase de redemocratizac;ao. Por
intermédio da mobilizac;ao e da pressao da sociedade civil
política, os Estados nacionais latino-americanos redirecionaram
suas políticas internas. Os regimes militares foram substituídos por regimes civis, em processos negociados nos parlamentos
ou por via eleitoral. Os movimentos sociais cresceram em número, ganhando diferentes tipos e matizes, e lograram visibili
dade em sua luta pela redemocratizac;ao ou por causas específicas (Brant, 1975 e 1980; Gohn, 1982 e 1985; Kowarick, 1987;
Krisckhe e Warren, 1987; Sader, 1988).
A cultura política latino-americana se transformou neste
período, ganhando aspectos novos, baseados numa visao de direitos sociais coletivos e da cidadania coletiva de grupos sociais
oprimidos e/ou discriminados. lsto se deu grac;as a urna longa
experiencia de resistencia e de oposic;ao as formas de domina
<.;ao, com rompimento - entre alguns setores sociais - da clás-
( '" racterísticas e especificidades dos movimentos latino-americanos 227
l1•1t cultura política de aceita¡;ao da domina¡;ao, de troca d
l 11 vores, de espera e imobilidade da socied:ade diante de um
M t. do tido como todo-poderoso.
Nos anos 90 o panorama do capitalismo nos países ocidenl 11 IH se alterou, passando-se a ter urna nova redivisao interna
• onal do trabalho; as fronteiras nacionais perderam importan1• n e a produ¡;ao industrial passou a ser feita de forma frag111 ntada, com a ocorrencia de processos produtivos em que as
vn ntagens fiscais e económicas de modo geral sejam mais pro1
1 cias a acumula¡;ao; a economia formal declinou e a informal
1·resceu, os sindicatos perderam poder de forma generalizada, o
1 I semprego passou a ser urna realidade tanto nos países onde
liistoricamente sempre existiu, no chamado "Terceiro Mundo",
1·omo no Primeiro Mundo desenvolvido. O processo de trabalho
H' transformou. Reengenharias foram feitas, primeiro nas e!Llpresas privadas e depois nas públicas. Observa-se que nao ocorreram apenas demissoes em massa, os que permaneceram nos
t mpregos tiveram de alterar totalmente suas ratinas, o trahalhador multiespecializado passou a ter prioridade sobre o especializado, as hierarquias se transformaram e os sistemas
·olegiados de responsabilidade pelo trabalho foram implementados. O novo período passou a ser chamado era da globaliza¡;ao
( trataremos este assunto no próximo capítulo, juntamente com
o novo cenário das lutas e movimentos sociais). As novas políticas sociais passaram a ser analisadas, por seus conteúdos, como
neoliberais (a este respeito consultar Sader e Gentili, 1995).
4.2 - Elementos para uma teoria sobre
os movimentos latino-americanos
A partir das diferen¡;as históricas assinaladas, os principais pontos a ser considerados na formula¡;üo de um paradigma
latino-americano sao:
1 - Diversidade de movimentos sociais existentes; diferencia¡;ao interna entre eles quanto a formas de organiza
¡;ao, propostas, projetos políticos, articula¡;oes, tipo d
lideran¡;as etc., resultando numa diversidade de movimentos em rela¡;ao aos mesmos temas e probl m s.
228 O paradigma latino-americano
Disto resultou um cenário em que a diferencia<;ao b
sica nao é entre os novos movimentos sociais (questo 111
de genero, ra<;a, sexo, ecológicas etc.) e antigos (movl
mento operário clássico), como na Europa; a diferen�1
é entre novos (lutas pela moradia e equipamentos co
letivos em geral) e antigos movimentos populares (tipo
sociedades amigos de bairros), onde imperavam práti
cas de cunho populista e clientelista. Observe-se que
diferencia<;ao básica se dá na forma de fazer polític ,
porque as articula<;6es sempre existiram, tanto nos anti
gos como nos novos. Rela<;6es com a lgreja, partidos
sindicatos sempre existiram, mas nos movimentos contem
poraneos a rela<;ao é de outra natureza. AB práticas e OH
repertórios também se alteraram.
2 - Hegemonía dos movimentos populares diante de outros tipos de movimentos sociais. A maioria dos movimentos populares lutaram por terra, casa, comida, equipamentos coletivos básicos. Ou seja, necessidades sociais materiais básicas elementares a sobrevivencia, direitos sociais básicos elementares. Nao há nada de modernidade nestas lutas. Elas sao seculares dos exclufdos. As carencias socioeconomicas eram das popula<;6es
demandatárias e dos movimentos em si. Nao havia organiza<;6es estruturadas com recursos económicos e nem
os movimentos lutavam para obter doa<;6es e suportes
financeiros, como os movimentos americanos. Eles lutavam pela aquisi<;ao das demandas a partir de urna
base organizacional pobre, improvisada, baseada no
trabalho voluntário. Na Europa e nos Estados Unidos
os movimentos sociais com caráter mais popular (por
aglutinarem demandas e a participa<;ao das classes
populares) giraram em torno das quest6es dos direitos
civis - como o movimento negro na América - ou
contra os projetos de renova<;ao urbana na Europa -
como os movimentos na Alemanha e na Espanha. No
Brasil a questao dos direitos humanos tem sido um dos
motivos de cria<;ao de redes de solidariedade entre os
diferentes movimentos mas tem mobilizado apenas pequenas parcelas das camadas médias da popula<;ao.
( 'aracterísticas e especificidades dos mouimentos latino-americanos 229
3 - Os "novos" movimentos sociais - de mulheres, ecológicos, de negros etc. ocorreram em toda a América
Latina, mas com grandes diferenc;as em relac;ao aos
europeus e aos norte-americanos. Embora algumas bandeiras tenham sido "importadas", como a dos ecologistas, os movimentos latino-americanos ocorreram em sociedades civis marcadas por tradic;oes de relac;oes clientelistas e autoritárias, por Estados cartoriais e com
sistemas judiciários inoperantes. Modelando tudo isto,
a tradic;ao de cultura política democrática é quase inexistente e valores como o machismo e o preconceito
racial escamoteado sao variáveis de longa data. Destaque-se que a inexistencia dessas condic;oes abriram
novos espac;os e campos de trabalho aos movimentos,
desenhando trajetórias peculiares e diferentes das percorridas pelos movimentos europeus ou americanos.
Enquanto naqueles países os movimentos tiveram grande importancia e visibilidade na esfera pública em ambito nacional, na América Latina eles permaneceram
mais circunscritos as esferas locais. Nos Estados Unidos
e na Europa a bandeira dos direitos humanos focalizou essencialmente os direitos sociais e culturais. Na
América Latina foram basicamente os direitos económicos, elementares de sobrevivencia humana. Entretanto, concordamos com Touraine em sua análise dos
novos movimentos em termos de conex6es que buscam
mudanc;as e alargamento das fronteiras entre os espac;os públicos/privados e a vida social, e envolvem lutas
contra as velhas e as novas formas de dominac;ao nestas áreas.
4 - Os movimentos populares que se destacaram e se tornaram conhecidos internacionalmente foram os que estavam sob o manto protetor da Igreja católica em sua
ala progressista, da Teologia da Libertac;ao, conform
já assinalado e de amplo conhecimento público. A religiao é de modo geral um valor muito importante na
vida do homem pobre latino-americano. O passado colonial moldou urna cultura em que religiao é sinónimo d
230 O paradigma latino-americano
esperanc;a. AB camadas populares sempre buscam a r li
giao: a católica, as de origem africana ou as modernuH
seitas contemporaneas. A lgreja católica sempre teve umu
presenc;a mareante na América Latina, dentro da corn•
lac;ao das forc;as sociopolíticas existentes.
5 - Nos anos 60 deste século, com o Concilio Vaticano 1 1 ,
a lgreja católica mudou o eixo de sua política na Am
rica Latina. Até entao ela estava voltada para a socic
dade política, exercendo influencia junto ao Estado por
meio de partidos democratas crista.os e movimentott
sociais como a Ac;ao Católica. A partir do Concílio el
desenvolveu estratégias para voltar-se para a sociedad
civil, passando a ser, ela própria, um agente ativo n
organizac;ao dessa sociedade, por meio das pastorais
comunidades eclesiais de base (Casanova, 1994). Havia nesta fase um "inimigo" bem claro a se combater:
as ditaduras militares. Com o fim dos regimes de exc •
c;ao e a redemocratizac;ao dos países latino-americano�.
aquele alvo deixou de ter sentido. Paralelamente, noH
anos 90, as atenc;oes das agencias patrocinadoras dt•
fundos de apoio financeiro e de pessoal para trabalho
de base, articuladas as Igrejas, voltaram-se para OH
processos de redemocratizac;ao do Leste Europeu. 01-1
movimentos e as ONGs latinas passaram a viver a
mais grave crise económico-financeira desde que foram
criados. Eles também precisaram realizar reengenharias internas e externas para sobreviver. E alteraram
seus procedimentos. Passaram a buscar a auto-suficiencia financeira. Tiveram de encontrar/construir ou incr -
mentar caminhos no setor de produc;ao. A economia
informal - entao florescente e estimulada pelo novo
modelo da globalizac;ao - passou a ser urna das principais saídas. Com isto o plano das demandas e pressoes passou para segundo lugar e o das atividades produtivas ganhou centralidade. Assim o movimento do1-1
seringueiros, por exemplo, nao lutará apenas por seus
direitos ou contra a opressao dos grandes donos d
terras, das madeireiras etc. Lutará basicamente para
l 'aracterísticas e especificidades dos mouimentos latino-americanos 2 1
vender seus produtos em mercados mais competitivos.
Os índios pressionarao pela demarcw;ao das terras mas
também querem vender castanhas, ervas etc. no mercado
nacional e internacional, a prec;o justo e certo, e nao como
mercadoria "alternativa", a prec;os baixos.
6 - A problemática dos imigrantes tem gerado urna série
de movimentos sociais na Europa (especialmente na
Franc;a) e nos Estados Unidos (Califórnia). No Brasil
esta problemática nao gerou movimentos significativos
no pós-guerra. Ocorreram apenas algumas manifestac;oes, fracas e isoladas, contra migrantes nacionais do
norte do país, nao suficientes para que se generalize e
afirme que há um problema étnico-nacionalista.
7 - Dado o passado colonial latino-americano, a questao
indígena tem sido fonte de conflitos e movimentos sociais. Esta questao nao é encontrada na Europa, e na
América ela é de ordem totalmente diferente, porque a
populac;ao indígena foi exterminada ou integrada a sociedade urbano-industrial, com os grupos remanescentes permanecendo em áreas de reservas demarcadas
pelo governo. Suas lutas sao mais para a preservac;ao
de suas tradic;oes culturais. Na América Latina vamos
encontrar parte da populac;ao indígena vivendo como
miseráveis nas áreas periféricas de grandes cidades ou
em pequenos povoados, em situac;áo de desagregac;ao
de suas tradic;oes e costumes, parcialmente aculturados;
e parte em territórios originais, mantendo suas tradic;oes e estilo de vida, lutando para preservar suas
terras contra a invasao do homem branco (garimpeiros, grileiros etc.). No caso brasil1eiro, como a maior
parte da populac;ao indígena vive em áreas da floresta
amazónica, a tendencia será o aumento de conflitos,
dado o interesse económico pela regiao e a demanda
dos povos da floresta em geral pela terra. Esta questao
ganha relevancia também por ser o movimento indígena um dos principais da era da globalizac;ao. Ele concentra demandas culturais, histórico-sociais, económicas e também políticas. O número de ONGs internacio-
232 O paradigma latino-americano
nais envolvidas nesta questao é muito grande, dando
visibilidade mundial as lutas e demandas dos mais r
cónditos e obscuros povoados e aldeias do planeta.
8 - A questao do preconceito racial contra os afro-americ 1
nos, bastante acirrada nos Estados Unidos desde
Guerra C ivil, tem formas totalmente distintas n
América Latina. Enquanto a América do Norte tev
um forte movimento dos direitos civis, contra a discl'i
minac;ao racial nas escalas, ónibus e transportes públ
cos, bares, restaurantes, banheiros públicos etc., a Arn
rica Latina, em geral, nao vivenciou quase este tipo d
discriminac;ao. Mas tem-se vivenciado a chamada di11
criminac;ao subliminar: salários mais baixos, emprego•
piares etc. O conflito étnico foi flexibilizado pelos latl
nos com a denominac;ao diferenciada para certos tipo
físicos criando-se categorias como "mulatos, pardo11,
escuras etc.". A ideologia do falso branqueamento fü
xibiliza o conflito social. Eckstein ( 1989) destaca qu
na América Latina rac;a e etnicidade tendem a se
definidas em termos sociais e culturais e nao biológi
cos, obscurecendo o problema.
9 - A relac;ao dos movimentos sociais com o Estado semprt
variou em func;ao de objetivos estratégicos e das arti
culac;6es mais amplas dos próprios movimentos sociaiH.
Elizabeth Jelin ( 1996) afirma que na América Latina o
Estado tradicionalmente tem sido, e continua a s r,
alheio e distante dos cidadaos, apropriado por algunH
e nao por todos. Ser contra o Estado foi urna estratégin
dos movimentos nos anos do regime militar. Na rea li
dade se buscava a democratizac;ao do Estado e se esta
va contra as ditaduras militares no continente sul-ame
ricano. Depois a relac;ao mudou e ocorreu urna divisao
entre os movimentos: alguns apoiando e outros conti
nuando a luta contra o governo constituído, articula
dos as redes que fazem oposic;ao ao novo status quo.
Isto nao significa que estes últimos nao interajam com
o mesmo, ao contrário. Pressionam o tempo todo pam
participar, para ser incluídos, <liante da situac;ao de ex
Características e especificidades dos mouimentos latino-arnerica11011 ' .1 \
clusao que vivenciam. Se ser contra o Estado foi umu
novidade nos movimentos ecológicos alemaes, nos brm;ileiros foi urna opc;ao estratégica.
10 - A problemática da integrac;ao social, bastante discutida nos paradigmas americanos e europeus, nao é urna
variável importante na realidade latino-americana. O
Estado nao integra, ele desagrega, suas políticas sociais consolidam a fragmentac;ao social por intermédio
de ac;oes compensatórias que nao tem resolvido os problemas de ordem estrutural - como a fome e o desemprego por exemplo. Os movimentos populares sao formas de resistencia e os novos movimentos sociais sao
lutas pela inclusa.o e nao pela integrac;ao social, dois
fenómenos sociais distintos. Discordamos das análises
que atribuem as políticas públicas e ao Estado o principal papel na estruturac;ao de um movimento social.
Elas poderao criar certas oportunidades políticas -
favoráveis ou adversas - mas nao tem o poder de,
sozinhas, gerar movimentos sociais. As teorias de Tarrow ( 1994, 1996), Klandermans ( 1992:, 1996) e outros
podem contribuir na compreensao desde fenómeno desde que adaptadas aos contextos das realidades nacionais e que tenham deslocada a exclusividade do eixo
analítico da sociedade política para parametros que considerem a dinamica da sociedade civil. Talvez se deva
dar mais atenc;ao nas análises as estruturas das oportunidades políticas, nao na linha proposta pelas teorias norte-americanas - de condic;oes criadas basicamente pelas elites ou pelas políticas governamentais
- mas na linha de condic;oes criadas por todos os agentes e atores envolvidos no processo, em termos de correlac;ao de forc;as políticas e de posic;oes estratégicas
ocupadas por alguns atores no cenário político - local,
nacional ou internacional. Estes cenários tem possibilitado aos grupos e movimentos darem alguns saltos
qualitativos em termos de organizac;ao, consciencia,
conquista de direitos, bens, servic;os e acesso a lugares
estratégicos em postos de poder.
I'
1
1
234
11
O paradigma latino-americano
A institucionaliza�ao dos conflitos sociais tem sido 1
principal estratégia da sociedade política para respon
der aos movimentos sociais_ A cada onda de movim 111
tos surgem urna série de leis e novos órgaos públi ·o
para cuidar da problemática. Mas a institucionaliza�¡ o
jurídica - por suas características de rigidez, normn
tiza¡;oes e tratamento supostamente igualitário -, ni o
captando a especificidade dos problemas segundo 11
camadas sociais envolvidas, nao tem resolvido os pro
blemas e apenas contribui para aumentar a descrern;u
popular no poder do Estado como instancia suposiu
mente promotora do bem comum. O que a cultura poli
tica latino-americana institucionalizou ao longo dos s 1
culos foi a creni;a no poder dos canais e estruturaH
informais e urna descreni;a nas estruturas formais. Dado
que na realidade cotidiana dos processos de rela¡;o H
com o poder público as coisas funcionam melhor e maiH
rapidamente pelas vias paralelas do que pelas vias nor
matizadas, legais, tudo que é institucionalizado padecti
da descren�a, porque de fato há problemas de hierar
quias, burocracias, incompetencia, demora etc. MuitoH
movimentos que tiveram muito vigor nos anos 70 e 80,
quando clamavam por direitos, passaram a encontrar
dificuldades para manter a mobilizai;ao após terem conquistado alguns daqueles direitos em lei, dadas as características dos poderes informais versus formais recém-descritas. Antes de se ter a lei, a solui;ao era dar
um "jeitinho". Depois, com a lei, as coisas continuaram
a nao se r,esolver rapidamente, dada a burocracia e a
nao-complementa¡;ao para a implementai;ao das próprias leis. Alguns movimentos passaram a ser desacreditados, e o famoso "jeitinho" de resolver as coisas por
intermédio de relacionamentos pessoais passou a ser
reacionado, numa clara demonstra�ao do poder da red
de relai;oes informais.
12 - Ao contrário do que afirmam algumas teorias americanas e européias, as ideologías nao morreram e sao elementos fundantes da própria idéia de movimento so-
( '1r racterísticas e especificidades dos movimentos latino-arnericamm
cial na América Latina. Todo movimento está articu l ado a um conjunto de crern;as e . representac;oes o
elas que dao suporte a suas estratégias e desenham
seus projetos político-ideológicos. Nao se trata da vertente marxista ortodoxa que ve a ideologia como mistificac;ao da realidade mas sim da viertente marxistagramsciana que trata a ideologia no campo das práticas sociais, como conjunto de idéias que dao suporte a
projetos estratégicos de mudanc;a da ordem das coisas
na realidade social. E isto é válido tanto para os movimentos populares como para os novos movimentos
sociais.
13 - Os partidos políticos tem desempenhado um papel extremamente importante junto aos movimentos sociais
em geral. Estes nao podem ser vistos como estruturas
distintas dos partidos, como grupos de interesses etc.,
e estas colocac;oes tem sido feitas também pelas teorías
norte-americanas contemporaneas. Entretanto tais teorías buscam urna pretensa racionalidade económica
nesta articulac;ao e nós vemos a similaridade nas estratégias e táticas de ac;ao a partir de projetos políticos
em comum. A articulac;ao é política e nao económica.
Talvez a questao dos partidos seja a menos tratada nas
pesquisas sobre os movimentos sociais - principalmente nos populares -, porque vários intelectuais e militantes dos movimentos - que escreveram sobre eles e
eram também lideranc;as político-partidárias - nao tinham interesse, na época, em deixar clara tal relac;ao.
O estudo das redes de articulac;oes nos leva a essas
conexoes. Porém, discordamos das análises de Tarrow
( 1988) quando ele afirma que o grande número de militantes político-partidários no interior dos movimentos sociais demonstraria que eles nao diferem dos chamados velhos movimentos sociais. A relac;ao sempre
existiu, mas sua natureza mudou. Os partidos tradicionais da esquerda sempre priorizaram o movimento
operário e viram outros movimentos sociais como coadjuvantes da luta principal, a ser desenvolvida nos lo-
236 O paradigma latino-americano
cais de produc;ao. Os novos partidos da esquerda ou d
social-democracia veem os movimentos sociais como in
terlocutores próprios, com cores partidárias definid111 c,
que demarcam seus projetos e sua visao do processo d
mudarn;a e transformac;ao social.
14 - A preocupac;ao das teorias americanas e européias com
os discursos e significados dos movimentos, objetivan
do captar suas mensagens ideológicas, faz com que 11
xem suas atenc;oes nos líderes e deixem de lado asp
tos mais relevantes, tais como a forma pela qual tai
mensagens sao construídas, em termos de forma, con
teúdo e processo. A cada onda de movimentos correH
ponde a criac;ao de algumas enfases temáticas: excl u
sao social, cidadania, direitos etc. Estas temáticas conH
tituem os repertórios históricos de um certo período t
vao se consolidando nos discursos e nas práticas doH
atores sociais em movimento. Embora possamos en
contrar na atualidade todas essas categorias juntaH,
elas nao apareceram todas ao mesmo tempo. Foram
sendo construídas ao longo das lutas, como decorrenciu
de processos históricos.
15 - Na América Latina nao é possível entender a pro ble
mática dos movimentos sociais se nao incluirmos a ca
tegoria dos intelectuais no cenário. Eles nao sao neces
sariamente hacharéis; sao pessoas de grupos sociaiH
distintos dos demandatários e tem se constituído em
interlocutores básicos dos movimentos junto a agenciaH
governamentais e a mídia em geral. Este fato, entretanto, nao obscurece o dado da presenc;a majoritária
dos estratos populares nos movimentos sociais, ao contrário da Europa, onde predominaram as classes médias nos movimentos sociais em geral.
16 - O fato de sempre destacarmos a problemática das classes sociais nao significa que compartilhemos da visao
que atribui a cada classe ser a representante exclusiva
dos interesses exclusivos. Ao contrário, sempre devemos destacar as alianc;as, e a articulac;ao entre as demandas socioecon6micas, geradoras de processos do
1 '11ml'terísticas e especificidades dos movimentos latino-americanos \ I
exclusa.o social, com as demandas socioculturais. EsLaH
últimas sao importantes por fornecerem elementos para
compreendermos as visoes, os valores e os projetos d
vida e de mundo dos grupos mobilizados. Os conflitos
sociais em cena sao tanto de ordem económica como de
ordem racial, de genero, de etnia etc. A proporc;:ao dos
problemas decorrentes da miséria e da pobreza colocam os conflitos económicos em destaque, e até mesmo
recobrem outros tipos. No caso dos movimentos populares, por exemplo, as pesquisas nao tem enfatizado
suficientemente o papel das mulheres nas ac;:oes coletivas, sob o angulo das questoes de genero. Essas pesquisas registram apenas que a presen�a e a participac;:ao das mulheres é majoritária na composic;:ao dos
movimentos, centrando o foco das análises nas demandas do movimento em si e nao analisando os conflitos
que aquelas mulheres vivenciam em seu cotidiano, tanto
no universo doméstico e do trabalho como no próprio
exercício do ato de participar, ou de se relacionar no
interior dos movimentos, diante de uma sociedade em
que imperam valores machistas.
17 - Na América Latina a articulac;:ao entre diferentes lutas
e movimentos sociais é um fato recente. Nos anos 70 e
em boa parte dos anos 80, embora existissem pessoas
que participavam de vários movimentos sociais ao
mesmo tempo, a articulac;:ao só ocorria em grandes
eventos ou por acontecimentos excepcionais, como na
solidariedade diante da morte. O movimento negro era
composto basicamente de negros, o dos índios contava
com apoios já clássicos do clero e de algumas ONGs; o
das crianc;:as de rua estava no universo do servic;:o social, de entidades do clero ou filantrópicas, o dos direitos humanos junto a Comissao dos Direitos Humanos;
o das mulheres junto a grupos feministas etc. A fase de
redemocratizac;:ao levou a institucionalizac;:ao de alguns
movimentos, em secretarias governamentais ou em
setores e secretarias de sindicatos etc. Mas os movimentos populares mais combativos criaram estruturas
238 O paradigma latino-americano
nacionais próprias, como a CMP - Central dos Movl
mentos Populares. As ONGs também criaram organi
mos articuladores no ambito nacional como a ABON
Associac;ao das ONGs Brasileiras.
18 - A questao agrária na América Latina tem sido palco d
violentos conflitos e permanece como um tabu par
certas áreas das elites dominantes, que relutam t1111
discutir qualquer proposta de reforma nessa área. D 1
das as relac;oes de desigualdades sociais existentes, o
camponeses em geral tem tido um papel importante <11 11
vários conflitos sociais, contrariando as análises clás1-1I
cas marxistas que atribuíam aos camponeses um papt 1
mais conservador do que progressista. O processo d
expansao do capital no campo gerou hordas de sem-ten-1
ou pequenos proprietários semifalidos. Contraditoriamenlt
a toda propalada modernidade da sociedade brasileir
nos anos 90, por exemplo, o Movimento dos Trabalhado
res Rurais Sem-Terra será urna das mostras da exclu
sao e da desigualdade social no continente.
19 - Dentre os contrastes existentes no cenário dos mov i
mentos sociais latino-americanos devemos considerar
suas estratégias e táticas, que variam de ac;oes viol n
tas - características dos movimentos da chamada faHt'
pré-política, quando o diálogo e a negociac;ao eram in
viáveis - a formas de ac;ao modernas, com uso de meio
avanc;ados de comunicac;ao - como os computadores, 11
Internet e a mídia (televisao e principais jornais). Crim·
fatos novos que gerem impactos e virem notícia na mídiu
é urna preocupac;ao permanente da maioria dos movi
mentos sociais. Cumpre destacar que o uso da mídia m\o
é um fato recente. Para ficar apenas nas últimas tr H
décadas, devemos nos recordar do uso de rádios comuni
tárias nas favelas - assim como do movimento doH
Aymara, na Bolívia, que já se utilizava deste meio noH
anos 70. A camera de vídeo foi um instrumento impor
tantíssimo para registrar eventos dos movimentos po
pulares nos anos 80, assim como para desenvolver pro
jetos de educac;ao popular e formac;ao de lideranc;as.
( '11racterísticas e especificidades dos movimentos latino-americano.9 11)
:¿o - Devemos considerar que a heterogeneidade dos movimentos comporta várias express6es da vontade pol Lica, cada qual contendo em seu bojo projetos políticos
diferenciados. Sabemos que a democracia representativa, eleita pelo sufrágio universal, na prática nao é a
representante dos interesses gerais, como afirrnam os
discursos. A figura de um governo significa a vitória de
urna dada ala das for<;as políticas. Embora esta ala
tenha de procurar compor-se com as várias fac<;oes existentes, cert�piente tentará apoiar-se n:a fac<;ao que lhe
deu apoio eleitoral. E, portanto, nem todos os movimentos populares tem o mesmo "caminho aberto" para
se expressar diante de um governo só porque este se
elegeu pelo sufrágio popular. Há interlocutores privilegiados. Há, ainda, "contramovimentos oficiais", isto é,
movimento criados por estímulo das políticas públicas,
objetivando dar-lhes suporte político. Estes contramovimentos se apresentam na arena política como representantes de for<;as sociopolíticas que, usualmente, nao
estao preocupadas com a mudan<;a e a transforrna<;ao
da sociedade. Mas fazem parte do jogo na arena democrática. Este jogo de poder tem levado, na América
Latina, ao surgimento de lideran<;as e se constituí numa
verdadeira escola de aprendizado político.
21 - A busca da especificidade dos movimentos sociais nos
anos 90 deve considerar variáveis analíticas totalmente distintas das dos anos 70/80. Na última década os
movimentos locais que trabalham com a demanda de
servi<;os coletivos territorializados, e que nao se articularam a redes nacionais ou regionais, enfraqueceram
-se; ao contrário, os movimentos locais que trabalham
com demandas globais como as reivindica<;oes cultu- ·
rais dos indígenas, as ecológicas, pela paz, direitos
humanos etc. se fortaleceram. As agendas e as formas
de operar dos movimentos em geral se alteraram. Surgiram movimentos internacionais nas áreas de meio
ambiente, direitos humanos, paz, ou para trabalhar
com as temáticas das mulheres, crian<;as, dos jovens e
240 O paradigma latino-americano
adolescentes. Os movimentos, embora tenham decn•M
ciclo numericamente, fortaleceram-se qualitativament
por intermédio das ONGs. Eles desenvolveram em con
junto estruturas e infra-estruturas de apoio, capacitu
ram-se tecnologicamente, alguns passaram a se comu
nicar via Internet, e criaram estruturas nacionais, como
a já citada CMP - Central dos Movimentos Popular •H.
22 - Destaque-se, finalmente, que nos anos 90 o modelo d
movimento social norte-americano chega ao Brasil po
intermédio de ONGs internacionais. Que modelo é est 'l
É o modelo de movimento-organizac;ao, com enfase n
auto-estruturac;ao a partir de certos pontos: polític
interna de captac;ao de recursos; constituic;ao de um
base de adeptos e militantes; articulac;ao com a soci
dade civil e política por meio de políticas de parceriu;
envolvimento em projetos sociais operacionais; e políti
ca de formac;ao e qualificac;ao de quadros. O Greenpeac
é um exemplo <leste tipo de movimento.
Em síntese: o estudo sobre os movimentos sociais latino
-americanos <leve ter um enfoque multidisciplinar, envolvendo
a sociologia, a ciencia política, a antropologia, a história, a eco
nomia e a psicologia social. A política <leve ser destacada por
ser a' grande arena de articulac;ao, pelo fato de os movimentoH
sempre estarem envolvidos ou ligados a relac;6es de poder. Deve
-se considerar: ideologias, valores, tradic;oes e rituais da culturu
de um grupo; a cultura política como um todo etc.; assim como
a estrutura sociopolítica e económica em que os movimentoH
estao inseridos, numa abordagem histórico-estrutural renova
da. Passaremos a tratar <lestes pontos a seguir, explicitando
nosso entendimento do conceito de movimento social; propondo
urna estratégia metodológica de coleta e análise, interna e ex
terna, nas pesquisas concretas com os movimentos; e destacan
do as categorias teóricas básicas para sua análise.
UMA PROPOSTA
TEÓRICO-METODOLÓGICA
1 ARA A ANÁLISE DOS MOVIMENTOS
SOCIAIS NA AMÉRICA LATINA
A partir das especificidades destacadas no capítulo ante1 1or, objetivamos aquí explicitar o entendimento e a metodolo1.111 de análise que tero permeado nosso próprio trabalho sobre
11 Lema, ao longo dos últimos vinte e cinco anos de pesquisas.
' :onsideramos importante esta explicitac;ao por dois motivos:
1 wi meiro para aclarar os pressupostos que estamos utilizando
110 longo deste livro e que serao aplicados mais detidamente
11os capítulos VIII e IX, ao analisarmos os movimentos sociais
110 Brasil a partir dos anos 70. Depois como sistematizac;ao da
p 1·oposta teórica que vero fundamentando os trabalhos que te1 1 1os publicado e apresentado ero congressos n.acionais e interl lHCionais. Ao falarmos das teorías dos movimentos sociais la1 i no-americanos, os seguintes níveis devem ser considerados, a
Hnber:
a - Como entende-los teoricamente. Qual a concepc;ao que
se tero do que seja uro movimento social. Por que é
importante estudá-los.
b - Como analisá-los. Quais elementos devem ser considerados, quais categorías devem ser selecion.adas.
241
242 O paradigma latino-americano
c - Quais as fases de desenvolvimento dos movimentOH
ciais e quais as etapas necessárias para urna inv1 1
gac;ao.
d - Quais as principais formas de manifestac;oes col ti
designadas como movimentos sociais na América Lat h
e como se expressam. Que categoría e tipos criaram.
1 - Como entende-los teoricamente: o desenho
de um objeto de estudo
Movimento social é urna noc;ao presente em diferenteH
pac;os sociais: do erudito, academico, passando pela arena poi
tica das políticas e dos políticos, até o meio popular. Na t orl
e/ou na prática, todos tem urna representac;ao do que seja u1
movimento social. Esta representac;ao sempre envolve um col
tivo de pessoas demandando algum bem material ou simbóli •e
Entretanto, se solicitarmos a várias pessoas que nos deem eXNll
plos de movimentos sociais, certamente ouviremos citac;oeH el
fatos históricos bastante distintos. Todos serao movimen to
sociais? O que os une e o que os distingue? Estamos numa nov
era de relac;oes entre a sociedade e o Estado? Qual o lugar t• e
papel dos movimentos nesta nova ordem sociopolítica? VivemoH
era da institucionalizac;ao, no qual os atores por excelencia serim
as ONGs? Qual o conceito de movimento social presente neHl ll
interpretac;oes? Para responder a estas indagac;oes vamos inid111
tentando esclarecer qual a interpr�tac;ao teórica que adotamo•
sobre os movimentos sociais a partir do universo de interpreta�<)t •
erjstentes - implícitas nas teorías já mapeadas nos capítulo 1
V, e das especificidades assinaladas para a análise da realidad
latino-americana.
Apesar do número razoável de estudos específicos dn
diversidade de paradigmas explicativos sobre a problemáti 1·
dos movimentos sociais, nosso trabalho concluí que nao pod11
mos afirmar que existam teorías bastante elaboradas a Ht•ll
respeito. Parte dessa lacuna s e d á pela multiplicidade de intt11·
pretac;oes e enfoques sobre o que sao movimentos sociais. Krit 1
( 1988) observou que as pessoas corriuns, quando indagadas Ho
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Uma proposta teórico-metodológica para a análise dos MS 11
111 11 suas simpatias ou identificac;oes com alguns movim n LoH
1 11• inis (pela paz, antinucleares e ecológicos), tem pouca dificu ld11d • em identificar o que é um movimento social, ao contrário
il11H cientistas sociais. Isto porque tais pessoas atentam para
11111u das dimensoes dos movimentos, a do conteúdo da demand11 •m si. Elas veem o movimento como um todo homogéneo, a
p1 1 rlir da imagem que suas ac;oes projetaram na sociedade. Tal
1 1 110 ocorre com os cientistas sociais, que necessariamente de
,, rn abarcar outras dimensoes, tais como suas crenc;as, valores,
d l'>renc;as internas etc.; e a dimensao das ac;oes e eventos em
ou, em nosso entendimento, as práticas sociopolíticas desenvol vidas.
As diferentes interpretac;oes sobre o que é um movimento
o · ial na atualidade decorrem de tres fatores principais: pri111 • iro: mudanc;as nas ac;oes coletivas da sociedade civil, no que
H refere a seu conteúdo, suas práticas, formas de organizac;ao
1 bases sociais; segundo: mudanc;as nos paradigmas de análise
dos pesquisadores; terceiro: mudanc;as na estrutura económica
1 n as políticas estatais. Resulta dessas alterac;oes que um conj1i nto díspar de fenómenos sociais tem sido designado como mov i mentos sociais. Na tentativa de esclarecer a questao, criat'llm-se novas taxionomias ou tipologias empíricas sem funda1 nentac;ao teórica. A ausencia ou inconsistencia de quadros teó1·ico-metodológicos é mais ou menos consensual. Melucci afirma
11 este respeito: "Os movimentos sociais sao difíceis de definir
conceitualmente e há várias abordagens de difícil comparac;ao"
( Melucci, 1989: 54). Este autor também concluí que há mais
definic;oes empíricas que conceitos analíticos. Em relac;ao aos
r'nomenos sociais arralados como movimentos sociais o leque
Lambém é grande. Cardoso ( 1983), Mainwaring ( 1987) e Alvarez
( 1992), entre outros, já destacaram a heterogeneidade de formas de mobilizac;ao e de organizac;ao que tem sido designadas
·orno movimentos sociais. Existe também a dificuldade de enq uadramento das ac;oes coletivas contemporáneas nas categorias teóricas disponíveis, problema já apontado por Barreiro ( 1992)
ao recuperar as análises de Lefévre ( 1973), que apontou urna
falsa dicotomia entre o vivido sem conceito e o conceito sem
vida.
244 O paradigma latino-americano
Tilly, Tarrow e McAdam ( 1996) elaboraram um program
de estudos e pesquisas para mapear o universo dos proc s
sos de mobilizac;ao na sociedade. Eles adotaram o termo gerul
"litígios políticos" (contentions politics) para designar as difi
rentes ac;oes coletivas e movimentos sociais, em vez de um
subdivisao, muito comum nos Estados U nidos, entre movimen
tos sociais, ac;oes coletivas e revoluc;oes. O novo termo leva as
ter ter urna subdivisao na área de pesquisa entre os litígio
propriamente ditos e os processos políticos que envolvem. Par
eles, os movimentos sociais referem-se "a interac;ao mantid
entre pessoas com poder e outras carentes de poder e sao um
contínuo desafio para os detentores do poder em nome de um
populac;ao cujos interlocutores a declaram estar sofrendo injuH
tamente danos ou estar ameac;ada por eles" (Tilly, Tarrow
McAdam, 1996: 2 1). Esta definic;ao reafirma a que Tilly forrn u
lou ern 1984, quando os caracterizou como "série de interac;ou
mantidas entre autoridades e demandatários reivindicant<
em nome de urna clientela corn preferencias específicas" (Til ly,
1984). Consideramos estas definic;oes problemáticas por doi
motivos: elas excluem a possibilidade de movimentos entre o
que tem ou detem o poder e os analisam segundo a perspectiv
dos que esta.o no poder, segundo a ótica de quem é demandado
ou atacado pelos rnovimentos, e nao considera a ótica dos movi
mentos em si. Argumentam ainda que os movimentos sociai
concentram-se nas relac;oes de dominac;ao-subordinac;ao, bast•n
dos na hipótese de que os litígios que envolvem desigualdadt•
substanciais entre os protagonistas tem características gera i
que conduzem os movimentos a revoluc;oes, rebelioes etc. Discor
damos de tais colocac;oes porque entendemos que os movimt•n
tos se constituem justamente na contracorrente das relac;oeH el
dominac;ao-subordinac;ao ( tais relac;oes também podem ocorr1
entre diferentes grupos membros das elites) e, fundamentnl
mente, porque elas nao sao os elementos mais importantes pnr
explicar ou definir um movimento social.
Desde logo nos recusamos a reconhecer a existencia, a pri111 1,
de urna definic;ao ou conceituac;ao geral, única e universal, 1wl11
fato de •esta definic;ao variar segundo os paradigmas teórieo
Uma proposta teórico-metodológica para a análise dos M 211
111 •todológicos que embasam a análise do autor. Entretanto,
¡ 11 1Hsível localizar dentro de cada teoria de um dado paradigma
1¡11 nl a concepc;ao que se está utilizando de movimento social.
NPHLe sentido, passaremos a explicitar a nossa concepc;ao sobre
11 t, 'ffia e a forma metodológica que tem orientado nossas pesq11 Ísas. Nao ternos a pretensao de considerá-la "a verdadeira",
1 1 11m a arrogancia de ve-la como "a melhor". Ela é a construc;ao
pw-1sível dentro dos parametros adotados e poderá ser modificad11, transformada ou alterada caso os fatos históricos postulem
111 1vos caminhos. Por ora, estes mesmos fatos, na realidade bra1 üra, tem comprovado o acerto de nossas premissas e do ca111inho metodológico adotado.
Nosso objetivo inicial é estabelecer alguns parametros
1111 nimos para urna conceituac;ao teórica, construída a partir da
1 1 •1lexao fundamentada em categorias que emergem de mani11 Hiac;oes concretas dos próprios movimentos, vistos como pro1 1 •HSos sociopolíticos e culturais da sociedade civil, num univer11 de forc;as sociais em conflito. Para tal, um ponto de partida
1 1 1nsiste em estabelecer algumas diferenc;as. Urna primeira é
1•11Lre movimento e grupo de interesses. Na grande imprensa
1 ot.idiana observamos o uso da expressao movimento para de-
'l' nar a ac;ao de grupos em func;ao de seus interesses. Assim
lnrnos: ... "iniciou-se na ca.mara um movimento para aprovar ... "
11:HLe uso do termo é irregular, pois na realidade deveria ser
· 11iciou-se um lobbie". Interesses comuns de um grupo sao um
1 ·rnnponente de um movimento mas nao bastam para caracterizálo como tal. Primeiro porque a ac;ao de um gn1po de pessoas tem
1 l1 • ser qualificada por urna série de parametros para ser um mov 1 rnento social. Este grupo <leve estar constituído enquanto um
mi tivo social e para tal necessita de urna identidade em comum.
:1111· negro, ser mulher, defender as baleias ou nao ter teto para
111orar sao atributos que qualificam os componentes de um grupo
1 dao a eles objetivos comuns para a ac;ao. Há urna realidade em
rnrnum, anterior a aglutinac;ao de seus interesses. As inovac;oes
1 1 diurais, económicas ou outros tipos de ac;ao que vierem a gerar
1
111 riem do substrato comum que possuem.
Urna segunda diferenc;a deve ser ressaltada quanto ao uso
11111 pliado da expressao. Designa-se como movimento a ac;ao his-
246 O paradigma latino-americano
tórica de grupos sociais, como o movimento da classe trabalh
dora. Aquí se trata de urna categoría da dialética, a do movl
mento das coisas, grupos e categorías sociais, em oposi<;ao
estática. É a ac;ao da classe em movimento e nao um movim n
to específico da classe. Esta diferenc;a possibilita demarcar doi
sentidos para o termo movimento: um ampliado e geral, outr1
restrito e específico.
Urna terceira diferenciac;ao deve ser feíta entre modos d
ac;ao coletiva e movimento social propriamente dito. Um protesto
(pacífico ou nao), urna rebeliao, urna invasao, urna luta armad ,
sao modos de estruturac;ao de ac;oes coletivas, poderao ser estru
tégias de ac;ao de urn movimento social mas, por si sós, nao s o
movimentos sociais. Tarrow ( 1982) procurou fundamentar est
diferenciac;ao, distinguindo entre organizac;oes de protesto - como
forma de organizac;ao social - e eventos de protesto - como for
ma de ac;ao dos movimentos propriamente ditas. Entretanto, el
considera movimentos como formas de opiniao de massa, seguindo
urna conceituac;ao, que se tornou clássica, formulada por Tilly
( 1978): um movimento social é urn fenómeno de opiniao de mass
lesada, mobilizada em contato coro as autoridades. Para Tilly OH
movimentos seriam a contraparte nao-institucionalizada dos par
tidos políticos, sindicatos, associac;oes etc., tendo surgido no século
XIX como urna ampliac;ao do próprio campo da política. Também
lutariam pelo poder e pela institucionalidade de seus interesseH,
mas de forma desordenada, utilizando-se de procedimentos n o
convencionais como as passeatas, protestos, atos de violencia
etc. Trata-se de urna análise em que há um modelo, um padrao
ideal de comportamento. Quando transgredido, terá acorrido
urna disfunc;ao no padrao da normalidade, coro rompimento daH
fronteiras do legal. Resulta que a ac;ao social coritida no protesto é apreendida apenas em sua dimensao política, coro enfoqu1•
apenas para o confronto coro o instituído-legal, ou coro as autoridades, como observa Melucci ( 1989). Nao atribuímos impar
tancia ao componente organizacional dos movimentos no sentí
do de Tilly, mas ele tero raza.o ao destacar o caráter nao-insti
tucional das ac;oes.
Urna quarta diferenciac;ao, e talvez a mais importante para
campo teórico que estamos tentando construir, refere-se ¡
l
lh
ovl
M
(1
Uma proposta teórico-metodológica para a análise dos MS t1 I
l 11ra onde ocorre a ac;ao coletiva. Trata-se de um espac;o n 0-
11 ti Lucionalizado, nem na esfera pública nem na esfera privad 1, ·riando um campo político, como observou Offe ( 1988). Usand
11111n formulac;ao de Giddens ( 1993), trata-se de urna ac;ao cole1 v11 lora da esfera estabelecida pelas instituic;oes. Disto resulta
qt10 muitas vezes um movimento social strictu sensu deixa de
1 1 1 movimento quando se institucionaliza, quando se torna urna
1 IN por exemplo, embora possa continuar como parte de um mo111 �nto mais amplo, enquanto organizac;ao de apoio daquele
11wvimento. Urna associac;ao de moradores, se institucionalizada,
1 11 ma organizac;ao social. Mas faz parte de um movimentó.
so1 11 I mais amplo que é o movimento comunitário de bairros.
11: 11 Lretanto, ternos de tomar cuidado com as generalizac;oes
1 111 píricas, chamando de movimento tu�o que estiver na esfera
11110-institucional. A abordagem da MR, centrada na idéia do
1•11 lculo racional e instrumental dos interesses dos grupos em ac;ao,
1•1 1rnete este equívoco ao chamar toda forma de ac;ao política naonstitucional de movimento social, conforme já nos alertou Melucci
( ID89). Os movimentos usualmente se articulam com outras for1•1 1 institucionalizadas e a forc;a social que poderao ter está direl 1 1 mente relacionada com essas articulac;oes.
Do exposto até o momento podemos tirar urna primeira
d •duc;ao, a saber: movimento social refere-se a ac;ao dos homens
1111 história. Esta ac;ao envolve um fazer - por meio de um
1•onjunto de procedimentos - e um pensar -- por meio de um con
.l u nto de idéias que motiva ou dá fundamento a ac;ao. Trata-se
d urna práxis portánto. Podemos ter duas acepc;oes básicas de
rnovimento: urna ampla, que independe do paradigma teórico
ndotado, sempre se refere as lutas sociais dos homens, para a
el fosa de interesses colétivos amplos ou de grupos minoritários;
·onservac;ao de privilégios; obtenc;ao ou extensao de beneficios e
bens coletivos etc. A outra acepc;ao se refore a movimentos so
·iais específicos, concretos, datados no tempo, e localizados num
cspac;o determinado.i..N a primeira acepc;ao, a categoría básica é
n da luta social e tem um caráter cíclico. Os movimentos sao
·orno as ondas e as marés, vao e voltam e isto ocorre nao por
·ausas naturais - se assim o fosse estaríamos fazendo urna
smálise etapista-evolucionista do fenómeno. O fluxo e o refluxo
248 O paradigma latino 0;mericano
!