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11/23/25

 


Em síntese, Tarrow busca também nos clássicos do manásmo elementos para entender a estrutura das oportunidades po-

1 04 O paradigma norte-americano

líticas, questao central para a compreensao da natureza social

- e nao individual - de um movimento social. Ele conclui qu

aqueles autores criaram o esqueleto da teoria contemporan •11

dos movimentos sociais. Entretanto, o resultado final da teori

que ele apresenta nao pode ser inteiramente visto segundo o

paradigma marxista clássico, porque sua análise nao se constr6i

em termos de lutas de classe, antagonismos sociais etc. Ele traba

lha com a noc;ao de campos de forc;as sociais e se preocupa com UH

alianc;as que se constroem neste campo m';ls nj3.o realiza um

análise em termos de classes sociais propriamente dita.

Quanto ao se ndo ponto metodológico, da dinamica de um

movimento social, arrow observa que no passado os movimentoH

eram restritos a grupos particulares e se manifestavam apenaK

em situac;6es de conflito. Nos días atuais, os processos de difus o

e comunicac;ao criaram redes associativas e o repertório das ac;ooK

mudou�O estudo de sua dinamica levou aos conceitos de poder doK

movimentos e ciclo de protestos. Trata-se de conceitos relaciona

dos. O poder do movimento tem urna dimensao interna - geradu

por sua capacidade de mobilizar pessoas e manter controle sobrt

elas, garantindo o grupo de seguidores; externamente os movi

mentos sao afetados porque as mesmas oportunidades políticnH

que eles criaram, e nas quais difundem sua influencia, tamb rn

produzem outras oportunidades, complementares OU hostis as SUUH

ac;6es. Podem-se criar ciclos de protestos, gerando um processo dt•

criac;ao e difusa.o de movimentos onde eles próprios poderao tt•r

sucesso ou nao. Nos ciclos de protestos novas oportunidades ::u\11

criadas por meio de incentivos a formac;ao de novos movimenioK;

novas alianc;as sao feitas, pois a difusa.o nao acorre apenas pelo

contágio. É importante destacar que as oportunidades sao criaduH

para os movimentos e para as elites opositoras a eles. Novas for

mas de ac;ao coletiva sao experimentadas e um denso e interativo

setor de movimentos sociais aparece, onde as organizac;6es com ¡)ll

tem e cooperam, para ter todo tipo de suportes, podendo ger11r

radicalizac;6es, excessos, divis6es e fragmentac;6es, e mesmo reprt •

sálias e repress6es (Tarrow, 1994: 24). No extremo deste espectm,

ciclos de movimentos poderao gerar revoluc;6es.

Quanto aos resultados -terceiro e último ponto do esqu mu

metodológico -, Tarrow afirma que as decis6es sao tomadas nu

Teorias sobre MS na era da globaliza¡;iio: a MP 1 05

11 c l 1 1H sociais em resposta as oportunidades políticas. Nestas de­

' 1 ooi; as coordenac;oes dos movimentos tem grande importancia .

. 1 111-1 •ssas lideranc;as agem em consonancia com a dinámica in­

¡, 1 11\ do grupo e com os fuarcos gerais da rede que os mobili-

,¡ I HLO significa que a confianc;a e a cooperac;ao interna e externa

i111 geradas por urna partilha de entendimentos (aqui tratados

1 1 11 1 10 compreensao comum dos processos em curso e a forma de

il 1 1 11 r sobre eles) e significados comuns a essies entendimentos.

l 1

111·11 sistematizar essa análise, Tarrow utiliza61 categoria frames,

1 11 1 H •ja, aqueles marcos referenciais estraté&"icos compostos de

11 n if'icados compartilhados de que já tratam?

s.

8ntr tanto, segundo nosso ponto de vista, o principal desl 111¡1t de arrow é sua análise dos resultados de um movimen1 1 1, q ue dizem respeito ao processo de mudanc;a social. Os movi11111nt,os, principalmente os ciclos de ondas de movimentos, sao

11 principais catalisadores de mudanc;as sociais e como tal sao

p1 1 1'l de lutas nacionais pelo poder. Essa dimensao da análise

l mwreve os movimentos num processo político mais amplo e nos

l111·ncce elementos para a compreensao dos movimentos como

l11r ·a social e como parte da luta mais geral pelo controle do poder

1111 HOciedade civil e política. Mas estes últimos destaques nao

no tratados por Tarrow, dada a limitac;ao de sua teoria: as

1 1por!,unidades políticas sao aproveitadas pelos movimentos mas

1 1 110 criadas por eles. Conforme assinalamos anteriormente, os

111ovimentos poderao ser coadjuvantes de um processo de mud.1 1 1Ga social mas nunca seu ator principal, porque nao sao ele111<• ntos dotados de forc;a própria, dependem do impulso de ou1 rnH. Seu poder, como assinala Tarrow, está em mobilizar as

p1 •Hsoas e as manter sob controle. É um poder mais interno do

ljllt' externo.

Para Tarrow, o estudo dos movimentos sociais tem caráter

1 �p cífico, complexo e histórico, porque as forc;as sociais de urna

11; 1c,;áo estao em contínuo movimento. Assim, o estudo de movi1 1 1t1ntos específicos nos demonstrará os repertórios utilizados e

1111s mudanc;as. (f..poiando-se nos trabalhos de Tilly, Tarrow

d1 1HLaca que os repertórios sao em si mesmos grande fonte de

d ndos e análises, pois registram as demandas e interpretac;oes

d1• um certo tempo histórico. Eles nunca mudam completamen-

¡ 1

1

1 06 O paradigma norte-americano

te. Há sempre urna simbiose entre o antigo e os novos significados. A idéia e a prática dos movimentos podem se espalhar

pelo mundo por meio do esforc;;o de um exército de militantes,

criando ciclos de movimentos específicos. As revoluc;;oes sao

produzidas quando esses ciclos combinam-se com crises económicas e coro a divisao entre as elites. Nestes momentos, a imprensa e a mídia em geral desempenham grande papel na difusao dos movimentos. Esta concepc;;ao passou a ser aplicada por

Johnston ( 1996), e por Glenn III ( 1996), para o estudo de movimentos que levaram a transic;;oes políticas no Leste Europeu ao

final dos anos 80.

A questao suscitada por (!arrow em seus primeiros estudos, sobre as causas e motivac;;oes das pessoas ao afiliar-se a uro

movimento, é retomada em 19951 Ele diz que há um grande número de razoes: desejo de vantagens pessoais, solidariedade ao

grupo, princípio de compromisso com urna causa, desejo de ser

parte de uro grupo etc. Esta heterogeneidade de motivac;;oes torna o problema da coordenac;;ao de um movimento bastante difícil, mas abre também um leque de possibilidades quanto aos

recursos existentes. Sao recursos de origem externa, pois preexistiam as ac;;oes dos indivíduos no grupo. Tarrow conclui que os

maiores recursos externos sao as redes sociais, nas quais as

ac;;oes coletivas se desenvolvem, e OSSírñE>Oíos culturais e ideológicos que formam os frames e dao forma a um movimento.)Em

resumo, conforme destacamos anteriormente, oportunidades.,.x.e:.

pertórios, _r_edes_e_marco.s sao o material básico para a construc;;ao do movimento.

Finalmente, assinalemos ainda a contribuic;;ao de Tarrow

para o entendimento dos movimentos sociais na(era da globalizac;;ao da econo ia, quando ele analisa os lac;;os entre as diferentes

redes sociais je suas possibilidades de ampliac;;ao e difusao. Os

movimentos mais localizados podem ter lac;;os e relac;;oes mais

estreitos, fortes e diretos, mas sao também os que mais produzem

quebras, defecc;;oes e desmobilizac;;ao. Lac;;os mais fracos, entre

redes sociais nao tao unificadas, mas que sao mais interdependentes, produzem matrizes mais amplas. A imprensa e algumas

campanhas feítas por coligac;;oes podem contribuir para difundir

os movimentos para novos públicos. As mesmas correlac;;oes

Teorias sobre MS na era da globalizac;<io: a MP 1 07

pod 'm ser feitas quanto ao papel do Estado. Estados nacionais

l 1·1 1cos e sociedades civis fortes contribuem para a participa<;ao

otial e para o surgimento de movimentos sociais. Estados forl 11H e centralizados destroem as autonomias locais e nao propi1 111m condi<;6es para o surgimento de movimentos sociais. O Est 1 1do é visto nao apenas como um agente que penetra na sociedn<le. Ele a integra; ao produzir políticas para a popula<;ao, pad l'Onizar procedimentos etc., o Estado prove metas para a mobi11:.mc;ao (Tarrow, 1994: 66).

, - Debates, críticas e polemicas a teoria da MP

Apesar de ter se estabelecido como novo referencial recente1111 •nte, a MP já é alvo de intensos debates e algumas críticas -

11111 itas delas advindas de seus próprios formuladores, que sao

p11 rLe deste processo que vem suscitando -, assim como ela responde as críticas que os NMS fizeram a MR. No primeiro caso

dnHLaca-se o trabalho de McAdam, McCarthy e Zald, publicado

11111 1996, Comparative Perspectives on Social Movements. Trata1• de urna coletanea de artigos centrados em estudos teóricos

1• 1 rnpíricos que utilizam a metodologia comparativa, em que a

1 1 1 tcgoria central é a das oportunidades políticas. Eles afirmam

1111 i ntrodrn;ao que o tipo de oportunidade política pode influen1•inr os movimentos, mas eles sao 'iñaisinfluenciáveis pelas for111ns organizacionais deológicas existentes entre os insurgent 1 •H (expressao dos autores). A estrutura das oportunidades políl 1ras é mais produto da intera<;ao dos movimentos com o meio

.1mbiente que o simples reflexo de mudan<;as que ocorrem em

dt•Lerminado lugar. Os autores concluem que "os movimentos

poderao amplamente nascer de oportunidades do meio ambiente,

1 1 1ns seu destino é pesadamente formado por suas próprias a<;6es"

1 M cAdam, McCarthy e Zald, 1996: 15).

McAdam chama a aten<;ao para o fato de que o conceito de oport u nidades políticas tem sido definido e interpretado de forma difen•nte e aplicado para urna variedade de fenómenos empíricos, asl'l lln como usado para urna grande diversidade de questoes provellÍl1ntes dos movimentos sociais. Gamson e Mayer também chama1 um a aten<;ao para alguns "perigos" contidos no uso do conceito.

108 O paradigma norte-americano

Goodwin ( 1996) elaborou críticas a teoria do processo político, destacando que "a tese das 'oportunidades políticas' permanece conceitualmente confusa e imprecisa, e como resultado

os estudos realizados sao tautológicos, triviais, ambíguos e insuficientes" (Goodwin, 1996: 17). O autor fez urna crítica mais

ampla a toda teoria e aos seus conceitos principais, como t'!!!:!!!:_e,

e estruturas de mobilizac,;ao. Ele destacou ainda que aquela análise exclui os códigos culturais, reduz a compreensao da cultura

a urna perspectiva instrumental, e só trabalha � movimenios

que a ama iam a c egar a suas premissas. Nao se investigaram

movimentos na área da contracultura, por exemplo.

Tarrow ( 1996) afirma que no debate sobre o conceito de oportunidades políticas existem quatro focos principais: as estruturas em larga escala, os atores, as variac,;oes nas oportunidades

políticas e o modo como as políticas de alianc,;as e conflitos engatilham, canalizam e desmobilizam os movimentos sociais. Estes

focos geraram quatro tipos de abordagem, a saber:

1 - Oportunidades políticas específicas: estuda-se a forma como

a política e o meio ambiente institucional canalizam a

ac,;ao coletiva ao redor de temas/problemas pa,rticulares e

quais as conseqüencias deste processo. McCarthy e seus

colaboradores saq citados por Tarrow entre os que trabalham com esta abordagem, assim como Eisinger (1973)

e Amenta e Zylan (1991).

2 - Oportunidades de grupos específicos - mudanc,;as na

posic,;ab de grupos na sociedade sao analisadas ao longo

do tempo para verificar como afetam as oportunidadeH

para a ac,;ao coletiva. Piven e Cloward ( 1979) e Goldfield

( 1982) sao os autores principais deste approach.

3 - Estrutura de oportunidades centrada no Estado - s -

gundo Tarrow, esta abordagem gerou o "paradigma estatista", muito popular nos anos 70 e 80. Inicialmente,

foi urna reac,;ao as abordagens que viam o Estado como

mero cruzamento do paralelogramo de forc,;as sociaiH.

Progressivamente foi-se enfatizando o Estado como an•­

na de competic,;ao política, onde classe, stp,tus, conflitm1

políticos etc. tem lugar (Bright e Harding, 1984), e como

Teorias sobre MS na era da globalizai;iio: a MP 1 09

as políticas nacionais afetam os movimentos. Como

exemplos citam-se os trabalhos de Kitschelt ( 1986) e

Kriesi ( 1995).

ll - Estatismo dinamico . . O sistema político todo sofre mudarn;as que modificara o meio ambiente dos atores sociais o suficiente para influenciar o início, o desenvolvimento e os resultados da ac;ao coletiva. Incluem-se aí

os estudos de Tilly ( 1984) sobre os processos d_e_ contenc;oes (lutas e 'aisputas) em que se examina o papel do

Estado como produtor- ou redutor das oportunidades

políticas as ac;oes coletivas)

Tarrow localiza em Alex Tocqueville a fonte de abordagem

d 1 r • lac;oes entre o Estado e as ac;oes coletivas em sua análise

L1 l't 1la11ao entre Estados e sociedade civil, fortes e fracos, e as

1 1p1 1 1'1.nnidades de participac;ao em associac;i5es voluntárias e

1 1 1 11111 neres, dentro da visao da democracia liberal. A posic;ao de

l 111 t•ow neste debate é que o exame da dinamica das mudanc;as

1111 11:HLado relativas a estrutura de oportunidades pode ser ca1 1 1 1 i l10 mais frutífero do que somente o olhar centrado nas va1 1i1 1 1 wH estáticas das estruturas estatais. lsto porque os mo-

l11 11111Los crescem, mudam de forma, desaparecem etc. durante

11 1• 1 clos de protesto e sao influenciados por tendencias que

t 1 1 111 t' ndem as fronteiras nacionais (políticas de direitos hu111i11 10H, meio ambiente etc.) Em tudo isto há um grande dina111 1110 (Tarrow, 1996: 50-53).

'l'a rrow e Tilly stao entre os poucos autores que destacara

1 11 11 H tbilidade de as oportunidades políticas expandirem o grupo

1111 11 1 1 1ovimento' social em func;ao de suas próprias ac;oes. GruI H• d11 protestos podem aumentar suas oportunidades pela ex1 111 1 10 dos repertórios de ac;ao coletiva dentro de novas formas,

1 1 11 1 1 1do oportunidades para si próprios como para seus oponen11 1 para as elites, afirma Tarrow ( 1996: 58-59). Tilly ( 1993)

111 q 1 11•, mbera as pessoas normalmente usem formas de ac;ao

1 1 1l1·l 1 v11 culturalmente conhecidas, algumas vezes elas inovam.

1 11 1 1 1w, Tilly e McAdam afirmara que os repertórios sao histó11 11 n 1 11;10 pertencem aos atores do movimento por si sós. Eles

1 1 1 1 1 indos por meio da interac;ao entre os protagonistas dos

1 1 1 1 111 11•1üos e seus oponentes. As autoridades podem responder

1 1 0 O paradigma norte-americano

a difusao dos novos repertórios usando repressao, incorporac;ao

ou desenvolvimento de estratégias de novos controles sociais.

Os novos repertórios sao fundamentais para estimular as mudanc;as, especialmente nas primeiras fases de um ciclo de protesto,

quando o grupo está criando sua identidade social (McAdam,

Tarrow e Tilly, 1996: 23). Estes autores retomam a polemica,

levantada por Cohen ( 1985), sobre identjdade ver..sus inj;eresses

e afirmam que alguns movimentos - como o das mulheres e o

dos direitos dos gays - fazem urna síntese entre as duas posic;6es e nao um antagonismo, assim como a identidade coletiva

nao é urna invenc;ao dos "novos" movimentos sociais atuais, porque a identidade do trabalho, presE

te entre os grupos de interesses, mustia desde o século XIX. Os pesquisadores dos Novos

Movimentos Sociais estariam focali ando os movimentos sociais

isoladamente e nao como um todo na luta política} Para a análise em termos políticos é necessário tratar de suas táticas, objetivos etc. , dentro de um panorama de oportunidades e constrangimentos. Eles, movimentos, tem na atualidade urna face dual:

muitas vezes um mesmo grupo age ora como movimento ora

como partido, sendo estas mudanc;as parte de sua estratégia. As

atividades dos movimentos envolvem, portanto, identidades e

interesses, e as identidades precisam ser reconhecidas; quern

usualmente faz este reconhecimento é o Estado e suas instituic;oes anexas, poderosas agencias de reconhecimento (McAdam,

Tarrow, Tilly, 1996: 27).

McAdam, Tarrow e Tilly formulam urna agenda composta

de cinco pontos para se realizar urna análise dª relacaQ e.n.tr.e.

os movimentos e as instituic;6es políticas)Afirmam eles que, se

virmos os movimentos como simples agregados de identidades

e interesses, iremos estudar apenas seus documentos, pronunciamentos públicos e negociac;6es internas. Mas eles sao também demandas coletivas as autoridades, e portanto ternos de

dirigir nossa atenc;ao para as ac;oes públicas na arena do poder

político. A agenda de estudo deve portanto conter os seguintes

passos :

1 - Usar as fontes públicas disponíveis para verificar o

tipo de ator social que está interagindo com o Estado,

as elites e outros atores.

Teorias sobre MS na era da globalizar;iio: a MP 1 1 1

2 - Onde e como estes atores combinam formas litigiosas

de agües coletivas com comportamentos políticos convencionais, dentro e ao redor das instituigües políticas.

3 - Indicar as mudangas nos recursos, nas oportunidades

e nos constrangimentos associados a mudangas entre

as formas litigiosas de agao coletiva.

4 - Comparar as agües estudadas com outras ocorridas no

mesmo período para análise dos ciclos de protesto e

verificar a hipótese da existencia de frames de agües

coletivas similares.

5 - Revelar as mudangas nos modelos de agao coletiva que

produzem situagües revolucionárias; e a interagao entre

pessoas poderosas e militantes que transformaram aquelas situagües em resultados revolucionários (McAdam,

Tarrow e Tilly, 1996: 28).

O principal campo de utilizagao da teoría da MP nas pesq 111sas sobre as agües coletivas, nos anos 90, está sendo o estudo

drn; processos de democratizagao política, tanto em ambito nacio11 ti como no das políticas locais, em processos de transigao dos

1 Pgimes autoritários-militares para os regimes políticos civisclPmocráticos, como na América Latina (Mische, 1996). A aná11 t' dos processos de democratizagao de regimes totalitários -

• orno no Leste Europeu (Johnston, 1996, Glenn III, 1996, e

1 >h 'rschall, 1996) e na Alemanha Federal (Karapin, 1996) -

1 . 1mbém tem sido outro campo de aplicagao da teoría.

A grande questao é: qual o papel efetivo desempenhado

¡ wlos movimentos sociais nos processos citados no parágrafo

1111lerior. J. Jenson, pesquisadora canadense de movimentos

1wiais, afirma que a literatura sobre eles tem freqüentemente

n pr sentado um dilema: ou a formagao da identidade política -

·1n paradigma dos NMS; ou a política institucional - via parad 'l'ma MP, em especial a estrutura de oportunidades políticas.

11: 1 11 se recusa a escolher ou optar entre os dois paradigmas e

11 1·1•umenta que estruturas de oportunidades políticas nao podem

111· unalisadas sem primeiro indagar-se sobre quem sao os atores.

1 to porque os movimentos "fazem oportunidades" em parte por

11111io da formagao de códigos de significados, promovendo pacot • H ideológicos e criando novos modelos de agao coletiva. Ela

1 1 2 O paradigma norte-americano

conclui que os movimentos sociais fazem sua própria história,

ainda que sob certo constrangimento. Eles sao afetados pelo momento histórico em que atuam (Jenson, 1995: 114). Os movimentos sociais sao analisados em termos de estruturas de poder ou

como produtores de poder. Suas representa96es, que também esta.o dentro das institui96es, envolvem a questao do poder.

5.1 - Conclusoes: críticas preliminares a MP

Para concluir este capítulo, formulamos algumas críticas

com o intuito de contribuir no debate sobre a MP. Elas tem caráter provisório porque se trata de urna teoria ainda nao completa, em processo de constitui9ao, e muitos dos problemas que

iremos assinalar poderao vir a ser superados.

� crítica principal é que a MP nao consegue se des render

da análise sistemica das teorias americanas anteriore_0 Excetuando-se Tarrow e mais uns poucos autores, no geral a MP ve

dinamismo apenas num dos pólos da sociedade - vista em termos sistemicos -, o das elites dominantes, atuando por meio de

políticas públicas ou outros mecanismos político-institucionais

da sociedade política. Os estímulos aos movimentos ocorreriam

quando houvesse enfraquecimento das elites. Embora possamos

encontrar alguns argumentos remanescentes de Gr sGi nestas

pondera96es, no sentido da importancia que aqi"iele autor atribuía as�rises de hegemonia das classes dirigentes como espa90

de oportunidade para a constru9ao da contra-hegemonia'jaindu

assim discordamos dessas análises pelo fato de que a sociedade

civil nao é considerada também como pólo de for9a e dinamismo.

Ela é vista como algo sempre modelado, formado pelas oportunidades e pelos constrangimentos impostos pela sociedadt•

política. Mesmo quando se faz alguma crítica a forte enfasu

dada as oportunidades políticas e se chama a aten9ao para o

papel da dinamica do movimento, como no exemplo citado no

parágrafo anterior, trata-se de urna crítica que nao refuta aH

bases da proposta, que aceita a premissa do sistema político

como o grande criador e dinamizador dos movimentos. Outru

questao problemática é a enfase dada ao processo de cria9ao Oll

surgimento das a96es/movimentos coletivos, sem que se atent<•

Teorías sobre MS na era da globalizar;ao: a MP 1 1 3

o suficiente para o seu desenrolar, onde se gera urna dinámica

que leva a outras lutas e movimentos, tecem-se redes de solida1·iedade etc.

Outra observac;ao a ser feita para as análises da MP é que ela

nao superou o problema do reducionismo e do utilitarisrnb presenl t 1H nas anteriores teorias norte-americanas em_relac;ao aefs conflitos

ociais. Ao se trabalhar com os repertórios discu1�sivos dos movi111 •ntos, localizam-se as matrizes daqueles discursos em termos

pol íticos, mas , ao se discutem as diferenc;as entre eles em relac;ao

11t1H interesses e projetos económicos envolvidos l!ando a ques1 110 económica vem a tona, é de forma utilitarista.) Os conflitos

10 ·iais entre os atores sociais decorrentes das diforenc;as de clasl'H sociais _nunca_ -o abordados orque nao s� trabalha Coiñ a

1 1 1 L •goria das classes sociais e seus interesses contraditórios.

Concluímos que a abordagem da Mobilizac;ao Política repre1111 La um avanc;o em relac;ao a todas as outras teorias já produ-

' das pelo paradigma norte-americano. Ela intr uz a olítica e +

l1ll'nl iza as ac;oes nas estruturas macross6ciais)Mas está ainda

1111i iLo presa ao modelo da racionalidade instrumental. As pes1 1nH, os grupos e os movimentos agem segundo estímulos e es1 t t t luras de oportunidades externas. Eles usam sua racionalid11d<1 para escolher as melhores oportunidades políticas. Ao mes111 1 1 L ropo em que há um grau de liberdade e de possibilidade

d1· l'riac;ao de fatos novos, e da própria mudanc;a social, que nao

V IHLa de forma determinista, há também urna lógica sistemica

q11n ignora os projetos político-ideológicos dos diferentes grupos

1 11 111is e sua situac;ao ñO processo de produc;ao dos benSSOCiais,

1 1 1 1 1 1omicos e simbólico-culturais da sociedade. Tarrow, por exempl11, n li rma que os símbolos culturais nao sao automaticamente

1111holos mobilizadores e que necessitam de agencias concretas

q111· oH Lransformem em frames, marcos referenciais significati11 í 'l'urrow, 1995: 133). Mas ele nao avanc;a na explicac;ao de

1 1 1 1 1 1 0 t1HLe processo ocorre por adotar urna concepc;ao restrita da

p111 l 1 lt1tn tica da cultura política e dos projetos político-ideolóh 1 11 dos grupos. Outra dificuldade em Tarrow relaciona-se a

1 111·1·1 1 I izac;ao do conceito de movimentos sociais. Ele trata greves,

1 1 11 rnl tivas, demonstrac;oes e protestos etc., tudo como movi1111 1il11 Hocial. Mas sem dúvida alguma Tarrow é o autor que

1 1 4 O paradigma norte-americano

mais avanc;a nas análises e o único que dá p:rj.Qridade ao poli

em termos de luta política. Ele diz que os movimentos preci11

de agencias de recóñhecimento, com o que concordamos, m

nao ve os movimentos em si mesmo� como forc;a1

política

A sociedade civil é usualmente igt!orada ela MP, existin

inclUsIVe umarejeic;ao as teses que veem ou analisam os mo

mentos como campo de desenvolvimento desta sociedade ci

dentro de processos de constituic;ao de novas identidades

ciais (Tilly, 1996). O estudo dos movimentos sociais vincul

aos processos de mudanc;a social tambél:n é, de maneira g

rej eitado, e de forma bem explícita por alguns autores co

Kriesi ( 1988), pelo fato de se enfatizar apenas as condic;oes

truturais e de elas serem vistas como processos mais amplos.

estudo dos movimentos fica reduzido ao estudo de tentativ

coletivas de grupos na defesa de posic;oes preestabelecidaH

poder, defensivas ou ofensivas, posic;oes que nao estao esta

lecidas em procedimentos institucionalizados pelo sistema do

nante (vide Kriese, 1988). Estas posic;oes tem levado algu

analistas a deslocar o vocabulário anterior da MR de OM8

organizac;oes de movimentos sociais - para IMS - infra-est

tura de movimentos sociais. Os próprios termos já denotam

concepc;oes envolvidas _na abordagem.

O conceito de oportunidades políticas é insuficiente nao up

nas pelos argumentos apontados por Goodwin, mas porque n

realiza de fato urna análise política dos movimentos, de suas

lac;oes e estruturas de poder e forc;a social envolvidos em HU

redes articulatórias, e os diferentes interesses sociopolíticoM

económico-culturais envolvidos. Em vez disso, a MP fundam

ta seus conceitos mais na psicología �ocial. O conceito de oport

nidade política assemelha-se a urna busca de causas/efeitos d

contextualizados. Se Marx afirmou que por meio da · práxiH

homens fazem a história em determinadas condic;oes, a teo

da Mobilizac;ao Política trabalha apenas com a busca das "dot

minadas condic;oes". A práxis dos homens nao é investigad

�penas se buscam as condic;oes que determinaram a emergen

de um dado movimento. O porque daquela ac;ao em si mesr

nao é investigado. Há urna inversao - as condic;oes passarn

determinar ou influenciar as ac;oes e nao estas a ser influenci

'l'eorias sobre MS na era da globalizai;ao: a MP 1 1 5

1 11 111 ·ondi<.;oes. Outro ponto é que o olhar das oportunip1 d 1 Licas está muito dirigido para as condic;oes externas

'''' l11 111nLo, quando se deve olhar também para as condic;oes

1 1 1 1 , pois aí podemos encontrar elementos explicativos sobre

11 11 d ivergencias contribuem para o avanc;o ou o retrocesso

111 l r nt• n to como um todo .

1 1 dnhnLe que a teoría da MP tem gerado é bastante salutar,

• l 11 na mesma rota há muito tempo. A todo momento um

11 1 1 1 11 um novo conceito, urna nova categoría etc., apresentan1 1 1 1 1110 o complemento necessário para as lacunas existentes.

1 1 v1 •:!. •s se argumenta que tal categoría ou teoría só é válida

11111 <lado movimento. Se fosse aplicada a outro tipo, seria

111 1 11 •1 1t . Nossa posic;ao é que nao se trata da escolha equivo1

111 ncl 'quada deste ou daquele movimento. Trata-se de equí­

' 1L11 bases teórico-epistemológicas da teoría. A preocupac;ao

111111 1•11L com a questao: por que as pessoas se mobilizam?,

1 1 11111 análise das causas que supere o mecanismo da visa.o

11 1 fi1ito, ou a visa.o determinista estrutural, ou ainda a pers11 11 mdividual-motivacional; a enfase pennanente na perspec1111 l 1 t.ucional-organizacional; e a generalizac;ao da abordagem

1 l 1 1d111; os movimentos sociais, sem urna diferenciac;ao e contex1 1 1 11•110 histórica, nos levam a concluir que a teoría da Mobiliza1 l 111l1Lica faz urna análise parcial em termos de processo polípor todos os argumentos já apresentados anteriormente.

11 proposta de análise dos movimentos sociais, a ser apresen111 1 11 1 rnpítulo VII, inclui a abordagem do cenário sociopolítico,

1111 1111 1t·o e cultural como o grande frame, a grande moldura no

1 1111 du qual se desenrolam as ac;oes. As oportunidades polítip1 1d1 11'UO ser urna das estratégias dentro deste grande cenário

11 '" "11 stratégia", desde que sejam redefinidas para incluir

11 1 l lH atores e nao apenas parte deles.


GLJNDA PA RTE

Os PARADIGMAS

EUROPEUS SOBJRE OS

MOVIMENTOS SOCIAIS


ssumindo o risco de cometer equívocos ao buscarmos

agrupar teorías de determinados paradigmas, podeUl d1 Li nguir dois grandes deles na Europa depois 1960, agru1111 11m duas grandes linhas de abordagens, a saber: a neomar1 1 1 11 u culturalista-acionalista, que se consagrou como a dos

1 11 Movimentos Sociais. Na corrente neomarxista ternos as

111 l. 1H dos historiadores ingleses Hobsbawm., Rude e Thompson,

1 l 11oria histórico-estrutural representada pelos trabalhos de

l 1 • l lH, Borja, Lojkine, nos anos 70 e 80. Na corrente dos

•• 11 Movimentos Sociais destacam-se tres linhas: a históricol i• d 1 l 1rn de Claus Off e, a psicossocial de Alberto Melucci, Laclau

l 1111 ffe, e a acionalista de Alain Tourainie. Alguns analistas

1 1 1 p11m os trabalhos de Castells, Touraine, Laclau, Offe etc. sob

1 1 1 1 1 11 lo de neomarxistas. Consideramos incorreto agrupá-los

t 1 11 li 1 n um mesmo bloco, pois urna coisa é utilizar-se de algumas

111 1 111IHHas e outra é retrabalhar a teoría sem abandonar seus

l 1 1 11l11mentos básicos. Os argumentos justificando as diferern;as

1 111 llHHinalamos acima ficarao mais claros ao apresentarmos a

111il IH de cada urna das teorías. Desde logo deve-se assinalar

1 1111 11xiste um razoável grau de aproxima<,;ao entre as correntes

l11ol 1c·ndas na abordagem neomarxista e grande diferencia1,;ao -

• 111 alguns casos até mesmo oposi1,;ao - entre as corren tes

1 1111 11 agrupadas nos NMS. Assim, Touraine realiza urna aná11 1 macrossocietal e Melucci trabalha com estruturas micro.

1 1 1 1 utiliza categorías neomarxistas e critica as abordagens

11111 1·0. Mas os tres usam a terminología Novos Movimentos

1 11 l 11 is.

1) forma geral, quando se fala em movimentos sociais a

1 • 1 1 l 1 r dos anos 70, a teoría que vem a mente é a dos Novos

111vimentos Sociais, porque foi construída a partir da crítica a

111111'([ gem clássica marxista e gra1,;as a ela desenvolveu-se um

11111 ni;o debate com o paradigma acionalista norte-americano.

1 20 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

Apesar de ter influenciado vários trabalhos na América Lati n

ela nao teve a hegemonia nas diretrizes teóricas dos trabal hu

lá desenvolvidos, dividindo o espac;o com as teorias neomarxü1t.1

As razoes destas op<;6es serao explicadas na terceira parte dt

te livro.

Iniciaremos a análise dos paradigmas europeus com a t orl

dos N ovos Movimentos Sociais porque, além de ter estabel ci

o debate já mencionado com as teorias norte-americanas tratad

nos capítulos anteriores, ela também buscou a superac;ao de di

culdades da teoria marxista européia, a ser tratada no próxim

capítulo.

Para finalizar, relembramos outra observac;ao destacnd

no início: no caso norte-americano falamos em paradigma, n

singular, e para o caso europeu estamos utilizando o plural. I H

porque, apesar das diferenc;as de enfases nas teorías aprmll'n

tadas na primeira parte, agrupadas em tres grandes blocos: 1

clássicas, a Mobilizac;ao de Recursos e a Mobilizac;ao Políti · 1

todas elas tem denominadores e certos parametros comuns,

dao continuidade a linhas básicas de investigac;ao. Tal nao ocor

com o caso europeu, em que há diferenc;as radicais nas premis1m

e análises realizadas pelo paradigma neomarxista, por urn lado,

pelo paradigma dos Novos Movimentos Sociais, por outro. O

neomarxistas fazern urna revisa.o da teoria marxista, sern lcvn

a cabo urna ruptura total corn vários de seus postulados básico

A teoria dos Novos Movirnentos Sociais é ambígua - algu n

partern de prernissas totalmente distintas do marxismo (como

Melucci), outros fazem urna ruptura na forma de abordagern, mn

trabalham com as macroestruturas societais (caso de Touraint•),

outros ainda questionam a validade da utilizac;ao de algu n

prognósticos realizados por Marx, argüindo pela necessidad • el

sua atualizac;ao - dado as transformac;oes históricas -,

negar a validade das categorías básicas (caso de Offe).

O PARADIGMA DOS

NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS

( �nracterísticas gerais

l 111rU ndo da inadequac;ao do paradigma tradicional marxis1 1 dt•IH>minado por alguns clássico ou ortodoxo, para a análise

11 1 1 1ovimentos sociais que passaram a ocorrer na Europa a

I' 1 1 l 1 1 dos anos 60 deste século, assim como fazendo a crítica aos

q111 •mas utilitaristas e as teorias baseadas na lógica racional e

l 1 1 i l 1 •gica dos atores (que analisavam os movimentos como negó1 1 11 , 1·1 1 lculos estratégicos etc.), Touraine, Offa, Melucci, Laclau e

1 1 11 t ffC •, entre outros, partiram para a criac;ao de esquemas inter1 1 1 1·! 111.i vos que enfatizavam a cultura, a ideologia, as lutas sociais

1 1 11 1.I 111 nas, a solidariedade entre as pessoas de um grupo ou mol111n 1 1 Lo social e o processo de identidade criado. As características

1 • 1 111H básicas dos NMS seriam:

l•:m primeiro lugar a construc;ao de um modelo teórico ba1·11c lo na cultura. Os teóricos dos NMS negaram a visao funcio11 1 1 I HLu da cultura como um conjunto fixo e predeterminado de

11111 1 1 111s e valores herdados do passado. Apesar de trabalharem

1 1 1111 118 bases marxistas do conceito, que ve a cultura como ideoli1¡ 111, les deixaram de lado a questao da ideologia como falsa re1 " 1 H< •ntac;ao do real. Sabemos que no paradigma marxista o

1 1 1 111·t•iLo de ideologia está intimamente associado ao de conscien1 111 el ' classe. Esta última, por sua vez, por ser formada por um

121

1 22 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

processo de conflitos dados pelas estruturas de poder e desiguald

des sociais, em que o económico tem prevalencia, irá influenciar o

conflitos dos movimentos. Como a categoria da consciencia d

classe nao tem relevancia no paradigma dos NMS, mas ap n11

a das ideologias, atuando no campo da cultura, concluímos qu

a categoria da cultura foi apropriada e transformada no decorrc

de sua utilizac;ao pelo paradigma dos NMS. Ao longo dos ano 1

tal paradigma será influenciado ainda pela interpretac;ao pú

-estruturalista e pós-modernista de cultura, centrando suas at

c;6es nos discursos como express6es de práticas culturais.

Em segundo lugar, a negac;ao do marxismo como cam¡

teórico capaz de dar conta da explicac;ao da ac;ao dos indivíduo

e, por conseguinte, da ac;ao coletiva da sociedade contemporan

tal como efetivamente ocorre. Apesar da simpatía dos teórico

dos NMS pelo neomarxismo, que enfatiza a importancia de con

ciencia, ideología, lutas sociais e solidariedade na ac;ao coletiv1 1

o marxismo foi descartado porque trata da ac;ao coletiva apenu

no nível das estruturas, da ac;ao das classes, trabalhando mm

universo de quest6es que prioriza as determinac;6es macro d

sociedade. Por isso ele nao daria conta de explicar as ac;6es qu

advem de outros campos, tais como o político e, fundamentu l

mente, o cultural; o que ocorre é urna subjugac;ao desses campo

ao domínio do económico, matando o que existe de inovador: o

retorno e a recriac;ao do ator, a possibilidade de mudanc;a a pu r

tir da ac;ao do indivíduo, independente dos condicionamentos du

estruturas. É importante destacar que a negac;ao do marxismo

refere-se a sua corrente clássica, tradicional, vista como ortodo

xa. Mas algumas de suas categorías básicas, como a da ideolo

gia, influenciaram a fundamentac;ao de um conceito central do

NMS, o de cultura.

Em terceiro lugar, o novo paradigma elimina também o

sujeito histórico redutor da humanidade, predeterminado, con

figurado pelas contradic;6es do capitalismo e formado pela "conH

ciencia autentica" de urna vanguarda partidária. Ao contrário,

o novo sujeito que surge é um coletivo difuso, nao-hierarquizado,

em luta contra as discriminac;6es de acesso aos bens da modl•r

nidade e, ao mesmo tempo, crítico de seus efeitos nocivos,

partir da fundamentac;ao de suas ac;6es em valores tradiciona iH,

O paradigma dos novas movimentos sociais 1 23

1 il 1 1 111 , comunitários. Portanto, a nova ahordagem elimina a

1il 1 d 1d11d de um sujeito específico, predeterminado, e ve os

1 1 1 1 p1 1 1 1 t. •s das ac;oes coletivas como atores sociais.

11; 111 quarto lugar, a política ganha centralidade na análise

l 1 1 l 1 1 l 1 rwnte redefinida. Deixa de ser um nível numa escala

1 p 11 ' 1 1 1 hierarquias e determinac;oes e passa a ser urna di11 111 dn vida social, abarcando todas as prátticas sociais (Laclau

111tlli ). gsta perspectiva abriu possibilidades para se pensar

1p1 1 l o do poder na esfera pública da sociedade civil, nos ter11 d1 l•'oucault, e nao apenas nas esferas do Estado (Offe, 1988).

t 11q1111 H que a dimensao política é utilizada principalmente

111hdo das relac;oes microssociais e culturais, ao contrário

1

1111 11cl igma norte-americano em suas várias teorias - que

1 1 '' pol ítica mais no nível macro das instituic;oes de poder

• 11 111c lade, principalmente aquelas relacionadas com os apal l t11 1 HLatais.

11:111 q uinto lugar, os atores sociais sao analisados pelos teót 11 d11H NMS prioritariamente sob dois aspectos: por suas ac;oes

•I• l 1v11H 1 pela identidade coletiva criada no processo. Observe­

' ' I

' '' Ht' enfatiza a identidade coletiva criada por grupos e nao

1d1 ·11Liclade social criada por estruturas sociais que precon111 11111 cortas características dos indivíduos. Os atores produ-

'" 1 11 ·ao coletiva, nos dizeres de Melucci, porque sao capazes

• 1111 Lodefinir, a si mesmos e a seu relacionamento com o

11 111 11111 biente. Nao se trata de um processo linear mas de inte1 1 1 1, 11 gociac;ao, e de oposic;ao de diferentes orientac;oes. O

1 1 1 1 1d11 d >staque será para a lógica que cria a identidade coletiq111 1 p rmeia as ac;oes de um grupo. Ela é mais importante

¡111 11 1·11 ·ionalidade instrumental ou estratégica defendida pelos

1111•1 11·n nos. A identidade coletiva tem centralidade nas explicac loH NMS. Nao devemos nos esquecer também de que o uso

1111 1 1 1 1.t•goria identidade na análise dos movimentos sociais nao

1111 111 1.mduzido pelos teóricos dos NMS. Ela está presente no tra1 11 1 1111 1 el 1 Turner e Klapp em 1969. Só que aqueles autores esta11111 rnuis preocupados com a identidade individual, pessoal, e

111 11 1·c Hn a coletiva. Na realidade, a preocupac;ao com a identi1l11d11 i ndividual advém dos interacionistas simbólicos; e Goffman

1 1 1 1 11>, 1 967) retomou suas implicac;oes para a análise sociológica,

1 24 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

por exemplo quando do estudo da importancia da auto-imagem. O

interacionismo simbólico, que ve a cultura como crenc;as, metaH,

expectativas e motivac;oes, também influenciará o paradigma dm1

NMS na formac;ao das representac;oes sociais. E, como pudemoH

observar no capítulo anterior, o debate da MR com os NMS envolveu a absorc;ao da questao da identidade pela primeira por meio

da retomada de Goffinan.

Nos NMS a identidade é parte constitutiva da formac;ao dm1

movimentos, eles crescem em func;ao da defesa dessa identidade. Ela se refere a definic;ao dos membros, fronteiras e ac;oes do

grupo. Jean Cohen ( 1992), ao estudar a questao da identidado

coletiva, introduziu urna distinc;ao entre identidade orientada

estratégia orientada para que se pudesse entender por que 08

movimentos sociais se movem. lsto porque, segundo a autora,

sem um entendimento do processo que dá conteúdo a esta identidade, mostra como é formada e quais as paixoes que motivam

os diferentes atores sociais, fica difícil explicar a dinamica doH

movimentos sociais. Retomaremos a discussao da identidade coletiva ao analisar o trabalho de Melucci, na segunda parte destl•

capítulo.

Concordamos com Foweraker ( 1995) quando ele afirma que

o paradigma dos Novas Movimentos Sociais define-se a partir

da identidade coletiva. Só que esta centralidade deixa de lado a

categoría do "novo" que nomeia o paradigma. O próprio Melucci

afirma que "o 'novo' nos N ovos Movimentos Sociais é ainda urna

questao aberta" (Melucci, 1996: 5). Ainda segundo Fowerakcr

"urna das principais afirmac;oes da tese dos N ovos MovimentoH

Sociais é que eles sao novos porque nao tem urna clara base

classista, como nos velhos movimentos operários ou camponeses;

e porque nao tem um interesse especial de apelo para nenhum

daqueles grupos. Sao de interesses difusos" ( 1995: 40). Assies,

Burgwal e Salman ( 1990) observam que o "novo" se refere a

muitas coisas. Na Europa se contrapoe ao "antigo" movimento

da classe trabalhadora; na América Latina se refere aos movimentos que nao se envolviam com os esquemas da política

populista, do jogo de favores e relac;oes clientelistas. Em amboH

os casos o que há de novo realmente é urna nova forma de fazcr

política e a politizac;ao de novos temas.

O paradigma dos nouos mouimentos sociais 1 25

N 11 r alidade, a melhor contraposi<;ao entre o novo e o velho

o1 11 1 n por Offe ( 1985), que discutiremos no úlltimo tópico deste

q11l 1 i lo. Pesquisadores europeus e americanos demonstraram

11111 1 1wvimentos de jovens, de mulheres (sufragistas), pela paz,

I• • 1 l 1 1Clantes, religiosos (Temperance-EUA) etc. já haviam ocord1 1 110 i nício do século (Johnston, Laraña e Gusfield, 1994). Eles

11 l 1 11 t.um que "urna das contribui<;oes da abordagem contempo1 1 1111 do Novos Movimentos Sociais foi ter chamado a atenc;ao

1 11 1 o Hignificado das mudanc;as morfológicas na estrutura e na

1 111 doH movimentos, relacionando-as com transformac;oes estru111 11 i na sociedade como um todo. As mudanc;as sao portanto

1 1 111 d os movimentos. Mas o conceito de NMS seria difícil de

l1tl11 11·nr por se tratar mais de urna forma de abordagem do que

1 1 1 1 11111 Leoria propriamente dita" (Johnston, Larana e Gusfield,

1 ' 1 1 (j ).

< !o hen também atribuiu o novo existente naqueles movi11 11l 1 1H o fato de que seus "atores podem tomar consciencia de

11 1 rn pacidade para criar identidades e relac;oes de poder en1 1 1 1d11H nesta construc;ao social" (Cohen, 19185: 694).

< >H Novos Movimentos recusam a política de cooperac;ao entre

1 11 1ncias estatais e os sindicatos e esta.o mais preocupados

111 .i twgurar direitos sociais - existentes ou a ser adquiridos

1 111 1 HllUS clientelas. Eles usam a mídia e as atividades de protes11 ¡ tlll'l l mobilizar a opiniao pública a seu favor, como forma de

1 1 1 1 11111 sobre os órgaos e políticas estatais. Por meio de ac;oes di­

'' 1 i1 , l>uscam promover mudanc;as nos valores dominantes e alte1 11 iLll' c;oes de discriminac;ao, principalmente dentro de instit 111 1 1 11 •H da própria sociedade civil.

M ouffe (1988) afirma que a novidade dos Novos Movimentos

1 1 1 l

1

i 1 1 1•opa deriva de novas formas de subordinac;ao ao capitalismo

1 11d 11 1: a banalizac;ao da vida social ou a expansao das relac;oes

1 1 1

1

111111 iHLas na cultura, no lazer e na sexualidade; a burocratizac;ao

111 1 1 w ic•dade; e a massificac;ao ou homogeneizac;ao da vida social

1 11 L1 pod rosa invasao dos meios de comunicac;ao de massa. Mouffe,

111 1 1 1l11borac;ao com Laclau, analisou os NMS segundo as posic;oes

1 1 1 11 t'HÍvas que constroem na sociedade, criando identidades sol 11 1• políticas (Laclau/Mouffe, 1985).

1 26 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

Os NMS negaram também a MR devido a seu neo-utilitar1

mo, baseado numa análise cujo modelo é: atores racionais atu1111

do nos conflitos contemporaneos. Os teóricos dos NMS afirmum

que as ac;oes coletivas nao se restringiriam as trocas, negoci 1

c;oes e cálculos estratégicos entre os adversários.

A mudanc;a do eixo das demandas da economía para um

patamar mais cultural refletiu-se na organizac;ao dos Novos Mo

vimentos Sociais fazendo com que se apresentem mais descentru

lizados, sem hierarquías internas, com estruturas colegiadnH,

mais participativos, abertos, espontaneos e fluidos. As lideran�u

continuam a ter importante papel no esquema de análise do

NMS. Mas elas sao apreendidas atuando em grupos, formando

correntes de opinioes. Nao há lugar nesta estrutura para o

velhos líderes oligárquicos, que se destacavam por sua oratóriu,

por seu carisma e poder sobre seus liderados. Disto resulta qm

os movimentos passaram a atuar mais como redes de troca dt

informac;oes e cooperac;ao em eventos e campanhas. Mas há tam

bém conflitos entre eles, internos e externos, e este aspecto, n

teoría dos Novos Movimentos Sociais, é visto como parte do pro

cesso de construc;ao da identidade. Melucci fala da pluralidadt•

de orientac;oes presente em cada movimento e Taylor e Wittier

( 1992) afirmam que a preocupac;ao com a identidade coletiva de

corre do crescente aumento da fragmentac;ao e pluralidade dn

realidade social, sendo portanto quase urna estratégia para conH

truir urna unidade do possível. Como vimos no capítulo anterior,

Tarrow trata desta questao de outra forma, pois as diferenc;as t•

divergencias estariam menos articuladas ao processo de identi

dade do grupo e mais próximas do entendimento dos resultado:;

dos movimentos, ou dos motivos que explicam o aproveitamento

ou a perda de urna oportunidade política presente no cenário em

que as ac;oes esta.o se desenrolando.

Johnston, Laraña e Gusfield ( 1994: 7-8) apresentam oito interessantes características básicas dos NMS, pois elas refletem

urna certa fusa.o dos argumentos europeus e americanos. Ou seja,

sao argumentos que expressam a teoría que apresentamos no

capítulo anterior no que diz respeito aos elementos absorvidos

da teoria dos NMS pelos americanos para compor a teoría da

MP. Sao eles:

•I

O paradigma dos novas movimentos sociais 1 27

Nao há clara definic;:ao do papel estrutural dos participantes. Há urna tendencia para a base social dos NMS

transcender a estrutura de classes.

As características ideológicas dos NMS apresentam nítido contraste com os movimentos da classe trabalhadora

e com a concepc;:ao marxista de ideologia, como elemento

unificador e totalizador da ac;:ao. Os J'ilMS exibem urna ·

pluralidade de idéias e valores e tem tendencias a orienlac;:oes pragmáticas e para a busca de reformas institucionais que ampliem o sistema de participac;:ao de seus

membros no processo de tomada de decis6es.

:1 Os NMS envolvem a emergencia de novas dimens6es

da identidade.

•1 A relac;:ao entre o individual e o coletivo é obscurecida.

Os NMS envolvem aspectos pessoais e íntimos da vida

humana.

<; Há o uso de táticas radicais de mobilizac;:ao de ruptura

e resistencia que diferem fundamentalmente das utilizadas pela classe trabalhadora, como a nao-violencia, a

desobediencia civil etc.

7 - A organizac;:ao e a proliferac;:ao dos NMS estao relacionadas com a crise de credibilidade dos canais convencionais

de participac;:ao nas democracias ocidentais.

8 - Os NMS organizam-se de forma difusa, segmentada e

descentralizada, ao contrário dos partidos de massa tradicionais, centralizados e burocratizados.

Observa-se que a teoria dos NMS também se alterou e se

111111liflcou após o debate com a MR e com a própria MP, apresenl 11d11H nos capítulos anteriores. Oportunidades e constrangimen111 ,;no express6es típicas do paradigma americano, assim como

1 1 111'ase na organizac;:ao e no processo político também sao pontos

• 1 1 1L rais daquelas teorias (MR e MP).

A leitura apresentada pelos vários analistas citados nos

l1·v11 a observar que a teoría dos Novos Movimentos Sociais refe­

"' li<' mais as categorías empíricas, que dizem respeito a novas

1 1 11 1 1 1as de manifestac;:ao coletivas e a um tipo de abordagem des-

1 28 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

vinculado do esquema clássico marxista, estrutural e determinista.

Os NMS caracterizaram-se pelo estudo de movimentos sociais num

approach mais construtivista, tomando como base movimento11

diferentes dos estudados pelo paradigma clássico marxista. Ele11

se detiveram no estudo dos movimentos de estudantes, de mulh •

res, gays, lésbicas e em todo o universo das questoes de genero,

das minorias raciais e culturais etc. Há novidades na práxis his

tórica dos movimentos, mas as categorias utilizadas para explicar

estas novas formas de processo social nao esta.o claras, porquu

nao partem das novidades em si mesmas mas de seus resultadoH,

sendo a identidade coletiva sua expressao máxima.

As observac;oes acima levam a algumas indagac;oes quando

analisamos o trabalho de Melucci. Ele afirma que os movimento11

sao menos forma organizacional e mais construc;oes analíticaH.

Observando-se a realidade atual de vários movimentos sociais, at

concordamos com essa conclusa.o, pois nao vemos mais a presern;n

de várias organizac;oes que sustentavam movimentos. Tomando-H<

o caso das mulheres, por exemplo, vários grupos desapareceram

enquanto instituic;oes formais, mas sabemos que eles ainda H<•

fazem presentes na representac;ao, no imaginário e nas relac;ouH

sociais das pessoas, grupos e instituic;oes, enquanto valores con

quistados ou que se redefiniram. Mas como se chegou a isso, como

se dá realmente o processo de cria�ao desses códigos? 8<

os movimentos nao sao formas históricas observáveis neste mo

mento, se nao sao fenómenos que possam ser tratados como obj<•

tos empíricos ou entidades - como podemos concluir que el<•H

continuara.o a produzir novos códigos culturais? Se eles, movim n

tos, sao processos sociais que em algum momento histórico foram

notados, observados e se tornaram fontes de dados, entao foram

analisados em seus elementos constitutivos, com a conclusa.o d<•

que geraram novos códigos culturais. Mas esses códigos por Hi

mesmos continuara.o a reproduzir o processo? Sem bases militan

tes, lideranc;as etc., os movimentos continuara.o a existir par

sempre, apenas como representac;ao simbólica, a partir dos cód i

gos herdados do passado? Como eles se recriam? Quais foram 11

categorías utilizadas para se chegar as conclusoes dos NMH?

Sem categorías teóricas específicas, que digam respeito ao fern)

m no em si e nao apenas a seus resultados, a teoria pod 1·

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 29

l 111· i ncompleta. E é esta a conclusa.o a que chegamos: a teoria

1111. N MS está incompleta porque os conceitos que a sustentam

1 11 1 1 Hlao suficientemente explicitados. O que ternos é um diagnós-

• 11 dm; manifesta<;6es coletivas contemporaneas que geraram mo11111 11 Los sociais e a demarca<;ao de suas diferen<;as em rela<;ao ao

1• 1 udo. Estes movimentos, por sua vez, geraram certas mudan1nnificativas, tanto na sociedade civil como na política.

A Leoria dos NMS usou o clássico binomio causa-efeito, sem

111 1 .ir no mérito do conjunto de processos que configuraram os

1111v1111 ntos como tais. Da política se extraiu a questao da ideoltw 1 , Lomada como conjunto de representa<;6es que configuram

1111 1 viHao de mundo; mas o caráter dessas representa<;6es cole1 l 1 , C'OffiO parte de projetos políticos mais abrangentes, nao foi

11 d .ulo. Ou seja, sao análises de conteúdo em que há recortes

11 1 1 rLrn; aspectos da realidade que poderao nao ter correspon1 111 111 ·om formas empíricas num certo momento histórico. Os

1 1d ¡o culturais sao, para nós, produtos, extens6es do fenome1 1 1 1 1 1 1 1vimento social - que é um processo de articula<;ao de a<;6es

1d1 l 1v111-1. A identidade coletiva é outro procluto, outro resultado

1 1 1 J l l'l >t' SSO.

<) aspectos assinalados acima, dada a sua nao-fundamen1 1 o 1 1 1 lo >rica, levam algumas teorias dos NMS a se aproxima111 do p radigma norte-americano. Assim, Gusfield, ao analisar

q 111 t.Ho m ovimento-forma versus movimento-representa<;ao,

1 1 1 1 1 1 1 q ue a forma - dada pelas estruturas associativas - e)

11 1

11 1 •1-wnta<;ao - dada pelo significado cultural do movimeñtÓ

111 d i1-1Lin<;6es tipológícas e que na prática poucos movimentos

1111111 1Tl completamente urna ou outra dessas características.

1 1 11• t. nde a classificar os movimentos tradicionais, do tipo do

11 l111 1111Lo operário, como lineares e corporificadores de estru1 1 1 HHHociativas e organiza<;6es. Os Novos Movimentos Sociais,

11 • 1 nm mais fluidos, mais flexíveis, estariam enquadrados no

' 1111d11 U po, conforme a posi<;ao de Melucci. Sao menos forma

1 1 1 il <'onjunto de representa<;6es significativas, express6es

t l l lll ll l H.

l¡• 1 1 11s autores salientam o caráter transformador dos movi1!1 11 o ·iais, dado pela possibilidade de inaugurarem urna nova

' 1 11111,r ' as rela<;6es sociais, mas nao o:s veem como alterna-

1 30 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

tivas de poder. Evers, por exemplo (que se alimenta bastante do

pressupostos do socialismo libertário do século passado, que trul

da luta da sociedade contra toda forma de poder e organiza�1 ol

afirma que os movimentos se contrapoem ao poder do Estado rn

nao se apresentam como urna alternativa a este poder. Esta expll

ca�ao é um dos pontos mais falhos do paradigma porque, embo

seus próprios autores forne�am elementos para justificar a prohl

mática da falta de luta pelo poder (ao tratar de suas ambigüid

des, assim como ao falar sobre suas navidades e limita�oes), obH

vamos que eles se referem ao universo de alguns movimentos ap

nas, generalizando suas afirma�oes para todos os movimen to

sociais. Na América Latina, por exemplo, vários movimentos po¡

11

lares, das mulheres, dos negros etc., nao direcionaram suas frcnt

de luta totalmente fora das estruturas de poder estatal, da s0<•I

dade política, porque a própria sociedade civil estava havia lonj.{

décadas controlada pelas estruturas do poder estatal. Aliar-H1 •

partidos, por exemplo, foi urna necessidade estratégica imperio

para atingir a sociedade política, para tentar mudar as leis (1 1

gumas das estruturas de organiza�ao da sociedade como um to 1

As mensagens dos novas códigos culturais nao eram suficient

Elas foram importantes para atingir concep�oes alicer�adas ·om

pontos estratégicos na cultura política vigente. Era preciso at.11

em duas frentes: nas mentalidades, da sociedade em geral, 11 n

estrutura das leis que regulamentavam as rela�oes sociaiH

gentes. Trataremos estas questoes mais detalhadamente ao di

cutir a América Latina, na terceira parte do livro.

Quanto a potencialidade das a�oes dos NMS, nao há <'o

senso a respeito. Touraine afirma que os movimentos sao Hll

ples repositores de ordem, embora fa�am parte inerente do

cial. Offe e

·

Evers veem algo novo nas a�oes de urna socieclu

agindo por si própria e se contrapondo ao Estado, embora d('Hl

quem que a flexibilidade e a inorganicidade dos movim<.•nt

contribuem para limitá-los e fragmentá-los.

Existem outros autores europeus que deram contribu it;

ou estao associados a história dos NMS, como Przewor k

Pizzorno e Alberoni. Przeworski ( 1985) fez críticas ao marxiHlll

afirmando que este possui urna teoria da história, mas nao 11111

teoría que de canta das a�oes do indivíduo. Em contrapa rt.1 cl

j

i

• 1 !1111

'

111 11

O paradigma dos novos movimentos sociais · 131

1

1 1 1 1 nta um esquema no qual as atuac;6es dos indivíduos sao

p l 1rndas pelas estratégias intencionalmente escolhidas. Base1 1 1 1 11 1 H num ponto de vista da análise psicológica do compor111 1111Lo, o autor contrap6e explicac;6es que afirmam ser os com1

1"' l 11rn ntos internalizac;6es de normas a explicac;ao do compor1 1 1 1 1 1 1 1 1 Lo intencional.

l 'izzorno ( 1983) pesquisa sobre o tema da participac;ao social

11 ' 1 1 OH anos 60 e possui vários estudos sobre as ac;oes coletivas.

1 11 1 1 1depto de algumas teses da MR que ficaram conhecidas

1111111 pt rtencentes ao universo do "individualismo metodológico'',

1 '

l

it.ti a firma que cada indivíduo age segundo seus próprios in11 1 ' 1 1 H é seu melhor juiz. Sendo assim, para atender e prever

1 1 111· n do desenvolvimento dos fatos, basta ter conhecimento dos

111 1• 11 1 H •s dos indivíduos e dos custos para alcarn;á-los. Portanto,

il• l nrnmento da enfase de urna lógica racional do sistema

11 il 1 H marxistas) para urna lógica de racionalidade dos indi­

' urna característica dos Novos Movimentos Sociais, em

• d tacam os fatores de construc;ao da identidade, a auto1 1 1 1 1 1 11 1 o reconhecimento dos movimentos por seus próprios

l 1111 11 pela sociedade em geral. Pizzorno destaca que o processo

1 11 1 1 1 1 1 1 1((8.0 da identidade envolve demandas inegociáveis e que

1 1 1 1 1 por meio da interac;ao coletiva do grupo, interna e externa.

111 11v11nentos clássicos, tradicionais, como os partidos e os sin-

' 1l111 , Lrabalham com demandas negociáveis.

I•' /\ 1 beroni ( 1977) teoriza sobre os movimentos sociais a partir

1111 1 nüegorias de fenómenos coletivos: agregados e de grupo.

1

11 l11H i ros estariam baseados apenas em comportamentos sit 1 1 1 1 ' nao formando lac;os que viessem a formar identidades.

1 ¡ot1 ndos sao fenómenos em que os comportamentos simila­

,i, 11 origem a novas coletividades. Existe urna consciencia do

1 1 1111 1·omum do grupo ( 1977: 37). Partindo de Weber, Alberoni

l 1 1d 11 11 1uestao da ruptura entre os sistemas de solidariedade

• 1 11 ·1\0 de novas solidariedades, situando os movimentos so1111111 processo contínuo que teria por desfecho sua institucio1 1 1 1 110. Trabalhando com noc;6es como a de Estado nascente,

1 11111 1 preocupa em caracterizar as trajetórias das ac;oes cole­

• q111 passariam de situac;6es diferenciadas para situac;6es

1 32 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

A seguir destacaremos alguns fundamentos teóricos que ele

ram origem aos NMS como urna nova teoria interpretativa, qu

chegou a ser chamada por alguns autores novo paradigma.

2 - As matrizes teóricas dos Novos Movimentos

Sociais: Weber, Marx, Habermas, Foucault,

Guattari, Goffman

Observe-se que tratamos a teoria dos NMS como send

inserida numa parte do paradigma europeu caracterizada corno

nova, e nao denominamos o paradigma como um todo ou a part

dos NMS como "novo paradigma", como faz Offe. Por que? Po

que, para nós, nao se trata de algo realmente novo, mas de um

reconstruc;ao de orientac;6es teóricas já existentes, urna revita ll

zac;ao na teoria da ac;ao social a partir de suas matrizes básicu14,

como as clássicas weberiana e durkhemiana, e a parsonian

contemporanea, e também inspirada em elaborac;oes de algu n

neomarxistas. A dimensao da integrac;ao social é retomada S(•m

reproduzir as teses das privac;oes económicas ou os modelo

smelserianos de comportamento coletivo. Categorias que ficara rn

por duas décadas congeladas, por pertencerem ao corpo teórico

funcionalista - tais como rac;a, cor, nacionalidade, língua, viil

nhanc;a etc., que eram utilizadas como "atributos básicos explicn

tivos da ac;ao dos indivíduos e grupos" -, foram retomadas d

forma totalmente nova, em esquemas que privilegiam a heterogt •

neidade socioeconomica em detrimento da homogeneidade econ(l

mica dada pela classe. Os antigos estudos sobre lideranc;aH

organizac;oes foram resgatados, ganhando destaque nos NM H.

Mas nao foi só a teoria da ac;ao que forneceu substancl

teórica básica ao novo paradigma. Ela foi fornecida tamb(>rn

pelos frankfurtianos - particularmente Adorno e Haberma

e pelos novos idealistas contemporaneos - Felix Guattari, Gilt

Deleuze e, principalmente, Michel Foucault. Com enfases difi

rendadas, eles foram os principais teóricos contemporaneoH 1

alimentar as formulac;oes e estudos sobre os chamados movimun

tos sociais alternativos: ecológicos, feministas, de homossexuu iH,

de negros, pela paz etc. Ocorreu um tipo de simbiose entrt• o

velho idealismo alemao, com temperos do pós-guerra da Escota

O paradigma dos novas mouimentos sociais 1 33

l 1' 1w1kfort, formando os fundamentos epistemológicos do novo

1 1 1 d 1¡•ma. C. Castoriadis, em suas críticas ao marxismo, tam11 111 c•onLribuiu para a construc;ao do referencial. Acrescentemi1111dn as influencias dos socialistas utópicos e dos anarquistas

111 11w11 lo passado.

l\11hn oferece-nos urna pista interessante para a compreen11 d11 produc;ao teórica dos NMS. Diz o autor que quando há

1 1 el paradigmas ocorre urna volta a filosofia e ao debate

1 11

111 Hl'US fundamentos. Nesse processo ocorre urna procura

111 l 11 nclamentos da ciencia nao apenas por meio de experiencias,

1lt1 • 111· · cio de critérios e procedimentos empiricamente verificá1 , 1 nns também por tentativas de situar os contextos e as

111 dos atores e agentes que esta.o sendo objeto de estudo, ou

1

1•, oH discursos ganham relevancia.

1 l nbermas, Foucault e outros sao os principais articuladores

l 1•1 1rias fundadas no discurso dos agentes, na ac;ao dos indiví11•• C) discurso sobre ac;ao versus estrutura surgiu num contexto

hl 1111 1co cm que havia reac;ao ao estrutural-funcionalismo, particu1 1 1111 1 1 1 1.' na linha de Parsons. Este, ao tentar acabar de vez com

• 1·olus em conflito, segundo J. Alexander (19187), tentou a via

11 1 1 1 111patibilizac;ao entre o idealismo e o materialismo, produzindo

111 1 1 noria sistemica voltada para o indivíduo.

A r ac;ao ao estrutural-funcionalismo levou, de um lado, a

l 1 1 111 11da da vertente de Marx e do pensamento de Weber, num

11 1·1 1 volvimento da teoria histórico-estrutural; de outro, a micros1 11 111lo1fia do interacionismo simbólico e da etnometodologia, as

111 11 h•varam novos alentos aos estudos sobre os movimentos

1 l111H Po comportamento coletivo, assim como sobre os papéis sol 11 doH i ndivíduos na sociedade. A teoria das redes sociais sur111 d11Hl ' debate, buscando articular as perspectivas macro e

1111• 1 1 1 (Goodwin e Emirbayer, 1994).

/\ 11 bordagem micro, centrada na ac;ao social, retrata os ato­

' 01110 movidos por forc;as internas. Ela contém, em seus pres11p11 1 oH, alta dose de nao-racionalismo (centrado nos sentimen111 1 1 1 1no<;oes, diferente do irracionalismo) e de idealismo. Apre­

' 111 1 u rna enfase centrada nos indivíduos e afirma que as esl 1 1 1l 111·11H extra-individuais existem na sociedade mas nao tem

1 34 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

existencia autónoma, independente dos indivíduos: sao produ �

das por eles. "O suposto é que os indivíduos podem alterar o

fundamentos da ordem a cada momento sucessivo no t m p1

histórico. Desse ponto de vista, eles nao carregam a ordem dt•ll

tro de si, antes obedecem ou se rebelam contra a ordem sod 1

mesmo em relac;ao a valores que guardam dentro de si mesmo

- de acordo com seus desejos individuais" (Alexander, 1987: 141

Nas teorías micro, os discursos estao centrados na liberd1

de, em contraposi<;ao a ordem de origem estrutural ou conjunlu

ral. A liberdade é apresentada como urna categoria pertenccnt

ao indivíduo, e a ordem como categoría relacionada com a soc i

dade e suas determinac;oes. Haveria urna tensao perman ni

entre elas.

O desenvolvimento das teorías micro no século XX, no con

texto histórico mais geral, deveu-se ao fato da descrenc;a g ru l

nos processos históricos concretos de desenvolvimento dos rcJ.{I

mes nao-capitalistas. O discurso sobre o porque da defesa clo

individualismo é também filosófico e a-histórico. Assim temo

"As teorías individualistas sao atraen tes porque preservam a 1 i

berdade individual de modo aberto, explícito e persistente. S •u

postulados a priori supoem a integridade do indivíduo racionnl

ou moral, e a capacidade que o ator tem de agir livrement

contra sua posic;ao definida em termos materiais ou cultura iH.

Essa convergencia natural entre o discurso ideológico e o expl i

cativo faz do individualismo urna corrente poderosa no pern;u

mento moderno" (Alexander, 1987: 18).

A forma nao-racional em que se assentam algumas da

teorías da ac;ao social bebe no iluminismo e em sua revolta contrn

o utilitarismo, inspira-se no romantismo e completa-se com 1114

contribuic;oes dos existencialistas, nas quais a moral tem luga

relevante. Conseqüentemente há, na teoría da ac;ao social, gran

de dose de voluntarismo. Ao negar o poder das estruturas macro

da sociedade e na sociedade, procura reavivar as forc;as que Ht•

considera existam dentro dos indivíduos.

Enfatizando a questao da autonomía e baseados numa abor

dagem neo-idealista da realidade social, filósofos e psicanalistt 1H

n garam o papel das determinac;oes e dos processos objetivoH,

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 35

1 •• 111do o primado da subjetividade dos indivíduos e o papel

¡ ' 11 I t H sociais em suas lutas cotidianas. A cultura e a busca

oH de singularidade sao eixos básicos das análises de

11 11 , por exemplo. O deslocamento da análise para as esferas

1 1 1 d11 vi<la social resgatou urna das dimensoes vitais da históil11 l 11 11 1 1 m: a prática cotidiana, urna das dimensoes básicas da

1 l111 11 1a na, o fazer, o acontecer. A autonomía dos indivíduos

1 1 1 1

11 11 Hociais será a principal categoría utilizada. Ela nao é

1 1 1 1 forma a que os grupos e movimentos se isolem mas, ao

l 1 1 1 10, ·orno a conquista ou a constrrn;ao de um processo inte1 11 l11nnado a base de relac;oes sociais novas, de caráter diferen1 11 1 1 1 IHO o processo de construc;ao de alianc;as, de formar redes

1 1 culturais, será tao enfatizado nos NMS.

11: 111. ressante destacar ainda que os filósofos e psicanalisd1 I• 1 1Hores da autonomia buscaram seus fundamentos teóri-

'"' l11dol gicos em Nietzsche - em seus estudos sobre a valo11 1111 rln vida como critério de construc;ao de um novo tempo

ti l 1, c· ll , 1984); no comunitarismo dos socialistas utópicos -

I ' 1 11l 111 nte nas comunidades de Owen e Fourrier (Sicca,

1 1 , l lOH anarquistas clássicos, particularmente em Proudhon

1 1 1 1 l 11 m Kroptkin ( 1987); no idealismo alemao, particular1 111 nns correntes contemporaneas da escola de Frankfurt

1 l 1P 1 1 n11s, 1983); no trabalho de desobediencia civil de Thoreau

l 1 td, •m Emerson; em líderes pacifistas como Gandhi; em

1 1 1 111 1 1HLcin ( 1980); enfim, em alguns casos, no próprio Marx

1 1 1) e •m sua teoría da alienac;ao.

A e 1 u stao das utopías ressurge em algumas das análises

1111 l 1m1Lante vigor, como mola mestra a canalizar forc;as sociais .

.¡, 11 1 1 1 da autonomía se faz no plano da sociedade civil contra1 1 111.111 H(' ao poder do Estado, dos governos e seus aparelhos;

11111111 1 !1 -se a ingerencia estatal nos assuntos da vida cotidiana

l 1 11clivíduos. De "costas para o Estado" foi urna expressao

1111l 111clu por T. Evers ( 1983) ao analisar o movimento dos "ver1111 Alemanha.

l (c Hgatar o discurso, a fala, dos que lutam contra todas as

1 1 111 1 el opressao é urna tarefa também do novo intelectual

111111 i111l i ano, assim como denunciar, falar publicamente dos focos

11 1 1 l 1!'1 1 la res de poder; sao todas lutas a serem abrac;adas pelos

1 36 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

novos intelectuais. Estes pressupostos foram assimiladoH 1

liderarn;;as intelectualizadas que participaram dos novos 11111

mentos sociais, particularmente aqueles organizados em to

das questoes de ra<;a e de genero.

Guattari se deteve na análise específica de movimentoH

ciais, os chamados alternativos ou adeptos da contraculturn

massas. Eles nao buscam capitalizar poder ou saber mas a I >

lifera<;ao, na sociedade, de novos meios de cristalizar out

formas de organiza<;ao, outras maneiras de conceber as relu�

entre vida cotidiana, trabalho, economía do desejo etc. Para uql

le autor, os movimentos sociais nao se caracterizariam pela bu

do consenso mas pela busca de urna interven<;ao analítica. 1.,

questao remete também a problemática da autonomía. O fund

mental é a produ<;ao contínua de urna a<;ao de dissidencia un

lítica sobre a sociedade, inclusive sobre os partidos e sindicutc

possíveis parceiros de urna alian<;a. Tal dissidencia analític

urna das bases da formula<;ao dos movimentos como reprci-1

ta<;oes e conjuntos de idéias e novos valores atuando sobro

sociedad e.

Em rela<;ao ao Estado, as posi<;oes de Guattari sao clam

alguns movimentos sofrem o clássico processo de atra<;ao p 1

Estado. Mas eles nao devem se diluir no interior de um aparo!

burocrático institucional porque suas tarefas sao mais ampln

Um movimento nao se esgota numa secretaria governament l

Se o movimento se reduzir a isto, ele morre.

Outra fonte importante de referencia a abordagem dos Novo

Movimentos Sociais é a fenomenología. Duas categorías básic

- cotidiano e cultura - presentes nas diferentes abordagt•n

sobre a questao dos movimentos sociais tem seus fundamento

nesta abordagem.

Sabemos que os pressupostos básicos da fenomenología s1 o

abordagem subjetivista dos fenómenos, importancia da consci(•n

cía dos indivíduos no questionamento cotidiano da vida socia l,

busca da intencionalidade da consciencia, importancia da ex¡w

riencia na vida dos individuos, gerando hábitos e atitudes co�

n itivas. Husserl, um dos fundadores da fenomenología, tomav1

o mundo material a partir da vida cotidiana, como ponto d

O paradigma dos novas movimentos sociais 1 37

1 1 r l11 p1 1 1·1 1 a elaborac;ao de sua filosofia do mundo. Mas será

l 111 I �. ( 1 962) quem desenvolverá mais os aspectos do desen1111 1 11 to da consciencia na vida cotidiana. Trabalhando com

11 1d1 1 1 1 H weberianos, Schutz chama a atenc;ao para o fato de

" 1 pi ic· c;ao da realidade social deve ultrapassar a descri1 1 d11 poH itivistas) e se fundamentar numa interpretac;ao das

1 1 1 111•1111-1 subjetivas dos indivíduos que constroem suas ac;oe¡:;.

1 111 l'l< �ju, a fenomenología tenta tornar explícita a conscientl 1q11 i lo que está latente na vida cotidiana, mas que se encontl 1 '"u lado. O entendimento da vida cotidiana nao deve ser

t 11 1" 1 11·1 •i lac;ao do senso comum, mas a busca dos significados

1 11 doH fenómenos que servem para configurar os fatos coti1111 < :off man, citado anteriormente, ao fazer a análise inte1 11111 t.11, juntamente com Garfinkel, será um dos expoentes

t l 11 11 dugem fenomenológica, na década de 60, da vida cotidia1 1 llH 111-1Ludos, entretanto, continuaram dentro dos limites da

1 1· dn consciencia. Garfinkel interessou-se em saber como

111d1v11Luos fazem suas próprias normas. Jlsto o levou a etnol111l11logia e a caminhar para o estudo das práticas sociais dos

11d11 oH dos grupos, indo engrossar, posteriormente, o movimen111 il 1 "c i �ncias alternativas". Wittgeinsten, por sua vez, desen11 1 1'1 1 11 fenomenología em direc;ao a lingüística.

 


Gamson, McAdam, Taylor e outros procuraram articular

indivíduo, sistema cultural e, em alguns casos, carreira organizacional dos movimentos. Eles buscaram em Melucci fundamentos para o conceito de identidade coletiva, transformando-o.

Partiram de premissas de Melucci mas analisaram os movimentos como um processo negociado, nascido fora das estruturas

das desigualdades existentes. A desigualdade de genero, por exemplo, é vista por Taylor e Whittier ( 1992) como algo · constantemente recriado fora das estruturas de desigualdades existentes.

Ao contrário de Cohen ( 1985), nao veem nenhuma diferenc;a crucial

entre o paradigma da MR e o dos NMS. Eles veem similaridades no que diz respeito a efetividade estratégica da organizac;ao

dos movimentos sociais. Promover mudanc;as institucionais e

culturais seria objetivo dos movimentos. E a identidade coletiva

é um ponto estratégico neste processo.

Gamson, apesar de rejeitar as críticas de Cohen e achar

que a centralidade do processo de identidade pode ser incorporada a MR, aproveita o esquema desenvolvido por Cohen para

sistematizar os elementos do paradigma dos NMS, destacando

tres elementos: a própria identidade coletiva, a solidariedade e a

consciencia. Ele irá acrescentar um quarto elemento, a micromobilizac;ao. Trata-se do fenómeno de microeventos que operam ligando

níveis individuais e socioculturais na construc;ao da identidade, da

solidariedade e do processo de formac;ao da consciencia.

Gamson reconhece que o ponto de vista de análise dos movimentos sociais <leve ser interdisciplinar. Ele retoma autores

do passado, que estudaram a ac;ao coletiva na perspectiva de

mobilizac;oes de massa, como Eric Fromm. Seu interesse é compreender o porque da centralidade das relac;oes sociais no de-

Teorias sobre MS na era da globalizar;iio: a. MP 81

Pllvolvimento da identidade coletiva. Entretanto, a principal conl 1 1 l >ui<_;ao de Gamson ao debate teórico sobre os movimentos so1 11tis foi demonstrar a importancia dos meios de comunica<_;ao e da

111 td ia na mobiliza<_;ao das pessoas, na sociedade contemporanea,

rnnLribuindo para a redefini<_;ao do conceito de frame feita por

, lnow e Benford ( 1992), que discutiremos a seguir. Por meio dos

1 1 1ovimentos sociais as pessoas se envolvem em lutas simbólicas

1 1hre os significados e interpreta<_;oes dos fatos e coisas. Gamson

1r¡¡ re que se examine o discurso da mídia e se investigue como

1 lo muda ao longo do tempo. Com a cria<_;ao do conceito de pacotes

1dc •ológicos, ele procura entender o processo de difusa.o e dissemi111 1c;ao dos movimentos por meio da mídia. É por meio dela que os

1 1 1ovimentos interferem no discurso político público, pois também

11!rnrcem influencia nas matérias em discussao na mídia. Os

11 t0vimentos concorrem com outros movimentos contrários a sua

poHi<_;ao, com organiza<_;oes concorrentes, com seus oponentes, com

11 d •scenso de figuras representantes da posi<_;ao oficial etc. Todos

q1tl'rem ter voz pública no debate. As pesquisas de Gamson remel 1 •rn a urna outra categoria fundamental na teoria da Mobiliza<;ao

1 'ol ítica, a de identidade pública, que captura a influencia do

p11bl ico externo sobre o movimento.

Morris ( 1992) retomou a questao do processo de forma<_;ao

r111 consciencia política utilizando algumas concep<_;oes de Gramsci.

!\o analisar questoes de genero e ra<_;a na América, buscou comp 1't1cnder a consciencia de oposi<_;ao procurando inserir as a<_;oes

' ni •Livas em suas determina<_;oes estruturais e culturais. Ele bus1 1 1 va um quadro explicativo que mostrasse como ocorre a inte­

' 11 ·uo no interior dos movimentos, como os estímulos e as inibi1 1 1c•s sao geradas. Sua enfase na problemática da consciencia

poi íLica é aplicada para entender os movimentos de conflito e os

111ovimentos de consenso, tipologia criada nos anos 70 pela MR

e r Lomada por Schwartz ( 1992).

Friedman e McAdam ( 1992) consideraram a identidade

1 1 rl •Uva como um pronunciamento público de status, no sentido

Wl'beriano clássico. Eles afirmam que o uso do termo identida-¡

d1• coletiva na análise do comportamento coletivo nao é novo.

1 '111n um sentido um pouco diferente, Klapp ( 1969- 72) e Louis

h ri sberg ( 1973) já haviam utilizado o termo como algo similar a

82 O paradigma norte-americano

solidariedade_ O sentido atribuído por Melucci ( 1986) e Cohen

( 1985) foi considerado novo por Friedman e McAdam.

Bert Klandermans, da Universidade de Amsterda, e Sidney

Tarrow, na introdugao de International Social Movement

Research ( 1988), fizeram urna análise comparativa entre os paradigmas da MR e dos NMS enfatizando o processo de mobilizagao como urna possível ponte entre os dois paradigmas. A preocupagao de Klandermans e Tarrow foi entender como a mudanga estrutural é transformada em agao coletiva. Eles reafirmaram que a MR partiu da negagao da teoria das privagoes e que

pode ser caracterizada por tres pontos-chave: a relagao custo/

beneficio, a enfase na organizagao e a questao das expectativas

de sucesso - �ue desempenhava importante papel nos incentiJroo; oletivos. Os N ovos Movimentos Sociais foram pensados

como urna reagao as mudangas estruturais nas sociedades capitalistas ocidentais. Eles destacaram que os "novos" movimentos

estudados foram basicamente o das mulheres, o dos ambientalistas, aqueles pela paz e o dos estudantes; afirmando que as características básicas dos NMS sao cinco: seus valores - usualmente

antimodernistas -, as formas de agao - com o uso intensivo de

formas nao-convencionais -, sua constituigao - com grupos

predispostos a participar porque sao marginalizados pelo status

quo vigente ou porque se tornaram sensíveis aos resultados

societais da modernizagao capitalista -, as novas aspiragoes e

a satisfagao de necessidades postas em risco pelas exigencias da

burocratizagao e aumento da industrializagao - levando a perda

de lagos tradicionais e das estruturas de lealdades existentes. O

resultado de tudo isso foi levar as pessoas a ficarem mais receptivas as novas visoes de novas utopias sociais.

Klandermans e Tarrow consideraram que a identidade

coletiva é um processo político negociado entre os movimentos

e seus interlocutores, e parte de um processo de respostas a

novos problemas e nao um processo de representagao simbólica

apenas, como nos NMS. Eles criticaram a MR por focalizar a

política de recursos e negligenciar as precondigoes estruturais

que explicam como surgem os movimentos. Trata-se de urna

abordagem centrada mais nas condigoes de como o movimento

surge e nao no porque de seu surgimento. Assim, a MR ignora-

,,I'" I'11I

Teorías sobre MS na era da globalizai;ao: a MP 83

1 1 llH bases sociopolíticas dos movimentos. Ainda em relac;ao

111 N M S, os autores assinalaram que h á u m reducionismo em

" l .1 '1 o a origem estrutural das tens6es e nao se atenta o sufi1 I• 111.11 para o próprio processo das mobilizac;6es. Nao se dá aten­

• 111 l nmbém as precondic;oes políticas dos movimentos e ao seu

p1 r tpl'io processo político. Em resumo, para Tarrow e Klandermas,

111 111 11 MR nem os NMS estudam o potencial e a motivac;ao

1

1 1 1 1 1 11 participac;ao. As instituic;6es políticas tém forte influén­

' i.1 obre as formas e os focos de movimentos, assim como deter11111111 los grupos de pessoas - como a Nova Esquerda nos anos

1 1 1/70 -, certas instituic;6es - como a Igreja -- etc. Todo este

p 1 1 11•01-1so deve ser visto por meio do estudo de redes nas quais

l11d1v duos e grupos tém metas comuns. Oportunidades polí1 lt .111 provéem a eles saídas para a ac;ao coletiva e criam novos

1 111 ficados para as ac;oes de mobilizac;ao, os quais constituirao

11 1 1ovos atores coletivos. Retomaremos esta síntese adiante, ao

111. il l1-1ar o trabalho de Tarrow. Por ora nos interessa a presentar

1 1111 pouco mais as idéias e os argumentos que levaram ao desen1 d vi mento da nova teoría.

KJandermans, em especial, passou cinco anos estudando e

1 1 1111 parando os dois paradigmas - MR e NMS. Ele concluiu

1 1'102) que as duas abordagens poderiam ser complementares

• 1 1 1 10 tivessem um ponto de grande fragilidade: ambas nao expi i 1•11rn como as pessoas fazem para definir situac;6es nas quais ,

• • 1•1 1 1 ninho vía participac;ao em movimentos sociais parece ser o f

11111 H adequado ou apropriado. Segundo o autor, a teoría dos NMS

I • 11Lou descobrir a origem das demandas, mas teria falhado por

11.111 ·ompreender que mudanc;as estruturais nao geram automal l1 1 1 1 n nte movimentos sociais. Por outro lado, a MR nao conl 1 • 111plou o fato de que por si só a presenc;a de urna organizac;ao

d11 1 1 1ovimento nao gera os descontentamentos e nem convence

'' p ssoas a participarem de suas ac;6es.

K landermans diz que o estudo da literatura dos dois parad ¡ 1 1 1us parece ser mais um estudo de idéias que de teorías, já

1p1 1 la nao está ancorada no estudo de estruturas sociais esp1·1•1 ticas. Seguindo a tradic;ao epistemológica na área das teo­

' 111 dos movimentos sociais, Klandermans também elabora um

"' 1vo ·onceito, o de campo multiorganizacional, contribuindo para

84 O paradigma norte-americano

a MP ao enfatizar o aspecto do construtivismo social, ou seja,

como se dá o processo de construc;ao de significados sociais. El

sugere que este processo tem tres níveis, a saber: o discurso

público, a comunicac;ao persuasiva durante as mobilizac;6es e o

surgimento da própria consciencia. Em relac;ao ao primeiro nível

ele identifica em Gamson, Melucci e McAdam as principais contribuic;oes. No segundo, as de Snow e o seu próprio trabalho. E

no terceiro cita Hirich ( 1990) e Fantasia ( 1988).

Os vários significados que emergem num processo de confronto, durante um dado protesto ou movimento social, representam para Klandermans os múltiplos setores sociais - que

ele denomina de campo multiorganizacional. Estes setores sao

os que suportam a organizac;ao do movimento, ou os que a ela

se op6em, assim como aqueles que lhes sao indiferentes. É interessante registrar também que as referencias teóricas de

Klandermans sao Durkheim e Moscovici, seguindo urna tendencia dos anos 90 que é a do resgate da psicologia social na análise da ac;ao coletiva. O conceito de crenc;as coletivas é resgatado para entender as representac;6es sociais que um determinado universo de opini6es e crenc;as traz a tona. Mas ele trabalha

também com conceitos de Habermas e Oberschall para o estudo

do papel das comunicac;6es nos movimentos sociais. Ele procura

fundir todas essas orientac;6es teóricas e conclui que as crenc;as

coletivas sao criadas nao por indivíduos isolados mas por indivíduos em comunicac;ao e cooperac;ao nas rotinas cotidianas, por

meio de encontros em congressos, partidos; conversac;6es informais em ba es, restaurantes e em viagens; telex, fax, e-mail,

internet etc. Estes espac;os criam um misto de vida interpessoal,

transformando o que nao é familiar em coisas familiares. O

protesto social é, portanto, construído socialmente. O espancamento de mulheres, por exemplo, é citado pelo autor como exemplo de um problema que se transformou em um tema público,

deixando de ser pessoal, particular e privado. Este exemplo é

dado para demonstrar o impacto do discurso �úblico sobre as

identidades coletivas. Portanto, os movimentos sociais podem

ter profundo impacto sobre o discurso da mídia.

Assinale-se ainda que Klandermans estabelece �ma importante distinc;ao entre mobilizac;ao consensual - tentativa deli-

Teorias sobre MS na era da globalizai;ao: a MP 85

dos atores de criarem o consenso - e mobilizac;ao da

111 resultado da convergencia, nao-planejada, de significa-

" IH redes sociais e nas subculturas.

1 now ( 1986, 1992) foi uro dos principais autores a apresen­

! 11 1 d •fender a tese do modelo cíclico dos movimentos sociais.

1 1

, l ornou como exemplo movimentos ocorridos ero cidades norte1 1 11111·i ·anas nos anos 60, ero torno da questao dos direitos civis

·

,

111 1 declínio nos anos 70. E estudou também manifestac;oes

1 1 1 l 1• l 1 vns ocorridas na Europa e na América Latina nos· anos 70

• 111 l l•'ocalizando a atenc;ao sobre as redes sociais, explorou a

11 l . 1 1•11<> entre os ciclos de protesto e os quadros conjunturais do

11 1 1 1 1d o. Em 1988, Snow elaborou ero conjunto coro Robert

1 1• 11l ord uro trabalho ero que buscam entender os ciclos de uro

11111v1111 nto no tempo e no espac;o. Trata-se de importante conl 1 1l111 H,:ao porque faz uro resgate da teoría da Mobilizac;ao de

1 1• 1 11rHos,1

em suas diferentes etapas, formulando críticas signif I• .d 1 vas. Os autores dizem que para o primeiro grupo da MR

li1rmado por McCarthy, Oberschall, Jenkins, Perrow, Zald

1 l 1 o principal problema diz respeito a ausencia dos fatores

1d1·11logicos. A abordagem anterior a MR, dos comportamentos

1 1 d1• I i vos de Smelser, também ignorara ou atiribuíra muito pou1 1 1 1111 portancia as ideologias. Os movimentos apareciam como

I " ' ' 1n'gica. Snow e Benford afirmam que os autores que critica­

' 1111 11 MR, destacando-se Ferree e Muller ( 1985), Gamson ( 1982)

1 11 próprio Snow, contribuíram significativamente por terem

111 l11 1 do a ideologia na agenda da MR. A novidade passou a

¡ 1•1 1 1· m torno do universo de significados dos movimentos e de

• 11 111odo de construc;ao. Ou seja, os recursos interpretativos e

1 l 1 • 1 1 1t•ntos ideacionais foram acrescentados á MR.J

Observa-se que o debate entre a teoria da MR e a dos NMS

tl1 c11wolveu a MR ero várias direc;oes. A identidade e a solida1 1 1 ·dnde passaram a ser vistas como incentivos propositivos (criad1 11 p •lo grupo como resultado de sua atuac;ao e utilizados como

11 . .

. 11 rso estratégico nas ac;6es de negociac;ao), tao importantes

q11111 1 lo os chamados incentivos seletivos (selecionados pelo gru1 "' 1•m func;ao de seus interesses económicos). Reafirmou-se a

1111 porLancia da posic;ao estrutural dos indivíduos no processo

d11 t Hcolhas; continuou-se a priorizar a indagac;ao das raz6es

86 O paradigma norte-americano

de mobilizac;ao dos atores sociais e da pouca atenc;ao ao modo

como se mobilizam, ao contrário dos NMS, que sempre se preocuparam com este problema. A análise dos movimentos sociais

como um processo e nao como fenómenos isolados é um consenso entre os dois paradigmas. Mas se eles sao formas empíricas

observáveis ou construc;oes teóricas analíticas sao desacordos

existentes tanto entre os dois paradigmas como no interior de

cada um deles.

Observamos que tanto a MR como os NMS nasceram da

rejeic;ao a outros paradigmas. A MR rejeitou o reducionismo

psicológico das primeiras teorías das ac;oes coletivas americanas. Os NMS surgiram a partir dos desencantos com as lacunas

do paradigma marxista para explicar ac;oes e movimentos coletivos contemporaneos. Estas rejeic;oes criaram também os elementos de identificac;ao utilizados em comum: explicar os novos

processos em termos das ac;oes coletivas e movimentos sociais

que estavam ocorrendo na sociedade ocidental desenvolvida sem

utilizar a análise marxista. A MR partiu para esquemas estrutural-económicos e aos poucos foi incorporando elementos microssocietais. A teoría dos NMS partiu do microcultural mas ao,

poucos foi em busca do macro - só que no plano da conjuntura

política. É interessante lembrar também que Cohen ( 1985) chamou a atenc;ao para a origem dos estudiosos de cada urna das

duas correntes. Muitos eram adeptos da Nova Esquerda, que se

caracterizava pelo abandono da idéia de mudanc;a e transformac;ao social por meio de revoluc;oes. Preconizavam-se mudanc;as

estruturais, com a participac;ao da sociedade civil. Eles introduziram inovac;oes nos estudos sobre as mobilizac;oes e organizac;oes coletivas a medida que destacaram a escolha deliberada,

por parte dos movimentos, de estruturas descentralizadas, do

participac;ao em movimentos de bairros e organizac;oes nacionais de caráter federativo, assim como da criac;ao de novas identidades e solidariedades. Mas a preocupac;ao maior - no caso

da MR - foi a de demonstrar a eficácia ou nao daqueles novos

comportamentos.

1v As metodologías de investigac;ao dos NMS e da MP sao

distintas. Enquanto os primeiros adotaram procedimentos do

tipo pesquisa ac;ao ou pesquisa interativa, trabalhando sempr<•

Teorías sobre MS na era da globalizm;iio: a MP 87

1 1 1111 u niversos micros, a MP seguira os procedimentos mais trail 1 1 onais preconizados pelos interacionistas simbólicos: auto-apre1 11l 1 1C(ao, análises dramatúrgicas, análises de discursos (grande

d1 1 1que). A MP buscará ainda articular o universo micro ao

111.1 1·ro. O ponto de vista construtivista estratégico será usado na

1 11 q u isa na América. A MP utilizar-se-á bastante de análi_ses

1 1 1111p11rativas entre os movimentos, relacionando suas agendas

11111 11 dinamica interna e as infra-estruturas existentes.

l•�xistem tres conceitos básicos na MP: mobiliza�ao de estru1 1 111 1 , frames e oportunidades políticas. O primeiro foi absorvido

d 1 l111r n�a da MR e já foi caracterizado quando de seu estudo.

e 1 /1'<11nes serao explicitados a seguir. Trataremos das oportuni­

,l 1d11H políticas quando da análise da obra de Tarrow, na segunda

p 11 t 11 deste capítulo.

/1'rames de a�oes coletivas: o conceito recriado

l 1 1· ferimos manter aquí o conceito de frame como no original

1 11·11 H, c itando-o entre aspas. Isto porque para expressar o signit i . ido q ue lhe é atribuído nas análises teríamos de usar nao urna

,, p1 d 1 1vra, a partir de sua tradu�ao (quadro, ou moldura, ou es11 11 l 1 1 1·1 1 - sendo esta última a pior op�ao, porque poderia ser conl 1111d 1d11 com outros usos do termo), mas -toda urna frase: "marcos

" 11 11 •1\ iais significativos e estratégicos da a�ao coletiva'', pois se

1

1 d 1 1 d · quadros estruturais que dao suporte e sustenta�ao as

110 expressar os significados atribuídos aquelas a�6es cole­

' 1 11 por um movimento ou grupo social, e ao ser utilizados de

1!11 1 1 111 t•Ht.ratégica para criar um conjunto de representa�6es que

1

1 1 1 H •m aqueles significados. Recuperado de Goffman ( 1974)

l '1.1111•L ( 1954), o conceito de frame se referia, naqueles autores,

11 1111 1 vorso das estruturas psíquicas dos indivíduos, e foi defini1 1 1 ' 1 1 1110 a orienta�ao mental que organiza a percep�ao e a inter1 1 • l 11 · lO da realidade social. Tratava-se de um conceito que era

1 l 11 tiob a perspectiva cognitiva, na qual se dava importancia a

"' 111 111·ia das experiencias passadas. Gusfield ( 1994) relembra

p 11 11 t n rmo é urna expressao do vernáculo geralmente associada

p 1 d 11 rn , telas e fotografias. Aplicado a condutas da vida coti1 1 111 11 i¡•nifica a defini�ao de si e remete as experiencias. Como

l

88 O paradigma norte-americano

as experiencias nunca sao puras (exceto no hinduísmo),

sempre envolvem alguma coisa, e esta coisa envolve a defini<; o

ou o significado dado ao fenómeno.

O termo já fora utilizado ero 1982 por Gamson, Fireman

Rytina quando trataram dos frames de injustic;a social. Em 1988

Gamson retomou o conceito para analisar processos de criac;

de frames, e ero 1992 ele destacou no conceito tres component 1

que mobilizam as pessoas: injustic;as, identidade e agenciamento.

Uro frame de injustic;a refere-se a indignac;ao moral expresa

em forma de consciencia política. O de identidade refere-se ao

processo de definic;ao do "nós" ero oposic;ao ao "eles". E o de agen·

ciamento refere-se ao processo de conscientizac;ao de que é possí

vel alterar as condic;oes ou as políticas por meio da ac;ao coletiva.

Conforme assinalamos acima, Gamson destacará o papel d

mídia, analisando sua contribuic;ao no estímulo ou desencoraja·

mento das ac;oes coletivas (vide Gamson, 1995: 90- 104).

A principal contribuic;ao do uso do conceito de frame na

análise dos movimentos sociais foi dada por Snow ( 1986) e por

Snow e Benford ( 1988, 1992) Retomando o trabalho de Turner

e Killian, eles propuseram o conceito de frame alignment para

descrever os esfon;os feitos pelos organizadores de uro movi·

mento para juntar as orientac;oes cognitivas dos indivíduos com

as das organizac;oes-suporte dos movimentos. Acentua-se a im·

portancia dos fatores culturais no recrutamento e na mobilizac;ao

dos movimentos. Snow e Benford conceituaram frame como um

esquema interpretativo desenvolvido por coletividades para

entender o mundo, e o utilizaram para a identificac;ao das estratégias pelas quais os ativistas de urna organizac;ao de movimentos sociais vinculam seus esquemas de interpretac;ao a existencia de outros frames na sociedade, espécie de marcos referenciais

estratégicos e significativos Exemplificando: o movimento dos

direitos civis nos Estados Unidos nos anos 60 se constituiu

como uro frame centrado em demandas dos negros contra as

discriminac;oes raciais existentes nas relac;oes cotidianas, nas

instituic;oes, nas leis etc. Mas tal discriminac;ao e a luta contra

ela já era histórica. Por que apenas nos anos 50 e 60 se constituiu como frame? Porque os organizadores, as lideranc;as,

articularam temas e problemas da realidade dos negros em dois

Teorias sobre MS na era da globalizai;iío: a MP 89

p1 1 clt• marcos referenciais culturais: um dado pela cultura

1 111 1 1 1 •gros - passando pela lgreja Batista - e o outro pela so­

' d 1 1dt1 americana - o desejo de liberdade e de "fazer" a Amélt 1 M u rtin Luther King, em um discurso que se tornou ontolóli 11, i n iciou sua fala com "Eu tenho um sonho". Esta expressao

1111 1 1 •p<•L ida várias vezes no decorrer do discurso, reafirmando

11111 doH valores básicos que construiu a própria cultura americalt•• l 1 r urna meta, um objetivo, um forte desejo, um projeto de

1ol 1, ltm dream. Ter um sonho equivale na cultura americana

1111tude e firme determinac;ao de "fazer" a América, de lutar

11 In 1· ·alizac;ao pessoal e com isso construir a nac;ao, que segun1 111 11 própria Constituic;ao deveria ser democrática e igualitária.

l 'ortanto, Snow e Benford desviaram o foco da atenc;ao dos

f 1 1 1111'.'i de urna perspectiva exclusivamente cognitiva para urna

111 1 pcctiva político-cultural, de entendimento do processo de

11111 lid i zac;ao social. Eles identificaram tres furn;6es nos frames

111 111,;oes coletivas: a demarcac;ao - quando se chama a atenc;ao

1111 1 1 1 as injustic;as sofridas por um grupo social; a atribuic;ao -

1 p 1 1 1 11do se explicam as causas e se prop6em soluc;6es as injusti1 11 Hofridas; e a articulac;ao - quando se conectam as diversas

1 IH' riencias formando urna visao externa coerente. Assinala-se

""" a ac;ao coletiva nao existe a priori, mas é definida no decor11 1 de processos de alinhamentos em frames. Sao ac;6es que

l 111 orporam crenc;as e símbolos preexistentes. Citando novamente�

11 ••X •mplo do movimento dos direitos civis norte-americano, nos

1 1 1 1 1 1H 60 vários outros movimentos surgiram ou se ampliaram

1111 l"lStro daquele movimento ou amparados por ele. Por ter obtido

l1·¡;iLimidade social, sua face mais visível - liderada por Luther

1 i ng· - ganhou a simpa tia de muitos brancos. Nao era só um

111ovimento dos negros, mas a luta de um grande setor da socied.111 . King preconizava a integrac;ao do negro na sociedade dos

l 1 1·1 1 ncos e métodos de protesto e de ac;ao pacíficos, como o boico111 nos ónibus (ao contrário de Malcom X, outro líder do movimen1 o negro dos anos 60 que preconizava, inicialmente, o confronto

1 orn os brancos). A mobilizac;ao em torno dos direitos civis foi a

pon le para a luta das mulheres contra as discriminac;6es que

of"riam na sociedade e para a construc;ao naquele país do pode1 1 1Ho movimento feminista dos anos 60 e 70, luta que se espal lwu pelo mundo. A problemática da gerac;ao dos jovens, a luta

l 1

'I

90 O paradigma norte-americano

contra a educac;ao familiar e escolar rigorosa também foi um

das pontas do iceberg do movimento estudantil dos anos fill

Poderíamos listar inúmeros outros movimentos de lutas pot

direitos, cujos objetos de demanda vao da defesa dos animais

resistencia contra as armas nucleares.!\ Todos eles constituíram

processos de alinhamento ao frame dos direitos civis dos ano

60, modificado nos anos 80 para o frame dos direitos humano

Em 1992, Snow e Benford ampliam o conceito e passam

falar de master frames, os quais conectam as crenc;as e idéias d

grupos de protesto a estrutura de oportunidades políticas su r

gidas da conjuntura sociopolítica em dado momento histórico.

Os master frames foram vistos como os principais determinant<•

dos ciclos de protesto em que surgem os movimentos sociais.

Johnston ( 1995) utilizou o conceito frame para realizar o

que ele denomina microanálise dos discursos de participant •

dos movimentos. McAdams ( 1994) trabalhou com a categoriu

frames culturais, procurando demonstrar que eles também g •

ram oportunidades políticas e dao continuidade cultural as lutaH

de diversos grupos para incorporar várias subculturas que fora111

sendo geradas no decorrer da história. O estudo dos frames cul

turais leva ao entendimento da própria mudanc;a de orientac;ao

cultural que ocorre nos movimentos. Também ajuda a localizar

a trajetória de um movimento, que sempre se desenvolve entr1 •

camadas sociais de urna dada localizac;ao geográfico-espacial. O

movimento dos direitos civis, por exemplo, iniciou-se mais noH

Estados americanos do sul, entre negros de camadas médiaH

que se reuniam em igrejas batistas e em algumas outras instituic;oes. Com o tempo, se espalhou e se localizou mais ao nort >,

entre as classes populares mais pobres residentes em guetos.

Irá se tornar menos religioso, mais político e mais agressivo.

Malcom X fará parte dessa fase.

Tarrow, conforme abordaremos ao final deste capítulo, fará

o uso mais ampliado do conceito de frame, articulando-o a urna

teoria de análise sociopolítica.

O conceito de frame tem conteúdos, estruturas, valores etc.

diferentes daqueles das ideologías formais, usuais. Ele difer

dos sistemas culturais mais amplos que orientam o cotidiano,

7'eorias sobre MS na era da globalizar;iio: a MP 91

• 1 • 111 o mesmo estatuto daqueles sistemas e desempenha o

1 11111 pup 1, na medida em que tem urna natureza pública e

lt 111 1 1 111 para a ac;ao. Trata-se de orientac;oes e estratégias de

1 o ldll ,l lGllO utilizadas pelos ativistas de um movimento social.

1 /1 1 1 1111•s possuem urna natureza dual: os indivíduos de um

1 1 1

11 1 tino orientados por eles, que dao e extraem sentido dos

1il11 o ·orridos. Mas fornecem também instrumentais para a

11111 l l �1 1t,:· o de outros indivíduos e para o planejamento de outros

11!11 . Eles compartilham do conjunto de valores das organiq11 deram origem aos movimentos sociais e os constituí111 p1·11priamente como organizac;oes, ou seja, estao em conso1 111 11 ·om as redes sociais que dao sustentac;ao aos movimen1 1 1 l'onceito de frame se refere ainda "a um esquema interpre1 1 v1 1 qu simplifica e condensa o mundo exterior por meio de

1

11 1111 lldtn ntos significativos e de objetos codificados, de situa1 , 11v ntos, experiencias e seqüencias de ac;oes dentro de um

1111 1 1 1 11mb iente passado ou presente" (Snow, 1992: 137). Ele de11111 11 11 1na atividade, um processo derivado de um fenómeno que

lt11pl i1·11 agenciamento e sua contenc;ao no nível de construc;ao da

11 ,ti ld11cle. Ele é o produto desta realidade, é criado e recriado

1 l 1 1 nntica e estrategicamente.

1 >odemos reconhecer os frames de um movimento social em

1 11 d iscursos em espac;os públicos, nas entrevistas divulgadas

1

1• 111 rn ídia em geral, na mobilizac;ao ou publicidade do movi1111' 11! 01 em seus documentos programáticos, nas atas de suas

" 111 1 10 s, congressos, encontros; em panfletos e outros materiais

, f , ti i vulgac;ao.

Com o conceito de frame, Snow inicia urna articulac;ao entre

1 1d11ologia do movimento e as questoes da mentalidade e da

1 1dl 11 ra política. Embora as considere menos importantes, assim

• 1111w Tarrow ele também nao atribuí muita importancia a iden1 d11<l coletiva de um grupo na configurac;ao dos significados de

• 11 movimento.

Afirma-se que um ciclo de protesto tem vida curta, embora

1111rn dimensao histórica possa surgir e desaparecer constante1111 nl . O conceito de frame deriva deste processo e criou urna

1111vn terminología que passou a predominar no jargao dos esl 1 1dos sobre os movimentos sociais nos anos 90. Snow e Benford

92 O paradigma norte-americano

chamam a atenc;ao para o fato de que a novidade de um frame

de ac;ao coletiva nao é a inovac;ao ideológica, mas a maneira

pela qual os ativistas articulam e ligam as formas, os modos e

os atributos gerados por um frame principal, matriz e eixo

articulatório do frame em ac;ao.

4 - Ciclos de protesto e as estruturas de

oportunidades políticas - Sidney Tarrow

4.1 - O trabalho de Tarrow e o papel

dos ciclos de protesto

Um autor pouco conhecido no Brasil até os anos 90 e coro

urna longa trajetória de estudos e pesquisas sobre os movimentos sociais é Sidney Tarrow. Trata-se de um schollar que estudou e trabalhou tanto na Europa como nos E stados Unidos. Participou dos debates sobre os movimentos em 1969 no Centre

d'Études em Paris, retornando a Franc;a em 1990, no CNRS; fez

pesquisas e lecionou em universidades italianas nos anos 70.

Em 1980 trabalhou em Stanford e publicou Democracy and

Disorder, além de urna série de artigos ao longo dos anos 80,

destacando-se ainda como co-participante na organizac;ao do

lnternational Social Movement Research ( 1988). Nos anos 90

seu trabalho tem se concentrado na Universidade de Comell (EUA).

Em 1994, publicou um livro que teve ampla aceitac;ao e divulgac;ao entre os estudiosos dos movimentos sociais: Power in

Movement. Esta obra o tem consagrado como um dos principais

teóricos dos movimentos sociais nos anos 90, e certamente entrará para a história da literatura sociológica como um dos clássicos na área das teorias dos movimentos sociais.

Tarrow sempre aplicou em seus estudos métodos científicos de investigac;ao: perguntas, hipóteses, respostas e novas

perguntas. Em 1988, formulou questoes importantes e decisivas para o avanc;o da teoria dos movimentos sociais, tanto no

paradigma americano como no europeu dos Novos Movimentos

Sociais. Indagou sobre as motivac;oes dos indivíduos para se

mobilizarem e sobre como os líderes formulam as mensagens

Teorías sobre MS na era da globalizai;iio: a MP 93

iih•ologicas dos movimentos. Por que algumas mensagens atra1 1 1 1 11 outras nao. Na busca de respostas, T'arrow analisou o

1 l 1 rna de crenc;as e símbolos que inspiram os manifestantes.

l 1n1111u entao a outras indagac;oes: aquelas crenc;as e símbolos

I• 1 11m um potencial de mobilizac;ao autónomo ou seriam simpl1 ¡cm nte express6es mecanicas de interesses materiais, opor�

1 1 11i ld11des políticas ou poder do grupo? Tarrow achava que a

1 1 1 t•Atava apenas buscando os incentivos microeconómicos

1

1

111• motivariam as pessoas para as ac;oes coletivas, sem anali-

"' OH fatores culturais. Para fazer essa análise ele formulou

11111 1 11 i ndagac;ao: como as próprias crenc;as coletivas eram const 1 1 1 1das? Ele observou que os movimentos constroem um repert 1 11 l11 lixo de símbolos e imagens na cultura política. Esta cons111 1 ·1111 se dá por meio de lutas e, portanto, a cultura política

111111 1 um repertório herdado do passado mas algo construído no

111 rn'PHl:lO social. Como resultado, nao há um mero aprendizado

1 11 111 da difusao automática de crenc;as já existentes dentro do

11111v1 1nento mas a construc;ao e assimilac;ao, dentro da cultura

p11l 1 I lea geral, de novas teias e marcos de significados (Melucci

1 1 - l nmou este ponto em 1994).

'l'arrow buscou demonstrar que os novos significados dos

1111 1v1 rnentos sociais, assim como os novos repertórios de dispu1 1 , Hno também produto de lutas dentro dos rnovimentos, entre

• 1 1M próprios membros e entre eles e seus oponentes. No dizer

ti• 'l'1 1 1Tow esta questao é decisiva para a própria compreensao

1 1 1111 1danc;a cultural. Olhar para as mensagens dos líderes dos

11111v11ncntos, a partir da mentalidade cultural mais ampla predo1111 1111 1üe na sociedade em que estao inseridos, e para a cultura

111 q�nificados da comunidade política sao outros pontos import 111d 1 •H q ue complementam a metodologia de análise de Tarrow.

l

1. l 1 • 11< monstra que as lutas dos movimentos - internas e ext1 1•1 1 1 1 H - nao sao apenas por recursos, como preconizava a MR,

11111 Lnmbém por significados. A contínua luta interna gera no-

' ' 111arcos referenciais significativos, novos f'rames. Neste sen1 1 i l 11 11! ' supera a MR e a própria teoria dos Novos Movimentos

1 11 i11 iH, pois ve tais lutas intestinas como geradoras de signifi1doH q ue definem os rumos das ac;oes, nao como simples for11111 ¡��radoras de processos de solidariedade.

94 O paradigma norte-americano

Tarrow reviu alguns estudos que enfatizavam a questao da

mentalidades e da cultura política nos movimentos sociais, discor

dando que fossem os caminhos mais frutíferos. Ele analisou aH

agües coletivas como episódicas, bastante centradas nos ativistaH,

sendo as decisües tomadas no calor da luta. Mentalidade seria um

termo difuso, nao enfocando e nao orientando para a agao que est

em jogo. Ela favoreceria a perspectiva de se olhar nao para aH

agües das pessoas mas para a imobilidade, pois a agao em jogo

l.e perde, nao é enfocada, fica na busca de herangas do passado.

, Tarrow argumenta que é necessário criar conceitos intennediárioH

para entender a cultura política operacional. Ele sugere o conceito

de frames, interpretado por nós como marcos referenciais da a<;' o

coletiva.

Após fazer um resgate do próprio conceito de cultura pol i

tica, desde Almond e Verba ( 1989), Tarrow apresenta as dificul

dades de se trabalhar com ele. Isto porque as práticas sancio

nadas culturalmente pela sociedade, que revelariam sua cultu

ra política, levam apenas ao encontro dos rituais e modeloH

repetitivos convencionais. Os valores compartilhados e sancio

nados pela sociedade sao justamente aqueles que os movimen

tos poderao estar contestando. Deve-se portanto, ao analisar

um grupo ou movimento, buscar os símbolos e as defini<;ües qu<'

os grupos dao a suas agües e como fazem suas escolhas, assim

como por que deixam de fazer outras. Para Tarrow, as constru

gües baseadas na moral, no plano das mentalidades, na cultura

política ou na cultura popular de resistencia sao genéricas, nao

nos levam a entender como e em que circunstancias nascem aH

agües coletivas. O que deve ser enfocado sao as liderangas, vistas como as organizadoras dos movimentos.

A organizagao do movimento, do ponto de vista das estruturas formais que o sustentam, é outro destaque na metodologia

de Tarrow para a análise dos movimentos sociais. Isto porqut•

é na organizagao que está a chave para o entendimento de como

as mensagens sao produzidas, elaboradas, divulgadas e difun

didas. Ele chama novamente a atengao para o uso dos conceitoH

de mentalidade e cultura política, pois estes nao sao realidad H

empíricas observáveis - como sao as mensagens contidas noH

protestos, nas demandas, nos símbolos utilizados nas campa

Teorías sobre MS na era da globalizai;iio: a MP 95

1 1 1 l 1·. Na busca de superac;ao dessa dificuldade, ele cita os

l 1 il l i1 1H d Gamson (1988), Klandermans ( 1988 ) e do próprio

1 1 1 11 1 1 ( l . 88). Todos eles tem tentado explicar e conceitualizar

1 1111 1 1 t ¡.¡fmbolos ideológicos ao formados pelos organizadores

1 111 11vi rnentos, como se tornam realidade efotiva para mobi11 11 opi niao pública etcj t:F"-

1 1

: 11 l.r tanto, Tarrow nao privilegia a identidade coletiva do

1 1 11111 A.o contrário, faz dura crítica a respeito, afirmando que

1 l 11d iosos dos NMS centram suas análises nos discursos e

111 1 11 d significados que vinculam os membros dos movimen1 ll'i11is as redes de movimentos sociais. O paradigma dos

1 Hlaria preocupado com as mensagens ideológicas e nao

11 modo pelo qual os líderes constroem estas mensagens,

1111 gni ficado lhes atribuem. Aqui ele recorre ao trabalho de

1111w, que, com o conceito de marcos referenciais, retomou

1 o l l 11111n para entender como a experiencia coletiva é organiza­

' 1 1•orno se torna guia para o movimento e para a própria so1 1 L11 I - no momento que um movimento obtém sucesso e

''l\ll base de legitimidade para suas demandas.

< )bservamos que a antiga questao da auto-reflexividade,

11 1•1 1 r' aos pioneiros do acionalismo, trabalhada por Blumer,

11 ll l 1•11da e negada pelos primeiros analistas da MR, está pre1 11l1 1 ·orn bastante vigor no esquema teórico de Tarrow, no qual

tl1 •Htaca que os indivíduos, como atores, pensam suas vidas.

1 1111 rn ponto da abordagem tradicional retomado por Tarrow é

1 1 111 10 cíclica e evolutiva dos movimentos sociais. Ele afirma

1

1 1 1 oH stágios futuros de um movimento dependem de seu pro11 1 i nicial ou de posic;oes políticas assumidas; das alianc;as que

l 11l >t>lece ou estabeleceu; e do sucesso real em mobilizar ou nao

1 ¡ H•Hsoas. Como variável de alta relevancia para o sucesso de

11111 rnovimento ele cita os recursos para organizar campanhas

1 11·1 iv lS.

Do exposto até o momento podemos observar que Tarrow

1 1 1111 11bandona a MR no que se refere a sua prioridade para enl1·11d< r o processo decisório da ac;ao coletiva. Ele tem urna concep­

' o111 d cultura como algo operacional e pragmático, recusando-

' 11 ver sua dimensao política como resultado de processos

96 O paradigma norte-americano

históricos mais amplos. Assim como o conceito de mentalidade,

o de cultura política se restringe ao passado, a heranc;a recebida, a um repertório estático, repositório acumulado pelo tempo.

Tarrow nao ve a possibilidade de recriac;ao da cultura política

herdada ou adquirida em experiencias passadas nas próprias

ac;oes cotidianas que ele procura por em destaque. A teoría da

escolha racional está também presente em seu trabalho com

grande destaque.

(Entretanto, Tarrow dá urna grande contribuic;ao a teoria

dos movimentos sociais ao desenvolver o conceito de ciclos d

protestos. Eis sua posic;ao a respeito: somente resgatando, por

meio da análise empírica sistemática, os movimentos sociais

em longos períodos de mobilizac;ao, poderemos entender seu

significado e como sao construídos. E para tal é necessário ter

métodos de abordagem da realidade empírica. Ele cita Kertzer

( 1988) e Scott ( 1986), o insight dedutivo de Nardo (1985), Lati n

( 1986), as extensas tipologías de Wildvsky ( 1987) e Thompson

( 1990), as séries sistemáticas de lnglehart ( 1971), a análise do

conteúdo sensitivo de Gamson ( 1987) e o estudo das trajetórias d(•

Tilly ( 1978) como exemplos de trabalhos que atribuem relevancia

a um olhar mais am lo que a mera focalizac;ao de um dado movi-

-p mento aquí e agora � importancia do estudo dos ciclos de protesto

é dada pela contribuic;ao que traz para a análise do processo politico de inovac;ao do próprio sistema político) Um ciclo é definido

como a fase de conflitos e disputas intensificadas nos sistema¡.¡

sociais, incluindo: rápida difusa.o da ac;ao coletiva dos setores maiH

mobilizados para os menos mobilizados, passo estimulante de ino

vac;oes nas formas de disputa, novos frames de ac;oes coletivas (01 1

retransformados), combinac;ao de formas de participac;ao organi

zadas e nao-organizadas, e seqüencias de interac;oes intensificadaH

entre os desafiadores (militantes dos movimentos) e as autorida

des, que resultam em reformas, repressao e algumas vezes em

revoluc;oes (Tarrow, 1994: 153). Ciclos de protestos se caracterizam

pelo acirramento dos conflitos nao somente nas relac;oes induH

triais - como afirma a teoria marxista ortodoxa - mas tambérn

nas ruas, nas escalas etc. Eles se difundem dos grandes centro¡¡

para os pequenos ou áreas rurais periféricas. Aparecem entre al

guns grupos étnicos, grupos com identidades nacionais ou entr1 1

Teorias sobre MS na era da globalizar,;ao: a MP 97

1 1 1 p1 11 l111:mrgentes de modo geral, e sao ativados por novas opor1 1 1ili l111lc H ou por ameac;as e constrangimentos. Eles produzem e

1 1 111 lon nam "símbolos, frames de significados e ideologias para

111 1 1 1 ,. 1r e dignificar ac;oes coletivas e ajudar os movimentos a

1111l 11l1;i:1 1r os seguidores". (Tarrow, 1994: 157).

1 l11nr nte os momentos de pico de um ciclo de protesto, criam1 l1w1•11livos para o surgimento de novas organizac;oes e novos

11111 111111nLos sociais. O ciclo nao se apresenta sob o controle de

1111 1 1 1 1 organizac;ao ou movimento; ao contráirio, o que se tem

11 p11 1·"ncia de ac;oes coletivas espontaneas. Mas de fato as

t 1 . d 1 1gi s e os resultados sao articulados tanto pelas antigas

1111111 pe las novas organizac;oes que surgem. E:les ajustam seus

1 1 111 HOH, e suas diferenc;as nao sao sublinhadas. Passado o mo111 11111 d ' pico, poderao competir entre si por recursos, clientelas,

1 11 11H d posic;oes etc. Tarrow destaca, entretanto, a interac;ao

111 11 l lH militantes dos movimentos e as elites ou autoridades,

111 1 1 v11 ndo que de seus conflitos novos centros de poder poi 1 111 H< •r criados.

'l11 1 t't'OW observou que os ciclos de protestos coincidem com os

l 1 11 1v11c;oes políticas. A partir desta constatac;ao, passou a estul 11 1 •1 l1•l4 momentos e fundamentou o conceito de oportunidades

11111 li llH, que já fora utilizado por_Tilly ( 1978), T. Skocpol ( 1979),

i l 1111 1H ( 1982), H. Kitscheld ( 1986), H. Kriesi ( 1990) e J.

1 Id 11111 • ( 1991), transformando-o em eixo central de urna nova

t 1 1 lo1 11 da Mobilizac;ao Política. Todos aqueles autores haviam

l111t l11do que os movimentos emergem em resposta a expansao

1 1 1p1 11L1 1 nidades políticas disponíveis para gn1pos em busca de

111 1d11 11 'llH. McAdam retomou o conceito em 1994, destacando que

t t 1111il1«1m oportunidades culturais e nao só políticas, e em novo

1 1l11dl 111, publicado em 1996, afirma que Lipsky já chamara a

l t 1 11 110 pura as oportunidades políticas, e que em 1973 Eisinger

111111 111 jú utilizara o termo para auxiliar na compreensao das va­

' 1 11 1 dos riots (motins) em 43 cidades norte-americanas. Jenkins

1

1

1 1 row ( 1977) destacaram também os processos políticos, em

1 t 111111 d oportunidades políticas, como form dores de condic;oes

1 1p11 '""' u emergencia de movimentos sociais. Tarrow irá concluir

1111 11 ¡t pn ralizac;ao do conflito dentro de um ciclo de protesto

1 11 1 1 1 1 ¡ 1 1undo oportunidades políticas sao abertas Goodwin ( 1996)

98 O paradigma norte-americano

afirma que o conceito de oportunidade política geralmente é atribuído a Eisinger (1973), mas na realidade, de forma mais geral,

ele originou-se dos trabalhos de Merton (1968), quando ele trata

das "estruturas de oportunidades". Porém, devido a associa�ao

imediata entre Merton e o estrutural-funcionalismo, os teóricos da

MP nunca citam esse autor em seus trabalhos.

4.2 - As oportunidades políticas

na abordagem de Tarrow

- V Com sua obra Power in Movement ( 1994), Tarrow realizou

novas avan�os para urna teoría dos movimentos sociais. A antiga questao a respeito da cria�ao dos movimentos é assim respondida: movimentos sao criados quando oportunidades políticas abrem-se para atores sociais que usualmente sao carentes.

Movimentos sao produzidos quando "demonstram a existencia

de aliados e revelam a vulnerabilidade de seus oponentes"

(Tarrow, 1994: 23). As pessoas constroem as a�oes coletivas por

meio de repertórios conhecidos, de disputas, e pela cria�ao de

inova�oes ao redor de suas margens. Em suas bases há redes

sociais e símbolos c turais por meio dos quais as rela�oes sociais

esta.o organizadas s quatro elementos: oportunidades políticas, repertórios, redes e marcos referenciais, sao. os materiais

básicos para a constru�ao de um movimento sociaIJAs oportunidades políticas tem centralidade no processo. Mudan�as nas oportunidades políticas criam novas ondas de movimentos sociais e

sao responsáveis por seus desdobramentos. A ideología e as representa�oes sao vistas como complementares as oportunidades

políticas, ou seja, a preocupa�ao anterior com a organiza�ao e

com as lideran�as levou Tarrow a encontrar, no cenário externo

aos movimentos, a explica�ao para sua própria existencia. Neste

sentido, ele se aproxima de Melucci e do c�j.to de redes, antes

negado por ele próprio, pois explica que urna popula�ao dispersa só se organiza em urna a�ao comum, em defesa de seus interesses, por meio do uso de seus conhecimentos, do uso de formas modulares de a�oes coletivas: quando isso acorre as pessoas estao se mobilizando dentro de redes e entendimentos culturais compartilhados. Sua enfase nas redes se faz do ponto de

vista morfológico dos grupos: como as pessoas estao organiza-

Teorias sobre MS na era da globalizai;ao.: a MP 99

1 1 , q ue valores compartilham, como se estabelece a confianc;a

• 1 t·ooperac;ao.

() poder dos movimentos sociais deriva de um misto de re111 IOH internos e externos; para os organizadores de um movi1111 1 i t.o terem sucesso, dependem nao apenas de urna organizac;ao,

1 •11110 ufirmavam a MR e outras teorías norte-americanas, mas

¡1,, r'<•des sociais que dao suporte ao movimento e das estrutu1 11 d 1 mobilizac;ao, que os ligam entre si. Dependem também,

1 1 11 Hociedades modernas, da mídia para se comunicar com seus

tli .11 los e inimigos e para inovar os repertórios que utilizam

p 11 .1 ntingir um público mais amplo.\Porém, para que todo este

¡ 11111·1 HHO seja deflagrado, sao necessárias oportunidades políti1 l'uvoráveis ou acessíveis, e este aspecto é destacado por

l 111 rnw como o mais important� Quem cria tais oportunidades

11 l•)Hlado moderno. Ele cría um meio ambiente favorável de

l 1 1 1 1•1 1 Livos e oportunidades para mobilizar e difundir as ac;oes

1 1 111·1 i vas para movimentos ampliados. Portanto, os movimentos

111 p1 nclem do meio ambiente externo, afirma Tarrow, especial111 1 rile• das oportunidades políticas, para coordenar e sustentar

1 1 11,'llO coletiva, e este é um ponto que diferencia Tarrow de

M•·l11t•ci, que abordaremos no capítulo seguinte. Tarrow analisa

1 n •des em termos políticos, como geradoras de solidariedade,

11111 11 análise institucional e o Estado tem prioridade em seus

1 ¡r111twntos. Melucci trata as redes em termos psicossociais,

1 1 111111 rnnstrutoras de identidades culturais que definem o autoco1il 1 nr1mento de um grupo. Para Tarrow os movimentos sao menos

1 1 1 11 l11 Lo do nível de mobilizac;ao e mais da vulnerabilidade política

1 1 11 opositores, ou da receptividade das demandas no sistema pol 1 1 lt 1 1 1 • •conomico como um todo. Neste sentido, concluímos que os

1t111v1m 'ntos sao como reféns do ambiente externo. Eles próprios

111 pouca capacidade para a mudanc;a e a inovac;ao.

'l'n rrow nao faz urna análise em termos de classes sociais,

1 1(1 Hiia enfase nas estruturas das oportunidades políticas O

1 v11 pnra o campo das forc;as sociopolíticas e económicas da

1 11 ll•c lnde e do Estado. Existe portanto um ponto fundamental

111 1 1 1 1 c1ntender o processo de criac;ao e a dinamica dos movimen111 o<' iai s: compreender a estrutura dessas oportunidades pol11 1t·111 . Tarrow a determina como a consisténcia do ambiente

100 O paradigma norte-americano

político (nao necessariamente formal), que poderá estimular ou

desencorajar as pessoas a participa<_;ao em atividades coletivas.

Em 1996, ele amplia e esclarece o conceito, dizendo que "as eHtruturas de oportunidades políticas sao sinais para atores sociaiH

ou políticos encorajarem-se, ou nao, para o uso de seus recursos

internos a fim de formar movimentos sociais. Meu conceito du

oportunidades políticas enfatiza nao somente estruturas formaiH

como institui<;6es estatais, mas estruturas de' conflito e de alian­

<;a que proveem recursos e opoem constrangimentos externos

aos grupos. Os mais evidentes sinais sao quatro: a abertura

de acesso ao poder, mudan<_;as de alinhamentos, viabilidade d

aliados influentes e clivagens dentro das próprias elites" (Tarrow,

1996: 54).

Já em 1988, Tarrow chamava a aten<_;ao para ---

os focos d

mobiliza<_;6es, citando estudos de McAdam ( 1982) que demonstravam como tais focos estruturavam oportunidades políticas.

Tarrow irá apresentar a correla<;ao entre as duas categoria1:1

destacand� papel das oportunidades sobre o das mobiliza<_;6es.

Trata-se de um conceito que enfatiza os recursos externos paru

a comunidade organizada em um movimento (em vez dos rucursos de poder ou dinheiro do grupo, enfatizados pelos teóricoH

da MR).

Estruturas estatais criam oportunidades, mas é a partir

da mudan<_;a de oportunidades dentro da máquina do Estado

que se pode ter acesso aos recursos que os atores sociais poderao utilizar para criar novos movimentos. Observa-se que o

autor coloca a sociedade política como um dos atores centraiH

no processo de gera<_;ao de novos movimentos sociais. Cumprt•

registrar que ele trabalha coro categorías gramscianas, que nao

fazem urna separa<_;ao rígida entre sociedade e Estado mas buHcam a inter-rela<_;ao de sociedade civil e política para entend r

o próprio Estado e o poder.

O conceito de oportunidades políticas, segundo Tarrow,

auxilia-nos na explica<_;ao sobre como os movimentos se difundem, como novas redes sao formadas, e como as oportunidades sao ampliadas e criadas. �le prefere a categoría "estru

turas de mobiliza<_;ao" para explicar as redes que dao origem

e sustenta<_;a0 a um moviment Vários pesquisadores nort •

EscoLA oE ART'ES.c1i:N c1As E HUMANIDADES- usP

- B I B L I O TECA -

Teorias sobre MS na era da globaliza�ao: a MP 1 01

11111 l'i ·anos sao citados por Tarrow para demonstrar a impor1 1 1 11·111 das estruturas: Gamson e os "grupos suportes" para

, l 1 1doH sobre o meio ambiente; Aldo Morris para o papel da

l 1 11 ¡ 11 dos negros no movimento dos direitos civis nos anos 50

f () l'lC.

< > studo das estruturas de mobiliza<_;ao nos leva a morfol11¡1 l11 dos movimentos. Tarrow afirma que eles sao grandes ape1 1 1 •rn termos nominais. Na realidade, sao urna rede de ínter•

11 11 11 ·110 de pequenos grupos, redes sociais, e a conexao entre eles.

A defini<_;ao de movimento social apresentada por Tarrow é

1 1 l 1 111te simples: sao desafios coletivos construídos por pessoas

1 d 1d11rias e com propósitos comuns, em processos de intera<_;ao

1¡111 1 11 ·luem as elites, os oponentes e as autoridades (Tarrow,

1 1 lli , '1 ). Os desafios sao marcados por intern1p<;6es e obstru1 atívidades por terceiros.

Pnra Tarrow, os movimentos sociais se formam quando cida1 1 1 11 <'omuns, algumas vezes encorajados por líderes, respondem

1 111 11dan<_;as trazidas por novas oportunidades políticas, quan111 1 •1 1 1 1 lam com aliados e revelam a vulnerabilidade de seus opo111 1111 H (Tarrow, J-994: 18 e 23). Conforme cita<;i3lo acima, as mu1

1 111 'llH nas oportunidades políticas podem gerar novas ondas de

11111v 11 n ntos ou explicar novos desdobramentos nos já existentes.

1 i. l 11 ·amos que a questao da mudan<_;a social é tratada a partir

1t 1 111H efeitos sobre os movimentos e nao como resultado de

1111 11 ·uo. Tais efeitos poderao, entretanto, projetar os movimen1 1 11 · 'na política mais ampla, levando-os a serem coadjuvantes

11 1

11·0 · ssos de mudan<_;as.

11:rn síntese: o esfor<;o de Tarrow 'e outros em comparar e

1 11l11r a proximar o paradigma da MR ao dos NMS levou a

1 1 11•110 de urna nova teoría. O estudo do potencial e da motiva1 1 p11 1·11 a participa<_;ao foi decisivo para a conclusao de que as

11 1 1 1 1 1 ic;oes políticas tem forte influencia sobre as formas e os

11 11 d 1 movimentos, assim como determinados grupos de pescomo a Nova Esquerda nos anos 60 e 70, certas institui11 , !'orno a Igreja, etc. Todo este processo deve ser visto por

11 11 do studo das estruturas de mobiliza<_;ao e das redes de

1tl1d 1 1·i •dade em que elas se constroem e sobre as quais estao

1 1 1 11dn . Nelas, os indivíduos e grupos tem metas comuns, e

1 02 O paradigma norte-americano

as oportunidades políticas existentes na estrutura social e na

conjuntura sociopolítica proveem a eles - indivíduos agindo

juntos - saídas para a ac;:ao coletiva. No desenrolar das ac;:oes

criam-se novos significados para as ac;:oes de mobilizac;:ao que

constituirao os novos atores coletivos, agora organizados em

movimentos sociais.

A metodologia utilizada por Tarrow em 1994 apresenta

algumas novidades. O esquema básico continua o mesmo mas

a forma de operacionalizá-lo se amplia. Trabalhando em dois níveis, macro e micro, ele se utiliza tanto dos estudos sobre a

estrutura como daqueles sobre a conjuntura; tanto da abordagem psicossocial dos acionalistas clássicos como de alguns pontos específicos da abordagem histórico-estrutural marxista, e

esta é a novidade. Podemos resumir em tres pontos-chave a

abordagem metodológica para o estudo dos movimentos sociais:

o estudo de sua natureza social, de sua dinamica e de seus

resultados. Para responder a primeira indagac;:ao ele busca em

M arx, Lenin e Gramsci fundamentos para entender a questao

de como os indivíduos se engajam em ac;:oes coletivas. Fazendo

urna releitura de Marx, Tarrow aplica a categoria das oportunidades políticas e afirma que os trabalhadores na sociedade

ocidental foram forc;:ados a desenvolver recursos independentes

quando perderam a propriedade de seus meios de trabalho. Os

sindicatos e a consciencia de classe sao parte desses recursos,

mas a solidariedade gerada pela convivencia comum nas fábricas e pela vivencia do conflito de classes nao ocorreu porque o

capitalismo teria produzido e desenvolvido divisoes entre os

trabalhadores e criado mecanismos institucionais para integrá­

-los em sistemas democráticos capitalistas.

Em Lenin, Tarrow busca elementos sobre o problema organizacional. Ele afirma que a proposta organizacional leninista,

centrada numa vanguarda que seria a guardia dos interesses

dos trabalhadores, foi urna resposta histórica para a política de

oportunidades da estrutura vigente na Rússia czarista, num

contexto de Estado repressor e sociedade regulada e inibidora

de ac;:oes coletivas. arrow afirma que a classe trabalhadora era

incapaz de produzir sua própria revoluc;:ao, cristalizando-se urna

tendencia, desenvolvida pela social-democracia européia, que

d L r L a a s l·tzceeerl3aqeLrrce(ºrrlqer

Teorías sobre MS na era da globaliza<;iio: a MP 1 03

pensa as massas a partir de direc;oes necessá:rias, sendo os líderes fonte de consciencia.

De Gramsci, Tarrow recupera a questao da necessidade de

desenvolver a consciencia dos trabalhadores. Embora Gramsci

tenha aceitado o postulado leninista de que o partido revolucionário teria de ser vanguarda, ele acrescentou dois teoremas: a·

tarefa histórica do partido era criar um bloco histórico de forc;as

ao redor da classe trabalhadora, e esta tarefa só poderia ser levada

a cabo se um quadro de intelectuais organicos se desenvolvesse no

seio da própria classe trabalhadora, para complementar os intelectuais do partido. Estas condic;oes enfatizariam o poder da cultura. O movimento deixa de ser apenas um instrumento organizacional e passa a ser também um tipo de intelectual coletivo

cuja mensagem é transmitida as massas por meio de um quadro

de líderes intermediários. A relac;ao entre líderes e seguidores

deixa de ser um modelo bimodal, de urna vanguarda impondo

consciencia as bases. Gramsci viu a necessidade de múltiplos

níveis de lideranc;a e de iniciativa porque se dieve construir um

amplo consenso em torno das metas do partido, e o consenso é

algo tao importante quanto o conflito. Embora Tarrow acredite

que os movimentos tem pouco poder cultural, ele os ve como um

contrapoder a massificac;ao da mídia. Por um lado, os movimentos podem formar opinioes que se opoem as opinioes difundidas

pela mídiá. Por outro, podem usar os recursos da mídia para

mobilizar seus seguidores.

Entretanto, o ponto fundamental que Tarrow resgata dos

clássicos da teoria das classes sociais é a questao da importancia do Estado no relacionamento com os movimentos sociais e

o ente'1di'llento de que a ac;ao coletiva nao é um problema individual, mas social. Ele afirma que Lenin e Gramsci anteciparam a moderna teoria dos movimentos sociais iem suas considerac;oes sobre a política como um processo interativo entre trabalhadores, capitalistas e Estado. Aqueles autores teriam observado

que nao era prioritariamente nas fábricas, mas na interac;ao

com o Estado que o destino da classe trabalhadora poderia ser

decidido.

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