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Movimentos sociais no Brasil na era da participa\ to: 1 !>7tl 1 11.'1
11 ' H \
1: nfatizava-se o caráter extra-institucional das pr liceLH pop11l11
· 'S - e por isso elas nao estavam contaminadas pelos v · ioH du
>olítica oficial -, assim como sua autonomia em fac ! doH p1 1 1·
,idos e dos aparelhos do Estado em geral. A relagao com n
l i.,'Teja era usualmente tratada apenas em termos de apoio 011
le matriz formadora/constituidora das novas forgas sociniH
Sader, 1988).
As mudangas na conjuntura política no início dos anos O
vi.eram a alterar o cenário. No campo popular comegou-se a indarar, e a questionar, o caráter novo dos movimentos populares. No
campo das práticas nao exclusivamente populares, iniciou-se o
nteresse, por parte dos pesquisadores, por outros tipos de moviinentos sociais, tais como o das mulheres, os ecológicos, os dos
negros, índios etc. Foram movimentos que ganharam expressao
naquela década, embora fossem lutas já antigas que ressurgiram
no Brasil ao final dos anos 70. Em alguns casos, estiveram arti
·ulados a luta popular, como no caso das creches e de algumas
11 las do movimento feminista.
A emergencia desses novos estudos, os quais estou sumal'
Íando aqui apenas em suas características gerais, sem me deter
na produgao específica dos autores brasileiros, demarcou duas
novidades: urna nova concepgao para o novo e urna divisao
paradigmática. Quanto a primeira, o novo passou a SE�r referen
·ia para movimentos que demandavam nao apenas bens e Sirrvigos necessários a sobrevivencia cotidiana - característica bá1-1ica das agües dos movimentos populares, que inscreviam suas
lemandas mais no campo dos direitos sociais tradicionais: direito
1 vida com reivindicagoes de alimento, abrigo e outras condigoes
básicas para a sobrevivencia elementar do ser humano. O novo
nos movimentos ecológicos, das mulheres etc. refería-se a urna
outra ordem de demanda, relativa aos direitos sociais modernos,
que apelavam para a igualdade e a liberdade, em termos das
,
. lagoes de raga, genero e sexo.
A divisao paradigmática ocorreu no ambito das interpreta
·oes das agües, nas análises. Conforme já assinalamos mais de
urna vez, embora tenham ocorrido algumas excegoes, grosso modo
podemos dizer que o que predominou nos anos 70 e no início
!M O paradigma latino-americano
dos 80 foram as análises de cunho marxista para os movimen
tos populares, influenciadas pela corrente franco-espanhola d
Castells ( 1973), Borja ( 1972), Lojkine ( 1981), Preteceille ( 198ó )
etc. Ou as análises acionalistas de Touraine ( 1978), em meno
grau, também para os movimentos populares. Nos anos 80, u
análises sobre os novos movimentos sociais serao influenciada
por Foucault ( 1981), Guattari ( 1985), ou Castoriadis e Coh n
-Bendict ( 1981), Melucci ( 1989) etc. O novo no movimento cu
ropeu advinha basicamente de camadas sociais que nao HC
encontravam em condic;oes de miserabilidade, se organizava 111
em torno ·das problemáticas das mulheres, dos estudantes, pt• ln
paz, pela qualidade de vida etc., e se contrapunham ao mov1
mento social clássico, dos operários. Tais movimentos se imw
riam numa esfera de novos conflitos sociais, conforme denom i
nac;ao de Melucci ( 1989), criando um novo paradigma· da a<;no
social, nos dizeres de Offe ( 1988). O denominador comum 1111
análises dos novos movimentos sociais no Brasil foi a abord 1
gem culturalista, em contraposic;ao a marxista presente con
mais forc;a na análise dos movimentos populares. Aos poucoH 11
análises destes últimos também passaram a priorizar a queHt o
da construc;ao da identidade coletiva dos grupos e a deixar 11
questoes das contradic;oes urbanas, dos meios coletivos de con
sumo etc. totalmente de lado. O dilema criado no debate en
os paradigmas europeu e norte-americano sobre o significa 1
dos novos movimentos sociais, em termos do que expressavnt
- construc;ao de identidades (urna das abordagens do paradi
ma europeu) ou meras estratégias políticas para obtenc;ao d
bens, baseadas em lógicas racionais que consideram cust.o
beneficios (paradigma norte-americano) -, nao se colocou pu
os pesquisadores brasileiros ou da América Latina. Toda 11
fase estava na identidade dos novos atores políticos. O dil1 •11
aquí passou a ser outro: enfatizar mais o aspecto das muda n •
socioculturais ou as transformac;oes políticas que os movi 111
tos poderiam gerar. Este último aspecto poderia incorporl1r
questao das estratégias, mas tratava-se de estratégias p11 r1
ocupac;ao do poder e nao estratégias mercadológicas, paru
obter recursos económicos junto aos poderes1 públicos, como
bordagem norte-americana.
re r, llH !.\" 1111I"rI�I'
Mouimentos sociais no Brasil na era da participO('ilo: 1!17H / /IHll 1H
Ainda nos primeiros anos da década de 80, no plunn d11
realidade brasileira, novos tipos de movimentos foram ' l'indo ,
f'ruto da conjuntura político-económica da época. Foram movi
rnentos que se diferenciavam tanto dos movimentos sociaiB · l 11H
Hicos - dos quais o movimento operário é sernpre tido como
'xemplar - como também dos "novos" movimentos sociais sur
gidos nos anos 70, populares e nao-populares. Foram os movimentos dos desempregados e das Diretas Já, que se definiam
no campo da ausencia do trabalho e na luta pela mudanc;a do
regime político brasileiro. Questoes complexas que surgirao ao
final dos anos 80, relativas ao plano da moral, da ética na
política, etc., estiveram presentes embrionariamente naqueles
movimentos. Sua importancia é dada pelo papel que desempen haram na política brasileira. O das Diretas Já, por exemplo,
Hurgiu no momento de pico de um ciclo de protestos, contra o
,. gime militar e a política excludente de desemprego, e demar
('()U o início de um novo ciclo de protestos, entao centrado na
q uestao da Constituinte.
:S - O cenar10 das lutas e suas interpreta�oes
analíticas: a década de 80
No decorrer dos anos 80 os movimentos sociais no Brasil
pnssaram, no plano da atuac;ao concreta e no plano das 3\1-álises
el •les feitas, da fase do otimismo para a perplexidade e, depois,
pu ra a descrenc;a. Vários fatores contribuíram para essas mudnnc;as, com destaque para as alterac;oes nas políticas públicas
11 na composic;ao dos agentes e atores que participam de sua
l tn plementac;ao, gesta.o e avaliac;ao; o consenso, a generalizac;ao,
1 o posterior desgaste das chamadas práticas participativas em
d 1 ferentes setores da vida social; o crescimento enorme do
1 1HHOCiativismo institucional, particularmente nas entidades e
1 wgaos públicos, os quais cresceram muito em termos numéri1 oH ao longo dos anos 80, absorvendo grande parte da parcela
1 lni; desempregados do setor produtivo privado; o surgimento de
¡ t·a ndes centrais sindicais; o aparecimento de entidades agluti1 1 11doras dos movimentos sociais populares, especialmente no
1 • 1.or da moradia; e, fundamentalmente, o surgimento e o eres-
8 O paradigma latino-americano
cimento, ou a expansao, da forma que viria a ser quase qut•
urna substituta dos movimentos sociais nos anos 90: as ONG11
- Organizac;oes Nao-governamentais. Acrescente-se ainda a est
cenário a decepc;ao da sociedade civil com a política, tanto com
a praticada pelas elites dirigentes como com aquela praticad
pelos partidos políticos, que progressivamente foram perdendo
a capacidade de articular as demandas das camadas popularu
e médias. Os grupos organizados dessas camadas foram ¡.¡
enclausurando em guetos corporativistas. Essas alterac;oes ir 11
desembocar na perda da capacidade de mobilizac;ao e do esfor<;o
voluntarista que se observava na sociedade civil nos anos 70,
Militantes, assessores e simpatizantes deixaram de exercitar
política por meio da atuac;ao nos movimentos sociais, movido
pela paixao, pela ideología ou por acreditar em algumas caus
e valores gerais. A profissionalizac;ao ou "liberac;ao" (estar ap
nas a servic;o do movimento) produziu efeitos contraditório
Criou urna camada de dirigentes que cada vez mais se dista n
ciou das bases dos movimentos, se aproximou das ONGs
ocupou em elaborar pautas e agendas de encontros e sem in
rios (nacionais nos anos 80 e internacionais nos anos 90, come
a EC0-92, a Conferencia de Estocolmo em 95, o Encontro Mun
dial das Mulheres em Beijim em 1995, o Habitat-96 na Turqul
etc.). Fora das agendas dos encontros a outra grande prioridad
eram as eleic;oes. Certamente foram eficazes, porque por due
vezes o candidato apoiado por urna maioria de movimento
chegou até as finais das eleic;oes para a presidencia do pu l
Mas a consolidac;ao dos movimentos enquanto estruturaH el
sociedade civil foi um projeto que, nos anos 90, será reconh 'l'irl
como nao-realizado, embora seja apontado nao como um fral'n
so mas sim como um projeto utópico, dentro do cenário pol ít l
dos anos 70 e 80, quando o Estado era visto como um inim il{e
Ao final dos anos 80, quando o Partido dos Trabalhador H 1
cende ao poder em várias prefeituras municipais, houvc 111
redefinic;ao de posturas políticas, e a problemática pri n ·111
passou a ser a da capacitac;ao técnica das lideranc;as popul11
para atuar como co-partícipes das políticas públicas locaiH. I•'
um período de muitos estudos e seminários sobre o poder loe•
pois vários dirigentes de movimentos se tornaram dirigentt•
>rgaos públicos.
Movimentos sociais no Brasil na era da participar w: l!J7H / llWI 'H /
Do ponto de vista da produc;ao de conhecim n Lo Hol>r·c • 1 11
111ovimentos sociais, o "novo" deste último período dev s •r v1 t 11
1 1 uma dupla dimensao: como construtor de espac;os de ciducl11
n ia, com as novas leis que se estabeleceram no país e con1 11
r• viravolta teórica que passa a ocorrer no plano das anális H.
Na primeira, o exemplo maior é dado pela nova Constituic; o
hrasileira, em especial no capítulo sobre os novos direitos soi• iuis. Na segunda destacam-se as novas categorias que passa1•1 1 rn a ser introduzidas na agenda dos analistas sobre os movilll ntos sociais: a questao do cotidiano em Agnes Heller ( 1981);
11 problemática da relac;ao entre a democracia direta e a demo1· 1·ucia representativa em Noberto Bobbio ( 19B2); e a questao
c l 11s esferas públicas e privadas enquanto espac;o de participa1·110 social para a construc;ao da democracia, ero Hanna Arendt
( ! 981). Henri Lefevre ( 1973) foi parcialmente retomado por
1 1 lguns analistas que trabalhavam sobre a problemática da vida
1•1 1Lidiana. Todos contribuíram para os novos olhares com que
pm;saram a ser apreendidos e analisados os movimentos. A
tli ·otomia público e privado, a questao da cidadania, a cultura
pol ítica presente nos espac;os associativos, a importancia das
1 x periencias cotidianas etc., ganham destaque, em lugar das
1 nL gorias macro explicativas anteriores. Tres outras correntes
1 1 1 11pliam o número de adeptos no país: a marxista, em sua
1 11lordagem hist1rica, dada por Hobsbawm ( 1970) e E. P. Thomp011 ( 1981); a abordagem centrada mais na antropologia de
1 :n •rtz ( 1989), Pierre Clastres ( 1978) etc.; e a retomada de est 1 1dos segundo Touraine ( 1989), com utilizac;ao da pesquisa-ac;ao,
1'111 particular em movimentos na área da educac;ao. A categoria
d11 autonomía, tao importante nos anos 70, passou a ser um
l r cnLo problemática, pois a partir de 1982, com as mudanc;as no
1 1 •11ário político, os movimentos foram convidados a participar
dn mesas, camaras e conselhos de negociac;oes. Num primeiro
1 1 111mento, autonomia redefiniu-se em termos de autodetermi1111 •1\0. O aprofundamento do processo de transic;ao democráti
' 11 •om a ascensao de líderes da oposic;ao, de vários matizes, a
• 1 1 1•¡,os no parlamento e na administrac;ao de postos governa111 1111 Lais, levou progressivamente ao desaparec:imento a questao
tl11 nutonomia dos discursos dos movimentos e das análises dos
1 11 quisadores. O Estado, nessa conjuntura, nao era simples-
288 O paradigma latino-americano
mente o adversário dos movimentos mas seu principal interlo
cutor.
No plano das análises, os anos 90 enfatizarao duas categoria11
básicas: a cidadania coletiva e a exclusao social. A primeira, j
presente na década anterior, apresentará como novidade pensar o
exercício da cidadania em termos coletivos, de grupos e institul
�6es que se legitimaram juridicamente a partir de 88, e que t8rn
de desenvolver um novo aprendizado, pois nao se trata apenas d
reivindicar, pressionar ou demandar. Trata-se agora de fazer, d
propor, de ter urna participa�ao qualificada, já que o lugar d
participa�ao está inscrito em leis, é urna realidade virtual. A s
gunda, relativa a exclusao, decorre das condi�6es socioeconómic
que passam a ser imperativas, causadoras de restri�6es e situ
�6es que Durkheim certamente caracterizaria como anomia soci 1
violencia generalizada, desagrega�ao da autoridade estatal, surgl
mento de estruturas de poder paralelas etc. As análises .enfatizar 1
os efeitos destes sistemas de desagrega�ao social sobre as estrutu
ras organizativas da popula�ao.
Em rela�ao as influencias teóricas e aos paradigmas ado
tados, a crise das esquerdas, do marxismo e dos modelos sociu
listas do Leste Europeu deixa como saldo um certo abandono
das teorias macroestruturais, que enfatizavam a problemáti
das contradi�6es sociais e viam nas lutas e movimentos um do
fato- res de acirramento daquelas contradi�6es. As referenciu
deixaram de ser sujeitos históricos predeterminados, ou con
alguma voca�ao ou missao a desempenhar - como a categorl
dos operários, por seu lugar na estrutura de produ�ao - 011
categoria das classes populares - coletivo socialmente heü•m
geneo em termos da inser�ao no mercado de trabalho mas ho
mogeneo em termos de demandas sociais, modo de vida e con
sumo restrito. A nova referencia sao os novos atores sociaiH
mulheres, jovens, negros, índios etc., e os pobres, os excluído
apartados socialmente pela nova estrutura�ao do mercado d
trabalho. É como se nao adiantasse mais lutar para integrá-l o
eles estao condenados a exclusao (Buarque, 1992; Nascim1
to, 1993). O pensamento dos cientistas sociais brasileiroH,
incluir a temática dos "excluídos" nas análises sobre os nwv
rn ntos sociais, seguiu urna tendencia internacional. Ocorrrru t
1 tdn( I!( ll" "11 11 \1ild11111pid1dt111 1(d1pi1 1ltt q1
Movimentos sociais no Brasil na era da participar;ao: l !J7H 1 111111 '11'1
11bordagens criativas na adaptac:;ao das elaborac:;oes ("ilaH 1 10
1 xLerior, como a tese da apartac:;ao social de Cristovan Buarq1111
( 1 992). As enfases nas categorias dos excluídos e da cidadaniu
1lo encontradas também em Touraine ( 1994, 199f5), em analislaH
d11 realidade espanhola (Puig, Villasante, 1992) e em Dahrendorf
! 1 992). Este último retomou a clássica formulac:;ao de Marshall
( 1 967) ao analisar o conflito social moderno, e concluiu que a cidndania mudou a qualidade desse conflito. Segundo Dahrendorf,
11 ·onflito social moderno já nao se dá mais em torno da elimi111 1c:;ao das diferern;as, porque o único status legalmente impoi Livo é a cidadania. Esse conflito "diz respeito ao ataque as
de 1:; igualdades que restringem a participac:;ao cívica integral por
1 1 1oios políticos, económicos ou sociais e ao estabelecimento de
pi' •rrogativas que constituam um status rico e integral de cidadu nia". Isso significa que a cidadania, por ser um conjunto de
d 1 reitos e obrigac:;6es, é um contrato social, que varia com o
l 1 rnpo. Esse contrato deve ser público e universal, nao pode ser
11l(1recido no mercado, e envolve os direitos civis - considerados
d11 ·isivos no mundo moderno -, políticos e sociais. A pobreza
pe rsistente e o desemprego continuado por longos períodos sao
" novas quest6es da cidadania. Elas sao o cerne da luta dos
,. rluídos. Os incluídos também enfrentam problemas no novo
111odelo, no qual o ·conflito entre as classes teria perdido central 1dude: problemas da deteriorac:;ao de seu hábitat, ausencia.,¡;m
pr ncariedade de servic:;os coletivos etc. Sao todos problemas de
• l dndania e geram também movimentos sociais. E Dahrendorf
• 1 1 1 1clui que a luta para se ter direitos de cidadania para todos
11 Heres humanos implica a construc:;ao da sociedade civil geral
1 1b o governo da lei. Atualmente as barreiras de privilégios
1 1 111ti nuam a ser a questao fundamental, e os ''cidadaos" mera111e•nle ganharam urna nova posic:;ao, mais vantajosa, na luta
1
1111· maiores chances na vida.
Estudos recentes (Baiarle, 1994) tem apontado alguns li1111 ü•s no uso que se tem feito da categoria dla cidadania por
1 1 11 ser pensada dentro de urna lógica de pertencimento ou
1 1·1 usao, fundada na tradic:;ao liberal, pressupondo espac:;os,
1q1•ilos e lugares previamente definidos, numa análise linear
1 HLática. Esta interpretac:;ao dificultaría o entendimento da
1
¡ 1
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1
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1 1
1 1
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11
290 O paradigma latino-americano
constru�ao de espa�os de interpenetra�ao entre o público 1 11
privado, presente por exemplo na política de certos tipos d
conselhos.
Luís H. Alonso ( 1993), ao analisar a realidade espanhol1
dos anos 90, afirma que os movimentos sociais teriam de lutu r
para ampliar e ativar os direitos de cidadania social - dianl c
dos direitos de propriedade económica impostas pelo Estado
Isso porque a realidade atual tem imposto urna série de limitu
�oes a um conceito real de cidadania, deixando cada vez mai
grupos humanos de fora, excluídos dessa mesma cidadania.
Habermas, Claus Offe, Melucci, Adam Przeworski e Arat.1 1
passam a ser os autores que, no plano das teorias macros, mui
influenciam as análises sobre os movimentos sociais no BraH il
nos anos 90. Habermas ( 1985) cria a categoria do "agir comu
nicativo" para o entendimento das a�oes presentes nos mov l
mentos; ele ve nessas a�oes possibilidades de gera�ao- de novu
formas de rela�oes de produ�ao, contribuindo para resolver pro
blemas de produtividade ou de impasses em áreas economicu
em crise. As possibilidades que os "novos" movimentos sociai
encerram, em termos de novas propostas que incidem numu
nova qualidade de vida, foram analisadas também por Ofli
( 1988). Essas orienta�oes teóricas passam a se constituir ('1 11
matrizes explicativas fundamentais. As mudan�as operadas no
seio da sociedade capitalista no pós-guerra e o novo papel do
Estado, com suas políticas de cunho neoliberal, sao as contri
bui�oes de Przeworski ( 1989), que os analistas utilizara.o como
quadro referencial para entender as mudan�as nos cenários <•1 11
que os movimentos se desenvolvem. Destaque-se aqui que fli
chamou a aten�ao para a composi�ao social dos NMS europ UH'
basicamente a "nova" classe média, formada por grupos social
conscientes dos problemas sociais gerados pelo capitalismo, 1111
contrário da "velha" classe média, formada por aposentado ,
estudantes, desempregados etc. A nova camada elaboraría n1
postas racionais aos problemas que enfrenta e nao teria com
portamentos antimodernizantes ou respostas irracionais. H
observarmos a realidade dos movimentos sociais brasileiroH, 1
maioria dos que agitaram o cenário dos anos 70-80 nao ti nh
quele perfil, mas advinha das camadas populares. Os militan l.t•
Movimentos sociais no Brasil na era da participar/lo: llJIH 1111111 • J 1
·om o perfil descrito por Offe eram minorias, junto a gr11pr n1 1 11 11
16gicos, feministas etc. No movimento popular, apenas 8 UH ' H1 u
l'ias se aproximam daquele perfil.
Arato ( 1992) tem tido urna influencia mais recenL ju1 1t.1 1
nos pesquisadores que trabalham sobre o tema dos movim n Lo
HOCiais no Brasil (Avritzer, 1994 e Gohn, 1995). Sua grand con
Lribui<;ao está no aprofundamento que faz sobre a categoría d
"sociedade civil'', a partir de rigorosa análise da obra de H g 1
Habermas.
É interessante observar que a ado<;ao de novos autores como
referencia básica nas análises sobre os movimentos sociais no
Brasil nao significa que os mesmos sejam novos · na análise da
temática. Um dos textos de Habermas que passou a ser muito
utilizado no Brasil ( 1983, segunda edi<;ao 19910) foi escrito em
L 976. Offe também já produzira, desde 1972, análises sobre a
crise do Welfare State e a emergencia de novos atores sociais,
Lendo sido inclusive traduzido para o portugués em coletanea
organizada por F. H. Cardoso e C. E. Martins ( 1978). A explicar;ao para as reorienta<;oes das análises encontram-se na mudan
<;a de visa.o dos analistas, em particular os ditos progressistas
ou adeptos da Nova Esquerda. Na fase de quase total hegemonía do pensamento marxista na análise do social, nao se utilizavam de Habermas 9u outros porque estavam justamente criticando as explica<;oes totalizantes das abordagens marxistas. Com
as mudan<;as na conjuntura política dos anos 80, tanto internamente - no que diz respeito aos movimentos e suas rela<;oes com
o Estado - como no plano internacional, os pesquisadores brasileiros passaram a considerar a produ<;ao advinda de outros eixos
paradigmáticos. A rigor, na temática dos movimentos sociais, o
olhar para outra;g fontes de abordagem existiu desde os anos 70.
Grande parte dos pesquisadores tinha alguma rela<;ao com movimentos sociais concretos. E muitos deles estavam em rota de colisao com as abordagens heterodoxas, assim como vários militantes do Partido dos Trabalhadores se opunham as visoes da esquerda tradicional, representada pelo ex-Partido Comunista Brasileiro (PCB) e pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B).
Para encerrar esta parte deste trabalho, que se constituí mais
num esbo<;o da trajetória dos movimentos sociais no Brasil nos
292 O paradigma latino-americano
últimos quinze anos e as análises deles feítas (em termos geraiH,
sem se deter nos autores, o que demanda um outro texto, especl
fico), concluo com urna nova problemática. Conforme assinalamo
no capítulo VI, nos anos 70, com a teoría da dependencia, realizu
ram-se alguns avarn;os teóricos com o estabelecimento de certo
parametros que demarcavam nossas dif erern;as em relac;ao ªº"
países ditos centrais, de industrializac;ao antiga. A crítica as expl i
cac;oes existentes sobre o que era caracterizado como subdesenvol
vimento levou a negac;ao da teoría da modernizac;ao, da marginu
lidade, e a busca de nossas especificidades (Kowarick, 1975; Car
doso e Falleto, 1970). A construc;ao de explicac;oes que apontavam
os fatores de espoliac;ao e de expropriac;ao da populac;ao nacionnl
pelos mecanismos político-económicos impostos pelas metrópol c "
do capitalismo ocidental conduziram a descoberta das ac;oes e CH
tratégias de sobrevivencia daquelas mesmas classes e camadu
espoliadas. Daí para a criac;ao do "paradigma dos mo_vimento
sociais", nas ciencias sociais latino-americanas, foi um passo. Mu
aquí comec;aram novos problemas. As matrizes colocadas em ª'1' o
para explicar os "nossos" movimentos sociais eram todas de orl
gem estrangeira, em especial franco-espanhola. Nao estou reivin
dicando um pensamento social autónomo, no sentido de desvincu
lac;ao das tendencias mundiais. O que estou reafirmando é qu
abandonamos (e estou me incluindo neste nós), o principal (e tu l
vez mais significativo) ensinamento da Tuoria da Dependencin .
Abandonamos a busca de nossa especificidade e retomamos a trn
dic;ao anterior, de explicar a nossa realidade com categorías e t<•o
rías elaboradas em outros contextos sociais. Num primeiro mo
mento este fato nao foi tao desastroso, porque um dos principn 1
autores a liderar aquelas influencias foi Manuel Castells, qu
debruc;ara em movimentos da realidade espanhola, igualm ni
subdesenvolvida, com bases alicerc;adas mais nas camadas popu
lares, e submetido igualmente a um regime político ditatorinl
Talvez o problema maior tenha estado na reconstruc;ao dos contt•
tos explicativos em que aquelas ac;oes ocorriam. Isso porque um
das referencias básicas foram os trabalhos de Jean Lojkine ( 198 1 ),
que se baseavam em hipóteses sobre o capitalismo monopolista <I
Estado, nos países de industrializac;ao avanc;ada. A rigor, Machn< lo
da Silva já alertara para este problema no início dos anos 80. Mu
o encanto e a paixao pela política eram maiores que a racionnll
l: liIV V ¡.¡1 ll.. ,!.\d" llt�l
Movimentos sociais no Brasil na era da participai;t10: 1 11 711 / 111111 "I \
dade academica. Doimo (1994) levantou algumas hip >Lt'HI H Hlll\'
tivas a respeito das diferenc;as entre o paradigma doH Novo
Movimentos Sociais, construído na Europa, e a realidado doH 1 1 10
vimentos no Brasil. A diferenc;a maior foi dada pelos movimt 1 1 1.o
Hociais populares, nao tao expressivos na Europa, e vice-v rsa, OH
movimentos de minorias de imigrantes expressivos lá e pou ·o
representativos aqui.
Os movimentos de mulheres, ecológicos e outros, abrangendo categorias sociais mais alicerc;adas nas camadas médiaí::l
da populac;ao, tiveram suas análises transplantadas dos países
"centrais" sem as devidas mediac;oes. O resultado foi que, em
n lguns casos, os hábitos dos pobres e suas condic;oes de miserabilidade foram apontados como causadores de poluic;ao, destruic,:ao da natureza etc. Erro tao grave como o que se cometeu no
Rio de Janeiro, de ver nos morros, na populac;ao favelada em
geral, as causas da violencia e da disseminac;ao do vício e do
narcotráfico. A transposic;ao um tanto mecanica das categorias
ele análise construídas no exterior embac;ou o olhar sobre nossa
r alidade. Assim, os movimentos populares no Brasil, como no
·onjunto da América Latina, trouxeram a cena política, de forma majoritária, a participac;ao das mulheres. Enquanto na
l�uropa esta preJenc;a se fez em torno das questoes de genero,
na América Latina o movimento feminista foi importante mas
·ircunscrito a grupos específicos, mais intelectualizados. O maior
contingente de participac;ao de mulheres foi nos movimentos
populares, como demandatárias de reivindicac;oes populares por
melhorias, servic;os e equipamentos coletivos , e nao como demandatárias <;e direitos de igualdade entre os sexos. Foram
1 las que lutaram por creches, transportes, saúde etc. Elas parLiciparam, e participam, dos mutiroes para a construc;ao da
·asa própria como mao-de-obra e como gerenciadoras dos pro1· •ssos. E a participac;ao das mulheres nos movimentos popular •s, tanto urbanos como rurais, é um tema ainda pouco estudado. Certos aspectos da cultura popular - que estabelece "lugar •s e atribuic;oes" para homens e mulheres - sempre estiveram
presentes no interior dos movimentos populares. Fazer comida e
l'uidar das crianc;as eram "atribuic;oes" das mulheres nos canteiros
dos mutiroes. Entre as lideranc;as o número de homens é propor-
O paradigma latino-americano
cionalmente maior que o de mulheres, e esta rela<;ao se inverte
quando olhamos sua participa<;ao no conjunto do movimento.
Ainda ternos dúvidas sobre os caminhos que nos levem a
constru<;ao de explica<;6es teóricas para os movimentos sociais
latino-americanos, especialmente na era da globaliza<;ao, quando as fronteiras entre as na<;6es sao ofuscadas, e os fenómenos
locais tendem a ser absorvidos pela dinámica do global. Como
construirmos novas categorías de análise que resultem da reflexao de nossa realidade e nao da realidade alheia ou, pior ainda,
dos modismos que crassam e a que facilmente aderem aqueles
que freqüentam os saloes academicos internacionais, sao nossos
grandes desafios para o futuro imediato. Acreditamos que o
homem e sua forma de pensar sao realidades universais. Mas sua
forma de viver e representar o vivido tem características locais,
regíonais e nacionais peculiares. Ainda que estejamos vivendo um
período denominado a era das globaliza<;6es, que estejamos nos
tornando urna grande aldeia global, é necessário que se demarquem as peculiaridades históricas locais, no plano económico,
político, social e, fundamentalmente, no plano cultural.
Realizar estudos e pesquisas históricas e utilizar a metodología da análise comparativa poderá ser um dos caminhos a seguir.
Análises comparativas diferentes das realizadas nos anos 60, entao
sob o signo das teorías funcionalistas. Agora ternos de comparar
cenários, desempenho dos atores, demarcar as diferen<;as e especificidades, captar as tendencias e perspectivas de desenvolvimento dos fenómenos. Nao se compara para achar os pontos em comum e produzir generaliza<;6es abstratas, jogando-se as diferen
<;as fora, como fez a sociología americana dos anos 50-60. A dife
ren<;a é extremamente significativa. Ela poderá nos indicar o novo,
a tensao, o sentido e a dire<;ao da mudan<;a.
Finalmente, realizar pesquisas que fa<;am a liga<;ao entrt•
o rural e o urbano é urna necessidade imperiosa. O movimento
dos sem-terra tem nos demonstrado isso. Infelizmente, nos meioH
academicos, em congressos e centros de pesquisa, os grupos qtw
trabalham com as quest6es urbanas e rurais usualmente en
contram-se separados.
MOVIMENTOS SOCIAIS E ONGs
NO BRASIL NA ERA
DA GLOBALIZA<:AO
1 - O modelo de desenvolvirnento brasileiro
nos anos 90
Entender o sentido das mudanc;as que estao ocorrendo no
processo de desenvolvimento brasileiro nos anos 90 requer, em
princípio, entender as tümsformac;oes económicas do país neste
mesmo período e as novas enfases em suas políticas sociais.
Para isso é preciso identificar as bases sociais e as mediac;oes
políticas postas em prática para a implementac;ao dos ajustes
estruturais em nossa economia. Esses últimos tem sido apre1:>entados pelos governantes como único meio de assegurar a
superac;ao da crise, a etomada do desenvolvimento e urna certa
protec;ao social aos grupos sociais extremamente vulneráveis a
situac;ao económica. Novas estratégias de intervenc;ao social tem
sido defendidas para enfrentar os entraves a urna suposta capacidade reguladora do mercado, de forma a criar oportunidades aos desempregados e subempregados.
O resultado das novas políticas tem sido urna grande enfase no mercado informal de trabalho e urna re�efinic;ao de seu
papel no conjunto do processo de desenvolvimento social. Jaime
Marques Pereira ( 1994), professor do IHEAL (Institut des Haut s
295
94 O paradigma latino-americano
cionalmente maior que o de mulheres, e esta relac;ao se inverte
quando olhamos sua participa\(ao no conjunto do movimento.
Ainda ternos dúvidas sobre os caminhos que nos levem a
construc;ao de explicac;oes teóricas para os movimentos sociais
latino-americanos, especialmente na era da globalizac;ao, quando as fronteiras entre as nac;oes sao ofuscadas, e os fenómenos
locais tendem a ser absorvidos pela dinamica do global. Como
construirmos novas categorías de análise que resultem da reflexao de nossa realidade e nao da realidade alheia ou, pior ainda,
dos modismos que crassam e a que facilmente aderem aqueles
que freqüentam os saloes academicos internacionais, sao nossos
grandes desafios para o futuro imediato. Acreditamos que o
homem e sua forma de pensar sao realidades universais. Mas sua
forma de viver e representar o vivido tem características locais,
regíonais e nacionais peculiares. Ainda que estejamos vivendo um
período denominado a era das globalizac;oes, que estejamos nos
tornando urna grande aldeia global, é necessário que se demarquem as peculiaridades históricas locais, no plano económico,
político, social e, fundamentalmente, no plano cultural.
Realizar estudos e pesquisas históricas e utilizar a metodología da análise comparativa poderá ser um dos caminhos a seguir.
Análises comparativas diferentes das realizadas nos anos 60, entao
sob o signo das teorías funcionalistas. Agora ternos de comparar
cenários, desempenho dos atores, demarcar as diferenc;as e especificidades, captar as tendencias e perspectivas de desenvolvimento dos fenómenos. Nao se compara para achar os pontos em comum e produzir generalizac;oes abstratas, jogando-se as diferenc;as fora, como fez a sociología americana dos anos 50-60. A difi
renc;a é extremamente significativa. Ela poderá nos indicar o novo,
a tensa.o, o sentido e a direc;ao da mudanc;a.
Finalmente, realizar pesquisas que fac;am a ligac;ao entre•
o rural e o urbano é urna necessidade imperiosa. O movimento
dos sem-terra tem nos demonstrado isso. Infelizmente, nos meios
acadernicos, em congressos e centros de pesquisa, os grupos qu<•
trabalham com as questoes urbanas e rurais usualmente en
contram-se separados.
1 -prepnffiEPapoessesupr'iSIp::dE[apM
1 .,_ � ,.. _ 1
1 CAPITULO IX �
MOVIMENTOS SOCIAIS E ONGs
NO BRASIL NA ERA
DA GLOBALIZA�AC>
1 - O modelo de desenvolvimento brasileiro
nos anos 90
Entender o sentido das mudanc;as que estao ocorrendo no
processo de desenvolvimento brasileiro nos anos 90 requer, em
princípio, entender as tri:l.nsformac;oes económicas do país neste
mesmo período e as novas enfases em suas políticas sociais.
Para isso é preciso identificar as bases sociais e as mediac;oes
políticas postas em prática para a implementai;ao dos ajustes
estruturais em nossa economia. Esses últimos tem sido apresentados pelos governantes como único meio de assegurar a
superac;ao da crise, a tetomada do desenvolvimento e urna certa
protec;ao social aos grupos sociais extremamente vulneráveis a
situac;ao económica. Novas estratégias de intervenc;ao social tem
sido defendidas para enfrentar os entraves a urna suposta capacidade reguladora do mercado, de forma a criar oportunidades aos desempregados e subempregados.
O resultado das novas políticas tem sido urna grande enfase no mercado informal de trabalho e urna retflefinic;ao de seu
papel no conjunto do processo de desenvolvimento social. J airn
Marques Pereira ( 1994), professor do IHEAL (Institut des Hautes
295
O paradigma latino-americano
Études de l'Amérique Latine da Universidade de París III -
Sorbonne Nouvelle) faz as seguintes considerac;oes: "o setor in·
formal nao é mais percebido como urna manifestac;ao da pobre·
za urbana ou do atraso económico ... O setor informal é hoj
considerado urna fonte de riqueza, um potencial inexplorado do
empregos e de rendas, mesmo que o aumento considerável d
famílias condenadas a reduzir suas expectativas a meras estra·
tégias de sobrevivencia seja, provavelmente, urna das princi·
país causas do crescimento da economía informal". A promoc;ao
do setor informal autoriza, em parte, a retirada do próprio Estado
da esfera social. Invertem-se relac;oes, pois o informal é apre·
sentado como plataforma para a retomada do crescirnento eco·
nómico e, ao mesmo tempo, como estratégia de desenvolvimen·
to das capacidades humanas, desde que as ac;oes relacionada1:1
tenham como objetivo a elevac;ao da produtividade. As políticaH
para o setor informal tentam remediar a perda da legitimidad
do Estado, que, ao normatizar aquele setor, leva a que situac;6 H
informais de trabalho ou de habitac;ao sejam redefinidas, d
modo a nao mais serem percebidas como excludentes e negadoraH
dos direitos de cidadania. Segundo Francisco de Oliveira ( 1994 ),
o setor informal nao tem imaginac;ao criadora, nao detém capa
cidade de reac;ao própria, é totalmente determinado pelo setor
formal e nao tem interesse contraditório com ninguém.
A economía informal, ao ganhar proeminencia sobre a eco
nomia formal, transfigura o que antes era tido como alterna
tivo, e usualmente descartado, em algo bom e preconizado como
saudável e recomendável. As relac;oes de trabalho deixam dl•
ser o principal foco das lutas dos trabalhadores. A luta bási 11
passa a ser pela manutenc;ao de um emprego, qualquer qul•
seja, e nao mais pelas condic;oes de trabalho dentro de urna ca
tegoria. O tempo se altera em func;ao dos novos meios de cornu
nicac;ao. A mídia, principalmente a TV e os jornais da grand(•
imprensa, passa a ser um grande agente de pressao social, urnn
espécie de quarto poder, que funciona como termómetro do pod1 1r
de pressao dos grupos que tem acesso aqueles meios. As orgu
n izac;oes nao-governamentais, por sua vez, ganham proeminencin
sobre as instituic;oes oficiais quanto a confiabilidade na gerencin
dos recursos públicos. O "Mapa da Fome" e o "Mapa da Mis rin
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era <la ¡.¡/11/1111/ 11p111 1¡ I
no Mundo" deixam de ser objeto apenas dos órg os HL111.1 l 1 1'1 11
ou da piedade das entidades caritativas. Passam agoru 11 HPt
objeto de diagnósticos das políticas públicas, na medida 1m q 1 i.•
apontam os problemas fundamentais para a continuidad' do
sistema socioeconómico mundial.
Assim, o padrao de desenvolvimento que se instaura l gi
Lima a exclusa.o como forma de integra�ao. Passa a ser exclus o
integradora, modelo perverso de gesta.o da crise, que recup ra
a legitimidade política e cria condi�oes para um novo ciclo d
crescimento económico com a redefini�ao dos atores sociopolíticos em cena. O reverso desse cenário é a constru�ao de urna
economia popular em que, segundo Coraggio ( 1992), existe a
possibilidade de um campo alternativo de desenvolvimento e
transforma�ao social, desde que essa economía ganhe autonomia relativa em sua reprodu�ao material e cultural, capaz de
auto-sustentar-se e autodesenvolver-se. E estes processos devem acorrer nao isolada ou autarquicamente, mas em vincula
�ªº direta e aberta com a economia capitalista e pública. Neste
contexto, os sindicatos de trabalhadores perdem espa�o, porque
as condi�oes de organiza�ao no setor da economia informal sao
bastantes difíceis. Os movimentos sociais populares perdem sua
for�a mobilizadoya, pois as políticas integradoras exigem a interlocu�ao com organiza�oes institucionalizadas. Ganham importancia as ONGs por meio de políticas de parceria estruturadas
com o poder público, que, na grande maioria dos casos, mantém
o controle dos processos deflagrados enquanto avalista dos recursos económico-monetários. N este cenário destacam-se os
seguintes eleipentos, que terao grande influencia sobre a dinamica dos movimentos sociais, principalmente os populares:
1 - A crise económica levou a urna diminui�ao dos empregos na economía formal. Milhares de pessoas passaram
para a economía informal. Nela, dada a instabilidade
e as incertezas, exigem-se jornadas mais longas de trabalho, o que retira parte do tempo disponível das pessoas para participar de mobiliza�6es.
2 - As políticas económicas dao suporte as atividades na
economía informal, favorecendo oportunidades para a
98 O paradigma latino-americano
abertura de negócios que contratam mao-de-obra com
custos mais reduzidos, nao-afiliada a sindicatos, s m
os direitos sociais etc. A prodm;ao semi-artesana l,
muitas vezes ocorrendo na própria unidade doméstico
-familiar, passa a acorrer num cenário dominado p 111
fragmenta�ao e pulveriza�ao das atividades produtivaH
e rela�oes sociais em geral.
3 - Esta economia semicomunitária encontrará nas ON tH
urna forma de servir de suporte como estruturas orgn
nizativas do processo de produ�ao de algumas merca
dorias.
4 - O número de pessoas sem-teto, morando permanenü•
mente nas ruas, cresce assustadoramente. O número
de crian�as que passam o dia nas ruas e pra�as passu
rá a compor o cenário das cidades de qualquer tamu
nho no país. A violencia cresce de forma generalizada,
principalmente a violencia contra crian�as (Adorno,
1993); os assaltos, furtos e seqüestros passaln a Sül'
urna rotina na vida de qualquer cidadao. O medo, 11
incerteza predominam, ainda que a economia tenha HI '
estabilizado com a cria�ao da nova moeda; ó· real.
No contexto internacional, há outras problemáticas en vol
vidas que, igualmente, afetam nosso cenário. Na ordem pol íU
ca-económica, a reformula�ao trazida pela globaliza�ao está lt•
vando a novas formas de gerir o sistema socioeconómico nacio
nal e internacional. Trata-se de urna mistura de sistemas antt •
riores com coisas novas. Assim, a primazia do mercado sobr o
Estado é resgatada. Mas nao se trata do mesmo mercado dn
economia liberal, e sim de um mercado oligopolizado, gerenciado
por regras estatais que estimulam e/ou retraem a economin
formal ou informal, segundo os interesses e os objetivos de maior
lucratividade. O capital financeiro possui um setor que at1 111
absolutamente desvinculado do processo produtivo, formal 011
informal, que é o capital especulativo, volátil, que migra como
as andorinhas em busca de melhores taxas de lucro e retorno
imediato, sem o mínimo compromisso com os processos de dt•
nvolvimento das na�oes onde investem. Para completar Ht "
problemático cenário, ternos ainda a economia da ilegalidadc i ,
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era t/11 11/11/1111! 1 11 1111 11111
baseada no tráfico de drogas e armas, que criou 1 1 11111 11 •d1
paralela de recursos económicos, nao controlados p lu 1-1c wi1 d11
de nem pelo Estado, além de um poder político paral lo, q11 1
ntua na clandestinidade, baseado na violencia e na corru p ·110
Um sistema excludente, que em poucas décadas modo1·111
:r.ou algumas regioes do país, deslocando milhares de trabal hu
dores pobres e analfabetos do campo para as cidades, transfor
ma-os em mao-de-obra de reserva. Mas o desenvolvimento des n
í'reado das for�as produtivas, no plano internacional, fez com
que a produtividade passasse a ser urna questao-chave no sisLema global de acumula�ao. Nao é mais possível obter ganhos
de produtividade, em vários setores da produ�ao, utilizando
n penas urna mao-de-obra faminta e desqualificada. Ter mao-deobra em disponibilidade e abundante nao é mais garantia para
os lucros, mas pode levar a perdas desde que a competi�ao por
pre�o e qualidade dos produtos passou a ser fator determinante
para se ter acesso ao mercado, agora internacionalizado (ver
A ntunes, 1995).
Atualmente, grande parte do parque industrial necessita
ele poucos trabalhadores, mas bem capacitados, operando em
u nidades pequenas e autC}-suficientes. Por isso, no contexto de
11lguns cenários nacionais o discurso de combate a miséria tornou-se urna constante, já que ela é um obstáculo em alguns
H •tores para a própria acumula�ao do capital, porque traz sempre junto a si o analfabetismo. A era da globaliza�ao, ao alterar
OH processos produtivos, pulveriza a própria produ�ao dos produtos numa infinidade de mercados, segundo a lógica do menor
rusto. E o trabalhador �eve entender os diferentes códigos para
11 montagem do produto. Mesmo em setores considerados tradicionalmente atrasados, como o da indústriia da constru�ao civil,
o operário está se tornando um "encaixador de pe�as" prérnoldadas, produzidas em canteiros de obras especializados. No
1wtor de confec�oes, as roupas que se adquirem em Nova York,
l'm Paris ou em Sao Paulo sao produzidas na Índia, na Coréia,
11· Colómbia, na China, no Brasil, no Uruguai, na Rússia, no
M xico etc. O trabalhador deve saber ler para poder decifrar os
c·odigos das plantas e planilhas de produ�ao. A oralidade, forma
cular de transmissao de saberes nao-especializados, está sen-
300 O paradigma latino-americano
do suplantada pelo saber codificado da escrita e dos sirnu
computadores. Esta é urna das contradi<;oes do capitalismo 11
final de século. Criou-se um sistema produtivo mundia l, 1 11
mentado, altamente competitivo, baseado na qualidad(1 e
prec;o dos produtos e ao mesmo tempo gerador de mais 1 1 1 1 1 1
porque reduz o número de trabalhadores por unidade procl11 t
va, gerando portanto desemprego em massa. Os desempn1�111l1
ficam sem salários, e as estatísticas sobre a fome sobt 111 ,
ficam também sem os benefícios da previdencia social pulill
que, ainda que precária, é urna alternativa no caso das d0t111 ·
Entretanto, nao sao apenas os fatores de ordem lll lll' I
estrutural - ligados as necessidades do capital e a buHc11 1
fatores que preservem ou elevem as taxas de lucro, por m 1i11
aumento da produtividade - que explicam a centralidadc
"miséria dos indigentes" nos discursos, planos e proposti1H
vernamentais, ou em grandes eventos internacionais, como
Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Social, realizado e
Copenhague, em marc;o de 1995. A centralidade deve ser 1111
lisada também como urna conquista dos grupos e movim t•nl o
sociais da sociedade civil, que se organizaram e lutaram p111
se tornar sujeitos, deixando de ser apenas meros objetoH 11
história das políticas sociais, entre outras coisas. Esse enfoqu
desloca o olhar exclusivamente das estruturas económicaH d
sociedade para as redes de relac;oes geradas pelas ac;oes col11t I
vas da sociedade civil, e leva-nos a observar como estas v1 11
atuando, que demandas e práticas tem gerado, como tem
relacionado com o Estado e quais as políticas públicas que t• t
lhes tem destinado. Os discursos estatais, ao destacar prohlc
mas de miséria, estao respondendo as pressoes da sociedntl
civil. Entre estes discursos e as práticas efetivas encontramo
um oceano de ambigüidades e contraditoriedades, porquo u
políticas do Estado nos anos 90 buscam reformar o sentido d
suas ac;oes - transferindo grande parte de suas responsah1 ll
dades para a iniciativa privada - e reformar também f.il' ll
quadros, estrutura de funcionamento etc. Assim, ele cum pr
dois objetivos: o de se reorganizar para se tornar um cent ro
mais dinamico para o novo cenário produtivo mundial - o q11
é urna necessidade imperiosa - e o de diminuir seus quadro
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da globnJiwr1111 \( ) 1
p111· meio do enxugamento da máquina estatal, dem isi::H H vo
l111 1 Lárias, privatizac;oes, revisao das leis previdenciárias t.r11
l 11ilhistas etc. Diminui também a pressalO do conflito inl rno,
11 udo em vista que o setor do sindicalismo brasileiro que muiH
1 rnHceu nos anos 80 foi o dos trabalhadores do setor público.
1 > l >i;ervamos, portanto, no cenário brasil!eiro dos anos 90 um
1 w\junto enorme de profundas alterac;oes estatais no modo d
11p rar a economia_as_ políti�s públicas, e na forma de se reltt ·ionar com a sociedade civil. Interessa-nos destacar esta últi111u, dado os objetivos de nosso estudo: os movimentos sociais.
A construc;ao de urna nova concepc;ao de sociedade civil é
1111:mltado das lutas sociais empreendidas por movimentos e or111mizac;6es sociais nas décadas anteriores, que reivindicaram
direitos e espac;os de participac;ao social. Essa nova concepc;ao
1•onstruiu urna visao ampliada da relac;ao Estado-sociedade, que
mconhece como legítima a existencia de um espac;o ocupado por
11 ma série de instituic;oes situadas entre o mercado e o Estado,
t•x:ercendo o papel de mediac;ao entre coletivos de indivíduos
organizados e as instituic;oes do sistema governamental. Este
1 Hpac;o é trabalhado segundo princípios da ética e da solidariedade, enquanto valores motores de suas ac;oes, resgatando as
,
. lac;oes pessoais, diretas, e as estruturas comunitárias da sor iedade, dadas pelos grupos de1 vizinhanc;a, parentesco, religiao,
hobbies, lazeres, aspirac;oes culturais, lac;os étnicos, afetivos etc.
No Brasil, esse papel passou a ser desempenhado pelas ONGs,
q ue fazem a mediac;ao entre aqueles coletivos organizados e o
Histema de poder governamental, como também entre grupos
privados e instituic;oes governamentais. Urna nova institucional idade se esboc;ou a partir ldesta visao de mundo, na qual se
observa a reformulac;ao da concepc;ao de esfera pública e do que
l he pertence. Isso resultou na construc;ao de urna nova esfera,
ou subesfera, entre o público e o privado, que é o público nao
-estatal, e no surgimento de urna ponte de articulac;ao entre
stas duas esferas, dada pelas políticas de parceria.
Ternos como hipótese central de pesquisa que as utopias
sociais transformadoras, tao caras a sociedade enquanto fator
de motivac;ao e de mobilizac;ao das ac;oes sociais coletivas, m uH
ausentes neste final de século devido a queda dos muros r g-i
02 O paradigma latino-americano
mes que sustentaram algumas delas, esta.o sendo recon
a partir dessa nova concep<;ao de sociedade civil. N 1:;1:11 • pt
so, observa-se o desenvolvimento de outra concep<;a 1111 1
dade brasileira, a de cidadania, tratada agora nao ap 1 1 1 1 1
categoria individual mas também coletiva. Trata-se da l' lcl
nia de forma ampliada, nao restrita apenas aos aspoct 1 1
dico-formais. Nessa nova concep<;ao, segundo Silva TellN1 ( 1
há "o reconhecimento do outro, até entao excluído, s gr1 •f.(
estigmatizado, como sujeito de interesses válidos, va lon•
tinentes e demandas legítimas". O conflito social deix11 d
simplesmente reprimido ou ignorado e passa a ser reco11 lw
posto e reposto continuamente em pauta nas agendas ele• 11
cia<_;6es. Urna nova linguagem é criada dessas novas rew 1
contratualidade social, permitindo a reconstitui<;ao do 1
social danificado pelos mecanismos da exclusa.o e pelaH l'I
antidemocráticas de tratamento da questao social , 111
alicer<_;adas exclusivamente na cultura política tradicional 1• 1
telista do favor e da submissao. Resgatam-se regras de ·i vlll
de e de reciprocidade ao se reconhecer como detentorcH d1
reitos legítimos os novos interlocutores: grupos de fave]ado ,
mulheres discriminadas, de crian<_;as maltratadas, de ·olo
tas militantes, de sem-terra e/ou sem-teto, entre outroH. 1
síntese, assiste-se na sociedad� brasileira a recria ao da o 1
pública - o que leva alguns analistas a falarem em rei nv • ll
da república. Sv vv'J./. fo � el '-�· '"'- 'fCh\ 1 1 '\ 'Yl lt'Íl , 1 '
Dois políticos brasileiros se manifestaram recentement1•
meio da imprensa nacional a respeito da nova face da soci1•d
civil, destacando os efeitos dessas mudan<_;as no próprio i HI 1
"Paralelamente ao desenvolvimento da democracia repr !Wt 1
tiva, a sociedade foi cri�ndo variadas institui<;6es privada
representa<;ao direta. Nao só de categorías profissionais e 11·11
micas, como também entidades de caráter temático (temaH 1•
lógicos, tributários, científicos, culturais etc.
), cada urna d1 1
com um certo grau de universalidade nas suas fun<;6es, as q11
remetem necessariamente para um determinado tipo de vírwul
ou de demandas sobre o Estado. Trata-se do surgimento d • u n
esfera pública nao-estatal que se agrega as institui<;6es trad kl
nais de caráter estatal, como os parlamentares e os tribu 111 1
Mouimentos sociais e ONGs no Brasil na era da gfolmli.•irrflo 11 1 \
1p111 H • tornam tanto mais importantes quanto s' lorn1 1 1 1 1
1111-I ci ntes os órgaos tradicionais de controle e repr s nL11 ·110
111 1 viHLos pela Constituii;ao. Numa sociedade cada vez mai1:1 ·0111
pi• Kit e dotada de interesses legítimos e conflitantes, o surgi
1111 1 1 1.o desta esfera é um antídoto social a burocratizai;a do
h l 11 lo e ao seu afastamento do cotidiano dos cidadaos. Já ha,
11111 l u nto, na sociedade atual, o início de um controle público
11, 11 t•Hlatal sobre o Estado, e ele se torna cada vez mais atuant
• 1·1 1 paz de imprimir urna nova dinamica, nao só as instituii;oes,
1 1 1 1 p r sas e agencias do Estado, mas a própria democracia re1 1 1 1 •H ntativa, que sofre as restrii;oes de um jogo de poder e in11111 ncia cada vez mais complexo na sociedade de classes. Trata-
'' de agregar, processualmente, a democracia representativa,
• l1 • rrl ntos reais de democracia direta, participativa, que valori111 n o cidadao com iniciativa - urna livre iniciativa da cidada1 1 11 capaz de revalorizar a cena política" (Tarso Genro e José
1 l1 noíno. Folha de S. Paulo, sei;ao Tendencias e debates, 22-3-
1 !1!)5: 3).
Em síntese, os novos atores sociais q_ue �m.ei:giram_na so
' nclade civil brasileira, após 1970, a revelía do Estado, e contra
1 In num primeiro momento, configuraram novos espai;os e for11111Los de particjpai;ao ,e de relai;oes socia:is. Estes novos espai;os
l111·um construídos basicamente pelos movimentos sociais, popu1111· •s ou nao, nos anos 70-80 (Gohn, 1991); e nos anos 90 por
111n tipo especial de ONGs que denominamos anteriormente de
1 lcladas ou seja, entidades sem fins lucrativos que se orientam
p11 ra a promoi;ao e o para o desenvolvimento de comunidades
111 1· ntes a partir defelai;oes baseadas em direitos e deveres da
1• 1dadania (Gohn, 1994). Movimentos - - e ONGs cidadas tem se
'
1 !'velado estruturas capazes de desempenhar papéis que as
1 Hlruturas formais, substantivas, nao tem conseguido exercer
1111quanto estruturas estatais, oficiais, criadas com o objetivo e
11 fim de atender a área social� Gotz Ottmann ( 1995), ao analinr o desenvolvimento dos movimentos sociais urbanos no BraHil, concluí: "Os movimentos nao só foram bem-sucedidos no
1 Hlabelecimento de estruturas democráticas fundamentais prop cias a participai;ao popular, mas também tiveram um impacto
Hu bstancial sobre as formai;oes normativas do eleitorado
04 O paradigma latino-americano
portanto, sobre a arena política formal. Ao gerar novos ch•m
tos de conhecimento e cultura, contestando permanentemc r
entidades estabelecidas de urna cultura dominante, os
mentos sociais se engajam ativamente na moldagem da
mia política do Brasil" (Ottmann, 1995: 198).
2 - O cenário das lutas e movimentos sociais
nos anos 90: novas práticas civis
Os anos 90 redefiniram novamente o cenário das lut
sociais no Brasil, deslocando alguns ei:xos de atenc;ao dos 1111
listas. Os movimentos sociais populares urbanos dos anos 70
alteraram-se substancialmente. Alguns entraram em crisl•
terna: de militancia, de mobilizac;ao, de participac;ao cotid i111
em atividades organizadas, de credibilidade nas políticas p11hl l
�as e de confiabilidade e legitimidade junto a própria popu l
c;a9. Sem falar nas crises externas - decorrentes da redefi n ic;
dos termos do conflito social entre os diferentes atores soci d
e entre a sociedade civil e a sociedade política, tanto em t rn111
nacionais como em termos dos referenciais internacionais: q11
da do muro de Berlim, fim da Uniao Soviética, crise das 11111
pias, ideologías etc.
O movimento popular rural cresce e aparece. O MS'I'
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra -, criado t•lll
1979 em Santa Catarina, espalha-se por todo o Brasil, realii
centenas de ocupac;6es de terras, organiza-se em acampamt 11
tos, luta pela obtenc;ao da posse da terra em assentam ni.o
criados pelo governo (ou reconhecidos por ele após a área J
estar ocupada), cria cooperativas de produc;ao e comercia l ii
c;ao, funda escolas de formac;ao para as lideranc;as, elabor
cartilhas para as escolas de primeiro grau - em que discuto o
tipo de educac;ao que deve ser dado aos filhos dos assentadoH
o perfil que devem ter os profissionais que trabalham com u
crianc;as etc. Urna sólida organizac;ao dirige o .movimento 1•111
ambito nacional e imp6e as diretrizes gerais, diretrizes essas qu
muitas vezes encontram dificuldades para se operacionalizar d1
das as diferenc;as culturais entre as populac;6es rurais de nortu
Mouimentos sociais e ONGs no Brasil na era da gtobaliz11r1111 \( ) 1
111 clo país. E o movimento muda também suas principais li1·t1tn
pi-ogramáticas e altera sua filosofia política. Na orig m, nrn
1 1 11 11 70, o MST esteve associado a CPT (Comissao Pastoral da
1 1 1·1 1). Nos anos 80 passou a contar com dirigentes ligados a C U'I'
• "" l 'T, e a fundamentar seu projeto no socialismo marxista. NoH
11 1 11 1H 90, sem abandonar de vez seus ideais socialistas, o M T
11 t lnline suas estratégias para se inserir numa economía de mor
' i 1cl11, tornar seus assentamentos produtivos, voltados para o mer
' i 1d11 externo e nao apenas para o consumo de subsistencia.
Mas os anos 90 trouxeram também o recrudescimento da
l 1ll 11 no campo. Centenas de trabalhadores foram mortos em
1 1 11dlitos pela posse da terra, a maioria deles assassinados. O
'1 nttrio ficou tao gritante que alcanc;ou a mídia internacional. A
11111tanc;a de dezenove sem-terra no sul do Pará, em abril de
1 J06, foi manchete nos principais jornais do mundo. Neste mesmo
11110 foi recriada a UDR - Uniao Ruralista Brasileira, entidade
duH proprietários de terras, desativada desde 1992. Os conflitos
1111 Pontal do Paranapanema, Estado de Sao Paulo, ganharam
111 1Hse período as manchetes dos principais jornais e noticiários
do país. O MST transforma-se no maior movimento popular do
l ln1sil nos anos 90. Entre 1994 a 1997 a atuac;ao do MST se ampl iou considera')elmente e ele elaborou projetos para a frente
t¡ llC passou a ser sua maior bandeira de luta: a reforma agrária.
< > problema do aumento d� violencia urbana, gerada pelo desemp 1· 'go, levou a sociedade brasileira, de modo geral, a apoiar a
l11La dos sem-terra pela reforma agrária, na esperanc;a de fixar
11 homem no campo, diminuir a pobreza nas cidades, e diminuir
1 1quela violencia. Assim, a reforma agrária foi deixando de ser
111n tabu no Br¡.sil, passando-se a construir urna nova represen1 n�ao sobre essa realidade. A "causa" dos sem-terra passou a
Ht'r considerada justa nas pesquisas e enquetes de opiniao pú1>1 ica, embora a grande maioria rej.eite as "invasoes ' de terras"
1·omo forma de pressao.
Surgiram ainda, nos anos 90, novas movimentos sociais
r •ntrados em questoes éticas ou de revalorizac;ao da vida humana. A violencia generalizada, a corrupc;ao, as várias modal ilades de clientelismo e corporativismo, os escandalos na vida
política nacional etc., levaram a reac;oes no plano da moral .
06 O paradigma latino-americano
Criaram-se movimentos nacionais a partir de instituic;oes e or
nizac;oes de expectro plural como o Movimento Ética na Poi tt
ca, ou de figuras carismáticas como Betinho (falecido em 1 O l
agosto de 1997), da Ac;ao da Cidadania contra a Miséria e p 1
Vida. Estruturam-se em ambito nacional movimentos criado
nos anos 80 a partir de questoes sociais geradas pela problom
tica da idade, como o Movimento Nacional de Meninos e M
ninas de Rua, o Movimento dos Aposentados. Ou ainda nwv
mentos pela revalorizac;ao da cidade enquanto locus de viven •I
e sociabilidade, e contra a violencia, como o Movimento VI
Rio. Cumpre destacar que parte das ac;oes que tem mobil i t-.11 1
grandes coletivos de pessoas, nos anos 90, surge antes dü lll
chamamento a consciencia individual do que a consciencia
letiva. Estao centradas em valores baseados mais na solid
riedade humana e pouco alicerc;adas em projetos político-p 1
tidários, como nos anos 80, ainda que a questao da solidu rl
dade seja também, por si só, um projeto político. Outra dil
renc;a usualmente observada nas ac;_Q_es coletivas dos anos <
que se apresentam mais como "Campanhas" do que como mu
mentos sociais.
Se tomarmos o movimento "Viva Rio" como exemplo tl1
novas práticas coletivas que surgiram na sociedade civ il t
mos: trata-se de um movimento/campanha criado em 199'1 n
cidade do Rio de Janeiro, por urna coalizao de ONGs em qw
destacaram o ISER - Instituto de Estudos Superiolies da H11l l
giao, na figura do antropólogo Rubens César Fernandes, 1• 1
IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Ecorn m
cas, na figura de Betinho, coordenador da Ac;ao da Cidada nl
Deve-se destacar neste cenário que o tecido social bras i l111
encontrava-se nos primeiros anos da década de 90 profu ntl
mente desgastado. O desemprego, a inseguranc;a, a corru p ·
que levou ao processo de impeachment do ex-presidente olio
de Mello, o aumento de violencia nas ruas, os arrastoes n
praias cariocas, as chacinas de menores, os seqüestros - 1111
se tornaram urna rotina, levando a imprensa a falar nurna 11 111
dústria de seqüestros" -, a intensificac;ao do narcotráfico ti tlo
consumo de drogas - basicamente pelos jovens -, etc., lodo
estes fatos criaram um clima favorável para que a popula�1 o
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da gtobalizar 111 11 1 /
p rincipalmente a classe média da Zona Sul do Río do Jonoh·o
- desse respostas positivas ao apelo de dar um basta viol n
t' ia: os dois minutos de silencio quando da criac;ao do Viva Rio, 11
111archa pelas ruas da capital carioca com todos vestindo branco,
11m alusao a paz, o ato "Reage Río" organizado pelas entidades j
1·iLadas.
Ao contexto económico, político e social devem-se acrescen1 11 r características internas das duas instituic;oes principais que
d •ram origem ao ''Viva Río". O ISER e o IBASE tem relac;oes
1·om a rede de cooperac;ao internacional ligada as igrej as, e ambas
1 Htavam vivendo os efeitos da reestruturac;ao das políticas de
fi nanciamento aos chamados trabalhos de base no país. Esta
1· estruturac;ao alterou o modelo de apoio dado as ONGs brasil iras - antes de caráter mais assistencialista, baseado na doa
·no de recursos financeiros mediante apresentac;ao de projetos
- para um modelo auto-sustentável, em que o apoio financeiro
11 parcial e condicionado a gerac;ao de "produtos" ou fon tes de
I' rac;ao de rendas ou recursos. O ISER e outras ONGs brasileiras ligadas as igrej as, como o ex-CEDI (Centro Ecumenico de
Documentac;ao e lnformac;ao) de Sao Paulo, passaram por reestruLurac;oes administrativas internas, se su.bdividiram e alteraram
H us pro_gramas em func;ao das novas políticas internacionais.
Observa-se também que o "Viva Rio" nao estabeleceu vín
·ulos com nenhum partido político, demarcou um espac;o simbó1 ico e passou a operar por meio de projetos culturais junto a
·omunidades de jovens em favelas, em torno da questao dos
"f'unkeiros", prática cultural que se tornou muito popular ao
li nal dos anos 80, principalmente entre jovens das periferias,
Hubúrb\os e favelas. O funk é um misto de danc;a-canto em
versos, criado no exterior e adaptado a língua nacional. Várias
e sas de danc;as foram abertas para os bailes funk. Mas os
f'unkeiros foram acusados também, pela imprensa e mídia em
g ral do Rio, em 1992, de serem os autores/atores do arrastao
que houve nas praias da Zona Sul. Observa-se que a atuac;a do
"Viva Río" junto aos funkeiros era urna resposta aos arrasl< 1H,
no sentido de realizar um trabalho voltado aquele grupo, dt1H
acando a parte cultural, retirando todo conteúdo do violt rwi11
que a mera aglomerac;ao anterior dos funkeiros, noH lmi l nH,
. 08 O paradigma latino-americano
poderia vir a ter. Por isso o Viva Rio teve o apoio da mídia, dt
alguns setores governamentais (de outros teve o boicote) e clt
empresas capitalistas como a Coca-Cola, que deu apoio finan
ceiro ao projeto. Um pool de ONGs internacionais também fol
acionado para financiar o projeto que consistia em desenvolwr
programas educativos - com os jovens funkeiros e com a socit
dade em geral. Com os primeiros se desenvolveram os aspectoH
culturais da darn;a e se organizaram cursos para formar dis1·
-jockeys (futuros operadores de instrumentos eletrónicos de som
nos bailes); com os segundos se estruturaram campanhas paru
construir urna nova imagem dos funkeiros, dissociada da viol •n
cia e associada ao lazer, a juventude sadia, criativa, que presl•r
va valores culturais etc. O funk passou também a ser tratado
como parte do folclore cultural do Rio de Janeiro - junto com
o samba e o pagode - e incluído no roteiro de tours oficia iH .
Urna secretaria de Estado apoiou a produc;ao de um vídeo sobrt•
o funk e o projeto Viva Rio, segundo a pesquisa de Georgt
Yúdice ( 1996).
O Viva Rio se estruturou baseado nas premissas de deson
volvimento do trabalho comunitário-solidário, no terceiro s tor,
a partir de urna rede de parcerias entre entidades públicaH t
privadas, voltado para questoes sociais mas de urna forma n1111
relacionada com sindicatos ou partidos políticos, centrado 1111
esfera cultural - a grande esfera a mobilizar os jovens, o
grandes ausentes nas mobilizac;oes tradicionais articuladas ju
tamente por partidos políticos, sindicatos ou movimentos Ho
ciais antigos como as oligárquicas e populistas associac;oes d1•
moradores do Rio de Janeiro.
Duas outras navidades devem ser assinaladas no cenÁrio
das ac;oes coletivas dos anos 90. Primeira: o fortalecimento d
;.edes e estruturas nacionais de movimentos sociais, coordc nu
das por ONGs - como a ABONG, Associac;ao Brasileira d
ONGs - o.u a criac;ao de estruturas macrocentralizadoraH u
vários movimentos sociais _:___ como a CMP, Central dos Movi
mentas Populares, que após mais de dez anos de discussfü·H ,,
ensaios preliminares passou a aglutinar todos os movim n i.o
sociais que já gravitavam ao redor da CUT - Central Ún i t•t
dos Trabalhadores. Segunda: o surgimento e/ou desenvolvi nwn
-
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da globalizcr.r011 11 )1)
Lo de movimentos internacionais. Produtos típicos da \r11 d11
1 l obalizagao, grandes ONGs internacionais, como o Greenp a· , n
llainforest, a Anistia Internacional etc., cri:aram no Brasil sub
H des e passaram a atuar em programas diretos com a populac;· o,
Hendo um misto de ONG e movimento social (Gohn, 1997).
Portanto o "novo" dos movimentos sociais se redefiniu novamente nos anos 90, e isto se fez em duas direg6es. Primeiro,
d slocando o eixo das reivindicag6es populares, antes centradas
( m questoes de infra-estrutura básica ligadlas ao consumo cole1.ivo (transportes, saúde, educagao, moradia etc.), para reivindi
·a<_;:6es relativas a sobrevivencia física dos indivíduos, objetivando garantir um suporte mínimo de mercadorias para o consumo
i ndividual de alimento - como na campanha da Agao da Cidadania, Contra a Fome e a Miséria e Pela Vida (Gohn, 1996), ou
Lerra para produzi-lo, no caso dos sem-terra. Retomou-se a
questao dos direitos sociais tradicionais, nunca antes resolvido
no país, como o direito a vida e a sobrevivÉ\ncia. O aumento da
iniséria, em particular nos grandes centros urbanos, é o prin
•i pal fator explicativo dessa primeira dire�;ao. O segundo local iza-se no plano da moral, que ganhou lugar central como eixo
articulador dos fatores que explicam a eclosao das lutas sociais.
A indignagao diante da ausencia de ética na política e a agresHao a certos va�-Ores consensuais da sociedade em rela<_;:ao a
gesta.o da coisa pública foram fatores que levaram a eclosao de
rnovimentos sociais de base pluriclassista, liderados pelas camadas médias e articulados em torno de problemáticas de genero, raga, idade etc. Muitos desses movimientos deram lugar a
1 utas cívicas, verdadeiras cruzadas nacionais com articulagoes
d ifusas em termos de classes sociais, interesses locais e nacionais, espagos p�blicos e privados. \.
Duas outras tendencias se fortaleceram nó cenário social
brasileITO nos anos 90, com relag6es diretas com a temática dos
movimentos sociais: o cre��Gs e s olíticas d
parcerias implementooas pelo poder público articularm n tc•
no ambitoCl:o po er local. Estas tendencias sao taces com pl(
mentares aas novas emases das políticas sociais contem poi·
neas, particularmente nos países industrializados do 'l'\ I' '( 1iro
Mundo. Trata-se de novas orientag6es voltadlas para a d •Hn111 1 l l11
1 1 () O paradigma latino-americano
rn ntac;ao do papel do Estado na economia, e na sociedade como
um todo, transferindo responsabilidades do Estado para as "comunidades" organizadas, com a intermediac;ao das ONGs, em trabalhos de parceria entre o público estatal e o público nao-estatal
e, as vezes, também com a iniciativa privada. Desta interac;ao tem
surgido experiencias de trabalho cooperativo no setor terciário da
economía, no ambito informal. O resultado das novas políticas tem
sido, além da enfase no mercado informal de trabalho, urna redefinic;ao deste no conjunto do processo de desenvolvimento social,
reafirmando as propostas de desenvolvimento auto-sustentado, de
parceria entre o Estado e as ONGs, tais como a exemplificada
acima, no caso do Viva Rio.
Nos anos 80 a temática da participac;ao social era um ponto de pauta na agenda política das elites políticas, denotando
dois fenómenos: de um lado a crise de governabilidade das
estruturas de poder do Estado, desgastadas e deslegitimadas
pelo autoritarismo; de outro, a legitimidade das demandas expressas pelos movimentos sociais - novos ou velhos - e a
conquista de espac;os institucionais como interlocutores válidos.
Nos anos 90 a agenda política das elites dirigentes se modifica
em func;ao de problemas internos e das alterai;oes que a globalizac;ao e as novas políticas sociais internacionais passam a impor
ao mundo capitalista. Nesta nova agenda só há lugar para a participac;ao e para os processos de descentralizac;ao construídos no
interior da sociedade política, pois as formas de participai;ao direta foram se institucionalizando. Entretanto, pela morosidade da
máquina estatal em regulamentar essas novas formas colegiadas
de participa¡;ao, e pelas sucessivas mudanc;as nas políticas públicas, as regras das novas estruturas colegiadas tem sido estabelecidas por iniciativa dos dirigentes. Com isto a base de estruturac;ao dos colegiados deixa de ser o critério de representatividade
institucional, após processo de debate e consulta, e passa a ser o
critério pessoal, individual, de indica¡;ao, baseado nas qualidades
de ser "um notável" em determinada área de atuac;ao, a exemplo
da forma como foi composto o cJmite executivo da Comunidade
lidária, programa estatal-federal criado em 1995 para atuar
junto as áreas sociais carentes.
lvf ovimentos sociais e ONGs no Brasil na era c,da globalizorilo \ 1 t
As arenas de negocia�oes passaram a a ser formadas p lo
poder público, fruto das novas políticas sisociais. Criaram Hi
process os e canais novos, mas estruturaraill.Jn-se também movi
mentos sociais que defendem demandas pal"'1rticularistas e esL• o
voltados para atuar como co-partícipes das a\ar;oes estatais. Como
os conflitos sociais, via de regra, nao sao rrmais resolvidos p lo
uso da for�a masnas mesas de negocia�ao, ).pautados por mecanismos jurisdicionais de controle, as elites .� políticas estimularam o surgimen� de movimentos sociais a l:l seu favor, nao voltados contra o Eslado mas expressao de se�us interesses e das
políticas que buseam implementar. Sao colEfutivos que norteiam
suas conceVioesa partir da lógica de resu:iiJ.tados, na qual sua
obtenc;ao depenae fundamentalmente do glgrau de integra�ao a
máquina estatal,integra�ao esta que se fa�z de forma subordinada. Exemplosaestes sao: a For�a Sindica�! no movimento operário, ao apoiaro movimento pró-reformas � constitucionais; e a
rede de movirne11tos que se construiu ao o redor do programa
Comllnidade Solidária, no interior do própr1rio governo. É importante registrarlambém que várias dessas s a�oes e movimentos
já estavam presentes nos anos 80, como a �CONAM - Confedera�ao Nacionalaas Associa�oes de Morado]bres; a CGT - Confederar;ao Geral aos Trabalhadores, antes G da cria�ao da For�a
Sindical ; e os in1�meros programas sociais icriados pelo governo
federal, por meio da ex-LBA - Legiao Bra�ileira de Assistencia
em parceria com a comunidade organizaQ.�a. Mas nos anos 80
eles eram interlocutores ocasionais e, funqaamentalmente, inseriam-se em políticas elaboradas pelo Estljado, num esfor�o de
articular e mo�ilizar um campo de for�as s de apoio as políticas
particip ativas aeflagradas pelo poder púbmlico.
Outro des&que nos anos 90 é que ait polítjcas sao formuladas para segmentos sociais, numa perSJ¡;pectiva que privilegia
áreas temáticas-problema e nao mais os ati:iores sociais organizados em moviine11tos. Desta forma, os sujei¡¡tos das a�oes transfiguram-se em iroblemáticas: a fome, o del.l;emprego, a morad ia,
os sem-terra, os sem-teto etc. O MST, porr exemplo, passa a H<ir
considerado um interlocutor para a formu�a�a.o de urna r formo
agrária para oiaís e nao um simples mov�mento organizado por·
for�as de oposi¡ao ao governo, com prop<iostas radicais H1 wi11
• 10 O paradigma latino-americano
mentac;ao do papel do Estado na economia, e na sociedade como
um todo, transferindo responsabilidades do Estado para as "rn
munidades" organizadas, com a intermediac;ao das ONGs, em t.r11
balhos de parceria entre o público estatal e o público nao-estatial
e, as vezes, também com a iniciativa privada. Desta interac;ao t •111
surgido experiencias de trabalho cooperativo no setor terciário dn
economia, no ambito informal. O resultado das novas políticas (,(1111
sido, além da enfase no mercado informal de trabalho, urna rcdt
finic;ao deste no conjunto do processo de desenvolvimento sociu l,
reafirmando as propostas de desenvolvimento auto-sustentado, dt
parceria entre o Estado e as ONGs, tais como a exemplificadu
acima, no caso do Viva Rio.
Nos anos 80 a temática da participac;ao social era um pon
to de pauta na agenda política das elites políticas, denotando
dois fenómenos: de um lado a crise de governabilidade du
estruturas de poder do Estado, desgastadas e deslegitimadu
pelo autoritarismo; de outro, a legitimidade das demandas •x
pressas pelos movimentos sociais - novos ou velhos - 11
conquista de espac;os institucionais como interlocutores válidoH.
Nos anos 90 a agenda política das elites dirigentes se modificu
em func;ao de problemas internos e das alterac.;:6es que a globo
lizac;ao e as novas políticas sociais internacionais passam a impor
ao mundo capitalista. Nesta nova agenda só há lugar para a par
ticipac;ao e para os processos de descentralizac;ao construídos no
interior da sociedade política, pois as formas de participac;ao din•
ta foram se institucionalizando. Entretanto, pela morosidade du
máquina estatal em regulamentar essas novas formas colegiadw-i
de participac;ao, e pelas sucessivas mudanc;as nas políticas públi
cas, as regras das novas estruturas colegiadas tem sido estabe)(.•
cidas por iniciativa dos dirigentes. Com isto a base de estrutura
c;ao dos colegiados deixa de ser o critério de representatividado
institucional, após processo de debate e consulta, e passa a ser o
critério pessoal, individual, de indicac;ao, baseado nas qualidadüH
de ser "um notável" em determinada área de atuac;ao, a exemplo
da forma como foi composto o co\nite executivo da Comunidadt•
olidária, programa estatal-federal criado em 1995 para atuar
junto as áreas sociais carentes.
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da globalizo(r/11 1 1 1
As arenas de negociac;oes passaram a ser formada¡,¡ p lo
poder público, fruto das novas políticas socia.is. Criaram H<I
p1·ocessos e canais novos, mas estruturaram-se também movi
111 ntos sociais que defendem demandas particularistas e esl o
vol Lados para atuar como co-partícipes das ac;oes estatais. Como
o conflitos sociais, via de regra, nao sao mais resolvidos pelo
ttHO da forc;a mas nas mesas de negociac;ao, pautados por meca11iHmos jurisdicionais de controle, as elites políticas estimula1·1 1 m o surgimento de movimentos sociais a seu favor, nao voltados contra o Estado mas expressao de seus interesses e das
¡ t0líticas que buscam implementar. Sao coletivos que norteiam
uas concepc;oes a partir da lógica de resultaclos, na qual sua
nblenc;ao depende fundamentalmente do grau de integrac;ao a
111 quina estatal, integrac;ao esta que se faz de forma subordi1 1nda. Exemplos destes sao: a Forc;a Sindical no movimento ope1•ú rio, ao apoiar o movimento pró-reformas constitucionais; e a
mde de movimentos que se construiu ao redor do programa
C Jomunidade Solidária, no interior do próprio governo. É impor1 u nte registrar também que várias dessas ac;oes e movimentos
j(1 estavam presentes nos anos 80, como a CONAM - Confedemc;ao Nacional das Associac;oes de Moradores; a CGT - Confed •rac;ao Geral dos Trabalhadores, antes da criac;ao da Forc;a
1 'i ndical; e os inl)meros programas sociais criados pelo governo
fr•deral, por meio da ex-LBA - Legiao Brasileira de Assistencia
t m parceria com a comunidade organizada. Mas nos anos 80
ni s eram interlocutores ocasionais e, fundamentalmente, inse1·iam-se em políticas elaboradas pelo Estado, num esforc;o de
1 1rticular e mobilizar um campo de forc;as de apoio as políticas
participativas deflagradas pelo poder público.
Outro dest'aque nos anos 90 é que as polít\cas sao formulndas para segmentos sociais, numa perspectiva que privilegia
1 reas temáticas-problema e nao mais os atores sociais organizados em movimentos. Desta forma, os sujeitos das ac;oes trans!iguram-se em problemáticas: a fome, o desemprego, a moradin,
os sem-terra, os sem-teto etc. O MST, por exemplo, passa H< r
·onsiderado um interlocutor para a formulac;a.o de urna r f'orn111
11grária para o país e nao um simples movimento organ izado por·
l'orc;as de oposic;ao ao governo, com propostas radicais Htll'iu
12 O paradigma latino-americano
lizantes, como era a visa.o que permeava o tratamento quu
poder público dispensava anteriormente aquele movimento. N
<levemos nos esquecer, entretanto, na luta dos sem-terra, do f' ut
de que foram eles que fon;aram a redefinic;ao de tal tratam nlu
A conjuntura política também foi favorável a esta redefinic;
pois no plano internacional cresceu a pressao para a busca
soluc;oes para o homem do campo na realidade brasileira. Pr
soes políticas, advindas de ONGs internacionais que mudarur
suas orientac;oes no sentido de ficarem no plano do apoio técni
e nao mais economico-financeiro, conscientizando os movim
tos para que cobrassem dos governos políticas e financiamenlo
Pressoes políticas internas, advindas da própria sociedade hr
sileira, que passou a aspirar ardentemente por paz e nao-vi
lencia, além da já obtida estabilidade da moeda nacional.
presidente da República comec;ou a perder, em 1997, índiceH d
popularidade e apoio nas pesquisas de opiniao pública. PresHt
economicas advindas de novas orientac;oes do Banco Mund inl
no sentido da necessidade de modernizar as relac;oes sociaiH n
campo como condic;ao indispensável para o aumento da proch
tividade. Com tudo isso ternos outros parametros importante
para o entendimento da questao, do ponto de vista macroc•
trutural. Outro tipo de pressao que desempenhou um pa p
extremamente relevante foi o cultural: por exemplo o lanc;
mento do livro Terra do consagrado fotógrafo Sebastiao Sa llo{
do, com músicas de Chico Buarque e texto do escritor port 11
gues José Saramago, as vésperas da data de chegada da M 11
cha pela Reforma Agrária, Emprego e Justic;a a Brasília e• ch
aniversário de um ano do massacre dos sem-tera em Eldorml
dos Carajás. E, finalmente, devem-se considerar também
pressoes morais, advindas, entre outros, do alto clero cat<íl i 1•1
(como as observac;oes que o papa Joao Paulo II fez ao presiclc•r
te Fernando Henrique Cardoso, durante sua visita a Romu ) .
própria mídia também mudou e colaborou para a formac;uo l
urna nova visao junto a opiniao pública, agora favorável a lut
dos sem-terra pela sobrevivencia. Todo este cenário levou
criac;ao de novas oportunidades políticas, que foram bem p
cebidas pelas lideranc;as dos sem-terra quando da organizu ·
da bem-sucedida e longa marcha para Brasília, entre fev(•rt•i
abril de 1997.
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da gl<Jba/i:t<1\' 111 11 1
Fora das políticas públicas nao há recursos financei ro8 p1 1 1·11
dt •l:lenvolver projetos com a comunidade organizada porqu OH
l 1 nanciamentos internacionais agora sao escassos. A ques Luo
l 1 nanceira é um dos nódulos principais da complexa relac;ao do8
1 1 1ovimentos com o Estado. Todos os movimentos reivindicam '
11pregoam autonomia e independencia di.ante do Estado. Mas
11 11 prática o total isolamento nunca existiu, porque, conform
11nálises de Francisco de Oliveira ( 1994), os fundos públicos sao,
1 10 sistema capitalista, pressuposto do financiamento tanto da
11 ·umulac;ao do capital como da reproduc;ao da forc;a de traba1 ho. E este padrao de financiamento altera a natureza dos con11 iLos sociais, que passam a girar fundamentalmente em torno
do Estado. É tarefa quase impossível atender as demandas que
nH movimentos populares reivindicam fora da esfera de apoio
li nanceiro estatal.
O Estado tem definido linhas de atuac;ao para os movimen1 os a medida que cria programas sociais, com subvenc;oes e
linanciamentos. A questao está na postura que o movimento
11dota diante de tal realidade. Nos anos 70 e até meados dos 80,
l'ra um tanto consensual entre os movimentos e as redes de
ussessorias que se deveria construir um contrapoder popular,
nma forc;a popular independente do Estado. Nao se tratava de
:;
<'Star de costas para o Estado, nos dizeres de Evers ( 1983),
porque esta era urna postura dos movimentos ecológicos europeus; nem de frente para o Estado (Ammann, 199 1), porque
•ste era visto como inimigo pelos movimentos progressistas. Ao
longo dos anos 80, com a transic;ao democrática, os movimentos
passaram a ser interlocutores privilegiados do Estado, porque
'Ste estava se de1�ocratizando e buscando também mudar sua
face aparente, de repressao. Nos anos 90, aquele cenário se
alterou: da parte do Estado - ele nao "precisa" mais dos rnovimentos para se legitimar como nao-riepressor ou aparentar
l:ler democrático. Da parte dos movimentos progressistas - OH
que sobreviveram as crises internas querem participar daH
políticas públicas criando urna nova forma democrática, a públ it·11
nao-estatal. Mas o cenário da correlac;fw de forc;as socia iH Hf '
alterou e a ala do movimento popular nao combativo s ampliou
Essa ala passou a ter lugar privilegiado enquanto ini 'rl O('ld o r •11
314 O paradigma latino-americano
nas políticas sociais em que os governos constituídos nao advf 111
de partidos ou composigües democrático-populares (lembrandn
apenas que as administragües democrático-populares sao irn
portantes mas extremamente reduzidas no país).
Acrescente-se ainda que os movimentos populares progr 'H
sistas perderam, nos anos 90, o apoio irrestrito do maior aliado
que tiveram ao longo dos anos 70 e parte dos 80 no Brasil: u
Igreja católica, em sua ala da Teologia da Libertagao. Ator
agente expressivo nos anos 70/80 junto aos movimentos popu
lares, a Igreja tem revisto nos anos 90 suas doutrinas e práticaM
sociais, alterando substancialmente os rumos e diretrizes de suaM
agües no que se refere a participagao popular na política do paft.11
conforme já assinalamos nos destaques que apresentamos no ca
pítulo anterior sobre o cenário latino-americano. Aquele apoio,
teoricamente, ainda existe, mas a própria teologia deixou de ser
urna política para ser urna linha de resistencia.
Registre-se que estamos rememorando os anos 80 porqu
deles resultaram atores que esta.o presentes no cenário quo
estamos analisando nos anos 90. Mas as sociedades amigos de
bairros, no período populista ( 1945-64), por exemplo, também
participaram da rede associativista estimulada pelo poder público, na política de barganha do voto pela melhoria urbana,
num processo de construgao de urna cidadania regulada. A diferenga básica é que naquela época havia pouco movimento
social forte fora do campo sindical (oficial ou paralelo) e fül
SABs concentravam em seu interior contraditoriedades dada1:1
por agendas com demandas progressistas aliadas a práticas
clientelistas conservadoras, gerando urna cultura política profundamente contraditória.
Segundo Luiz Razeto ( 1993), a agao reivindicativa tradicional, presente nos movimentos sociais dos anos 80, transformou
-se em agües solidárias alternativas, nos quais se parte de necessidades que devem ser enfrentadas coletivamente e nao apenas demandadas. Os demandatários serao também os executores da implantagao e da gesta.o do servigo reivindicado. Este fato
muda radicalmente o paradigma da agao social coletiva. Necessariamente tais agües deixam de se estruturar como movimen-
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da globalizar 1tJ \ 1
lrn; sociais e passam a ser articuladas em grupos organizadoH,
mm certo grau de institucionalidade. Estes devem ter corno
1•t 1ferencia projetos, propostas de soluc;oes, sugestoes, planos
11¡.¡Lratégias de execuc;ao das ac;oes demandadas. O poder públ i ·o
e transforma em agente repassador de recursos. A operac;ao
ntermediada pelas ONGs. Na prática as ONGs é que tem tido
11 papel principal no processo, pois sao elas que estruturam o
¡>rojetos e cuidam da organizac;ao e da divisao das tarefas. A
questao do saber acumulado se faz presente e a dependencia
das organizac;oes populares dos técnicos das ONGs é bastante
visível. Ou seja, as ONGs saíram da sombra, d.eixaram de ser
in ros suportes técnicos em orientac;oes tidas como "pedagógiras" e financeiras as lideranc;as populares, e passaram, elas
próprias, a desempenhar os papéis centrais nas ac;oes coletivas.
Destaque-se entretanto que nos anos 90 os movimentos
q ue permaneceram no cenário, ou que foram criados, tornaramHe mais qualificados. A quantidade de reunioes, assembléias,
11 Los públicos e o próprio número de militantes foi substituída
por ac;oes qualitativamente mais estruturadas. Antes os movimentos utilizavam sed.es de sindicatos e a própria infra-estrut.ura dos partidos políticos. Nos anos 90 - por meio das ONGs
- passaram a ter infra-estruturas próprias, a se utilizar mais de
r cursos tecnológicos como computadores e redes da Internet (em
ulguns casos). As ac;oes sendo menos de pressao e mais de organiiac;ao da populac;ao, voltadas para algum programa efetivo, necesHiLam de suportes materiais. Estes suportes sao obtidos pelas ONGs
por meio de projetos. \Estes projetos sao financiados por outras
ONGs ou por programas governarnentais, ou pela própria comun idade. Para que tenham continuidade, precisam de eficiencia.
Arma-se portanto um ciclo onde nao há tempo a se gastar com
mobilizac;oes por demandas nao atendidas. A oficina de paes, por
•xemplo, precisa produzir, precisa cobrir os custos, precisa manter
a qualidade e o prec;o abaixo do mercado para ter demanda d
·onsumo. Ou seja, a movimentac;ao da rede social passou a girar
m torno do fazer, do movimentar processos de produc;ao qu tW
r m produtos ou empregos, na economia informal.
Nos locais onde havia movimentos organizados, o novo
p radigma da ac;ao social tem gerado redes de poder Aoci a l lo
316 O paradigma latino-americano
cal. Estas redes sao formadas pelas liderarn;as dos anti1<11
movimentos, por urna base militante pequena, que agora aHHll
me o papel de responsável por etapas ou processos dos projl'l o
em andamento, e por técnicos das ONGs, profissionais st•ml
qualificados ou com qualificac;ao, mas principiantes no mercud
de trabalho, atuando como assalariados, num campo de trah
lho pouco preocupado com as questoes ideológicas ou político
-partidárias, e mais preocupado com a eficiencia das ac,;6es, c·oi
o exito dos projetos, pois deles depende sua continuidadti
portanto, seu próprio emprego. Os partidos políticos vem pt
dendo espac;o e importancia neste novo cenário.
Nos locais onde nao havia movimentos organizados rn 1
populac;ao minimamente aglutinada em torno de interc1:1H1
coletivos, os novos programas sociais de parceria tem se implun
tado como "servic;os sociais", ou seja, nao como direitos n1111•
como prestac;ao de servic;o, despolitizando totalmente os progrt
mas, desvinculando-os de qualquer conteúdo político, retroc
dendo a problemática da cidadania de seus termos coletivo
para os antigos patamares da cidadania individual.
Para completar o cenário dos anos 90, no que se refen• 1
lutas e ac;oes sociais, cumpre registrar a questao da partici p11
c;ao da populac;ao nas estruturas de conselhos e colegiados crin
das por exigencias da Carta Magna de 1988 ou como fruto d
políticas específicas. No primeiro caso, embora os avanc;os soh1·
esta questao sejam pequenos, e estejam circunscritos as tcrn
ticas do menor, do adolescente e dos idosos, o leque de art.il'll
lac;oes a respeito é grande. Como sabemos, sao muitos os ti po
de conselhos preconizados: estaduais, municipais, tutelan• ,
populares e outros. Em trabalhos anteriores já tratamos dt• t
questao (Gohn, 1990, 199 1 e 1992), mas gostaria de destal'll
apenas que a forma conselho foi urna demanda básica da mulo
ria dos movimentos sociais brasileiros nos anos 80. Nos ano:; ){ )
foi absorvida como estratégia política pela maioria dos plano
e projetos governamentais, para viabilizar a questao da part 1
cipac;ao da populac;ao nos órgaos e políticas estatais. Na área d
educac;ao por exemplo, o projeto da Escola Padrao do gowr1111
Fleury, o projeto Qualidade Total da Escola de Minas GeraiH no
gov rno Hélio Garcia, e o projeto da Escola Cidada do Para n 1
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da globaliZ(t(' 111 11 /
1111 governo Roberto Requiao, todos tem os conselhos corno OH
l 111Luras viabilizadoras de integrac;ao e parc:eria entre os usuu
1 os (pais de alunos basicamente) e o corpo de funcionáriol:l,
rl rigentes e professores da escola. Resumindo, podemos d izor
q11 a reivindicada descentralizac;ao das estruturas de presta1'1 o de servic;os a comunidade está se realizando em grau redu
... 1do e, quando isto ocorre, é a forma colegiada dos conselhos
q1 1e tem sido utilizada.
Mas é no ambito da elaborac;ao do orc;amento municipal e
das camaras de negociac;oes setoriais da economia que surgi1·11 m as experiencias mais criativas e inovadoras, representando
o segundo caso que assinalamos acima, das estruturas colegiadas
ou conselheristas novas, como políticas específicas. Fruto da
r •Lac;ao entre a dinamica societária e as políticas institucionais,
ol:l novos espac;os de interac;ao entre o govierno e a populac;ao
1rcraram ac;oes políticas novas, em que a construc;ao dos interesH s passa por intricadas tramas de articulac;oes e mediac;oes,
possibilitando o surgimento da vontade coletiva no sentido plu1·al, nao-corporativo. Estas novas experiencias redefiniram con
·eitos já clássicos na ciencia política, como os de espac;o público
l' espac;o privado, construind um novo conceito, o do público
nao-estatal. Neste sentido, os movimentos que participara desLas experiencias também redefinem seus valores no sentido de
olharem para o Estado nao como para um inimigo, como nos
anos 70-80, mas como para um interlocutor, um possível parceiro, num campo de disputas políticas em que as demandas tem
significados contraditórios: para uns sao conquistas de direitos
a obter ou preservar, pois h?i toda urna luta por detrás de sua
aparente causalidade; para outros, sao mecanismos que permitiriam diminuir os custos operacionais das ac;oes estatais, dar
-lhes maior agilidade e eficiencia, evitar o desperdício, ampliar
a cobertura a baixo custo, diminuir o conflito social e, até, desativar possíveis ac;oes públicas, tirando-as da arena de atendimento direto pelo Estado. O problema, em termos de estrai giu
política para a construc;ao da democracia, é que a maioria doH
exemplos citados se inscrevem como "experiencias" sob a ·oor·
denac;ao de certas correntes político-partidárias. Quando 1 1Ht 11
correntes saem do poder - por terem perdido as eleiG6 'H f.111
Jl8 O paradigma latino-americano
experiencias sao varridas do cotidiano da gesta.o das col 1
públicas, deixando a memória - por meio de seus registro
memória coletiva de participa<;ao -, sem inscrever as nov11
práticas como partes constituintes da sociedade política. A 1·011
tinuidade da inova<_;:ao irá depender da sensibilidade do 1 10 1
dirigente, de suas estratégias de a<_;:ao, da correla<;ao de fo1· ·11
articulada por seu projeto político. Concordamos plenam1•11t
com um dirigente de urna ONG de Sao Paulo, que afirmou: "C )
movimentos sociais tem de ser capazes de criar urna agN1c l
própria, para que sejam sujeitos capazes de intervir na real id1
de" (Flávio Jorge, 1995).
Portanto, a rela<;ao da sociedade civil organizada co 1 1 1 t
Estado é de outra natureza nos anos 90, bem distinta dos !'1 111
frontos nos anos do regime militar; ou das negocia<;6es, as1-11 •111
bléias e consultas populares dos primeiros anos da Nova fü•pl
blica. Hoje as arenas de negocia<;ao esta.o normatizada e
institucionalidade da rela<;ao sociedade organizada-poder pu hll
co é um fato. As agendas dos órgaos públicos necessariamcnt
contemplam a intera<_;:ao com a sociedade civil, mas esta intt•rn
<_;:ao ainda ocorre segundo os interesses e regras estabelec ido
pelas elites ou grupos que esta.o no poder. Os movimentoH 11
ciais criaram, nos anos 80, um paradigma da a<_;:ao social , •011
ferindo legitimidade a si próprios enquanto portadores de di1·1 •I
tos legítimos e deslegitimando as políticas que os ignoram, 11111
nao conseguiram man ter estas posi<;6es nos anos 90 dian L 1 el 1
voracidade das políticas neoliberais. Outros atores surgiram 111
arena pública, como as ONGs. Com as mudan<_;:as, as bases do
movimentos refluíram e se vive urna grande contradi<;ao: a cl1
ter urna sociedade política construída a duras penas pt •lo
movimentos e lutas sociais, com ganhos expressivos para 11
redemocratiza<_;:ao do país, e a inércia desmobilizadora, alinw11
tada por dois elementos: de um lado, o formato das novas ac.:oc •
coletivas, que, assim como o sistema produtivo mod r110,
priorizam poucos e bem capacitados militantes, entrincheirndo
em aguerridas organiza<_;:6es; por outro lado, a conjuntura poi I
tica do país, de incertezas, medo da violencia exacerbada e dt•
cren<;a na for<;a de alguns valores, como o da participa<_;:ao. 1•;1-11 11
contradi<;ao se acirra quando observamos que a democratiza ·1 o
d
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da globaliUl('//11 \ l '1
clus políticas públicas, no sentido do acesso, da qualidud do
orvic;o prestado, do controle das verbas públicas etc., d p nd1
nm grande parte do poder de envolver atores significativos dn
Hociedade civil, pois sao estes que tem capacidade de diagnoHt. icar e prever resultados corretos, como nos alerta Habermas.
Concordamos com as análises de Melucci ( 1994), quando
11 firma que os movimentos dos anos 70 e 80 foram a última
l.ransic;ao de movimentos como atores para movimentos enquant
l(1rma (entendendo-se forma como sinónimo de modus operandi,
·ultura, jeito de ser). Em 1989 Melucci já afirma va: "A situac;ao
normal do 'movimento' hoje é ser urna rede de pequenos grupos
i mersos na vida cotidiana que requerem um envolvimento pesHoal na experimentac;ao e na prática da inovac;ao cultural"
( Melucci, 1989: 61). Ilse Warren ( 1993) também redefiniu sua
nbordagem nos anos 90 em termos de "redes", partes de um
L cido social movimentista que envolve movimentos propriamente ditos, ONGs e até certos espac;os de representac;ao institucional (Warren, 1995: 178-179). Isto significa que, nos anos
90, importa menos a presenc;a de movimentos sociais enquanto
struturas específicas, ou organizac;6es, e mais as novas instiLuic;oes, os novos quadros de pesso;i.l, a nova mentalidade sobre
a coisa pública; em suma, importa mais a nova cultura política
gerada. Essa hova cultura se traduz em virtualidades concretas
quando examinamos práticas sociais expressas nas experiencias que já relatamos anteriormente, das camaras setoriais de
negociac;6es entre patr6es, empregados/sindicatos e governo; dos
grupos envolvidos nos Programas de Orc;amentos Municipais
Participativos; e em ac;6es coleti\ras sem fins lucrativos, que se
colocam em defesa de setores da sociedade civil excluídos ou a
margem do processo de desenvolvimento socioeconómico, desempenhando um papel de mediac;ao entre a sociedade propriamente dita, o mercado, e o Estado, por meio de parcerias em
políticas públicas. Exemplo deste último caso é a Ac;ao da Cidadania contra a Miséria e pela Vida.
Do exposto até o momento nao significa que a forma rno
vimento social tradicional por excelencia tenha desapar •ciclo
(entendendo forma aqui no sentido de formato, configurn ·no).
Ou seja, o coletivo de atores em ac;ao, em luta, com l tcl1• 1·n1-1,
J20 O paradigma latino-americano
bases demandatárias e assessorias, mobilizados e em ac;ao dir
ta por meio de atos de protesto coletivo, existiu, existe e semp1
existirá porque o gra�de conceito que os articula e explica e o
de luta social. E lutas sociais sao partes constitutivas das soc· I
dades humanas desde os primórdios da humanidade.
Na luta social no Brasil, nos anos 90, a forma tradicio111 1
de movimento social é observada em alguns casos principa l
movimentos que nao se transformaram internamente e mov
mentos que se desenvolveram ao redor de problemáticas so ial
estruturadas segundo as regras do capitalismo selvagem, como
a questao da terra rural, no movimento dos sem-terra. No prl
meiro caso ternos como exemplo movimentos que mantem
mesma postura e as mesmas táticas, estratégias e práticaH el
ac;ao há duas décadas, como o dos professores da rede públk
de ensino do primeiro e segundo graus e parte do movim •nto
das associac;6es de moradores. O Movimento Popular de Lu t
pela Moradia também persiste enquanto estrutura organizali v
com identidade própria, mas transformou-se bastante em f'u n
c;ao das novas frentes que o próprio movimento ajudou a con11
truir, como a luta no plano jurídico pela reforma urbana. NeHl l
transformac;ao, as ONGs ganharam maior espac;o e central idn
de na direc;ao e conduc;ao do próprio movimento. Este aspcdo
tem também seu lado positivo - demonstra que a ausencia d
mobilizac;ao nao significa colapso da rede movimentista soci al,
porque, quando necessário, as ONGs acionam as ac;6es coletiv1 1
e o movimento social reaparece em cena: impeachment, contrn
-reformas etc.
3 - Principais mudan�as ocorridas
nos movimentos sociais brasileiros
a partir da crise de mobiliza�ao
Nao nos resta a menor dúvida de que, no plano geral, 11
principal contribuic;ao dos diferentes tipos de movimentos Ho
ciais brasileiros dos últimos vinte anos foi na reconstruc;ao do
processo de democratizac;ao do país. E nao se trata apenaR du
r construc;ao do regime político, da retomada da democraciu e
1 1 1 111 111(11 11l'dpH(8
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da globaliza<; o 12. 1
.lo lim do regime militar. Trata-se da reconstrw;ao ou consLru
, .in de valores democráticos, de novos rumos para a cultura do
1
1" 11.'1, do preenchimento de vazios na condu�ao da luta pela r '
d1 • 1 nocratiza�ao, constituindo-se como agentes interlocutores qu
d 11logam diretamente com a popula�ao e com o0 Estado. Fran
' m:o de Oliveira ( 1994) denomina este processo de constru�ao
d11 HOciedade política no Brasil.
·
A capacidade de intervir e construir urna esfera pública foi
111 n dos grandes saldos do período. Acreditamos que, em rela�ao a
l111 portancia assinalada, os autores nacionais esta.o em sintonía
1 um os analistas estrangeiros sobre os movimentos sociais. A quesl 110 é explicar como, nos anos 90, enquanto vários analistas bral leiros falam sobre crise dos movimentos sociais, de desmobiliza�ao,
1
11 refluxo das lutas etc., autores estrangeiros como Melucci, Arato,
1 ainda Touraine, colocam os movimentos sociais no centro da
rnflexao social, atribuindo-lhes ainda importancia. Vamos aos ar11umentos dos dois lados.
Os autores brasileiros, entre os quais me incluo, que falamm da crise dos movimentos sociais nos anos 90 referiam-se,
"m primeiro lugar, a um tipo particular rj.e cri:se, nao-generali1.ável a todos os movimentos. Trata-se de urna crise nos movimentos populares urbanos. O tipo e a forma de análise desta
crise também é diferente segundo os autores. Para uns isto se
deve ao perfil aparelhista daqueles movimentos (Abreu, 1992);
para outros, porque nao conseguiram encontrar seu lugar, preHOS pela lógica leninista ( com excesso de rigidez organizacional)
ou movimentista (com excesso de as�mbleísmo) (Castagnola,
1987); para outros, ainda, porque os movimentos reproduzem
as contradi�oes que buscam superar (Cardoso, 1987).
Para nós trata-se de crise interna e externa. A interna
reflete as mudan�as que vem ocorrendo na gera�ao de militantes que sustentou as mobiliza�oes nos anos 70/80, conforme já
assinalado no capítulo anterior. Seus reflexos se deram maiA
entre os movimentos sociais populares urbanos, aqueles quo
ocuparam o cenário e o imaginário das representa�oes soci11 iH
no Brasil nos anos 70-80, em termos de um decréscimo clu
militancia e da mobiliza�ao nas ruas, nos fins de semana c•t.<'.
22 O paradigma latino-americano
Retomaremos este ponto nas considerac;6es finais. A externa
refere as mudanc;as ocorridas no cenário - tanto nacional corno
internacional - em termos de correlac;6es de forc;as polítirn ,
atores e interlocutores privilegiados nos fóruns de discussom1
agendas das políticas públicas.
Os chamados novos movimentos sociais, que lutam p11
quest6es de direitos no plano da identidade ou igualdade, l'lll
hora tenham declinado bastante nos anos 90 no cenário int.111
nacional enquanto movimentos sociais, e assumido mais 11111
papel institucional enquanto ONGs, no Brasil permaneceram
alguns até cresceram, com o apoio de ONGs e movimentoH in
ternacionais, como é o caso do movimento indígena. Embor
nao caminhem no fluxo das grandes mobilizac;6es, continuar1 11
a se ater a grupos específicos, daí a alcunha de grupos d 111 l
norias. Em síntese, os movimentos que entraram em crise, n 11
apenas de mobilizac;ao mas de estruturac;ao, objetivos e capnl'l
dade de intervir na esfera política, foram alguns movim n t,1 1
populares demandatários de bens e servic;os para suprir car 11
cías materiais básicas. E isto num momento em que a Ti
económica gerou grandes contingentes de excluídos socioeco1 111
micamente, hordas de miseráveis que perambulam pelas ni n
das cidades e pelos campos do país.
Alguns autores, como Harber, relacionam o decréscimo 1•
crise de mobilizac;ao com a incapacidade de algumas lideran�1 1 ,
antes ligadas aos movimentos sociais, para criar ou implem ni 11 1
políticas sociais após ascenderem pelo voto a cargos no pod1 1 1 ,
levando a descrenc;a popular. o autor afirma que algumas d1•l11
até ajudaram a implementar políticas de cunho neoliberais q11
tem gerado desemprego e exclusa.o social.
F. de Oliveira ( 1994) afirma que nao há crise nos movin11•11
tos mas processo de democratizac;ao. O que ocorreu, afirm11 11
autor, é urna mudanc;a na forma de interlocuc;ao dos movin11 11
tos com o Estado, fazendo com que nao aparec;am mais na m fd l
ou no imaginário das pessoas como interlocutores direto <'1 11 1
o Estado. Entretanto, militantes, lideranc;as e assessores di
tos dos movimentos sociais populares sentem e falam da ·ri
de forma explícita. As dificuldades vao além da mobilizn · 11
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da globaliza(' 11 1 1
i 'ituam-se no próprio plano dos interesses. E os vícios, m' 1 H 1
·onseqüencias do corporativismo nao foram superados, porqu(
rnuitos movimentos esta.o entrincheirados em si próprios, donoH
de verdades, nao-permeáveis a críticas. Outros ainda sao conduzidos de forma paternalista, cerceando as bases enquanlo
reservas próprias. Ou seja, há muitos problemas internos m
vários movimentos populares, que já abordamos em outros trabalhos (Gohn, 1992), os quais seriam normais em regimes d
plena democracia mas que se tornaram problemáticos no conlexto brasileiro, na vigencia de urna cultura política que nao se
lransformou o suficiente para o pleno exercício do jogo democrático, que convive com regras do fisiologismo e de práticas do
tradicionalismo, mas fala em nome da modernidade.
Os analistas estrangeiros, particularmente Melucci ( 1994)
Arato ( 1994), ao enfatizar a importancia dos movimentos sociais hoje, nao estao fazendo urna análise da conjuntura política
de algum país mas analisando formas de desenvolvimento social. Com nuances diferentes, o que enfatizam é a capacidade
dos movimentos de gerar o novo. Partindo de premissas de
Habermas, afirmam que os movimelitos sao o lume indicativo
para a solm;ao de problemas, nao apenas porque, ao vivenciar
urna dada situagao, apresentam modos alternativos de solugao,
já que este seria um caso específico para os movimentos populares do Terceiro Mundo. Mas os novos movimentos sociais
mericanos e europeus, que lutam por direitos de categorias
específicas, ou pela natureza e pelo meio ambiente em geral,
tem a capacidade de fazer sínteses, previsües, desenhar resultados etc., ou seja, de criar capac�ade que se perde no círculo
das relagoes estatais. E o Estado necessita desta capacidade de
previsao, de criagao. O capitalismo hoje nao se move mais pelo
modelo fordiano, de previsibilidade das agües. Ele necessita de
atores competentes e criativos, inovadores. As forgas produtivas,
com o domínio da informática e da robótica, nao podem mais s
atrelar a formas ou modelos burocratizados. Por isso o Estado
vem perdendo sua eficiencia e eficácia. E os movimentos soci ii;
sao o espago, por excelencia, da inovagao, da criatividad .
Melucci ( 1986) afirma que os movimentos nao sao p rH0 1111
gens d� um roteiro previamente escrito, mas se conslitu •rt) c·o1110
324 O paradigma latino-americano
redes de prodU<;ao de sentidos, de constituic;ao
compartilhado de significac;oes onde a ac;ao e as opini6es seju1
possíveis, emergindo enquanto mobilizac;6es coletivas, a part 1
de articulac;6es multissetoriais, apenas em momento de amaclu
recimento de determinadas contradic;6es em meio as quais o¡w
raro. Baseado nestas análises, Baiarle ( 1994) afirma que é pr
ciso romper coro o mito dos movimentos sociais como sujeilo
dotados de unidade objetiva e em processo de mobilizac;ao por
manente dentro de estratégias preconcebidas, capazes de art l
cular o conjunto da sociedade e conseguir urna situac;ao de "du
plo poder". E concluí o autor: a crise é estratégica, de adequu
c;ao a institucionalidade democrática. A complexificac;ao do tocl
do associativo e a nova conjuntura política dos anos 90 levarum
a necessidade de os movimentos sociais terem um papel ma iM
propositivo, instituinte (Baiarle, 1994: 15-16). Este novo papol
implicou urna radicalizac;ao do processo democrático, nos dizt
res de Alvarez e Escobar ( 1992), trazendo para o próprio interio
dos movimentos sociais as exigencias dos imperativos da democru
cía. Resultou deste processo um embate entre a cultura políticn
tradicional vigente no país - clientelista, de redes de solidariedu
de baseadas nas relac;6es pessoais e nos interesses grupaiH,
particularistas -, e a cultura de novos valores apregoada pt'1 11
militancia. Esta nova cultura, infelizmente, nao é típica do conjun
to associativo geral agregado em movimentos sociais popular 'H.
Observamos que o ponto comum nas análises, feítas por
estrangeiros ou brasileiros, diz respeito a construc;ao de umn
nova cultura política. Paulo Krischke ( 1995) destaca no interior
desta questao a emergencia de urna cultura cívica. Ele diz: "O
estudos sobre a nova 'cultura política' na Europa e na Amérirn
do Norte, que agora comec;am a ampliar-se para outros con t.i
nentes e regi6es - chegando inclusive a operar em países clu
América Latina -, mostram a relac;ao entre as mudanc;as 1111
cultura cívica e os 'novos' movimentos sociais, especialmenlt
entre a juventude e setores das minorias culturais" (Krisch kt•,
1995: 198). O mesmo autor cita estudos em que os destaqlWH
dessa nova cultura cívica passam a ser urna maior iniciativ1 1
i ndividual e a participac;ao de setores mais jovens; um ínter HHt
m ior por quest6es da cultura e da educac;ao no debate polítko
Movimentos sociais e ONGs no Brasil na era da globaliza<; lo
t nao apenas pelas quest6es partidárias; a incorpora�ao clu
d imensao subjetiva e urna preocupac;ao com o tema da felicidudt', demonstrando que as utopias nao esta.o mortas, porqu 1,
t' i t,ando Garretón ( 1992), a superac;ao da explorac;ao, da opresHUO, o desejo de liberdade e igualdade, nao se esgotam no ima
¡¡i nário e nos sonhos das pessoas a dimensao da participac;ao
rn ilitancia na política partidária. Ou seja, está havendo urna
rnaior pluralidade social, tanto na vida dos grupos e organizac;oes sociais como na ac;ao orientada para a esfera pública. Em
i;fntese, está havendo urna mudanc;a nos valores e orientac;6es
que informam e fundamentam a ac;ao social..
CONSIDERA�ÓES Flf\íAIS
Dado o objetivo principal deste livro, o de ser urna reconst.i tuic;ao das teorias dos movimentos sociais, seria um despropóHito querer finalizá-lo com alguma síntese única ou com a proposta de um modelo de teoria geral e universalrTalvez a única
conclusa.o geral a que chegamos é a de que na.o há urna teoria
!'mica, assim como nao há urna só concepc;ao para o que seja um
movimento social, e nao há também um só tipo de movimento
Hocial. 1 á várias teorias formadas em panldigmas teóricos
plic ivos endo assim, o que objetivamos nestas considerac;oes finais azer urna síntese da trajetória dos estudos sobre
os movimentos sociais ao longo do tempo, no século XX, segundo as teorías e os paradigmas apresentados anteriormente.
Concluiremos o livro com a problemática da globalizac;ao e seus
efeitos e tendencias para a reconstruc;ao dos paradigmas sobre
os movimentos.
1 - Conceito de movimento social na
bibliografia geral das ciencias sociais
Do ponto de vista teórico, a análise da bibliografia ger
nas ciencias sociais usualmente incluí os movimentos sociaiH
como urna sessao dos estudos sociopolíticos e tem como d nom i
nador comum analisá-los dentro da problemática da ac;ao ·011
tiva. Alguns chegam a incluí-los numa teoria da a<;ao Hociul
(Smelser, 1962), (Tilly, 1978), (Touraine, 1973, 197 ). Na n1ul1
•
. 28 Teorias dos movimentos sociais
dade, a temática dos movimentos surge como objeto de eHl.1111
junto com o nascimento da própria sociologia. Segundo Schtir
-Warren, "na- sociologia academica o termo 'movimento sol ' i 1
surgiu com Lorens Von Stein, por volta de 1840, quando 1 1 t
defende a necessidade de urna ciencia da sociedade que sti cl
dicasse ao estudo dos movimentos sociais, tais como o mo
mento proletário frances e o do comunismo e socialismo c111 1 1
gentes" (Scherer-Warren, 1987: 12). No século XX a tem11 t it
passa a ser vista no universo dos processos de interac;ao sol' i
dentro da "teoria do conflito e mudanc;a social", como noH el
monstraram os estudos de T. Bottomore ( 1976).
A abordagem sobre as ac;oes e os comportamentos col t.ivo
dominou a sociologia norte-americana dos anos 20 deste s t•ul
até os anos 60. Ela tem sido denominada abordagem clásHi<'
Podemos datar seu início nos estudos de Park e seus colegaH 1
Escola de Chicago, nos trabalhos da escola do interacioniHm
simbólico de Simmel e Blumer. & doutrinas do interacionismo HÍI
bólico norte-americano viram os movimentos como probl •rn
sociais, um fator de disfunc;ao da ordem. Elas se eocupav111
em entender o comportamento dos grupos socia� A id iu <I
"progresso" estava no centro das atenc;oes de Park e Blu m1
Este último, tratado no capítulo I, foi o primeiro a utilizu r
termo movimento social na teoria norte-americana. Ele luho
rou urna teorizac;ao que dividia os movimentos em gerais ti 1
pecíficos, abordando sua estrutura e funcionamento, refl U mi
sobre o papel de suas lideranc;as; para surpresa daqueles qu
desconhecem sua produc;ao, ele tratou do movimento das 11111
lheres, dos jovens, pela paz etc. , dentro da abordagem pecu l 1 11
que ajudou a construir, a do interacionismo simbólico. H •lwrl
foi um dos primeiros pesquisadores a publicar um livro esp1•1•1
fico sobre os movimentos sociais: Social Mouements ( 1951). No
anos 50 destacou-se o trabalho de Turner e Killiam ( 1957) q11
posteriormente tornou-se um referencial sobre o tema.
O grande ponto de destaque nos estudos clássicos é a e 11
· fase na abordagem sociopsicológica. Herdada da Escola el
Chicago, formou-se urna tradic;ao de se explicar o comportanwn
io coletivo das massas por meio da análise das reac;o H c lo
i ndivíduos, enquanto seres humanos com certas caracterÍHtit•1
Considerai;oes finais 1 'I
biológicas e culturais. É interessante porque a perspectivu p111
cossocial nao se resumia a urna abordagem de .microrr l uc;oc
Hociais. O indivíduo era visto dentro de macroestrutura Ho
ciais. A grande questao era sua inadaptar;áo aquelas esiruL11
ras, gerando desajustes e conflitos. Os movimentos nasciam
neste universo, eram vistos como elementos desruptivos a ordem social vigente. As idéias durkhenianas da anomia social
permeavam as análises. A forma mais elaborada dessas abordagens foi o trabalho de Smelser ( 1962), citado em várias enciclopédias e tratados de sociologia e de política como um dos principais teóricos sobre os movimentos sociais dos anos 60. Ele
produziu sob a ótica do funcionalismo, a partir da análise esLrutural-funcionalista.
Em relar;ao a produr;ao de estudos específicos sobre os movimentos sociais observa-se que grande parte da produr;ao até
os anos 60 deste século concentrou-se no estudo do movimento
operário, particularmente nas lutas sindicais. Os primeiros
estudos que tomaram como objeto centra1. outros movimentos
sociais - assim nomeados ou estruturado" por ar,;oes coletivas
similares aos movimentos sociais da atualidade - referiam-se
a distúrbios populares (riots). Alguns foram ana1.isados de forma
bastante conservadora, como em Le Bon ( 1895) ou Ortega y
Gasset ( 1926/1987). Os mesmos fenomenos foram analisados
cerca de sessenta anos depois de forma tota1.mente diferente
por Hobsbawm, Rudé, Thompson etc., sob o prisma marxista.
lPortanto, a temática dos movim�tos sociais é urna área
clássica de estudo da sociología e da política, tendo lugar de
destaque nas ciencias sociais. Nao se trata apenas de um momento da produr;ao sociológica, como pensam alguns, confundindo a própria existencia concreta do fenomeno e suas man ifestar,;6es empíricas, seus ciclos de fl os e refluxos, com a produr;ao academica sobre aqueles ciclo Nao se trata de um L mn
dos anos 60, 70 ou 80. Sem dúvida, ganharam maior visibil ida
de a partir destas décadas, mas sao muito anteriores a lnH, 1111
vida real e na teoría, conforme demonstramos ao long-o dc•Ht 1
livro e em especial nos capítulos VII e VIII. Entrcian t.o, o C'Ol l·
ceito tem sofrido, historicamente, urna série de alLeru ·oc•H. 1(1•
o Teorias dos movimentos sociais
sumidamente podemos dizer que nos anos 50 e parte dos 60, o
manuais de ciencias sociais, e parte dos estudos específü·o ,
abordavam os movimentos no contexto das mudan�as sociui ,
vendo-os usualmente como fontes de conflitos e tensoes, fomt111
tadores de revolu�oes, revoltas e atos considerados anómalos 1111
contexto dos comportamentos coletivos vigentes. Usualm 11t1 •
classificavam-se os movimentos de forma dualista: religioHo
-seculares, reformistas-revolucionários, violentos-pacíficos. Mu
vimentos sociais e revolu�oes eram termos sinónimos e sempr
que se falava em movimento a categoria "trabalhador" era du
tacada. O trabalho de Heberle ( 1951) ampliou o leque dos tipo
de a�oes coletivas a serem designadas como movimentos. 1%•
chamou a aten�ao para os movimentos dos camponeses, do
negros, dos socialistas e dos nazi-fascistas e separou os mov l
mentos em sociais e políticos, segundo seus objetivos. O trahu
lho de 'furner e Killian ( 1957) dedicou urna sessao com 208 pági
nas ao estudo dos movimentos sociais. Na Inglaterra também houvc
muitos adeptos das teorias sobre os comportamentos ou a�<W
coletivas, tendo Weber e Parsons como fundamenta�ao teórica g ral.
As teorias da a�ao social coletiva de Parsons tiveram, na sociolo
gia norte-americana, vários desdobramentos no campo da anál iH1
dos movimentos sociais concretos.
Nas abordagens fundadas no paradigma decorrente d11
teoria marxista, até os anos 50, o conceito de movimento socia l
sempre esteve associado ao de luta de classes e subordinado 110
próprio conceito de classe, que tinha centralidade em toda an 1
lise. Cumpre destacar também que o conceito era utilizado 111
acep�oes amplas, envolvendo períodos históricos grandes. <'
nominavam-se movimentos sociais as guerras, os movimenio
nacionalistas, as ideologias radicais: nazismo, fascismo etc.;
assim como as ideologias libertárias e religiosas (Bertrancl
Russel, 1960). Os estudos críticos, associados a perspectivu
marxista, inseriaín sempre o conceito dos movimentos sociai
na questao reforma ou revolu�ao (Hobsbawm, 1970). Como decor
rencia os movimentos eram analisados como reformistas, r u
cionários ou revolucionários. O paradigma teórico mais am•plo
ra o dos processos de mudan�a e de transforma�ao social. Havi11
n r n�a, fundada em análises objetivas da realidade social, 1111
Considerat;oes finais 111
nxistencia de um sujeito principal daqueles p:rocessos: a cl aHHt
l.rabalhadora. Conseqüentemente, a maioria dos estudos mp
ricos teve como objeto o movimento operário ou camponcs, OH
Hindicatos e os partidos políticos. Como as categorias da organ izai;ao da classe e o processo de forma¡;ao da consciencia social
1 ram centrais no modelo de projeto de sociedade que se des -
n hava e aspirava-se como ideal, nao havia muita preocupa¡;a
quanto a diferenciai;ao entre movimento social ou político, ou
quanto a movimentos ou organiza¡;oes. Essas últimas eram suportes dos movimentos e, de certa forma, um movimento atingia seus objetivos quando transformava a demanda reivindicada
numa política ou organizai;ao institucionalizada.
O surgimento de novas modalidades de movimentos sociais
- como o dos direitos civis nos Estados Unidos, ainda nos anos
50; os dos estudantes em vários países europeus nos anos 60; os
das mulheres, pela paz, contra a guerra do Vietna etc. - conlribuiu para que novos olhares fossem lan¡;ados sobre a problemática. O paradigma norte-americano, na matriz acionalista,
passou a destacar o lado positivo dos rn.�>Vimentos, como construtores de inova¡;oes culturais e fomentadores de mudan¡;as
sociais. Ampliou-se o número de estudos específicos sobre movimentos, com preocupa¡;oes teóricas, e a teoria comportamentalista-funcionalista norte-americana passou por urna revisao crítica, dando origem a urna nova teoria: a da Mobiliza¡;ao de
Recursos, analisada no capítulo II deste livro na qual se destacam os trabalhos de Olson ( 1963), Oberschall ( 1973), Zald e
McCarthy ( 1972 e 1979), Gamson (J.,968, 1975) e Snow ( 1986). As
mobiliza¡;oes coletivas foram analisadas segundo urna ótica económica, em que os fatores tidos como objetivos sao a organiza¡;ao, os
interesses, os recursos, as oportunidades e as estratégias.
Charles Tilly ( 1978) desenvolveu a análise histórica no
paradigma norte-americano e produziu um estudo sobre a aGiiO
coletiva no qual buscou entender os movimentos sociais segu ndo os tres autores clássicos das ciencias sociais: Marx, W b r <
Durkheim. Piven e Cloward ( 1979) fizeram críticas as abo1·d11
gens americanas quando publicaram um estudo que influ<•rwl1111
vários analistas do mundo todo sobre os moviment R Ho<"iui
Poor People's Movements. Todos esses trabalhos forn111 d1 1111
3. 2 Teorias dos mouimentos sociais
volvidos nos Estados Unidos. Na Inglaterra também realizn
ram-se estudos sobre os movimentos neste período, influenci 1
dos pelo comportamentalismo ou pela Mobilizac;ao de Recurso11,
como os de Willinson ( 1971), Banks ( 1972) e Wilson ( 1973).
Na Europa, a onda dos chamados novos movimentos sociai11,
a partir dos anos 60, de estudantes, mulheres, pela paz, ecologi ,
meio ambiente, antinucleares etc., deu origem ao que Offe dt•
signou como um novo paradigma da ac;ao social e foi responsáv 1
pelo surgimento de abordagens que elegeram os movimento
sociais como tema central de investigac;ao, conforme apresenta
do nos capítulos IV e V. Essas abordagens ocorreram sob duu
teorías básicas: a neomarxista e a dos Novos Movimentos Soci
ais. Destacaram-se na primeira os trabalhos de Castells (19n,
1983) e Borja ( 1975) na Espanha, e Hobsbawm e Thompson nn
Inglaterra; e na segunda os de Touraine ( 1975, 1980, 1984, 199'1,
1996) na Franc;a, ·Melucci ( 1984, 1988, 1992, 1996) na Itálin,
Offe (1988) na Alemanha, Scott ( 1985, 1990) na Inglaterra, Cohen
( 1985) nos Estados Unidos. Com enfoques metodológicos distin
tos, os tres últimos criticaram as abordagens macroestruturai
dos primeiros, que se detinham excessivamente na análise da11
classes sociais como categorías económicas; assim como critica
raµi os estudos clássicos marxistas, que se preocupavam apenu11
com as ac;6es da classe operária e dos sindicatos, deixando dt•
lado as ac;6es coletivas de outros atores sociais relevantes. A
Franc;a, a ltália e a Espanha passaram a ser os países prod u
tores de estudos de ponta sobre os movimentos sociais. Touraino,
que já trabalhava com o tema desde os anos 60, enfocando 11
classe operária, passou a estudar os estudantes, os movimentoH
das mulheres, os antinucleares, os movimentos terroristas, OH
grupos de solidariedade etc. A partir de seu trabalho Sociologi1•
da la action ( 1965), Touraine teoriza sobre os movimentos so
ciais, sendo um dos autores com maior volume de produc;ao 11
respeito. Entre 1977 a 1995 ele construiu urna longa lista dt•
trabalhos sobre o tema. É bom lembrar novamente que muito
antes da elaborac;ao sistemática da teoría dos NMS, no paradig
ma europeu, que surgiu no rastro da revisa.o das teorías m,arxiH
Las, os movimentos sociais já tinham ganho estatuto teórico 111
• ixo temático na análise da realidade social na América.
Considerar;oes finais 1 \\
No final dos anos 70 e durante toda a década dos anoH HO
Hurge urna nova fonte de estudos sobre os movimentos sociniH:
11 dos países do Terceiro Mundo. Apresentando em cena novoH
nlores (Sader, 1988), novas problemáticas e novos cenários so
ciopolíticos, mulheres, crian�as, índios, negros e pobres em g ru l
H articulam com clérigos, intelectuais e políticos da esquerd
para gerar a�oes coletivas que foram interpretadas como a nova
"for�a da periferia" (Gohn, 1985), realizando "urna revolu�ao no
·otidiano" (Scherer-Warren, Krischke; 1987). Apesar de alguns
•sfor�os quanto ao tratamento conceitual (Camacho, 1987), a
maioria dos estudos foram histórico-descritivos.
Nos anos 80 de ve-se destacar ainda a revisao ocorrida no
paradigma da Mobiliza�ao de Recursos e o debate que ele trava
- por meio de análises comparativas - com o paradigma europeu dos N ovos Movimentos Sociais. Os principais trabalhos
que se destacaram nesta fase foram os de Cohen ( 1985), Gamson
( 1988), Muller ( 1992) e Tarrow ( 1994, 19!96), conforme discussoes apresentadas nos capítulos II e III.
Chegamos portanto aos anos 80 cor,.1 um panorama mundial das formas de manif esta�ao dos movimentos sociais bastante alterado. Progressivamente, as lutas armadas na Ásia, na
América Latina e na África, e o próprio movimento operário,
lodos fortemente estruturados segundo a problemática dos antagonismos entre as classes sociais, deram lugar a outras problemáticas sociais, enquanto ebros centralizadores das lutas
sociais. O desenvolvimento do novo cenário passou pelas revollas dos negros no movimento pelb" direitos civis nos Estados
Unidos; pelas rebelioes estudantis dos anos 60, juntamente com
a emergencia de urna série de movimentos étnicos; pela estrutura�ao dos movimentos feministas conjuntamente com a constru�ao da problemática do genero; pelas revoltas contra as
guerras e armas nucleares; assim como pela constitui�ao do
movimento dos "pobladores" ou moradores, ou simplesment d '
cidadaos, na cena política da América Latina e Espanha.
As análises centradas nas teorias libertárias do H •c1do
passado influenciaram a prática concreta de alguns movi1111•n
tos, especialmente os ecológicos, os antinucleares OH ·111111111
4 Teorias dos mouimentos sociais
dos de contracultura de massa, mas nao proliferou muito entr
as correntes dos analistas. Urna excec;ao é Friedmann ( 1984
1994). Ele define movimento social a partir do conceito de auto
organizac;ao e da busca de emancipac;ao.
Alguns manuais da sociologia norte-americana passaram 11
incluir os movimentos como item específico de estudo no rol do
comportamentos coletivos a partir dos anos 60, como P. Horton ,
C. Hunt ( 1980). T. Bottomore e R. Nisbet organizam urna Hi11
tória da análise sociológica ( 1980) com capítulos específicos sobrt
a teoria da ac;ao social, destacando os movimentos como aton1
importantes. Mas será nos anos 80 que a bibliografia geral
sociopolítica incorporará a temática dos movimentos sociais com
destaque relevante. N. Bobbio, N. Matteucci e G. Pasquino ( 198/i )
criaram um espac;o no Dicionário de política para o verbet.1
"movimentos sociais". Sherman e Wood ( 1989), em original mu
nual sobre as perspectivas tradicionais e radicais da sociologiu,
dedicam urna sessao inteira aos movimentos sociais, analisado
juntamente com as instituic;oes políticas da sociedade. H .
Stebbins ( 1987), em outro manual da sociologia centrado nu
sociedade contemporanea, também dedicou um capítulo ao
tudo dos movimentos sociais enquanto forma de comportam 11
to coletivo diferenciada de outras formas de manifestac;oes de
massa, como os protestos da multidao. Ainda no ambito do
manuais, a produc;ao se completa com o livro de Anthony G id
dens, Sociology ( 1989), co_m um capítulo com quase cinqüentu
páginas sobre "A revoluc;ao e os movimentos sociais". Outru
fonte de referencia que nos atesta a importancia dos movim 11
tos sociais como objeto de preocupac;ao teórica sao as enciclop11
dias de ciencias sociais. O volume 14 da International Encyc/11
pedia of the Social Sciences já nos anos 70 apresentava um
longo parágrafo sobre os movimentos sociais, escrito por Heb rlt
e Gusfield ( 1972). O dicionário da Blackwell dos anos O,
Twentieth-Century Social Thought, editado por Tom Bottomorc •
e William Outhwaite ( 1993), dedica também grande espac;o ao
movimentos sociais, especialmente aos noyos. Em relac;ao a pro
duc;ao específica sobre o tema, desde 1977 a Jai Press Inc. p IH
sou a editar, anualmente, a série "Research in Social Movement. ,
onflicts and Change'', coletanea editada por Kriesberg, Doh
Considerar;oes finais 11
kowski e Wallmann, publicada simultaneamente no l�HLudrn
Unidos e na Inglaterra. Em 1988, após um seminário int,(•1·1111
cional, Klandermans, Tarrow e Kriesi publicaram, pela m Hrtlll
editora, urna série em dois volumes, "International Mov m nL
Research". Os textos deste seminário registram urna revisáo
nos estudos sobre os movimentos sociais, em especial no par •
digma norte-americano, com a consolidac;ao da teoria da Mobilizac;ao Política, e foram tratados no capítulo 111 deste livro.
Nos anos 90 altera-se todo o quadro sobre os movimentos,
conforme análises apresentadas no capítulo VIII. Tanto do ponto de vista das manifestac;6es concretas da realidade como do da
produc;ao teórica. Na América Latina alguns analistas deslocam
as atenc;6es para outro fenómeno social que esteve meio oculto
durante a fase de apogeu dos movimentos sociais no Terceiro
Mundo, as ONGs: as Organizac;6es Nao-governamentais. Alguns
autores passam a tratar os dois fenómenos como sinónimos;
outros, a desqualificar os movimentos, como coisa do passado. Outros
ainda retomam os estudos sobre os movimePtos sociais de forma
totalmente inovadora, enquanto fenómenos de urna nova sociedade civil: Cohen e Arato ( 1992) e J. Hall ( 1995), retomando
premissas de Habermas ( 1976, 1985), construídas portanto já
nos anos 70 e desenvolvidas posteriormente dentro da teoría da
Ac;ao Comunicativa. Nos Estados Unidos a teoría dos processos
de mobilizac;oes cede lugar a teoria das oportunidades políticas
(vide capítulo 111).
Além de um aumento do númerb- de títulos específicos sobre os movimentos sociais, o tema se ampliou e passou a enfocar
outras dimens6es das ac;6es coletivas como os "protestos sociais": Jenkins e Klandermans ( 1995), Adrian, C.; Apter, D. ( 1995)
e Fillieulle ( 1993), Tarrow ( 1994); "grupos políticos e políticas
públicas": Pross ( 1992); "grupos de pressao": Richardison ( 1993),
Offerlé ( 1994). Formulam-se teorías sobre a questao dos "direitos sociais": lngram ( 1994). A categoría da "ac;ao social" volta a
ter centralidade nos estudos, gerando simpósios internacionais
como o registrado nos Anais: Les Formes de L'Action, París,
École des Hautes Études en Sciences Sociales, vols. 1 e 2, 199
assim como redefinindo o nome de grupos de estudo e pesquis ,
como o da ANPOCS, no Brasil.
J. 6 Teorias dos movimentos sociais
O quadro de pesquisadores sobre os movimentos soc1aiH
também se alterou. No plano internacional, ocorreu um fenómeno um tanto curioso: o aumento dos trabalhos publicados foi
proporcional ao declínio da importancia e centralidade dos movimentos sociais de forma geral, na sociedade ocidental, desenvolvida e em desenvolvimento. O capítulo VII, onde tratamoH
da globalizac;ao, explica em parte esta questao do ponto de vista
dos movimentos. Do ponto de vista dos estudos na área, algunH
autores abandonaram o tema ou deixaram de influenciar ou ser
referencia aos pesquisadores e estudantes do assunto. OutroH,
como no caso de Castells, com um trabalho sobre chiapas e
grupos extremistas j aponeses, distanciaram-se temporariamen
te e voltaram ao tema nos anos 90. Outros ainda tornaram-s<1
mais pessimistas em relac;ao aos movimentos e reviram suaH
posic;oes, caso de Touraine. Outros ainda, que já tinham urna
produc;ao considerável, como Melucci, sistematizaram seus tr -
balhos em grandes compendios teóricos, organizados segundo u
tradic;ao dos textos clássicos da sociologia, passando a ser refo
rencia no debate internacional, ªº lado de autores que só vic
ram a ser conhecidos no Brasil nos anos 90, caso de Tarrow
( 1994, 1996), Lyman ( 1995), Klandermans ( 1992, 1995, 1996) <1
Mayer ( 1996).
A produc;ao norte-americana se revitalizou e a européia creHceu menos de maneira geral. Na América surgiram vários novoH
estudos, destacando-se os de Morris e Mueller ( 1992); Oberschall
( 1994); Tilly ( 1994, 1995); McAdam, McCarthy e Zald ( 1996 );
Johnston e Klandermans ( 1995); Johnston,.. Gusfield e Laraña
( 1994); Eyerman e Jamaison ( 1991), Eckstein ( 1989); além d<•
urna série de revistas especializadas lanc;adas neste período,
como Mobilization ( 1996).
Na América Latina, em especial no Brasil, as mudanC(aH
advindas com a globalizac;ao da economia e a institucionalizac;t o
dos processos gerados no período da redemocratizac;ao levaram
ao surgimento de um novo ciclo de movimentos e lutas, menoH
centrados na questao dos direitos e mais nos mecanismos d<•
xclusao social. De forma geral o interesse pelo tema declinou
', ao contrário da avalanche de novas publicac;oes que surgiram
nos Estados Unidos e na Europa, o número de estudos dimi
Considerar;í5es finais \ \ I
11uiu no Brasil. A ascensao das ONGs, seguidas por suas · riHt'H
nconómico-financeiras e por suas reestruturagoes, contribu irn
para o deslocamento do interesse de muitos pesquisadores paru
outros temas da agao coletiva que nao os movimentos sociais. O
1 Htudo das redes sociais passa a ser objeto de interesse menos
r:omo articulagao política e mais como elemento explicativo da
< Htrutura e funcionamento das organizag6es que passaram a
operar com certo grau de institucionalizagao. As análises do
paradigma norte-americano a este respeito despertaram algum
i nteresse. Os mecanismos de exclusa.o social e os obstáculos a
·onstrugao da democracia, segundo os princípios da cidadania,
foi outro tema que atraiu a atenga.o de analistas como Jelin
( 1 996).
A tendencia predominante nos anos 90, na análise dos
movimentos sociais, tem sido unir abordagens elaboradas a
partir de teorias macrossociais a teorias que priorizam aspectos
micro da vida cotidiana, por meio de conceitos que fazem mediag6es sem excluir urna ou outra das z.bordagens. Sabemos
que a divisa.o entre teorias da agao (micro) e teorias estruturais
( macro) marcou a produgao e o debate teórico nos últimos vinte
' cinco anos. A micro e a macroteoria, vistas de forma isolada,
sao tidas como insatisfatórias porque seus conteúdos básicos,
agao e estrutura, precisam ser articulados. Argumenta-se que
se necessita de urna teoria que busque a síntese e nao de urna
que insista na polemica. lsto se faria por meio de urna teoriza
<1ªº em ambito mais geral, sem ref€$encia a problemas empíricos particulares, ou a domínios específicos. Da mesma forma
que nao se fala mais da análise das estruturas desconsiderando-se o papel das conjunturas, a tendencia é articular diferentes disciplinas: economia, política, sociologia, antropologia, psicologia, psicanálise, filosofia e comunicag6es. Diferentes olhares, diferentes angulas de apreensao dos fatos da realidadc:
sta é urna necessidade imperiosa, numa era na qual tudo
desfaz rapidamente, tudo fica obsoleto em fragües de t m po
muito menores que nossa capacidade de memorizagao. Talv z o
paradigma que postulamos para ser desenvolvido na Am �riru
Latina venha a realizar a fusao de vários pirocedimentoH nwt.o
dológicos, pois está se construindo a partir da fusa.o daH vt1 r1 11K
8 Teorias dos movimentos sociais
correntes teóricas existentes sobre os movimentos sociais, p n
sadas para analisar fenómenos que esta.o ocorrendo no Tercei ro
Mundo.
Para concluir, faremos a seguir os últimos comentários sobrt
a globalizac;ao e seus efeitos nas tendencias e estudos sobre o
movimentos sociais.
2 - A globaliza�ao e a reconstru�ao dos
paradigmas
As mudanc;as aceleradas que a globalizac;ao da economin
passou a acarretar; as mudanc;as políticas no Leste Europeu; o
declínio do marxismo como paradigma teórico e projeto de uto
pia social; a revitalizac;ao das políticas neoliberais e o procesHo
de desmonte das estruturas estatais; a nova revoluc;ao tecnol 1
gica em curso com a Internet e a era dos computadores; a bus 11
constante das ciencias sociais em produzir novidades e novaH
modas teóricas, novas ondas e eixos referenciais que passam 11
ser mais emblemáticos do que paradigmáticos; a contínua pr o
cupac;ao com as novas agendas do social, os temas de ponta 011
de indicac;ao dos rumos do futuro; tudo isto certamente t rn
afetado os referenciais dos paradigmas sobre os movimenim•
sociais. No novo paradigma que se esboc;a fala-se mais em so
ciedade civil em geral e menos na questao da autonomía doH
grupos. O privilegiamento da sociedade civil nao se dá por con
traposic;ao ao Estado mas as forc;as do mercado. Fala-se de urn
setor terciário, nao-estatal, privado mas público. Este setor con
centra as atividades dos movimentos e das ONGs - agom
reestruturadas segundo princípios do mercado e nao exclusiva
mente ideológicos, conforme assinalamos no capítulo VII.
Outro dado importante a se registrar nos anos 90 refen
-se a volta das massas ao cenário político internacional como
forma de pressao ou de manifestac;ao de sua vontade, como por
exemplo: urna carencia ou a comemorac;ao de urna festa. A
marchas e concentrac;6es nas capitais - principalmente da
fi derac;6es - tornaram-se parte da agenda comum dos gr�po
organizados, e as estruturas institucionais reformularam a ur
Considerar;oes finais 1 111
quitetura dos símbolos e espac;os do poder para ter s guru 11 ·u
em caso de eventuais distúrbios. Sair as ruas para com rnorr11
a vitória de um time de jogadores também se tornou usu l. 11:
as massas sao mobilizadas a partir dos movitmentos ou n o. J 1 l1
um chamamento, um apelo, do tipo marcha dos imigrantes paru
Washington ( 1996), nos Estados Unidos, ou a marcha dos sem
-terra pela reforma agrária e sua concentrac;ao em frente o
Palácio da Alvorada, no Brasil, em 1997. A populac;ao que participa da concentrac;ao final que culmina na marcha é muito
superior as bases militantes dos movimentos. E muitas veze
nao é apenas um movimento que faz o chamamento, como nos
protestos contra decisoes do judiciário ocorridos em Nova York
e na Bélgica, em 1996, levando milhares de pessoas as ruas.
Os movimentos sociais alteram completamente sua posic;ao
na ordem internacional em geral. Nos países do Terceiro Mundo, os chamados movimentos progressistas oa populares entraram em crise, muitos se decompoem ou retrocedem a formas de
resistencia em que se manifesta o uso da forc;a (sem-terras no
Brasil, chiapas no México). Os movimentos que se articulavam
mais as agendas dos "novos movimentos sociais" - de mulheres, ecológicos etc., redefinem-se e somente os de caráter mais
global sobrevivem. E sobrevivem segundo códigos criados pela
agenda global. Nao sao mais movimentos das mulheres ou dos
índios etc. Sao de genero, rac;a, etnia et . Dentro da classe etnia
nao se fala mais em termos de movimentos de índios ou aborígenes mas de americanos-índios, brasileiros-índios, assim como
nao se fala mais de movimento negro ou black mas de afro
-americanos. Associada ao políticamente correto há urna homogeneizac;ao que recobre as profundas diferenc;as e desigualdades. E ressurgiram também os movimentos nacionalistas em
que questoes como rac;a, etnia e religiao tem centralidade. Com
eles voltam as lutas conservadoras e a defesa de princípios nao
-democráticos. O direito a diferenc;a, quando exacerbado, pod
levar a ditadura das minorías, como bem observou Hab rmHH
( 1995). O universo dos movimentos sociais se amplia s r H
tringe ao mesmo tempo. Ampliam-se as formas e restring IYl ·H<
as esperanc;as quanto a suas potencialidades transformudornH.
A defesa de particularismos, os radicalismos e a intol ·r� n ·iu d1
340 Teorías dos movimentos sociais
alguns tem levado analistas e militantes a repensar a questao
da transformac;ao social. A liberdade, a igualdade, a solidarit•
dade e a fraternidade esta.o a merecer novas reflex6es sobre qtu
trilhas seriam necessárias para alcanc;á-las.
Muitos movimentos se institucionalizaram em organiza
c;oes por meio de políticas sociais. A grande novidade passou u
ser a centralidade das ONGs no cenário das demandas sociaü1,
conforme análises apresentadas no capítulo VIII. O perfil do
militante dos movimentos também se alterou. Nos anos 60, 70
e 80 os militantes nao dissociavam sua vida particular da atua
c;ao nos movimentos, e estes eram associados a política. A m ilitancia esteve inflamada pela paixao: paixao pela política, sendo Gramsci o grande teórico a alimentar a crenc;a naquela paixao.
A paixao levava ao engajamento em causas coletivas que exi
giam grande disponibilidade de tempo, um quase total despoja.
mento dos desejos e vontades pessoais e urna entrega quasl•
completa as causas que eram definidas e estruturadas para OH
movimentos. O cotidiano do militante era portanto bastantt!
contraditório: de um lado inflamado pela paixao, de outro per·
meado por alto grau de racionalismo expresso na execuc;ao dü
tarefas cotidianas.
Nos anos 90, os antigos militantes envelheram, ou cansaram-se, ou tornaram-se dirigentes de organizac;6es, parlamen
tares etc. E nao se formaram novos quadros de militantes. O:;
poucos novos que surgiram passaram a atuar de forma radical
mente diferente. O slogan "o importante é ser feliz" é bastanü•
ilustrativo. Ninguém quer mais sobrepor os interesses do movi·
mento aos de sua vida pessoal, particular. A militancia passou
a ser mais seletiva e qualitativa. A militancia quantitativa -
que dava visibilidade aos movimentos nas ruas, na mídia et .
- reduziu-se consideravelmente ou simplesmente desapareceu.
Estamos apenas constatando as novas opc;oes dos mais jovenl:l.
Usualmente, nos anos 90 se participa de causas coletivas quando estas causas tem a ver com o mundo vivido pelas pessoas, e
nao porque estejam motivadas pelas ideologias que fundamen
lam aquelas causas. Os militantes olham mais para dentro d(•
, i próprios. Deixam a paixao pelo coletivo em segundo plano ('
buscam suas próprias paix6es. Articulam-se a projetos coletivoH
Considera�oes finais 1 1 1
penas se estes se relacionarem com seus próprios proj 11.o
Estes novos militantes querem manifestar mais seus s ntin11111
Los do que viver segundo as diretrizes preconizadas por algum11
Leoria, partido ou institui<;:ao de planejamiento. Neste proccsHo
deixam as paixoes de lado e se tornam ma.is estratégicos, maiH
racionais, menos passionais, mais haberma:sianos, buscando justamente ser mais felizes. As lógicas se invertem.
Guidens ( 1991) formulou urna interiessante hipótese d
trabalho para a análise dos movimentos sociais na era da globalizac;ao. Para ele, a participac;ao em atividades coletivas está
se tornando um fator decisivo na constituic;ao de identidades
pessoais e nas biografias pessoais, na moderna sociedade industrial. lsto porque o paradigma atual, no mundo do trabalho,
exige cada vez mais o trabalho multidiscilplinar e em equipe.
Reforc;ando este argumento, recentemente p1:.<lemos acompanhar
pela mídia a discussao sobre a inteligencia e as novas formas
de se medir o quociente mental das pessoas, o qual nao estaría
mais centrado no antigo conceito de QI mas no de quociente
emocional (Goleman, 1996). lsto porque o novo modelo de vida
e de trabalho, na era da globalizac;ao, exige que as pessoas
tenham mais habilidades comunicativas do que acervos de conhecimentos ou grande experiencia anterior, no domínio de certas
técnicas, tecnologías ou saberes especializados da ciencia. O
mundo atual estaría a exigir pessoas �ue saibam trabalhar em
equipe, que saibam administrar suas emoc;oes nao se sobrepondo aos demais, que saibam ouvir e dar espac;o para a fala do
outro. O pressuposto básico é que a criatividade e as inovac;oes só
podem surgir em ambientes abertos, nos quais a discussao das
idéias e o debate das opinioes estejam presentes. Os velhos líderes, que dominavam pela retórica, que influenciavam suas bases
por suas personalidades fortes e mareantes, estariam fora do novo
modelo.
Em resumo: o novo padrao de ser humano que a mídia (1
alguns analistas tem desenhado, com condic;oes de sobr viv<1r <'
ter sucesso na sociedade do novo século que se aproxima, 1-1ori11
um tipo semelhante aos dos novos militantes/atores doH movt
mentos dos anos 90. Com interesses um tanto quanto d i l\1 1m 11
indeterminados, bem informados ( ainda que de forma 11111 t 1111fo
342 Teorias dos movimentos sociais
superficial) - sobre os principais assuntos da agenda social e
político-cultural; com predisposic;ao para o trabalho coletivo com
fins determinados. Nao se trata de urna disposic;ao Tuantrópica
ou humanista, nem exclusivamente ideológico-partidária, mas
urna disposic;ao meio que racionalista e utilitarista: os interesses do meu grupo, da minha empresa etc. Nao se trata também
de um engajamento a questoes externas ao cotidiano vivido.
Basta que se fique atento, observando as mudanc;as tecnológicas· contínuas, adaptando-se continuamente com elas e a elas;
deve-se ainda observar os pontos de inflexao que geram as mudanc;as, encontrar rapidamente seu papel e seu lugar na nova
seqüencia e no novo cenário. A. Grove ( 1996) denominou este
novo tipo de ser humano de "paranóico", num livro que, escrito
segundo o receituário liberal, ve como saída para o homem neste
final de século a competic;ao e a busca contínua da requalificac;ao
no trabalho, como os únicos parametros seguros numa era dominada pelas incertezas.
Quanto a nós, preferimos continuar acreditando na necessidade das utopias e esperando que as lic;oes que os movimentos
sociais democráticos e progressistas tem dado ao mundo venham
a contribuir para a redefinic;ao dessas utopias, a reinstaurar a
esperanc;a e a crenc;a de que vale a pena lutar por urna sociedade mais justa e igualitária.
Diante deste cenário turbulento de mudanc;as e, ao mesmo
tempo, vazio de idéias e novas proposic;oes, a avaliac;ao sobre as
diferentes correntes explicativas dos movimentos sociais que
motivou a elaborac;ao deste livro nos leva a concluir que, embora haja razoável nível de coerencia interna entre as noc;oes e
categorias utilizadas, e urna produc;ao considerável a respeito,
(denotando grande vitalidade em algumas regioes do globo, principalmente nos meios academicos), aquelas teorias nao chegam
a delinear matrizes ou corpos teóricos totalmente satisfatórios.
As várias teorias apresentadas sobre os movimentos sociais,
segundo um extenso número de recortes teóricos explicativos,
agrupados sob um número reduzido de paradigmas, nos dá urna
única certeza - a de se tratar de um campo específico dentro
das ciencias sociais (atualmente o termo "teoria dos movirríentos sociais" detém certo consenso) - e várias dúvidas quanto aH
Considerai;oes finais 1·1 1
inúmeras frentes de investigac,;ao que cada teoria abriu 11110
elaborou consistentemente. Alguns analistas acreditam qu H(
riam necessárias outras teorias para completar sua explica uo
- como a das redes sociais; outros consideram as teorias atuais
satisfatórias e outros ainda, como nós, acreditam que nunca haverá urna teoria completaroent�-W.: ni ��<!i:_§o6re eles.
Trata-se de urna característica do próprio objeto de estudos. Os
movimentos sao m os, ragmentados, perpassados por outros
processos sociais. Como numa teia de aranha. eles tecem redes
que se quebram facilmente, dada sua fragilidade; como as on
das do mar que vao e voltam eles constroem delos na históri ,
ora delineando fenómenos bem configurados, ora saindo do cenário e permanecendo nas sombras e peD_,umbras, como névoa
esvoac,;ante. Mas sempre presentes.
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atuam na á rea social .
MARIA DA GLóRIA GoHN é socióloga, mestre em Sociologia e doutora em Ciéncia Pollt1co flllfll l J1 1lv1 1 h 1111 ¡, 1 I
Paulo. Fez Pós-Doutoramento em Sociologia na New School University, Nova York. C p1 ol 1 • 1 11 1 111111 11 d11 1 11 1 il
dade de Educa�áo da UNICAMP e da U N INOVE/SP, coordena o GEMDEC - Grupo d L lurio "M11vf1 1 11 1 1 11 1
Sociais. Educa�áo e Cidadania" e é pesquisadora 1 do CNPq. Desde 2002 é Secretária Cx cu1tv11 1 11 1 1 11 ' 111 1 1
Committee " Social Movements and Social Classes " da Associa�áo Internacional de Sociolo In, 1 1111 11111111 1 111
Conselho Internacional do I nstituto Paulo Freire. É autora de vários livros. entre eles: Movm1u111e1; '" 1 11 1
educa9ao ICortez. 62004); Movimentos sociais no inicio do século XXI IVozes, 2003); Cons 1/10·1 111 11 11
e participa9ao sociopolítica (Cortez, 22003); Educa9ao nao-formal e cultura política (Cortez, 32002); O �11111 '"" 1
ONGs e cidadama ICortez. 32003); História das /utas e movimentos sociais (Loyola, 32003), Movim nWH 11111•1 11
e /uta pela moradia (Loyola. 1991 ).
( www.loyoJa.com.b�