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11/23/25

 


Gamson, McAdam, Taylor e outros procuraram articular

indivíduo, sistema cultural e, em alguns casos, carreira organizacional dos movimentos. Eles buscaram em Melucci fundamentos para o conceito de identidade coletiva, transformando-o.

Partiram de premissas de Melucci mas analisaram os movimentos como um processo negociado, nascido fora das estruturas

das desigualdades existentes. A desigualdade de genero, por exemplo, é vista por Taylor e Whittier ( 1992) como algo · constantemente recriado fora das estruturas de desigualdades existentes.

Ao contrário de Cohen ( 1985), nao veem nenhuma diferenc;a crucial

entre o paradigma da MR e o dos NMS. Eles veem similaridades no que diz respeito a efetividade estratégica da organizac;ao

dos movimentos sociais. Promover mudanc;as institucionais e

culturais seria objetivo dos movimentos. E a identidade coletiva

é um ponto estratégico neste processo.

Gamson, apesar de rejeitar as críticas de Cohen e achar

que a centralidade do processo de identidade pode ser incorporada a MR, aproveita o esquema desenvolvido por Cohen para

sistematizar os elementos do paradigma dos NMS, destacando

tres elementos: a própria identidade coletiva, a solidariedade e a

consciencia. Ele irá acrescentar um quarto elemento, a micromobilizac;ao. Trata-se do fenómeno de microeventos que operam ligando

níveis individuais e socioculturais na construc;ao da identidade, da

solidariedade e do processo de formac;ao da consciencia.

Gamson reconhece que o ponto de vista de análise dos movimentos sociais <leve ser interdisciplinar. Ele retoma autores

do passado, que estudaram a ac;ao coletiva na perspectiva de

mobilizac;oes de massa, como Eric Fromm. Seu interesse é compreender o porque da centralidade das relac;oes sociais no de-

Teorias sobre MS na era da globalizar;iio: a. MP 81

Pllvolvimento da identidade coletiva. Entretanto, a principal conl 1 1 l >ui<_;ao de Gamson ao debate teórico sobre os movimentos so1 11tis foi demonstrar a importancia dos meios de comunica<_;ao e da

111 td ia na mobiliza<_;ao das pessoas, na sociedade contemporanea,

rnnLribuindo para a redefini<_;ao do conceito de frame feita por

, lnow e Benford ( 1992), que discutiremos a seguir. Por meio dos

1 1 1ovimentos sociais as pessoas se envolvem em lutas simbólicas

1 1hre os significados e interpreta<_;oes dos fatos e coisas. Gamson

1r¡¡ re que se examine o discurso da mídia e se investigue como

1 lo muda ao longo do tempo. Com a cria<_;ao do conceito de pacotes

1dc •ológicos, ele procura entender o processo de difusa.o e dissemi111 1c;ao dos movimentos por meio da mídia. É por meio dela que os

1 1 1ovimentos interferem no discurso político público, pois também

11!rnrcem influencia nas matérias em discussao na mídia. Os

11 t0vimentos concorrem com outros movimentos contrários a sua

poHi<_;ao, com organiza<_;oes concorrentes, com seus oponentes, com

11 d •scenso de figuras representantes da posi<_;ao oficial etc. Todos

q1tl'rem ter voz pública no debate. As pesquisas de Gamson remel 1 •rn a urna outra categoria fundamental na teoria da Mobiliza<;ao

1 'ol ítica, a de identidade pública, que captura a influencia do

p11bl ico externo sobre o movimento.

Morris ( 1992) retomou a questao do processo de forma<_;ao

r111 consciencia política utilizando algumas concep<_;oes de Gramsci.

!\o analisar questoes de genero e ra<_;a na América, buscou comp 1't1cnder a consciencia de oposi<_;ao procurando inserir as a<_;oes

' ni •Livas em suas determina<_;oes estruturais e culturais. Ele bus1 1 1 va um quadro explicativo que mostrasse como ocorre a inte­

' 11 ·uo no interior dos movimentos, como os estímulos e as inibi1 1 1c•s sao geradas. Sua enfase na problemática da consciencia

poi íLica é aplicada para entender os movimentos de conflito e os

111ovimentos de consenso, tipologia criada nos anos 70 pela MR

e r Lomada por Schwartz ( 1992).

Friedman e McAdam ( 1992) consideraram a identidade

1 1 rl •Uva como um pronunciamento público de status, no sentido

Wl'beriano clássico. Eles afirmam que o uso do termo identida-¡

d1• coletiva na análise do comportamento coletivo nao é novo.

1 '111n um sentido um pouco diferente, Klapp ( 1969- 72) e Louis

h ri sberg ( 1973) já haviam utilizado o termo como algo similar a

82 O paradigma norte-americano

solidariedade_ O sentido atribuído por Melucci ( 1986) e Cohen

( 1985) foi considerado novo por Friedman e McAdam.

Bert Klandermans, da Universidade de Amsterda, e Sidney

Tarrow, na introdugao de International Social Movement

Research ( 1988), fizeram urna análise comparativa entre os paradigmas da MR e dos NMS enfatizando o processo de mobilizagao como urna possível ponte entre os dois paradigmas. A preocupagao de Klandermans e Tarrow foi entender como a mudanga estrutural é transformada em agao coletiva. Eles reafirmaram que a MR partiu da negagao da teoria das privagoes e que

pode ser caracterizada por tres pontos-chave: a relagao custo/

beneficio, a enfase na organizagao e a questao das expectativas

de sucesso - �ue desempenhava importante papel nos incentiJroo; oletivos. Os N ovos Movimentos Sociais foram pensados

como urna reagao as mudangas estruturais nas sociedades capitalistas ocidentais. Eles destacaram que os "novos" movimentos

estudados foram basicamente o das mulheres, o dos ambientalistas, aqueles pela paz e o dos estudantes; afirmando que as características básicas dos NMS sao cinco: seus valores - usualmente

antimodernistas -, as formas de agao - com o uso intensivo de

formas nao-convencionais -, sua constituigao - com grupos

predispostos a participar porque sao marginalizados pelo status

quo vigente ou porque se tornaram sensíveis aos resultados

societais da modernizagao capitalista -, as novas aspiragoes e

a satisfagao de necessidades postas em risco pelas exigencias da

burocratizagao e aumento da industrializagao - levando a perda

de lagos tradicionais e das estruturas de lealdades existentes. O

resultado de tudo isso foi levar as pessoas a ficarem mais receptivas as novas visoes de novas utopias sociais.

Klandermans e Tarrow consideraram que a identidade

coletiva é um processo político negociado entre os movimentos

e seus interlocutores, e parte de um processo de respostas a

novos problemas e nao um processo de representagao simbólica

apenas, como nos NMS. Eles criticaram a MR por focalizar a

política de recursos e negligenciar as precondigoes estruturais

que explicam como surgem os movimentos. Trata-se de urna

abordagem centrada mais nas condigoes de como o movimento

surge e nao no porque de seu surgimento. Assim, a MR ignora-

,,I'" I'11I

Teorías sobre MS na era da globalizai;ao: a MP 83

1 1 llH bases sociopolíticas dos movimentos. Ainda em relac;ao

111 N M S, os autores assinalaram que h á u m reducionismo em

" l .1 '1 o a origem estrutural das tens6es e nao se atenta o sufi1 I• 111.11 para o próprio processo das mobilizac;6es. Nao se dá aten­

• 111 l nmbém as precondic;oes políticas dos movimentos e ao seu

p1 r tpl'io processo político. Em resumo, para Tarrow e Klandermas,

111 111 11 MR nem os NMS estudam o potencial e a motivac;ao

1

1 1 1 1 1 11 participac;ao. As instituic;6es políticas tém forte influén­

' i.1 obre as formas e os focos de movimentos, assim como deter11111111 los grupos de pessoas - como a Nova Esquerda nos anos

1 1 1/70 -, certas instituic;6es - como a Igreja -- etc. Todo este

p 1 1 11•01-1so deve ser visto por meio do estudo de redes nas quais

l11d1v duos e grupos tém metas comuns. Oportunidades polí1 lt .111 provéem a eles saídas para a ac;ao coletiva e criam novos

1 111 ficados para as ac;oes de mobilizac;ao, os quais constituirao

11 1 1ovos atores coletivos. Retomaremos esta síntese adiante, ao

111. il l1-1ar o trabalho de Tarrow. Por ora nos interessa a presentar

1 1111 pouco mais as idéias e os argumentos que levaram ao desen1 d vi mento da nova teoría.

KJandermans, em especial, passou cinco anos estudando e

1 1 1111 parando os dois paradigmas - MR e NMS. Ele concluiu

1 1'102) que as duas abordagens poderiam ser complementares

• 1 1 1 10 tivessem um ponto de grande fragilidade: ambas nao expi i 1•11rn como as pessoas fazem para definir situac;6es nas quais ,

• • 1•1 1 1 ninho vía participac;ao em movimentos sociais parece ser o f

11111 H adequado ou apropriado. Segundo o autor, a teoría dos NMS

I • 11Lou descobrir a origem das demandas, mas teria falhado por

11.111 ·ompreender que mudanc;as estruturais nao geram automal l1 1 1 1 n nte movimentos sociais. Por outro lado, a MR nao conl 1 • 111plou o fato de que por si só a presenc;a de urna organizac;ao

d11 1 1 1ovimento nao gera os descontentamentos e nem convence

'' p ssoas a participarem de suas ac;6es.

K landermans diz que o estudo da literatura dos dois parad ¡ 1 1 1us parece ser mais um estudo de idéias que de teorías, já

1p1 1 la nao está ancorada no estudo de estruturas sociais esp1·1•1 ticas. Seguindo a tradic;ao epistemológica na área das teo­

' 111 dos movimentos sociais, Klandermans também elabora um

"' 1vo ·onceito, o de campo multiorganizacional, contribuindo para

84 O paradigma norte-americano

a MP ao enfatizar o aspecto do construtivismo social, ou seja,

como se dá o processo de construc;ao de significados sociais. El

sugere que este processo tem tres níveis, a saber: o discurso

público, a comunicac;ao persuasiva durante as mobilizac;6es e o

surgimento da própria consciencia. Em relac;ao ao primeiro nível

ele identifica em Gamson, Melucci e McAdam as principais contribuic;oes. No segundo, as de Snow e o seu próprio trabalho. E

no terceiro cita Hirich ( 1990) e Fantasia ( 1988).

Os vários significados que emergem num processo de confronto, durante um dado protesto ou movimento social, representam para Klandermans os múltiplos setores sociais - que

ele denomina de campo multiorganizacional. Estes setores sao

os que suportam a organizac;ao do movimento, ou os que a ela

se op6em, assim como aqueles que lhes sao indiferentes. É interessante registrar também que as referencias teóricas de

Klandermans sao Durkheim e Moscovici, seguindo urna tendencia dos anos 90 que é a do resgate da psicologia social na análise da ac;ao coletiva. O conceito de crenc;as coletivas é resgatado para entender as representac;6es sociais que um determinado universo de opini6es e crenc;as traz a tona. Mas ele trabalha

também com conceitos de Habermas e Oberschall para o estudo

do papel das comunicac;6es nos movimentos sociais. Ele procura

fundir todas essas orientac;6es teóricas e conclui que as crenc;as

coletivas sao criadas nao por indivíduos isolados mas por indivíduos em comunicac;ao e cooperac;ao nas rotinas cotidianas, por

meio de encontros em congressos, partidos; conversac;6es informais em ba es, restaurantes e em viagens; telex, fax, e-mail,

internet etc. Estes espac;os criam um misto de vida interpessoal,

transformando o que nao é familiar em coisas familiares. O

protesto social é, portanto, construído socialmente. O espancamento de mulheres, por exemplo, é citado pelo autor como exemplo de um problema que se transformou em um tema público,

deixando de ser pessoal, particular e privado. Este exemplo é

dado para demonstrar o impacto do discurso �úblico sobre as

identidades coletivas. Portanto, os movimentos sociais podem

ter profundo impacto sobre o discurso da mídia.

Assinale-se ainda que Klandermans estabelece �ma importante distinc;ao entre mobilizac;ao consensual - tentativa deli-

Teorias sobre MS na era da globalizai;ao: a MP 85

dos atores de criarem o consenso - e mobilizac;ao da

111 resultado da convergencia, nao-planejada, de significa-

" IH redes sociais e nas subculturas.

1 now ( 1986, 1992) foi uro dos principais autores a apresen­

! 11 1 d •fender a tese do modelo cíclico dos movimentos sociais.

1 1

, l ornou como exemplo movimentos ocorridos ero cidades norte1 1 11111·i ·anas nos anos 60, ero torno da questao dos direitos civis

·

,

111 1 declínio nos anos 70. E estudou também manifestac;oes

1 1 1 l 1• l 1 vns ocorridas na Europa e na América Latina nos· anos 70

• 111 l l•'ocalizando a atenc;ao sobre as redes sociais, explorou a

11 l . 1 1•11<> entre os ciclos de protesto e os quadros conjunturais do

11 1 1 1 1d o. Em 1988, Snow elaborou ero conjunto coro Robert

1 1• 11l ord uro trabalho ero que buscam entender os ciclos de uro

11111v1111 nto no tempo e no espac;o. Trata-se de importante conl 1 1l111 H,:ao porque faz uro resgate da teoría da Mobilizac;ao de

1 1• 1 11rHos,1

em suas diferentes etapas, formulando críticas signif I• .d 1 vas. Os autores dizem que para o primeiro grupo da MR

li1rmado por McCarthy, Oberschall, Jenkins, Perrow, Zald

1 l 1 o principal problema diz respeito a ausencia dos fatores

1d1·11logicos. A abordagem anterior a MR, dos comportamentos

1 1 d1• I i vos de Smelser, também ignorara ou atiribuíra muito pou1 1 1 1111 portancia as ideologias. Os movimentos apareciam como

I " ' ' 1n'gica. Snow e Benford afirmam que os autores que critica­

' 1111 11 MR, destacando-se Ferree e Muller ( 1985), Gamson ( 1982)

1 11 próprio Snow, contribuíram significativamente por terem

111 l11 1 do a ideologia na agenda da MR. A novidade passou a

¡ 1•1 1 1· m torno do universo de significados dos movimentos e de

• 11 111odo de construc;ao. Ou seja, os recursos interpretativos e

1 l 1 • 1 1 1t•ntos ideacionais foram acrescentados á MR.J

Observa-se que o debate entre a teoria da MR e a dos NMS

tl1 c11wolveu a MR ero várias direc;oes. A identidade e a solida1 1 1 ·dnde passaram a ser vistas como incentivos propositivos (criad1 11 p •lo grupo como resultado de sua atuac;ao e utilizados como

11 . .

. 11 rso estratégico nas ac;6es de negociac;ao), tao importantes

q11111 1 lo os chamados incentivos seletivos (selecionados pelo gru1 "' 1•m func;ao de seus interesses económicos). Reafirmou-se a

1111 porLancia da posic;ao estrutural dos indivíduos no processo

d11 t Hcolhas; continuou-se a priorizar a indagac;ao das raz6es

86 O paradigma norte-americano

de mobilizac;ao dos atores sociais e da pouca atenc;ao ao modo

como se mobilizam, ao contrário dos NMS, que sempre se preocuparam com este problema. A análise dos movimentos sociais

como um processo e nao como fenómenos isolados é um consenso entre os dois paradigmas. Mas se eles sao formas empíricas

observáveis ou construc;oes teóricas analíticas sao desacordos

existentes tanto entre os dois paradigmas como no interior de

cada um deles.

Observamos que tanto a MR como os NMS nasceram da

rejeic;ao a outros paradigmas. A MR rejeitou o reducionismo

psicológico das primeiras teorías das ac;oes coletivas americanas. Os NMS surgiram a partir dos desencantos com as lacunas

do paradigma marxista para explicar ac;oes e movimentos coletivos contemporaneos. Estas rejeic;oes criaram também os elementos de identificac;ao utilizados em comum: explicar os novos

processos em termos das ac;oes coletivas e movimentos sociais

que estavam ocorrendo na sociedade ocidental desenvolvida sem

utilizar a análise marxista. A MR partiu para esquemas estrutural-económicos e aos poucos foi incorporando elementos microssocietais. A teoría dos NMS partiu do microcultural mas ao,

poucos foi em busca do macro - só que no plano da conjuntura

política. É interessante lembrar também que Cohen ( 1985) chamou a atenc;ao para a origem dos estudiosos de cada urna das

duas correntes. Muitos eram adeptos da Nova Esquerda, que se

caracterizava pelo abandono da idéia de mudanc;a e transformac;ao social por meio de revoluc;oes. Preconizavam-se mudanc;as

estruturais, com a participac;ao da sociedade civil. Eles introduziram inovac;oes nos estudos sobre as mobilizac;oes e organizac;oes coletivas a medida que destacaram a escolha deliberada,

por parte dos movimentos, de estruturas descentralizadas, do

participac;ao em movimentos de bairros e organizac;oes nacionais de caráter federativo, assim como da criac;ao de novas identidades e solidariedades. Mas a preocupac;ao maior - no caso

da MR - foi a de demonstrar a eficácia ou nao daqueles novos

comportamentos.

1v As metodologías de investigac;ao dos NMS e da MP sao

distintas. Enquanto os primeiros adotaram procedimentos do

tipo pesquisa ac;ao ou pesquisa interativa, trabalhando sempr<•

Teorías sobre MS na era da globalizm;iio: a MP 87

1 1 1111 u niversos micros, a MP seguira os procedimentos mais trail 1 1 onais preconizados pelos interacionistas simbólicos: auto-apre1 11l 1 1C(ao, análises dramatúrgicas, análises de discursos (grande

d1 1 1que). A MP buscará ainda articular o universo micro ao

111.1 1·ro. O ponto de vista construtivista estratégico será usado na

1 11 q u isa na América. A MP utilizar-se-á bastante de análi_ses

1 1 1111p11rativas entre os movimentos, relacionando suas agendas

11111 11 dinamica interna e as infra-estruturas existentes.

l•�xistem tres conceitos básicos na MP: mobiliza�ao de estru1 1 111 1 , frames e oportunidades políticas. O primeiro foi absorvido

d 1 l111r n�a da MR e já foi caracterizado quando de seu estudo.

e 1 /1'<11nes serao explicitados a seguir. Trataremos das oportuni­

,l 1d11H políticas quando da análise da obra de Tarrow, na segunda

p 11 t 11 deste capítulo.

/1'rames de a�oes coletivas: o conceito recriado

l 1 1· ferimos manter aquí o conceito de frame como no original

1 11·11 H, c itando-o entre aspas. Isto porque para expressar o signit i . ido q ue lhe é atribuído nas análises teríamos de usar nao urna

,, p1 d 1 1vra, a partir de sua tradu�ao (quadro, ou moldura, ou es11 11 l 1 1 1·1 1 - sendo esta última a pior op�ao, porque poderia ser conl 1111d 1d11 com outros usos do termo), mas -toda urna frase: "marcos

" 11 11 •1\ iais significativos e estratégicos da a�ao coletiva'', pois se

1

1 d 1 1 d · quadros estruturais que dao suporte e sustenta�ao as

110 expressar os significados atribuídos aquelas a�6es cole­

' 1 11 por um movimento ou grupo social, e ao ser utilizados de

1!11 1 1 111 t•Ht.ratégica para criar um conjunto de representa�6es que

1

1 1 1 H •m aqueles significados. Recuperado de Goffman ( 1974)

l '1.1111•L ( 1954), o conceito de frame se referia, naqueles autores,

11 1111 1 vorso das estruturas psíquicas dos indivíduos, e foi defini1 1 1 ' 1 1 1110 a orienta�ao mental que organiza a percep�ao e a inter1 1 • l 11 · lO da realidade social. Tratava-se de um conceito que era

1 l 11 tiob a perspectiva cognitiva, na qual se dava importancia a

"' 111 111·ia das experiencias passadas. Gusfield ( 1994) relembra

p 11 11 t n rmo é urna expressao do vernáculo geralmente associada

p 1 d 11 rn , telas e fotografias. Aplicado a condutas da vida coti1 1 111 11 i¡•nifica a defini�ao de si e remete as experiencias. Como

l

88 O paradigma norte-americano

as experiencias nunca sao puras (exceto no hinduísmo),

sempre envolvem alguma coisa, e esta coisa envolve a defini<; o

ou o significado dado ao fenómeno.

O termo já fora utilizado ero 1982 por Gamson, Fireman

Rytina quando trataram dos frames de injustic;a social. Em 1988

Gamson retomou o conceito para analisar processos de criac;

de frames, e ero 1992 ele destacou no conceito tres component 1

que mobilizam as pessoas: injustic;as, identidade e agenciamento.

Uro frame de injustic;a refere-se a indignac;ao moral expresa

em forma de consciencia política. O de identidade refere-se ao

processo de definic;ao do "nós" ero oposic;ao ao "eles". E o de agen·

ciamento refere-se ao processo de conscientizac;ao de que é possí

vel alterar as condic;oes ou as políticas por meio da ac;ao coletiva.

Conforme assinalamos acima, Gamson destacará o papel d

mídia, analisando sua contribuic;ao no estímulo ou desencoraja·

mento das ac;oes coletivas (vide Gamson, 1995: 90- 104).

A principal contribuic;ao do uso do conceito de frame na

análise dos movimentos sociais foi dada por Snow ( 1986) e por

Snow e Benford ( 1988, 1992) Retomando o trabalho de Turner

e Killian, eles propuseram o conceito de frame alignment para

descrever os esfon;os feitos pelos organizadores de uro movi·

mento para juntar as orientac;oes cognitivas dos indivíduos com

as das organizac;oes-suporte dos movimentos. Acentua-se a im·

portancia dos fatores culturais no recrutamento e na mobilizac;ao

dos movimentos. Snow e Benford conceituaram frame como um

esquema interpretativo desenvolvido por coletividades para

entender o mundo, e o utilizaram para a identificac;ao das estratégias pelas quais os ativistas de urna organizac;ao de movimentos sociais vinculam seus esquemas de interpretac;ao a existencia de outros frames na sociedade, espécie de marcos referenciais

estratégicos e significativos Exemplificando: o movimento dos

direitos civis nos Estados Unidos nos anos 60 se constituiu

como uro frame centrado em demandas dos negros contra as

discriminac;oes raciais existentes nas relac;oes cotidianas, nas

instituic;oes, nas leis etc. Mas tal discriminac;ao e a luta contra

ela já era histórica. Por que apenas nos anos 50 e 60 se constituiu como frame? Porque os organizadores, as lideranc;as,

articularam temas e problemas da realidade dos negros em dois

Teorias sobre MS na era da globalizai;iío: a MP 89

p1 1 clt• marcos referenciais culturais: um dado pela cultura

1 111 1 1 1 •gros - passando pela lgreja Batista - e o outro pela so­

' d 1 1dt1 americana - o desejo de liberdade e de "fazer" a Amélt 1 M u rtin Luther King, em um discurso que se tornou ontolóli 11, i n iciou sua fala com "Eu tenho um sonho". Esta expressao

1111 1 1 •p<•L ida várias vezes no decorrer do discurso, reafirmando

11111 doH valores básicos que construiu a própria cultura americalt•• l 1 r urna meta, um objetivo, um forte desejo, um projeto de

1ol 1, ltm dream. Ter um sonho equivale na cultura americana

1111tude e firme determinac;ao de "fazer" a América, de lutar

11 In 1· ·alizac;ao pessoal e com isso construir a nac;ao, que segun1 111 11 própria Constituic;ao deveria ser democrática e igualitária.

l 'ortanto, Snow e Benford desviaram o foco da atenc;ao dos

f 1 1 1111'.'i de urna perspectiva exclusivamente cognitiva para urna

111 1 pcctiva político-cultural, de entendimento do processo de

11111 lid i zac;ao social. Eles identificaram tres furn;6es nos frames

111 111,;oes coletivas: a demarcac;ao - quando se chama a atenc;ao

1111 1 1 1 as injustic;as sofridas por um grupo social; a atribuic;ao -

1 p 1 1 1 11do se explicam as causas e se prop6em soluc;6es as injusti1 11 Hofridas; e a articulac;ao - quando se conectam as diversas

1 IH' riencias formando urna visao externa coerente. Assinala-se

""" a ac;ao coletiva nao existe a priori, mas é definida no decor11 1 de processos de alinhamentos em frames. Sao ac;6es que

l 111 orporam crenc;as e símbolos preexistentes. Citando novamente�

11 ••X •mplo do movimento dos direitos civis norte-americano, nos

1 1 1 1 1 1H 60 vários outros movimentos surgiram ou se ampliaram

1111 l"lStro daquele movimento ou amparados por ele. Por ter obtido

l1·¡;iLimidade social, sua face mais visível - liderada por Luther

1 i ng· - ganhou a simpa tia de muitos brancos. Nao era só um

111ovimento dos negros, mas a luta de um grande setor da socied.111 . King preconizava a integrac;ao do negro na sociedade dos

l 1 1·1 1 ncos e métodos de protesto e de ac;ao pacíficos, como o boico111 nos ónibus (ao contrário de Malcom X, outro líder do movimen1 o negro dos anos 60 que preconizava, inicialmente, o confronto

1 orn os brancos). A mobilizac;ao em torno dos direitos civis foi a

pon le para a luta das mulheres contra as discriminac;6es que

of"riam na sociedade e para a construc;ao naquele país do pode1 1 1Ho movimento feminista dos anos 60 e 70, luta que se espal lwu pelo mundo. A problemática da gerac;ao dos jovens, a luta

l 1

'I

90 O paradigma norte-americano

contra a educac;ao familiar e escolar rigorosa também foi um

das pontas do iceberg do movimento estudantil dos anos fill

Poderíamos listar inúmeros outros movimentos de lutas pot

direitos, cujos objetos de demanda vao da defesa dos animais

resistencia contra as armas nucleares.!\ Todos eles constituíram

processos de alinhamento ao frame dos direitos civis dos ano

60, modificado nos anos 80 para o frame dos direitos humano

Em 1992, Snow e Benford ampliam o conceito e passam

falar de master frames, os quais conectam as crenc;as e idéias d

grupos de protesto a estrutura de oportunidades políticas su r

gidas da conjuntura sociopolítica em dado momento histórico.

Os master frames foram vistos como os principais determinant<•

dos ciclos de protesto em que surgem os movimentos sociais.

Johnston ( 1995) utilizou o conceito frame para realizar o

que ele denomina microanálise dos discursos de participant •

dos movimentos. McAdams ( 1994) trabalhou com a categoriu

frames culturais, procurando demonstrar que eles também g •

ram oportunidades políticas e dao continuidade cultural as lutaH

de diversos grupos para incorporar várias subculturas que fora111

sendo geradas no decorrer da história. O estudo dos frames cul

turais leva ao entendimento da própria mudanc;a de orientac;ao

cultural que ocorre nos movimentos. Também ajuda a localizar

a trajetória de um movimento, que sempre se desenvolve entr1 •

camadas sociais de urna dada localizac;ao geográfico-espacial. O

movimento dos direitos civis, por exemplo, iniciou-se mais noH

Estados americanos do sul, entre negros de camadas médiaH

que se reuniam em igrejas batistas e em algumas outras instituic;oes. Com o tempo, se espalhou e se localizou mais ao nort >,

entre as classes populares mais pobres residentes em guetos.

Irá se tornar menos religioso, mais político e mais agressivo.

Malcom X fará parte dessa fase.

Tarrow, conforme abordaremos ao final deste capítulo, fará

o uso mais ampliado do conceito de frame, articulando-o a urna

teoria de análise sociopolítica.

O conceito de frame tem conteúdos, estruturas, valores etc.

diferentes daqueles das ideologías formais, usuais. Ele difer

dos sistemas culturais mais amplos que orientam o cotidiano,

7'eorias sobre MS na era da globalizar;iio: a MP 91

• 1 • 111 o mesmo estatuto daqueles sistemas e desempenha o

1 11111 pup 1, na medida em que tem urna natureza pública e

lt 111 1 1 111 para a ac;ao. Trata-se de orientac;oes e estratégias de

1 o ldll ,l lGllO utilizadas pelos ativistas de um movimento social.

1 /1 1 1 1111•s possuem urna natureza dual: os indivíduos de um

1 1 1

11 1 tino orientados por eles, que dao e extraem sentido dos

1il11 o ·orridos. Mas fornecem também instrumentais para a

11111 l l �1 1t,:· o de outros indivíduos e para o planejamento de outros

11!11 . Eles compartilham do conjunto de valores das organiq11 deram origem aos movimentos sociais e os constituí111 p1·11priamente como organizac;oes, ou seja, estao em conso1 111 11 ·om as redes sociais que dao sustentac;ao aos movimen1 1 1 l'onceito de frame se refere ainda "a um esquema interpre1 1 v1 1 qu simplifica e condensa o mundo exterior por meio de

1

11 1111 lldtn ntos significativos e de objetos codificados, de situa1 , 11v ntos, experiencias e seqüencias de ac;oes dentro de um

1111 1 1 1 11mb iente passado ou presente" (Snow, 1992: 137). Ele de11111 11 11 1na atividade, um processo derivado de um fenómeno que

lt11pl i1·11 agenciamento e sua contenc;ao no nível de construc;ao da

11 ,ti ld11cle. Ele é o produto desta realidade, é criado e recriado

1 l 1 1 nntica e estrategicamente.

1 >odemos reconhecer os frames de um movimento social em

1 11 d iscursos em espac;os públicos, nas entrevistas divulgadas

1

1• 111 rn ídia em geral, na mobilizac;ao ou publicidade do movi1111' 11! 01 em seus documentos programáticos, nas atas de suas

" 111 1 10 s, congressos, encontros; em panfletos e outros materiais

, f , ti i vulgac;ao.

Com o conceito de frame, Snow inicia urna articulac;ao entre

1 1d11ologia do movimento e as questoes da mentalidade e da

1 1dl 11 ra política. Embora as considere menos importantes, assim

• 1111w Tarrow ele também nao atribuí muita importancia a iden1 d11<l coletiva de um grupo na configurac;ao dos significados de

• 11 movimento.

Afirma-se que um ciclo de protesto tem vida curta, embora

1111rn dimensao histórica possa surgir e desaparecer constante1111 nl . O conceito de frame deriva deste processo e criou urna

1111vn terminología que passou a predominar no jargao dos esl 1 1dos sobre os movimentos sociais nos anos 90. Snow e Benford

92 O paradigma norte-americano

chamam a atenc;ao para o fato de que a novidade de um frame

de ac;ao coletiva nao é a inovac;ao ideológica, mas a maneira

pela qual os ativistas articulam e ligam as formas, os modos e

os atributos gerados por um frame principal, matriz e eixo

articulatório do frame em ac;ao.

4 - Ciclos de protesto e as estruturas de

oportunidades políticas - Sidney Tarrow

4.1 - O trabalho de Tarrow e o papel

dos ciclos de protesto

Um autor pouco conhecido no Brasil até os anos 90 e coro

urna longa trajetória de estudos e pesquisas sobre os movimentos sociais é Sidney Tarrow. Trata-se de um schollar que estudou e trabalhou tanto na Europa como nos E stados Unidos. Participou dos debates sobre os movimentos em 1969 no Centre

d'Études em Paris, retornando a Franc;a em 1990, no CNRS; fez

pesquisas e lecionou em universidades italianas nos anos 70.

Em 1980 trabalhou em Stanford e publicou Democracy and

Disorder, além de urna série de artigos ao longo dos anos 80,

destacando-se ainda como co-participante na organizac;ao do

lnternational Social Movement Research ( 1988). Nos anos 90

seu trabalho tem se concentrado na Universidade de Comell (EUA).

Em 1994, publicou um livro que teve ampla aceitac;ao e divulgac;ao entre os estudiosos dos movimentos sociais: Power in

Movement. Esta obra o tem consagrado como um dos principais

teóricos dos movimentos sociais nos anos 90, e certamente entrará para a história da literatura sociológica como um dos clássicos na área das teorias dos movimentos sociais.

Tarrow sempre aplicou em seus estudos métodos científicos de investigac;ao: perguntas, hipóteses, respostas e novas

perguntas. Em 1988, formulou questoes importantes e decisivas para o avanc;o da teoria dos movimentos sociais, tanto no

paradigma americano como no europeu dos Novos Movimentos

Sociais. Indagou sobre as motivac;oes dos indivíduos para se

mobilizarem e sobre como os líderes formulam as mensagens

Teorías sobre MS na era da globalizai;iio: a MP 93

iih•ologicas dos movimentos. Por que algumas mensagens atra1 1 1 1 11 outras nao. Na busca de respostas, T'arrow analisou o

1 l 1 rna de crenc;as e símbolos que inspiram os manifestantes.

l 1n1111u entao a outras indagac;oes: aquelas crenc;as e símbolos

I• 1 11m um potencial de mobilizac;ao autónomo ou seriam simpl1 ¡cm nte express6es mecanicas de interesses materiais, opor�

1 1 11i ld11des políticas ou poder do grupo? Tarrow achava que a

1 1 1 t•Atava apenas buscando os incentivos microeconómicos

1

1

111• motivariam as pessoas para as ac;oes coletivas, sem anali-

"' OH fatores culturais. Para fazer essa análise ele formulou

11111 1 11 i ndagac;ao: como as próprias crenc;as coletivas eram const 1 1 1 1das? Ele observou que os movimentos constroem um repert 1 11 l11 lixo de símbolos e imagens na cultura política. Esta cons111 1 ·1111 se dá por meio de lutas e, portanto, a cultura política

111111 1 um repertório herdado do passado mas algo construído no

111 rn'PHl:lO social. Como resultado, nao há um mero aprendizado

1 11 111 da difusao automática de crenc;as já existentes dentro do

11111v1 1nento mas a construc;ao e assimilac;ao, dentro da cultura

p11l 1 I lea geral, de novas teias e marcos de significados (Melucci

1 1 - l nmou este ponto em 1994).

'l'arrow buscou demonstrar que os novos significados dos

1111 1v1 rnentos sociais, assim como os novos repertórios de dispu1 1 , Hno também produto de lutas dentro dos rnovimentos, entre

• 1 1M próprios membros e entre eles e seus oponentes. No dizer

ti• 'l'1 1 1Tow esta questao é decisiva para a própria compreensao

1 1 1111 1danc;a cultural. Olhar para as mensagens dos líderes dos

11111v11ncntos, a partir da mentalidade cultural mais ampla predo1111 1111 1üe na sociedade em que estao inseridos, e para a cultura

111 q�nificados da comunidade política sao outros pontos import 111d 1 •H q ue complementam a metodologia de análise de Tarrow.

l

1. l 1 • 11< monstra que as lutas dos movimentos - internas e ext1 1•1 1 1 1 H - nao sao apenas por recursos, como preconizava a MR,

11111 Lnmbém por significados. A contínua luta interna gera no-

' ' 111arcos referenciais significativos, novos f'rames. Neste sen1 1 i l 11 11! ' supera a MR e a própria teoria dos Novos Movimentos

1 11 i11 iH, pois ve tais lutas intestinas como geradoras de signifi1doH q ue definem os rumos das ac;oes, nao como simples for11111 ¡��radoras de processos de solidariedade.

94 O paradigma norte-americano

Tarrow reviu alguns estudos que enfatizavam a questao da

mentalidades e da cultura política nos movimentos sociais, discor

dando que fossem os caminhos mais frutíferos. Ele analisou aH

agües coletivas como episódicas, bastante centradas nos ativistaH,

sendo as decisües tomadas no calor da luta. Mentalidade seria um

termo difuso, nao enfocando e nao orientando para a agao que est

em jogo. Ela favoreceria a perspectiva de se olhar nao para aH

agües das pessoas mas para a imobilidade, pois a agao em jogo

l.e perde, nao é enfocada, fica na busca de herangas do passado.

, Tarrow argumenta que é necessário criar conceitos intennediárioH

para entender a cultura política operacional. Ele sugere o conceito

de frames, interpretado por nós como marcos referenciais da a<;' o

coletiva.

Após fazer um resgate do próprio conceito de cultura pol i

tica, desde Almond e Verba ( 1989), Tarrow apresenta as dificul

dades de se trabalhar com ele. Isto porque as práticas sancio

nadas culturalmente pela sociedade, que revelariam sua cultu

ra política, levam apenas ao encontro dos rituais e modeloH

repetitivos convencionais. Os valores compartilhados e sancio

nados pela sociedade sao justamente aqueles que os movimen

tos poderao estar contestando. Deve-se portanto, ao analisar

um grupo ou movimento, buscar os símbolos e as defini<;ües qu<'

os grupos dao a suas agües e como fazem suas escolhas, assim

como por que deixam de fazer outras. Para Tarrow, as constru

gües baseadas na moral, no plano das mentalidades, na cultura

política ou na cultura popular de resistencia sao genéricas, nao

nos levam a entender como e em que circunstancias nascem aH

agües coletivas. O que deve ser enfocado sao as liderangas, vistas como as organizadoras dos movimentos.

A organizagao do movimento, do ponto de vista das estruturas formais que o sustentam, é outro destaque na metodologia

de Tarrow para a análise dos movimentos sociais. Isto porqut•

é na organizagao que está a chave para o entendimento de como

as mensagens sao produzidas, elaboradas, divulgadas e difun

didas. Ele chama novamente a atengao para o uso dos conceitoH

de mentalidade e cultura política, pois estes nao sao realidad H

empíricas observáveis - como sao as mensagens contidas noH

protestos, nas demandas, nos símbolos utilizados nas campa

Teorías sobre MS na era da globalizai;iio: a MP 95

1 1 1 l 1·. Na busca de superac;ao dessa dificuldade, ele cita os

l 1 il l i1 1H d Gamson (1988), Klandermans ( 1988 ) e do próprio

1 1 1 11 1 1 ( l . 88). Todos eles tem tentado explicar e conceitualizar

1 1111 1 1 t ¡.¡fmbolos ideológicos ao formados pelos organizadores

1 111 11vi rnentos, como se tornam realidade efotiva para mobi11 11 opi niao pública etcj t:F"-

1 1

: 11 l.r tanto, Tarrow nao privilegia a identidade coletiva do

1 1 11111 A.o contrário, faz dura crítica a respeito, afirmando que

1 l 11d iosos dos NMS centram suas análises nos discursos e

111 1 11 d significados que vinculam os membros dos movimen1 ll'i11is as redes de movimentos sociais. O paradigma dos

1 Hlaria preocupado com as mensagens ideológicas e nao

11 modo pelo qual os líderes constroem estas mensagens,

1111 gni ficado lhes atribuem. Aqui ele recorre ao trabalho de

1111w, que, com o conceito de marcos referenciais, retomou

1 o l l 11111n para entender como a experiencia coletiva é organiza­

' 1 1•orno se torna guia para o movimento e para a própria so1 1 L11 I - no momento que um movimento obtém sucesso e

''l\ll base de legitimidade para suas demandas.

< )bservamos que a antiga questao da auto-reflexividade,

11 1•1 1 r' aos pioneiros do acionalismo, trabalhada por Blumer,

11 ll l 1•11da e negada pelos primeiros analistas da MR, está pre1 11l1 1 ·orn bastante vigor no esquema teórico de Tarrow, no qual

tl1 •Htaca que os indivíduos, como atores, pensam suas vidas.

1 1111 rn ponto da abordagem tradicional retomado por Tarrow é

1 1 111 10 cíclica e evolutiva dos movimentos sociais. Ele afirma

1

1 1 1 oH stágios futuros de um movimento dependem de seu pro11 1 i nicial ou de posic;oes políticas assumidas; das alianc;as que

l 11l >t>lece ou estabeleceu; e do sucesso real em mobilizar ou nao

1 ¡ H•Hsoas. Como variável de alta relevancia para o sucesso de

11111 rnovimento ele cita os recursos para organizar campanhas

1 11·1 iv lS.

Do exposto até o momento podemos observar que Tarrow

1 1 1111 11bandona a MR no que se refere a sua prioridade para enl1·11d< r o processo decisório da ac;ao coletiva. Ele tem urna concep­

' o111 d cultura como algo operacional e pragmático, recusando-

' 11 ver sua dimensao política como resultado de processos

96 O paradigma norte-americano

históricos mais amplos. Assim como o conceito de mentalidade,

o de cultura política se restringe ao passado, a heranc;a recebida, a um repertório estático, repositório acumulado pelo tempo.

Tarrow nao ve a possibilidade de recriac;ao da cultura política

herdada ou adquirida em experiencias passadas nas próprias

ac;oes cotidianas que ele procura por em destaque. A teoría da

escolha racional está também presente em seu trabalho com

grande destaque.

(Entretanto, Tarrow dá urna grande contribuic;ao a teoria

dos movimentos sociais ao desenvolver o conceito de ciclos d

protestos. Eis sua posic;ao a respeito: somente resgatando, por

meio da análise empírica sistemática, os movimentos sociais

em longos períodos de mobilizac;ao, poderemos entender seu

significado e como sao construídos. E para tal é necessário ter

métodos de abordagem da realidade empírica. Ele cita Kertzer

( 1988) e Scott ( 1986), o insight dedutivo de Nardo (1985), Lati n

( 1986), as extensas tipologías de Wildvsky ( 1987) e Thompson

( 1990), as séries sistemáticas de lnglehart ( 1971), a análise do

conteúdo sensitivo de Gamson ( 1987) e o estudo das trajetórias d(•

Tilly ( 1978) como exemplos de trabalhos que atribuem relevancia

a um olhar mais am lo que a mera focalizac;ao de um dado movi-

-p mento aquí e agora � importancia do estudo dos ciclos de protesto

é dada pela contribuic;ao que traz para a análise do processo politico de inovac;ao do próprio sistema político) Um ciclo é definido

como a fase de conflitos e disputas intensificadas nos sistema¡.¡

sociais, incluindo: rápida difusa.o da ac;ao coletiva dos setores maiH

mobilizados para os menos mobilizados, passo estimulante de ino

vac;oes nas formas de disputa, novos frames de ac;oes coletivas (01 1

retransformados), combinac;ao de formas de participac;ao organi

zadas e nao-organizadas, e seqüencias de interac;oes intensificadaH

entre os desafiadores (militantes dos movimentos) e as autorida

des, que resultam em reformas, repressao e algumas vezes em

revoluc;oes (Tarrow, 1994: 153). Ciclos de protestos se caracterizam

pelo acirramento dos conflitos nao somente nas relac;oes induH

triais - como afirma a teoria marxista ortodoxa - mas tambérn

nas ruas, nas escalas etc. Eles se difundem dos grandes centro¡¡

para os pequenos ou áreas rurais periféricas. Aparecem entre al

guns grupos étnicos, grupos com identidades nacionais ou entr1 1

Teorias sobre MS na era da globalizar,;ao: a MP 97

1 1 1 p1 11 l111:mrgentes de modo geral, e sao ativados por novas opor1 1 1ili l111lc H ou por ameac;as e constrangimentos. Eles produzem e

1 1 111 lon nam "símbolos, frames de significados e ideologias para

111 1 1 1 ,. 1r e dignificar ac;oes coletivas e ajudar os movimentos a

1111l 11l1;i:1 1r os seguidores". (Tarrow, 1994: 157).

1 l11nr nte os momentos de pico de um ciclo de protesto, criam1 l1w1•11livos para o surgimento de novas organizac;oes e novos

11111 111111nLos sociais. O ciclo nao se apresenta sob o controle de

1111 1 1 1 1 organizac;ao ou movimento; ao contráirio, o que se tem

11 p11 1·"ncia de ac;oes coletivas espontaneas. Mas de fato as

t 1 . d 1 1gi s e os resultados sao articulados tanto pelas antigas

1111111 pe las novas organizac;oes que surgem. E:les ajustam seus

1 1 111 HOH, e suas diferenc;as nao sao sublinhadas. Passado o mo111 11111 d ' pico, poderao competir entre si por recursos, clientelas,

1 11 11H d posic;oes etc. Tarrow destaca, entretanto, a interac;ao

111 11 l lH militantes dos movimentos e as elites ou autoridades,

111 1 1 v11 ndo que de seus conflitos novos centros de poder poi 1 111 H< •r criados.

'l11 1 t't'OW observou que os ciclos de protestos coincidem com os

l 1 11 1v11c;oes políticas. A partir desta constatac;ao, passou a estul 11 1 •1 l1•l4 momentos e fundamentou o conceito de oportunidades

11111 li llH, que já fora utilizado por_Tilly ( 1978), T. Skocpol ( 1979),

i l 1111 1H ( 1982), H. Kitscheld ( 1986), H. Kriesi ( 1990) e J.

1 Id 11111 • ( 1991), transformando-o em eixo central de urna nova

t 1 1 lo1 11 da Mobilizac;ao Política. Todos aqueles autores haviam

l111t l11do que os movimentos emergem em resposta a expansao

1 1 1p1 11L1 1 nidades políticas disponíveis para gn1pos em busca de

111 1d11 11 'llH. McAdam retomou o conceito em 1994, destacando que

t t 1111il1«1m oportunidades culturais e nao só políticas, e em novo

1 1l11dl 111, publicado em 1996, afirma que Lipsky já chamara a

l t 1 11 110 pura as oportunidades políticas, e que em 1973 Eisinger

111111 111 jú utilizara o termo para auxiliar na compreensao das va­

' 1 11 1 dos riots (motins) em 43 cidades norte-americanas. Jenkins

1

1

1 1 row ( 1977) destacaram também os processos políticos, em

1 t 111111 d oportunidades políticas, como form dores de condic;oes

1 1p11 '""' u emergencia de movimentos sociais. Tarrow irá concluir

1111 11 ¡t pn ralizac;ao do conflito dentro de um ciclo de protesto

1 11 1 1 1 1 ¡ 1 1undo oportunidades políticas sao abertas Goodwin ( 1996)

98 O paradigma norte-americano

afirma que o conceito de oportunidade política geralmente é atribuído a Eisinger (1973), mas na realidade, de forma mais geral,

ele originou-se dos trabalhos de Merton (1968), quando ele trata

das "estruturas de oportunidades". Porém, devido a associa�ao

imediata entre Merton e o estrutural-funcionalismo, os teóricos da

MP nunca citam esse autor em seus trabalhos.

4.2 - As oportunidades políticas

na abordagem de Tarrow

- V Com sua obra Power in Movement ( 1994), Tarrow realizou

novas avan�os para urna teoría dos movimentos sociais. A antiga questao a respeito da cria�ao dos movimentos é assim respondida: movimentos sao criados quando oportunidades políticas abrem-se para atores sociais que usualmente sao carentes.

Movimentos sao produzidos quando "demonstram a existencia

de aliados e revelam a vulnerabilidade de seus oponentes"

(Tarrow, 1994: 23). As pessoas constroem as a�oes coletivas por

meio de repertórios conhecidos, de disputas, e pela cria�ao de

inova�oes ao redor de suas margens. Em suas bases há redes

sociais e símbolos c turais por meio dos quais as rela�oes sociais

esta.o organizadas s quatro elementos: oportunidades políticas, repertórios, redes e marcos referenciais, sao. os materiais

básicos para a constru�ao de um movimento sociaIJAs oportunidades políticas tem centralidade no processo. Mudan�as nas oportunidades políticas criam novas ondas de movimentos sociais e

sao responsáveis por seus desdobramentos. A ideología e as representa�oes sao vistas como complementares as oportunidades

políticas, ou seja, a preocupa�ao anterior com a organiza�ao e

com as lideran�as levou Tarrow a encontrar, no cenário externo

aos movimentos, a explica�ao para sua própria existencia. Neste

sentido, ele se aproxima de Melucci e do c�j.to de redes, antes

negado por ele próprio, pois explica que urna popula�ao dispersa só se organiza em urna a�ao comum, em defesa de seus interesses, por meio do uso de seus conhecimentos, do uso de formas modulares de a�oes coletivas: quando isso acorre as pessoas estao se mobilizando dentro de redes e entendimentos culturais compartilhados. Sua enfase nas redes se faz do ponto de

vista morfológico dos grupos: como as pessoas estao organiza-

Teorias sobre MS na era da globalizai;ao.: a MP 99

1 1 , q ue valores compartilham, como se estabelece a confianc;a

• 1 t·ooperac;ao.

() poder dos movimentos sociais deriva de um misto de re111 IOH internos e externos; para os organizadores de um movi1111 1 i t.o terem sucesso, dependem nao apenas de urna organizac;ao,

1 •11110 ufirmavam a MR e outras teorías norte-americanas, mas

¡1,, r'<•des sociais que dao suporte ao movimento e das estrutu1 11 d 1 mobilizac;ao, que os ligam entre si. Dependem também,

1 1 11 Hociedades modernas, da mídia para se comunicar com seus

tli .11 los e inimigos e para inovar os repertórios que utilizam

p 11 .1 ntingir um público mais amplo.\Porém, para que todo este

¡ 11111·1 HHO seja deflagrado, sao necessárias oportunidades políti1 l'uvoráveis ou acessíveis, e este aspecto é destacado por

l 111 rnw como o mais important� Quem cria tais oportunidades

11 l•)Hlado moderno. Ele cría um meio ambiente favorável de

l 1 1 1 1•1 1 Livos e oportunidades para mobilizar e difundir as ac;oes

1 1 111·1 i vas para movimentos ampliados. Portanto, os movimentos

111 p1 nclem do meio ambiente externo, afirma Tarrow, especial111 1 rile• das oportunidades políticas, para coordenar e sustentar

1 1 11,'llO coletiva, e este é um ponto que diferencia Tarrow de

M•·l11t•ci, que abordaremos no capítulo seguinte. Tarrow analisa

1 n •des em termos políticos, como geradoras de solidariedade,

11111 11 análise institucional e o Estado tem prioridade em seus

1 ¡r111twntos. Melucci trata as redes em termos psicossociais,

1 1 111111 rnnstrutoras de identidades culturais que definem o autoco1il 1 nr1mento de um grupo. Para Tarrow os movimentos sao menos

1 1 1 11 l11 Lo do nível de mobilizac;ao e mais da vulnerabilidade política

1 1 11 opositores, ou da receptividade das demandas no sistema pol 1 1 lt 1 1 1 • •conomico como um todo. Neste sentido, concluímos que os

1t111v1m 'ntos sao como reféns do ambiente externo. Eles próprios

111 pouca capacidade para a mudanc;a e a inovac;ao.

'l'n rrow nao faz urna análise em termos de classes sociais,

1 1(1 Hiia enfase nas estruturas das oportunidades políticas O

1 v11 pnra o campo das forc;as sociopolíticas e económicas da

1 11 ll•c lnde e do Estado. Existe portanto um ponto fundamental

111 1 1 1 1 c1ntender o processo de criac;ao e a dinamica dos movimen111 o<' iai s: compreender a estrutura dessas oportunidades pol11 1t·111 . Tarrow a determina como a consisténcia do ambiente

100 O paradigma norte-americano

político (nao necessariamente formal), que poderá estimular ou

desencorajar as pessoas a participa<_;ao em atividades coletivas.

Em 1996, ele amplia e esclarece o conceito, dizendo que "as eHtruturas de oportunidades políticas sao sinais para atores sociaiH

ou políticos encorajarem-se, ou nao, para o uso de seus recursos

internos a fim de formar movimentos sociais. Meu conceito du

oportunidades políticas enfatiza nao somente estruturas formaiH

como institui<;6es estatais, mas estruturas de' conflito e de alian­

<;a que proveem recursos e opoem constrangimentos externos

aos grupos. Os mais evidentes sinais sao quatro: a abertura

de acesso ao poder, mudan<_;as de alinhamentos, viabilidade d

aliados influentes e clivagens dentro das próprias elites" (Tarrow,

1996: 54).

Já em 1988, Tarrow chamava a aten<_;ao para ---

os focos d

mobiliza<_;6es, citando estudos de McAdam ( 1982) que demonstravam como tais focos estruturavam oportunidades políticas.

Tarrow irá apresentar a correla<;ao entre as duas categoria1:1

destacand� papel das oportunidades sobre o das mobiliza<_;6es.

Trata-se de um conceito que enfatiza os recursos externos paru

a comunidade organizada em um movimento (em vez dos rucursos de poder ou dinheiro do grupo, enfatizados pelos teóricoH

da MR).

Estruturas estatais criam oportunidades, mas é a partir

da mudan<_;a de oportunidades dentro da máquina do Estado

que se pode ter acesso aos recursos que os atores sociais poderao utilizar para criar novos movimentos. Observa-se que o

autor coloca a sociedade política como um dos atores centraiH

no processo de gera<_;ao de novos movimentos sociais. Cumprt•

registrar que ele trabalha coro categorías gramscianas, que nao

fazem urna separa<_;ao rígida entre sociedade e Estado mas buHcam a inter-rela<_;ao de sociedade civil e política para entend r

o próprio Estado e o poder.

O conceito de oportunidades políticas, segundo Tarrow,

auxilia-nos na explica<_;ao sobre como os movimentos se difundem, como novas redes sao formadas, e como as oportunidades sao ampliadas e criadas. �le prefere a categoría "estru

turas de mobiliza<_;ao" para explicar as redes que dao origem

e sustenta<_;a0 a um moviment Vários pesquisadores nort •

EscoLA oE ART'ES.c1i:N c1As E HUMANIDADES- usP

- B I B L I O TECA -

Teorias sobre MS na era da globaliza�ao: a MP 1 01

11111 l'i ·anos sao citados por Tarrow para demonstrar a impor1 1 1 11·111 das estruturas: Gamson e os "grupos suportes" para

, l 1 1doH sobre o meio ambiente; Aldo Morris para o papel da

l 1 11 ¡ 11 dos negros no movimento dos direitos civis nos anos 50

f () l'lC.

< > studo das estruturas de mobiliza<_;ao nos leva a morfol11¡1 l11 dos movimentos. Tarrow afirma que eles sao grandes ape1 1 1 •rn termos nominais. Na realidade, sao urna rede de ínter•

11 11 11 ·110 de pequenos grupos, redes sociais, e a conexao entre eles.

A defini<_;ao de movimento social apresentada por Tarrow é

1 1 l 1 111te simples: sao desafios coletivos construídos por pessoas

1 d 1d11rias e com propósitos comuns, em processos de intera<_;ao

1¡111 1 11 ·luem as elites, os oponentes e as autoridades (Tarrow,

1 1 lli , '1 ). Os desafios sao marcados por intern1p<;6es e obstru1 atívidades por terceiros.

Pnra Tarrow, os movimentos sociais se formam quando cida1 1 1 11 <'omuns, algumas vezes encorajados por líderes, respondem

1 111 11dan<_;as trazidas por novas oportunidades políticas, quan111 1 •1 1 1 1 lam com aliados e revelam a vulnerabilidade de seus opo111 1111 H (Tarrow, J-994: 18 e 23). Conforme cita<;i3lo acima, as mu1

1 111 'llH nas oportunidades políticas podem gerar novas ondas de

11111v 11 n ntos ou explicar novos desdobramentos nos já existentes.

1 i. l 11 ·amos que a questao da mudan<_;a social é tratada a partir

1t 1 111H efeitos sobre os movimentos e nao como resultado de

1111 11 ·uo. Tais efeitos poderao, entretanto, projetar os movimen1 1 11 · 'na política mais ampla, levando-os a serem coadjuvantes

11 1

11·0 · ssos de mudan<_;as.

11:rn síntese: o esfor<;o de Tarrow 'e outros em comparar e

1 11l11r a proximar o paradigma da MR ao dos NMS levou a

1 1 11•110 de urna nova teoría. O estudo do potencial e da motiva1 1 p11 1·11 a participa<_;ao foi decisivo para a conclusao de que as

11 1 1 1 1 1 ic;oes políticas tem forte influencia sobre as formas e os

11 11 d 1 movimentos, assim como determinados grupos de pescomo a Nova Esquerda nos anos 60 e 70, certas institui11 , !'orno a Igreja, etc. Todo este processo deve ser visto por

11 11 do studo das estruturas de mobiliza<_;ao e das redes de

1tl1d 1 1·i •dade em que elas se constroem e sobre as quais estao

1 1 1 11dn . Nelas, os indivíduos e grupos tem metas comuns, e

1 02 O paradigma norte-americano

as oportunidades políticas existentes na estrutura social e na

conjuntura sociopolítica proveem a eles - indivíduos agindo

juntos - saídas para a ac;:ao coletiva. No desenrolar das ac;:oes

criam-se novos significados para as ac;:oes de mobilizac;:ao que

constituirao os novos atores coletivos, agora organizados em

movimentos sociais.

A metodologia utilizada por Tarrow em 1994 apresenta

algumas novidades. O esquema básico continua o mesmo mas

a forma de operacionalizá-lo se amplia. Trabalhando em dois níveis, macro e micro, ele se utiliza tanto dos estudos sobre a

estrutura como daqueles sobre a conjuntura; tanto da abordagem psicossocial dos acionalistas clássicos como de alguns pontos específicos da abordagem histórico-estrutural marxista, e

esta é a novidade. Podemos resumir em tres pontos-chave a

abordagem metodológica para o estudo dos movimentos sociais:

o estudo de sua natureza social, de sua dinamica e de seus

resultados. Para responder a primeira indagac;:ao ele busca em

M arx, Lenin e Gramsci fundamentos para entender a questao

de como os indivíduos se engajam em ac;:oes coletivas. Fazendo

urna releitura de Marx, Tarrow aplica a categoria das oportunidades políticas e afirma que os trabalhadores na sociedade

ocidental foram forc;:ados a desenvolver recursos independentes

quando perderam a propriedade de seus meios de trabalho. Os

sindicatos e a consciencia de classe sao parte desses recursos,

mas a solidariedade gerada pela convivencia comum nas fábricas e pela vivencia do conflito de classes nao ocorreu porque o

capitalismo teria produzido e desenvolvido divisoes entre os

trabalhadores e criado mecanismos institucionais para integrá­

-los em sistemas democráticos capitalistas.

Em Lenin, Tarrow busca elementos sobre o problema organizacional. Ele afirma que a proposta organizacional leninista,

centrada numa vanguarda que seria a guardia dos interesses

dos trabalhadores, foi urna resposta histórica para a política de

oportunidades da estrutura vigente na Rússia czarista, num

contexto de Estado repressor e sociedade regulada e inibidora

de ac;:oes coletivas. arrow afirma que a classe trabalhadora era

incapaz de produzir sua própria revoluc;:ao, cristalizando-se urna

tendencia, desenvolvida pela social-democracia européia, que

d L r L a a s l·tzceeerl3aqeLrrce(ºrrlqer

Teorías sobre MS na era da globaliza<;iio: a MP 1 03

pensa as massas a partir de direc;oes necessá:rias, sendo os líderes fonte de consciencia.

De Gramsci, Tarrow recupera a questao da necessidade de

desenvolver a consciencia dos trabalhadores. Embora Gramsci

tenha aceitado o postulado leninista de que o partido revolucionário teria de ser vanguarda, ele acrescentou dois teoremas: a·

tarefa histórica do partido era criar um bloco histórico de forc;as

ao redor da classe trabalhadora, e esta tarefa só poderia ser levada

a cabo se um quadro de intelectuais organicos se desenvolvesse no

seio da própria classe trabalhadora, para complementar os intelectuais do partido. Estas condic;oes enfatizariam o poder da cultura. O movimento deixa de ser apenas um instrumento organizacional e passa a ser também um tipo de intelectual coletivo

cuja mensagem é transmitida as massas por meio de um quadro

de líderes intermediários. A relac;ao entre líderes e seguidores

deixa de ser um modelo bimodal, de urna vanguarda impondo

consciencia as bases. Gramsci viu a necessidade de múltiplos

níveis de lideranc;a e de iniciativa porque se dieve construir um

amplo consenso em torno das metas do partido, e o consenso é

algo tao importante quanto o conflito. Embora Tarrow acredite

que os movimentos tem pouco poder cultural, ele os ve como um

contrapoder a massificac;ao da mídia. Por um lado, os movimentos podem formar opinioes que se opoem as opinioes difundidas

pela mídiá. Por outro, podem usar os recursos da mídia para

mobilizar seus seguidores.

Entretanto, o ponto fundamental que Tarrow resgata dos

clássicos da teoria das classes sociais é a questao da importancia do Estado no relacionamento com os movimentos sociais e

o ente'1di'llento de que a ac;ao coletiva nao é um problema individual, mas social. Ele afirma que Lenin e Gramsci anteciparam a moderna teoria dos movimentos sociais iem suas considerac;oes sobre a política como um processo interativo entre trabalhadores, capitalistas e Estado. Aqueles autores teriam observado

que nao era prioritariamente nas fábricas, mas na interac;ao

com o Estado que o destino da classe trabalhadora poderia ser

decidido.

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