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bitadx

11/23/25

 


também nao se referem a rela oes de causalidade mecana

num círculo causa- eito. Os movimentos -

:v-0ltam �n

a dinamica do conflito social� da luta social, da busca do novo

reposic;ao/conservac;ao do-velfüJ:-Estes-fa:ores conferem as a�

dos movimentos caráter reativo, ativo ou passivo. Destaca·

ainda que nossa concepc;ao de luta social nao implica nenhu

tipo de determinac;ao ou sobredeterminac;ao, do tipo utiliz

por Althusser ( 1970), em que toda e qualquer luta social é s

pre urna luta contra o capitalismo, dado a determinac;ao econ

mica em última instancia. A luta das mulheres no movimen

feminista é um bom exemplo para elucidar o campo de ac;ao d

movimentos, nao subjugado a nenhuma ordem ou escala de "l u

principal ou secundária". Outro alerta necessário sobre a co

cepc;ao ampliada de movimen�o social é que nem tudo que mu

na sociedade é sinónimo ou resultado da ac;ao de um movimcn

social. Movimentos sociais sao urna das formas possíveis

mudanc;a e transformac;ao social.

Na segunda acepc;ao a categoría fundamental é a de for

social, traduzida numa demanda ou reivindicac;ao concreta, o

numa idéia-chave que, formulada por um ou alguns, e apropri

da por um grupo, se torna um eixo norteador e estruturador

luta social de um grupo - qualquer que seja seu tamanho

que se poe em movimento.

As colocac;oes acima trazem a luz outros elementos esst•

ciais para a construc;ao de um paradigma explicativo das a�<

coletivas, no intuito de fundamentar o conceito de movimcnt

social para além das evidencias empíricas. O primeiro element

é a categoría luta social. Ela é urna noc;ao-chave, mais abra n

gente. Observe-se que me refiro a luta social e nao a luta d

classe. As classes se formam na luta, diz Thompson (198 1), "

classes sociais nao antecedem mas surgem na luta" ... "surg 1

porque homens e mulheres, em relac;oes produtivas determin

das, identificam seus interesses antagónicos e passam a lut

a pensar e a valorar em termos de classe: assim o processo

formac;ao de classe é um processo de autoconfecc;ao, embora HO

certas condic;oes que sao 'dadas"' (Thompson, 1981: 121). Po

tanto luta social é um conceito tnais abrangente e as clasH

sociais sao urna das formas, e nao a única, de agrupar as ac;ü

Uma proposta teórico-metodológica para a análise dos MS I •l'I

drn; homens na história. Classe se refere as ac;;ües dos indivíd uoH

1111quanto agentes produtores e reprodutores socioeconóm icoH,

11111s nao dá conta de explicar todas as dimens6es e fenómenm;

du vida social. Por isso desenvolveu-se a categoría dos ator l:I

1n •iais. Esta nao se contrapoe a classe social porque o "ator"

11rna noc;;ao utilizada como categoría de análise,, enquanto aquela

1• um conceito. Recorremos novamente a Thompson, que, funda111 ntando-s� artre_, busca distinguir noc;;ao de conceito e

11linna que "o conceito é atemporal. Pode-se estudar como os

1•oncffitüs sao enanos, um após oufro, dentro de determinadas

c·nLegorias;.. Quando se introduz a iemgoralida,P.e, percebe-se

que dentro de um desenvolvimento temporal o próprio conceito

l' modifica. 6 ñoc;;ao, pelo contrário, pode ser definida como um

• •l:lforc;;o sintético para produzir urna idéia que s:e desenvolve yela

l'ontradic;;ao e sua sucessiva superac;;ao e portanto é homogenea

110 desenvolvimento das coisas_;. (Thompson, 1981: 124). Todo

1 1Lor pertence a urna classe social. Mas os atores muitas vezes

H ' envolvem e� frentes de luta que nao dizem respeito, prioritariamente, a problemáticas da classe social, como as questoes

de genero, étnicas, ecológicas etc. Ou seja, grande parte dos

!'ixos temáticos básicos dos movimentos sociais contemporaneos

nao diz respeito ao conflito de classe mas a conflitos entre atores

da sociedade.

Destaca-se ainda que a apreensao da ma.ioria dos fenómenos sociais envolvidos nos chamados "novos'" movimentos socia.is abrange dimens6es subjetivas da ac;;ao social, relativas ao

i:!istema de valores dos grupos sociais, nao compreensíveis para

análise a luz apenas das explicac;;oes macroobjetivas, como usualmente é tratada a questao das carencias económicas. Trata-se

de carencias de outra ordem, morais, ou radicais, no dizer de

Heller ( 1981). E a aÍ:nálgama das ac;;oes que ocorrem nesse plano é de ordem subjetiva, expressa pelo sentimento e por ac;;oes

de solidariedade. B. Moore Jr. ( 1987), Castoriadis e Benedict

( 1981) e Thompson ( 1981) contribuíram para a fundamentac;;ao

da categoría dos movimentos ao chamarem a atenc;;ao para essa

dimensao subjetiva, construída ao longo de um processo histórico de luta, no qual a experiencia grupal de compartilhamenio

de valores socialmente comuns é um fator fundamental.

250 O paradigma latino-americano

Em resumo, a centralidade da categoria luta social junto

aos homens em geral explica-nos a existencia de movimenlo

sociais em vários segmentos da sociedade. Eles esta.o em lut. 1

na defesa de seus interesses, buscando conquistas ou resistindo

as mudanc;as que solapam conquistas anteriores. Sempre atuam

em áreas de conflitos. Historicamente sempre foram os seton

subordinados os que mais produziram lutas sociais; mas encon

tramos também lutas e movimentos nos setores dominanteH,

esses também em busca de construc;ao de sua historicidadt'.

Muitas dessas lutas se desenvolveram entre segmentos das pr6

prias elites, OlJ.tras foram das elites contra setores subordina

dos. Nao chamamos a essas ac;oes contra ou antimovimento

porque essas noc;oes referem-se as ac;oes coletivas que buscam

retroceder conquistas obtidas por meio de lutas sociais ou im

por o pont6 de vista de urna minoría a um conjunto mais amplo,

recorrendo a forc;a e a coerc;ao.

O segundo elemento extraído das colocac;oes acima é o d(•

forc;a social. Castells, nos anos 70, já nos alertava que nao bastam as carencias para haver um movimento. Elas tem de se

traduzir em demandas, que. por sua vez poderao se transformar

em reivindicac;oes, por meio de urna ac;ao coletiva. O conjunto

<leste processo é parte constitutiva da formac;ao de um movimento social. O que une as carencias até a sua formulac;ao em

reivindicac;oes sao ac;oes concretas dos homens, ac;oes que só projetam aqueles homens em algum tipo de cenário após fundirem a

legitimidade e a justeza das demandas, o poder político da bas

social demandatária junto ao núcle� alvo de suas rei�ndicac;oes e

a mídia, o lugar das demandas na conjuntµra político-económica

do momento e a cultura política dq grupo reivindicante m termos

da trajetória que tenha construído ao longo da história. O conjunto

desses fatores - carencias, legitimidade da demanda, poder político das bases, cenário conjuntural e cultura política do grupo

resultará na forc;a social de um movimento, gerando o campo de

forc;as do movimento social.

Dessas considerac;oes extraímos outras reflex6es importantes sobre os movimentos sociais relacionadas com a problemática do conflito social. Concordamos com Tuuraine quando afirma que os movimentos sociais nao se reduzem a defesa coletiva

Uma proposta teórico-metodológica para a análise dos MS

d1 i nteresses, pois "a mobilizac;ao dos atores só é forte quando

t dirige aos seus valores, a sua solidariedade, as suas r p i' •

P11tac;6es, ao mesmo tempo em que há interesses freqüentem nL

1 I l l'i eis ou impossíveis de ser definidos em si mesmos" (Tourain ,

1 1188: 107). Isto posto, observamos que as condic;oes para um

111ovimento ter maior ou menor forc;a social depende do lugar do

1•on ílito social em questao no cenário da luta social mais geral .

Observa-se que toda nossa análise desenvolve-se priorita1 n mente no campo da política. Isto porque consideramos os

1 1 1ovimentos sociais como express6es de poder da sociedade civil, e sua existencia, independente do tipo de suas demandas,

t mpre se desenvolve num contexto de correlac;ao de forc;a so1• ul. Eles sao portanto, fundamentalmente, processos políticoHociais.

Assumindo o risco de cometer equívocos, sintetizamos todus as colocac;6es acima e formulamos urna conceituac;ao:

I .

1 Movimentos sociais sao ac;6es sociopolíticas construídas

pór atores sociais coletivos pertencentes a diferentes

classes e camadas sociais, articuladas em certos cenários da conjuntura socioecon6mica e política de um país,

criando um campo político de forc;a social na sociedade

civil. A ac;6es se estruturam a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em conflitos, litígios e

disputas vivenciados pelo grupo na sociedade. As ac;6es

desenvolvem um processo. social e político-cultural que

cria urna identidade coletiva para o movimento, a partir dos interesses em comum. Esta identidade é amalgamada pela forc;a do princípio da solidariedade e construída a partir da base referencial de valores culturais

e políticos compartilhados pelo grupo, em espac;os coletivos nao-institucionalizados. Os movimentos geram

urna série de inovac;6es nas esferas pública (estatal e

nao-estatal) e privada; participam direta ou indiretamente da luta política de um país, e contribuem para

o desenvolvimento e a transforma<;ao da sociedade civil

e política. E stas contribuic;oes sao observadas quando

se realizam análises de períodos de média ou longa

252 O paradigma latino-americano

durac;ao histórica, nos quais se observam os cicloH el

protestos delineados. Os movimentos participam po

tanto da mudanc;a social histórica de um país e o cnr

ter das transformac;oes geradas poderá ser tanto p o

gressista como conservador ou reacionário, depend >ncl

das forc;as sociopolíticas a que esta.o articulados, t•rr

suas densas redes; e dos projetos políticos que constro

em com suas ac;oes. Eles tem como base de suport

entidades e organizac;oes da sociedade civil e políti · ,

com agendas de atuac;ao construídas ao redor de d

mandas socioeconómicas ou político-culturais que abra n

gem as problemáticas conflituosas da sociedade ond

atuam. I¡

Está implícito em nossa longa e densa conceituac;ao que o

movimentos sociais sempre tem um caráter político (nao con

fundir com partidário), que criam e desenvolvem um campo po

lítico de forc;as sociais na sociedade civil, contribuindo para sou

desenvolvimento político. Eles politizam as demandas socioeco

nómicas, políticas e culturais, inserindo-as na esfera pública du

luta política. Trata-se de coletivos que no processo da ac;ao sociopolítica desenvolvem urna identidade, de forma que se apresentam como atores coletivos. Ainda que alguns atores individuaii,i

possam se destacar mais, eles atuam como representantes t•

veículos de expressao dos movimentos e suas mensagens e ideologias sao as dos movimentos. O líder nao fala por si próprio

mas o faz em nome do coletivo.

Os movimentos aglutinam bases demandatárias, assessores e lideranc;as, e tem estreitas relac;oes com urna série de

outras entidades sociopolíticas como partidos e facc;oes políticas

- legais ou clandestinas -, Igrejas, sindicatos, ONGs - nacionais e internacionais -, setores da mídia e atores sociais formadores de opiniao pública, universidades, parlamentares em

ambito municipal, estadual e federal, setores da administrac;ao

governamental, pequenos e médios empresários etc., articulados em redes sociais com interesses comuns. A inclusa.o da

categoria de empresários tornou-se importante nos anos 90,

pois, com a globalizac;ao e o desenvolvimento do setor informal

Uma proposta teórico-metodológica para a análise dos MS

d11 Pconomia, várias entidades de trabalho comunitário, arLi · 11·

l11< lus a ONGs, passaram a ter rela<_;6es de mercado com pequ •

111111 e médios empr'esários. As cooperativas de produ<;ao agrícolti

l urn bém relacionam-se com o conjunto daqueles atores. Tratan de captar todas as frentes de relacionamentos dos movimen1 011 para entender a nat�reza de seus confliltos, demandas, propo11Las e projetos. Entre \o movimento e o conjunto dos atores

1 t, rnos pode haver urna identifica<;ao, em termos da carencia

1 1 11aterial ou moral) e/ou desejo de mudan<;a de urna dada rea1 l dade social; como pode haver identifica<_;6e:s parciais em fun<;ao

dt certos objetivos estratégicos.

Internamente, o princípio da solidariedade é o núcleo de

1 1 1"(,icula<_;ao central entre os diferentes atores envolvidos, a par1 l r de urna base referencial comum de valores e ideologías construídos na trajetória do grupo, ou advindos dos usos e tradi<;6es

n ·ompartilhados pelo conjunto. É necessário destacar que quando se fala em solidariedade nao se quer diz:er que os movimen1.os sejam internamente espa<;os harmoniosos ou homogeneos.

/\o contrário, o usual é a existencia de inúmeros conflitos e ten11 >ncias internas. Mas a forma como se apresentam no espa<_;o

público, o discurso que elaboram, as práticas que articulam nos

oventos externos, criam um imaginário social de unicidade, urna

visao de totalidade. A solidariedade é o princípio que costura as

d iferen<_;as fazendo com que a representa<;ao simbólica construída

projetada para o outro - nao-movimento - seja coerente e

nrticulada em propostas que encubram as diferen<;as internas,

apresentando-se, usualmente, de forma clara e objetiva. Para

lal é preciso que se observem os códigos político-culturais que

eles constroem, pois sao estes códigos que sistematizam as demandas e criam sobre elas representa<_;6es. Neste campo de anál ise a contribui<_;ao de Melucci é importante e tem caráter universal. A forma como as demandas sao codificadas varia segundo a cultura política local, ou seja, segundo o repertório das tradi<;6es culturais e for<_;as sociopolíticas de urna dada conjuntura

histórica onde o movimento está ocorrendo.

Os espa<;os coletivos nao-institucionalizados situam-se na

esfera pública nao-governamental, ou nao-estatal, possibilitando aos movimentos dar visibilidade as suas a<_;6es. Mas os roo-

252 O paradigma latino-americano

dura<;ao histórica, nos quais se observam os ciclos d

protestos delineados. Os movimentos participam portanto da mudan<;a social histórica de um país e o caráter das transforma<;6es geradas poderá ser tanto progressista como conservador ou reacionário, dependendo

das for<;as sociopolíticas a que esta.o articulados, em

suas densas redes; e dos projetos políticos que constroem com suas a<;oes. Eles tem como base de suport

entidades e organiza<;oes da sociedade civil e política,

com agendas de atua<;ao construídas ao redor de demandas socioeconómicas ou político-culturais que abrangem as problemáticas conflituosas da sociedade onde

atuam. 1-¡

Está implícito em nossa longa e densa conceitu\<;ao que os

movimentos sociais sempre tem um caráter político (nao confundir com partidário), que criam e desenvolvem um campo político de for<;as sociais na sociedade civil, contribuindo para seu

desenvolvimento político. Eles politizam as demandas socioeconómicas, políticas e culturais, inserindo-as na esfera pública da

luta política. Trata-se de coletivos que no processo da a<;ao sociopolítica desenvolvem urna identidade, de forma que se apresentam como atores coletivos. Ainda que alguns atores individuais

possam se destacar mais, eles atuam como representantes e

veículos de expressao dos movimentos e suas mensagens e ideologias sao as dos movimentos. O líder nao fala por si próprio

mas o faz em nome do coletivo.

Os movimentos aglutinam bases demandatárias, assessores e lideran<;as, e tem estreitas rela<;oes com urna série de

outras entidades sociopolíticas como partidos e fac<;oes políticas

- legais ou clandestinas -, Igrejas, sindicatos, ONGs - nacionais e internacionais -, setores da mídia e atores sociais formadores de opiniao pública, universidades, parlamentares em

ambito municipal, estadual e federal, setores da administra<;ao

governamental, pequenos e médios empresários etc., articulados em redes sociais com interesses comuns. A inclusa.o da

categoria de empresários tornou-se importante nos anos 90,

pois, com a globaliza<;ao e o desenvolvimento do setor informal

rUma proposta teórico-metodológica para a análise dos M 2. '

d11 economia, várias entidades de trabalho comunitário, articul1 1das a ONGs, passaram a ter rela�6es de mercado com pequenos e médios empr'esários. As cooperativas de produ�ao agrícola

1 1 mbém relacionam-se com o conjunto daqueles atores. TrataH' de captar todas as frentes de relacionamentos dos movimenl os para entender a natureza de seus confiitos, demandas, propostas e projetos. Entre o movimento e o conjunto dos atores

1•xternos pode haver urna identifica�ao, em termos da carencia

( material ou moral) e/ou desejo de mudan�a de urna dada rea1 idade social; como pode haver identifica�6es parciais em fun�ao

el certos objetivos estratégicos.

Internamente, o princípio da solidariedade é o núcleo de

11 rticula�ao central entre os diferentes atores envolvidos, a par1 ir de urna base referencial comum de valores e ideologias cons1,rnídos na trajetória do grupo, ou advindos dos usos e tradi�6es

n compartilhados pelo conjunto. É necessário destacar que quando se fala em solidariedade nao se quer dizer que os movimenLos sejam internamente espa�os harmoniosos ou homogeneos.

/\o contrário, o usual é a existencia de inúmeros conflitos e tendencias internas. Mas a forma como se apresentam no espa�o

público, o discurso que elaboram, as práticas que articulam nos

oventos externos, criam um imaginário social de unicidade, urna

visao de totalidade. A solidariedade é o princípio que costura as

d iferen�as fazendo com que a representa�ao simbólica construída

1• projetada para o outro - nao-movimento - seja coerente e

11 rticulada em propostas que encubram as diferen�as internas,

npresentando-se, usualmente, de forma clara e objetiva. Para

tal é preciso que se observem os códigos político-culturais que

•les constroem, pois sao estes códigos que sistematizam as demandas e criam sobre elas representa�6es. Neste campo de aná1 ise a contribui�ao de Melucci é importante e tem caráter universal. A forma como as demandas sao codlificadas varia segundo a cultura política local, ou seja, segundo o repertório das tral i�6es culturais e for�as sociopolíticas de urna dada conjuntura

histórica onde o movimento está ocorrendo.

Os espa�os coletivos nao-institucionalizados situam-se na

'Sfera pública nao-governamental, OU nao-estatal, possibilitando aos movimentos dar visibilidade as suas a�6es. Mas os mo-

254 O paradigma latino-americano

vimentos nao sao simples idéias ou entes fantasmas_ Eles te m

urna concretude, e para viabilizar e operacionalizar suas pau

tas e agendas de ac;ao se apóiam em instituic;oes e em organ1

zac;oes da sociedade civil e política. Muitas vezes a proximidad

desta interac;ao é tamanha, ou o conflito que permeia suas a<;< 1

se regulamentou de tal forma, que ele deixa de ser movimento

e se transforma numa organizac;ao. Na realidade, usualment 1

trama que tece as relac;oes entre o movimento e as organiza<;ol'M

precede a própria existencia do movimento. Este dado é importa n

te porque muitos analistas tem urna concepc;ao linear dos movl

mentos, afirmando que nasceriam em func;ao das carencias e in

teresses e depois marchariam para a institucionalizac;ao por müio

de sua transformac;ao em organizac;ao. Esta trajetória até pod r

ocorrer, mas as organizac;oes que dao origem aos movimentos

a que chamamos matrizes - sao do tipo ONGs, partidos, sindica

tos, lgreja etc. Elas configuram as linhas gerais do projeto qm• o

· movimento construirá em sua trajetória.

Pode-se observar também em nossa definic;ao operaciona l

de trabalho que nos situamos mais próximos ao paradigmn

europeu, tentando articular premissas macro da análise estru

tural marxista-gramsciana com categorías micro presente nn

teoría dos NMS, como solidariedade e identidade, básicas parn

criar e desenvolver os interesses de classe. O paradigma noril'

-americano, ao tratar dos ciclos de mobilizac;oes (Tarrow, 1988 ),

fornece-nos urna categoría preciosa que, se retrabalhada em outr 1

perspectiva, será muito útil. Porque quando observamos cerl,o

períodos um pouco mais longos da história podemos observar

ciclos de movimentos. Por meio da análise da conjuntura pol f t.i

ca e das forc;as sociais presentes em certos contextos podemo

observar a relac;ao entre os níveis macro e micro. Este pro

cedimento é extremamente importante na atualidade, pois com

a globalizac;ao pode-se perder a perspectiva da microanálise do

social e se olhar apenas para as grandes transformac;oes nu

macroestruturas - sociais, economicas, políticas etc., conform

trataremos no capítulo IX. A categoría das oportunidades poi 1

ticas (Tarrow, 1994) também poderá ser útil na análise dos mo

vimentos - em qualquer lugar que ocorram -, porque contri

bu i para essa análise em termos de luta política. Mas deve Ht •t'

Uma proposta teórico-metodológica para a análise don 1\ 18

v iHta e incorporada como um dos instrumentos e um doH n 1·1 11

os existentes para se captar o campo de for�as pol li 'HH dt

1•t rta conjuntura histórica; e deverá ser ampliada para o c nj 1111

1 o dos atores envolvidos - da sociedade civil e da soci �dndt

política -, conforme crítica já formulada no capítulo 111.

:¿ - Urna proposta metodológica para a

análise dos movimentos sociais:

elementos e categorias básicas

O estudo dos movimentos sociais deve considerar dois an11u los básicos: o interno e o externo. Eles sao conectados e um

n a face do outro. As duas faces compoem urna visa.o de totalidude dos diversos grupos; internamente, eles constroem reper1 >ríos de demandas segundo certos valores, cren�as, ideologías

nLc. e organizam as estratégias de ac;ao que os projetam para o

1 1xLerior. Assim, os elementos internos básicos de um movimento

ocial a ser pesquisados, enquanto parte de suas categorías de

11 nálise, sao: suas demandas e reivindicac;oes e os repertórios de

11c;oes coletivas que geram, sua composic;ao social, suas articula­

·oes. Nas articulac;oes deve-se considerar os níveis interno e

1 xterno. No interno deve-se pesquisar sua ideología, seu projeto,

Hua organizac;ao, suas práticas. Externamente deve-se considernr o contexto do cenário sociopolítico e cultural em que se insere,

o:; opositores (quando existirem), as articulac;oes e redes externas

l'Onstruídas pelas lideranc;as e militantes em geral - enquanto

1 nierlocutores do movimento - e as relac;oes do movimento como

11m todo no conjunto de outros movimentos e lutas sociais; suas

1· •lac;oes com os órgaos estatais e demais agencias da sociedade

política; articulac;oes com a Igreja e outras formas de religiao e

l'Om outras instituic;oes e atores da sociedade civil, como o peque1 10 e médio empresários e suas organizac;oes; suas relac;oes com

11 mídia em geral. O conjunto das articulac;oes nos dá o princípio

n riiculatório que estrutura o movimento como um todo. Devem

r pesquisadas ainda as representac;oes que eles tem de si

próprios e do outro; suas conquistas e derrotas; e a cultura

política que constroem ao longo de suas trajetórias. A seguir

buscaremos elucidar melhor este longo roteiro.

256 O paradigma latino-americano

As demandas e os repertórios da a<;ao coletiua de um movimento: para que haja urna demanda, há necessidade de que

haja urna carencia nao atendida (de ordem económica, política,

social e cultural) ou projetos de urna utopia. As carencias podem

ser de bens materiais ou simbólicos. A luta contra as desigualdades

no tratamento das pessoas em rela<;ao a cor, ra<;a, nacion�idade,

religiao, idade, sexo etc. situa-se no plano do simbólico, dos valores

sociais existentes. O triunfo maior destas lutas, geralmente, é a

obten<;ao de leis que demarquem ou redefinam rela<;oes sociais

existentes. O triunfo de urna carencia material é a obten<;ao do

bem demandado, na sua totalidade ou nao.

As utopías, diferentemente das carencias, nao partem de

urna situa<;ao dada buscando suprir suas lacunas e necessidades. Elas sao urna reinven<;ao da realidade, tem um ideal a

atingir, vao além do possível de ser feito no momento - buscam o impossível (Souza, 1996). Elas geram ideologías, movimentos e novos valores. Sao a-históricas, até poderem vir se

consolidar na história, como no caso de algumas colünias anarquistas ou dos falanstérios dos socialistas utópicos.

Os repertórios sao construídos a partir da agrega<;ao das

demandas. Sao um produto elaborado pela a<;ao coletiva, a tradu<;ao da demanda em reivindica<;ao, mediatizada pelo conteúdo político-ideológico do projeto do movimento, a ser explicitado

logo a seguir.

A composú;ao de um movimento social pode ser vista sob

dois angulos: da origem social de seus participantes ou do princípio articulatório que os aglutina. A origem social é dada pelat-i

classes e camadas que delas participam. Usualmente sempn•

ternos a presen<;a de alian<;as, entre setores das camadas m

dias e as classes populares ou em outras formas. Entretanto,

reiteramos, decididamente, a partir de exemplos históricos, qut•

podemos ter movimentos sociais a partir de setores das eliteH,

das classes dominantes, isto é, seja qual for o paradigma te(>

rico-metodológico que se adote, há sempre movimentos socia iH

dos dominantes e dos dominados. Esta forma de abordagem

permite enxergar vários movimentos sociais na história de um

país que resultaram em várias revoltas militares, por exemplo.

Uma proposta teórico-metodológica para a andli.w• <11111 M.'\ ' /

Outro ponto a se destacar '

em relac;ao a composi�1\o d1 11

11 1ovimentos diz respeito a sua localizagao geográfico- s puci 11I.

11: l t 1H podem estar localizados no campo como na cidade, pod 111

1 1· rurais ou urbanos, estar restritos a certo país ou a u111

1 1 1n Linente geopolítico mais amplo. Como a categoria espaciul

11 lO é apenas geográfica, mas tem um forte p1Bso do componenL

1 1(· ial, disto derivam denominagoes: movimentos da periferia,

11 iovimentos dos guetos pobres, movimentos camponeses etc.

Nm; movimentos ecológicos, por exemplo, que usualmente nao

wiorizam a questao social mas problemas socioambientais, o

pr'i ncípio articulatório de suas demandas tem na categoria esp1 u�o urna forte determinagao, dada por áreas ou regioes a se1 1 rn preservadas ou restauradas. Mas estes mesmos movimenl 1 1H podem ser tanto locais como nacionais ou internacionais.

l'rnta-se de urna demanda que está globalizada, refletindo-se

1111 composigao social <lestes movimentos em termos de urna

l 1 1 •Lerogeneidade maior de atores sociais.

O princípio articulatório interno de um movimento se dá a

pnrtir de tres elementos fundamentais que entram em sua composigao: as bases demandatárias, as liderangas e as assessorias.

1 Ji.malmente os dois primeiros elementos sao nativos, naturais

1111 internos aos movimentos. Sao os demandatários. O terceiro

111 'mento é externo, agrega-se ao movimento em algumas de

nas etapas. Dependendo do tempo de articulagao, a assessoria

l orá mais ou menos forga dentro do movimento; também poderá

cr parte de sua genese constitutiva.

As relagoes entre base, lideranga e assessoria constituem o

p rincípio articulatório interno. Um movimento poderá ser mais

ou menos democrático segundo este princípio. Porém, o fator

pri mordial que configura as relagoes internas é dado pelo prindpio articulatório externo: as aliangas externas, ou matrizes

H 'radoras dos discursos e das práticas, como diz Sader ( 1988).

O princípio articulatório externo resulta das relagoes entre

11s diferentes redes de movimentos sociais. Historicamente, a

l greja, os partidos e sindicatos tem representado as fontes prin­

•ipais das relagoes de aliangas com os movimentos populares

( m termos de assessorias. Elas sao os elos de mediagao entre as

2. 8 O paradigma latino-americano

duas estruturas: movimento e instituic;ao externa. Elas des rn¡

nham o papel de interlocutores por excelencia dos movim ntu

A forr;a social é obtida a partir da análise do cenário el

processo político mais amplo em que o movimento se desen rol

pela análise de suas redes e articulac;oes, ou seja, de seus pr t

cípios articulatórios interno e externo. As relac;oes dos mo

mentos com o conjunto dos atores sociais - já citados no i lc•t

anterior deste capítulo quando da fundamentac;ao da catego 1

de movimento social enquanto conceito - explicam a natur1 1i

da forc;a social naquele cenário. Na análise de um movim(1 11t

ela deve ser avaliada em termos de contribuic;ao para o procc •

so de mudanc;a social - avanc;os ou retrocessos - a partir d

participac;ao/contribuic;ao dos repertórios de ac;oes coletivas e le

movimento ou dos movimentos, nos ciclos de protesto que con

truíram em certos períodos históricos. Por ser urna categorl

que originalmente advém da física, forc;a denota densidad ,

condensac;ao de energia e combinac;ao de elementos. Nas ci n

cías sociais só será útil se for historicizada e politizada. Ana li

sar a conjuntura política e o campo de forc;as presentes num

dado momento histórico significa a análise das propostas e do

projetos dos atores que esta.o vivenciando certas problemáticn

com certa expressividade, que estao se destacando e nao si 11

meros coadjuvantes, mas interlocutores com poder de influ' n

cia e decisao. Gramsci é o autor que mais fornece elemento

para as análises em termos das forc;as sociais como matérin

usualmente tratada no campo da ciencia política.

A ideología de um movimento corresponde ao conjunto dc

crenc;as, valores e ideais que fundamentam suas reivindicac;o H.

As assessorias tem tido, no Brasil atual, grande importancia nn

constituic;ao das ideologías dos movimentos. Instrumentos difusoH

de desigualdade consolidaram-se em reivindicac;oes de direitoH

a partir da atuac;ao das assessorias jurídicas ou ético-religiosaH,

na onda de movimentos sociais populares urbanos que assolu

ram o país nas décadas de 70 e 80. As ideologías sao marcoH

referenciais estratégicos fundamentais para criar a identidadt1

dos movimentos. A ideología é captada por meio da análise doH

discursos e mensagens dos líderes e de toda produc;ao materi 1

simbólica dos movimentos. Os códigos culturais utilizadoH

Uma proposta teórico-metodológica para a análise do.� M.'I 1¡

l 1 1111nm forma por meio das ideologias e seus sign i l'i ·udo

1tl1 t tivam ampliar o campo de atuac;ao dessas mesmas id olo

1·l11H. Muitos movimentos lutam nao apenas por recursos m l

1 1 1 1 H mas pela criac;ao ou alterac;ao de significados culturaiH,

' 1 11110 as questoes do movimento negro, das mulheres, dos ho1111 1H8exuais etc. Um dos modelos clássicos de análise do discur111 que capta os argumentos centrais e periféricos em termos d

p11 luvras-chave, poderá ser útil desde que as palavras e os ar­

¡ 1 1 mentos sejam devidamente contextualizados. Na relac;ao entre

" l'orc;a do argumento e o contexto político podemos desvelar as

d1 ologias de sustentac;ao e propagac;ao das idéias fundamenl 11 is do movimento.

A cultura política se constrói ao longo da trajetória e nao

1 mera heranc;a de tradic;oes passadas. É algo vivo e operante.

lfü1 se constrói a partir da experiencia vivenciada no cotidiano.

<) conjunto das práticas sociais, informadas pelas ideologias e

t't presentac;oes, configuradas pelo projeto do movimento, gera

ua cultura política. Thompson - já tratado no capítulo V -

n o autor que elaborou várias contribuic;oes sobre a natureza, a

lc>rc;a social e a construc;ao da cultura política enquanto procesHO político e cultural. Trata-se de urna categoria de análise que

opera nos níveis interno e externo. Ela contribui para a configurac;ao das práticas e dos procedimentos.

A organiza<;fío de um movimento pode ser formal ou informal. Usualmente, nas etapas iniciais, existe urna organizac;ao

i nformal. Com o tempo a necessidade de formalizac;ao se impoe,

·om o estabelecimento de func;oes, divisoes de tarefas, cargos,

tempo de mandato etc. Existem movimentos que sobrevivem

décadas sem ter urna organizac;ao formal. Sao movimentos que

tuam mais no plano das idéias. Outros nao tem urna organizac;ao formal aparente, mas, na realidade, tem urna estruturaGao rígida: as próprias CEBs - Comunidades Eclesiais de Base

da lgreja católica - a despeito de frei Beto nao considerá-las

movimentos socias e de nós discordarmos desta posic;ao - atuavam segundo práticas assembleísticas e nao tinham urna organizac;ao formal em termos de cargos: presidente, vice-secretário

etc. Entretanto, respaldavam-se na própria estrutura eclesial,

na qual as hierarquias eram mantidas. Organizac;ao e institu-

260 O paradigma latino-americano

cionalizac;ao sao dois elementos conectados. Usualmente o s

gundo advém de organizac;oes consolidadas.

A organizac;ao também possui níveis interno e externo, s n

do este último elemento da rede de articulac;oes. A organiza<;

- vista como estrutura de suporte - e os significados cultu

rais-s1mbólicos construídos pelo movimento sao elementos-ch

ve para se captar as mudanc;as socioculturais e políticas que o

movimentos geram ou de que participam como atores fund

mentais.

As práticas de um movimento social se comp6em de ac;6

diretas e discursos, podendo ser mais ou menos organizadas.

Estas últimas ocorrem em func;ao de acontecimentos do tipo

explosao de massa, como os quebra-quebras. As práticas org

nizadas podem ser formais: reunioes, assembléias, petic;oes bu

rocráticas, abaixo-assinados, congressos, eventos, greves par

discuss6es políticas ou socioculturais; ou podem ser informais:

acampamentos, teatro ou encenac;ao, passeata-relampago a parti

de urna assembléia formalmente convocada, invas6es, concen

trac;ao em frente a algum órgao público, ocupac;ao de urna de

terminada repartic;ao pública.

Os movimentos sociais mais estruturados, com organizac;ao

de cargos e func;oes, ideologias mais tradicionais etc., tendero

ter mais práticas formais. Os movimentos sociais mais soltos,

mais flexíveis em termos de organizac;ao, e mais abertos em

termos de valores e ideologías, como os ecológicos, tendero u

fazer uso quase que exclusivamente das práticas informais. Por

isso esta.o sempre inovando e surpreendendo.

As práticas nao-organizadas decorrem de movimentos maiH

radicais ou em fase embrionária de organizac;ao. Elas surgem

como atos de sublevac;ao, sao insurreic;oes populares que dl!io

origem a movimentos sociais.

O projeto sociopolítico ou cultural de um movimento social

é urna questao polemica. Alguns autores atribuem a morte d<

um movimento social ao fato de nao possuir um projeto. Discordamos desta posic;ao, porque sempre existe um projeto, sob u

forma de urna visa.o de mundo, entre as assessorias ou as lido

r nc;as que dao sentido e direc;ao ao movimento. Sempre exist< •

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Uma proposta teórico-metodológica para a análise t/1111 f\18 ''' 1

11111 paradigma ideológico, construído fora do movim nto, n 1 1 1 1°

1111 ntar a sua atua�ao. O que falta, na maioria das vez s, 1 1 111

prnjeto para o movimento ou do movimento, para a soci �d tclt•,

• 111 rela�ao ao conteúdo intrínseco da problemática que o conH

1 Luí. Neste caso, o movimento passa o tempo todo ao sabor doH

1wontecimentos da conjuntura política do país, aproveitando a1:1

l 11· chas, retraindo-se quando "a maré" nao é favorável, atuando

u gundo as diretrizes do partido, do sindicato ou da lgreja.

llompre elabora propostas e formas de solucionar os problemas

q11 ' demandam. No caso dos movimentos sociais populares urba1 101-> dos anos 80, esta foi urna situa�ao bastante típica, que explica,

1 in parte, a sua desacelera�ao nos anos 90.

Alguns movimentos sociais construíram projetos bem de111 arcados na história, nos quais se observa com nitidez seus

p ressupostos, suas reivindica�6es e suas propostas. Alguns movi mentos ecológicos dos anos 90 tendero a se e:nquadrar nesta

1 in ha, assim como vários movimentos sociais do século XIX e

e 1 s primeiras décadas do século XX.

Os projetos sao passíveis de resgate, pelo analista, após o

1 HLudo do movimento como um todo. Certamente sao projetos

l'onstruídos mais no plano das ideologías e nao projetos formais,

1 Hbo�ados segundo etapas que abordam um problema, possuem

objetivos, justificativas, hipóteses, metodologías, cronogramas

' Le., como o concebemos no ambito academico (ainda que, em

ccrtos movimentos, por for�a de certas circunstancias - tais

como a solicita�ao de um financiamento ao exterior para a rea1 iza�ao de algumas obras, por exemplo -, possamos encontrar

projetos formais bem elaborados. Neste caso, nas entrelinhas

que fundamentam suas demandas, encontramos os elementos

de seu real projeto de atua�ao e a presen�a das assessorias).

A identidade dos movimentos decorre de seus projetos.

1 iferentemente do paradigma dos N ovos Movimentos Sociais,

nao consideramos a identidade apenas como fruto das representa�oes que o movimento gera ou constrói, para si mesmo ou para

os outros. A identidade é urna somatória de práticas a partir de

um referencial contido nos projetos. Ela nao existe apenas no

plano ideacional, nao se trata de urna categoría simbólica ou de

natureza exclusivamente cultural. A identidad.e se firma no

62 O paradigma latino-americano

processo interativo, nas articulai;oes. Ela confere caráter pro

gressista ou conservador aos movimentos. O conjunto das pr

ticas deve ser analisado para se compreender como o descenim

se transforma em consenso . e gera urna identidade em qu 1

representai;ao criada é de unidade. A solidariedade política dov

ser investigada enquanto o grande elemento agregador dos in

teresses difusos e heterogeneos dos diferentes atores em cenn

É importante analisar o cenário sociopolítico em que o mo

vimento se desenvolve por ser ele quem fornece os elemento

conjunturais que explicam o processo interativo e a correla<;t o

de fori;as existentes. Assim, o que Tarrow denomina estrutu r1

das oportunidades políticas nada mais é que o contexto du

pautas e agendas colocadas pelos movimentos e pelos órg o

públicos e empresas responsáveis por certos bens demandado

Consideramos que estas oportunidades políticas podem ser crl

atlas pelos diferentes atores (movimento, Estado ou mercado

privado) e sao um dos itens do cenário sociopolítico. Elas repr

sentam sempre urna possibilidade de renovai;ao e mudanga

conferem aos movimentos os atributos de poder. Se trata de um

tipo de jogo de fori;as em que se disputa nao a construgao do büm

comum (infelizmente) mas a tomada de espagos sobre a produ

gao, gestao e controle de urna infinidade de coisas (bens públl

cos, no caso dos movimentos populares; direitos sociais e trah 1

lhistas, no dos movimentos sindicais; terras, no caso dos movl

mentos agrários e dos índios; direitos sociais que poderao rt•

dundar em novos encargos sociais, no caso do movimento dn

mulheres e dos negros; maior responsabilidade do Estado

cumprimento da legislai;ao trabalhista no caso dos moviment.o

dos menores etc.).

Os opositores de um movimento social sao sempre os su,j11I

tos que detem o poder sobre o bem demandado. Nao necessarin

mente estes opositores sao antagónicos aos movimentos. EHl

questao gerou equívocos, nos anos 70, quando alguns analislu

afirmaram que os movimentos sociais urbanos eram contru o

Estado. Nao se trata de ser contra ou a favor da entidade qu

detém a posse, a propriedade ou o controle do bem demandado

Trata-se de se opor aqueles sujeitos, no que se refere exclu ivn

m nte ao bem demandado. Por isso a negociai;ao, a troca 1

Uma proposta teórico-metodológica para a anális 1/ti11 1\18 11 1

l>nrganha esta.o sempre presentes no processo. Sao opo1-1l l,01·1

1 1 1as nao inimigos, embora, em vários casos, encontremm1 ln llt•

l>nm a questao da oposic;ao posta como antagonismo, como in¡.

111 izade política declarada.

Vários movimentos sociais de caráter político, na históriu

h rasileira, que buscavam a independencia do país, do grupo, ou

nutra reivindicac;ao de natureza semelhante, opunham-se ao

111·upo que estava no poder mas nao ao sistema político vigent

llll as formas económicad existentes.

As conquistas e derrotas de um movimento sao balizas

rnportantes para explicar seus fluxos e refluxos. Esta.o intima­

'" nte associadas a questoes de natureza interna (tipo de artirnlac;ao, forma de conduc;ao do movimento, tipo de relac;ao entre

hnse-assessoria-lideranc;a etc.) e as questoes externas, de ordem

da conjuntura política e socioeconómica do país.

Usualmente podemos pensar que as conquistas fortalecem

11m movimento. Mas nem sempre isso é verdadeiro, pois, em

v irios casos, o que ocorre é urna acomodac;üo após a conquista

da reivindicac;ao e um refluxo da organizac;ao. Também ternos

r1 ·gistros de casos em que a derrota serviu de elemento revita1 izador de energías ao movimen_to, criando condic;oes para o seu

c'I" scimento.

a - Principais categorías teóricas

Sabemos que urna análise nao se faz sem o uso de categor'ias e estas, além de serem históricas - datadas no tempo e no

nl:lpac;o -, também variam segundo os diferentes paradigmas.

As categorías preexistem e ao mesmo tempo sao criadas pela

1 nvestigac;ao. Elas tanto se fundamentam em conceitos já exis1 ntes como podem dar origem a novos conceitos. Ao falarmos

,;obre um paradigma teórico de análise sobre os movimentos

HOCiais na América Latina observaremos que, a despeito de nao

H ' terem formulado teorías consistentes, foram criadas algumas categorías analíticas em func;ao do tipo de movimento sot' ial predominante: os de caráter popular. Outras foram reelal ioradas ou adaptadas a um universo de lutas bastante diferen-

264 O paradigma latino-americano

te daquele que lhe deu origem_ Assim, podemos citar, no primeiro caso, as de exclusao social e resistencia_ No segundo: participac;ao, experiencia, direitos, cidadania e identidaae coletiva. A

trajetória de incorporac;ao dessas categorias no universo dos

pesquisadores brasileiros será tratada no capítulo seguinte. A

seguir apenas delinearemos algumas das matrizes referenciail�

básicas que fundamentaram o uso daquelas categorias n

América Latina.

Participac;ao, na área das ciencias sociais é algo encontrado como noc;ao, categoria ou conceito desde os primórdios de seu

desenvolvimento na América Latina. Isto porque se trata d

urna formulac;ao clássica na teoria da ac;ao social, tanto na ver

tente weberiana como na parsoniana, vertentes estas que tiv

ram muita importancia entre os pesquisadores latinos até o

anos 60. Sua presenc;a foi mais forte no período da teoria d

modernizac;ao, já assinalada no capítulo anterior. Nos anos 7

- dado os regimes político-militares vigentes em grande núm

ro de países latinos -, participac;ao voltou a ser utilizada n

sentido de participac;ao da sociedade civil; Gramsci e algu n

teóricos da ciencia política, ou a ela articulados, como Tocquevi ll 1

Verba, Pizzorno, Poulantzas, Hirschman, Darhendorf etc., for111

os teóricos que fundamentaram o sentido atribuído a partici p

c;ao. Assim, os estudos de Cardoso ( 1972), Moisés ( 1978), Lirn

( 1979), Ammann ( 1980 e 199 1), Brandao ( 1982), Singer e Br1 11

( 1980), Gohn ( 1982, 1984), Bordenave ( 1987) etc. trabalhan11

com a categoría da participac;ao enquanto um imperativo n

relac;oes sociais vigentes, como forma de democratizar o Est ad

e seus aparelhos. Participac;ao se tornou um dos principaiH 1

mos articuladores no repertório das demandas dos movirncnto

Chegamos a publicar um paper buscando qualificar e map1

as diferentes formas e tipos de participac;ao (Gohn, 1984). 1 '1

teriormente, o termo tornou-se um jargao popular, foi aprop

do por discursos políticos conservadores e tornou-se ret re n

obrigatória em todo plano, projeto ou política governam1•nt

como sinónimo de descentralizac;ao - em oposic;ao a c •ni r l

zac;ao dos regimes militares; perdeu sua forc;a como cat111{11

'xplicativa de processos sociopolíticos novos que vinham o

r ndo na sociedade civil a medida que o processo de red •111rn

Urna proposta teórico-metodológica para a anali.w• r/1111 fll.'� 1111\

Li zac;ao se generalizou na América Latina, na fas dH L 1·u 1 1 1; 111

política dos anos 80.

Experiéncia foi resgatada nos anos 80 a partir dos L ruhu

l hos de Thompson. Essa categoria foi retrahalhada no s ntido

de lhe ser retirado o caráter pragmático utilitarista e contexLuu

1 izando-a em termos culturais e de consciencia de classe. "A x·

periencia é gerada na vida material, estruturada em termos d

classe ... As pessoas experimentam suas experiencias nao só com

idéias, também com sentimentos. Lidam com este sentimento

na cultura, como normas, obrigac;oes familiares e e parentesco,

1· ciprocidades como valores ou arte, ou nas convicc;oes religioHas. Essa metade da cultura pode ser descrita como consciencia

11fetiva e moral" (Thompson, 1982: 189). Ou seja, a experiencia

d ixa de ser vista como produto pronto, acabado, inerte, e passa

11 ser vista como depositária de forc;as e energias, motivadoras da

11c;ao, do fazer político dos indivíduos. A cultura política das classes

pnssa a ser fundamental. Ela será o fermento gerador da consci1 ncia e da organizac;ao dos sujeitos na história.

Direitos foi urna categoria retirada do uniyerso liberal,

hnstante difundida a partir do trahalho de Macpherson ( 1978)

1 1 posteriormente matizada segundo os trabalhos de Bobbio ( 1992)

1 Arendt ( 1981). Ela sempre esteve associada a cidadaaia.

Cidadania foi a categoria mais elaborada e também resgal 1 1 da do ideário liberal. Ela foi retrabalhada tanto em leituras

1 1H mais próximas do universo político liberal ·- Marshall ( 1967),

: u ntos ( 1979), Reis ( 1996), Ferreira ( 1993) -- como em análises

1111üs críticas e preocupadas com os processos de mudanc;a so­

' 1111 e/ou transformac;ao social e a situac;ao dos excluídos -

l l 11ffa, Arroyo e Nosela ( 1987), Covre ( 1986),, Paoli ( 1989), Moi-

« 'H ( 1990), Teles ( 1991), Benevides ( 1992); Weffort ( 1993), Gohn

1 1 D92, 1995).

Exclusao social passou a ser urna categoria predominante no

1111iverso das análises sobre os movimentos populares nos anos 90,

1 1 1 1110 em Buarque (1992), Gaigner ( 1991), Nascimento ( 1994),

Wn l'ren ( 1995), Gohn (1996). Ela passou a ter a mesma centralidade

q1111 se deu no passado a categoria de exército de reserva ou a mar­

,. 1 i111l idade estrutural. Os estudos dirigiram suas atenc;oes tanto

266 O paradigma latino-americano

ao universo dos excluídos e aos processos fomentadores daquela

exclusa.o como as formas de resistencia construídas pelos excluídos.

Pode-se dizer que exclusa.o e resistencia sao categorias e, ao mesmo tempo, códigos culturais dos movimentos latino-americanos.

Identidade coletiva é urna categoria importada do paradig

ma europeu dos NMS, já longamente discutida no capítulo V.

Destaque-se apenas que na Europa ela foi construída para o

universo dos movimentos das camadas médias, sobre as probl

máticas ambientalistas, de mulheres, estudantes etc. Na Am

rica Latina foi utilizada para explicar os movimentos popul

res, principalmente os articulados pela matriz discursiva d

teologia da libertac;ao.

4 - Fases de um movimento social

De modo geral, podemos observar num movimento soci

as seguintes fases:

1 - Situac;ao de carencia ou idéias e conjunto de metaH

valores a se atingir.

..

2 - Formulac;ao das demandas por um pequeno nú:giero el

pessoas (lideranc;as e assessorias).

3 - Aglutinac;ao de pessoas (futuras bases do movim

em torno das demandas.

4 - Transformac;ao das demandas em reivindicac;oes.

5 - Organizac;ao elementar do movimento.

6 - Formulac;ao de estratégias.

7 - Práticas coletivas de assembléias, reunioes, atos p11hl

cos etc.

8 - Encaminhamento das reivindicac;oes.

9 - Práticas de difusa.o (jornais, conferencias, represent.u ·

teatrais etc.) e/ou execuc;ao de certos projetos (estalwlc

mento de urna comunidade religiosa, por exemplo).

10 - N egociac;oes com os opositores ou intermediárioH 1

meio dos interlocutores.

11 - Consolidac;ao e/ou institucionalizac;ao do movimt•nl u

Uma proposta teórico-metodológica para a análim• t/1111 1\18 •r1 I

Devemos observar que existem várias fases qu • 11110 1111

1 odas necessariamente seqüenciais. Podemos ter m vi 1rwn I rn

ociais débeis, fracos, que estariam nos estágios iniciais d urnn

1 wganiza¡;ao. Muitas vezes eles morrem ant•es de se consolida r.

1 )ni surge a questao dos fluxos e refluxos já abordada por

1 owarick ( 1987). É importante registrar que a caracteriza¡;· o

111·ima nao envolve urna visa.o etapista da realidade, como criti1•ou Cardoso ( 1987). Nem etapista nem evolutiva, porque nao

lin urna organicidade entre as fases. Elas poderao se sobrepor

q11 ndo o movimento é originário de outro m�vimento social.

N n prática nao há a linearidade de um esquema racional, porq 1 1 ' os movimentos nao sao puros, autónomos, isolados, autode11 rminados. Mesmo os movimentos criados a partir de idéias

ril, )picas nao sao totalmente isolados da sociedade. O princípio

11 1 Liculatório de suas idéias sempre tem conex6es externas, com

11 1na doutrina, um outro movimento, um líder, um partido, urna

1 1 11 igiao etc.

Formas de expressao dos movimentos social

categorias e tipos

Ao se falar sobre as categorías de movimentos soc1ais e

1 •11H diferentes tipos corremos vários riscos, desde a simplifica­

' , 11 de se estabelecer urna tipología da realidade social, em ter11 r oH de modelos ideais, até a generaliza¡;ao completa dos fenó1111 nos sociais, onde tudo seria considerado movimento social.

Podemos ter movimentos de diferentes classes e camadas

1 11•11t is, o tipo de a¡;ao social envolvida é que será o indicador do

' 11 uL r do movimento. David Aberle ( 1966) nos fala em movi111 .. 11Los transformadores, reformistas, redentores e alternativos.

1, rld 'ns assume esta tipología, na realidade criada por Smelser

1 1 1112), e analisa as condi¡;oes sociais qpe geram as a¡;6es cole11 r rH, tipificando-as posteriormente: movimentos gerados por

1 1 1\t •H originadas por tens6es estruturais (movimentos dos ne1 1 1 11 ), cren¡;as generalizadas (movimentos dos direitos civis),

1 1 l 1 1 rbios e violencias (movimentos de rua, quebra-quebra etc.)

11wvimentos que sao deflagrados por situa¡;6es de controle

' " 111 (por exemplo, movimento contra as reformas da Consti-

268 O paradigma latino-americano

tui<;ao brasileira). Os movimentos sao vistos por Giddens -

por Smelser, em quem se baseia - como respostas a estímulo

externos. Touraine ( 1988), sem se preocupar com a criac;ao d

urna tipologia, apresenta um leque maior de registros histórico

de movimentos sociais (na América Latina), subdividindo-os em

messianicos, camponeses, de defesa comunitária, de defesa d

identidade, lutas urbanas, novos movimentos sociais, movimen

tos históricos etc.

Objetivando construir modos de descric;ao do social de fo

ma a apreender os movimentos sociais de urna maneira ampl

que contemple sua diversidade, mas procurando respeitar a sin

gularidade dos fenómenos que se manifestam como movimento

na sociedade, elaboramos as categorias abaixo assinaladas. Em

hora a questao das classes sociais esteja presente em not1t1

abordagem, ela nao é o único critério utilizado. As manif estac;<

agrupadas como movimentos sociais contemplam fatores objetiv<

da realidade social (carencias económicas, por exemplo) e fator

subjetivos (busca de autoconfianc;a, de igualdade etc.).

Concordamos com Tilly em sua rejeic;ao da divisa.o ent.

novos e velhos movimentos sociais. Nao retomaremos a polem

ca, mas reiteramos que preferimos agrupar os movimehtos l'I

categorias independentes da contemporaneidade ou nao de su

reivindicac;oes e formas de atuac;ao.

1.11 categoria - Movimentos construídos a partir ''

origem social da institui�ao que apó

ou obriga seus demandatários

Partindo da premissa de que todo movimento social fo

mado por agrupamentos humanos, coletivos sociais, decorr q1

esta.o de urna forma ou de outra inseridos na sociedade. lj:

inserc;ao nao se dá no vazio mas a partir de algumas instit u

c;oes de apoio ou abrigo, ou seja, a igreja, o partido, o sindicnt

a escola e até a família - em alguns movimentos sociais me

sianicos, coronelistas ou feudais.

As instituic;oes sociais possuem ideologias específicaH qll

ori ntam a forma e o próprio conteúdo das demandas. ElaH

Uma proposta teórico-metodológica para a anátisc doH A/,"/ 1(1'1

llH matrizes dos discursos e das práticas dos movimentoH. ( Jo1 1 1 11

• x ·mplos de tipos de movimentos surgidos a partir dessu ·11Lo

1 nria ternos: os religiosos, os político-partidários, os sindicn iH,

llH das corpora<;6es de estudantes, professores, funcionários d

1 1 1na categoria social ou de urna institui<;ao etc.

211 categoria - Movimentos sociais construídos a partir das características da natureza humana: sexo, idade, rar;a e cor

Esta categoria tem gerado movimentos sociais �esde os

l 1 1mpos mais remotos da humanidade. A Bíblia faz refe'¡rencia a

v11 rias rebelioes a partir de diferen<;as de ra�a. As lutas raciais

1 1 raram movimentos isolados e/ou articulados a outras ques1 oos de ordem económica, política e cultural. Nesta categoria

l 1 1mos também urna série de movimentos sociais contempora1 1 1105 como os das mulheres (o feminismo é urna corrente), dos

111d ios, dos negros, dos homossexuais, heterossexuais, t�nse11nis etc., dos idosos aposentados, de jovens, das crian<;as "me1 1 1 1r s abandonadas" etc. Certamente que nao é a idade que

d11I. rmina a condi<;ao de ser um menor abandonado, mas ela é

1 1g l utinadora de urna necessidade social nao resolvida. Deve-se

t l1 Htacar que na era da globaliza<;ao os mov:i.mentos desta cate1 oria tem ganho centralidade sobre outras lutas sociais, dado

111t natureza universalizante.

3ll categoria - Movimentos sociais construídos a partir

de detenninados problemas sociais

Todo coletivo enfrenta dificuldades a serem superadas na

uhr vivencia cotidiana. Independente da c:lasse social de um

l11divíduo, ele precisa ter acesso a condi<;6es de abrigo, alimen1 1 11;110 etc. Várias dessas condi<;6es só sao 1

possíveis a maioria da

p1 1p 1 1 la<;ao no nível do coletivo. Sao os chamados equipamentos

1 1 tl1 1t.ivos de consumo: escola, saúde, transportes, lazer etc.

Além das dificuldades a serem superadas, existem bens cuja

1 11 ·1•1 1i;i;idade nao é a de seu consumo, mas justamente o contrário,

11 1 11 sua preserva<;ao ou uso controlado. A defesa de tais bens

li vou aos movimentos ecológicos, antinucleares, pacifistas etc.

270 O paradigma latino-americano

Assim, na terceira categoría podemos citar os seguintes

tipos de movimento:

1) Movimentos em busca de solw;ao ou cria�ao de equipamentos coletivos de consumo

• Movimento pela saúde

• Movimento pelos transportes

• Movimento por creches e escolas em geral

• Movimento pela habita�ao etc.

2) Movimentos pela preserva�ao do meio ambiente (geo

gráfico, social, económico e cultural)

• Movimentos ecológicos

• Movimentos pacifistas

• Movimentos de preserva�ao do patrimonio histórico

• Movimentos em defesa dos animais e plantas em gerul

4ll categoría - Movimentos sociais construídos ''

fUm;iio de questoes da conjunturtl da

políticas de uma na<;iio ( socioecon

mica, cultural etc.)

Nesta categoría encontramos toda urna série de moviml' ll

tos que os livros de história dos países registrara usualm >nt

como subleva�oes, insurrei�oes, revoltas, motins, revolu�oes l'I

Ao percorrer a história do Brasil, por exemplo, encontrarno

urna série de registros nomeados como perturba�oes a ord1 1

pública vigente. Foram movimentos sociais nacionalistas 1'/1 1

libertários, que buscavam desatrelar a Colónia da Metr >poi

portuguesa, alterar o regime político do país (movimento r1 11

blicano) ou derrubar um grupo ou urria oligarquía ent· 11 1

poder. Dada a extensao de movimentos que podemos listar 11t

categoría nao vamos dar exemplos; registramos os estudo

Michelet ( 1985), Tilly ( 1995), Andrade ( 1991), Gohn (1 !l 1)

outros, assim como o trabalho de inúmeros historiadores q 1 111

dedicaram ao seu estudo.

Uma proposta teórico-metodológica para a análi. <lo11 M.'-1 11

5A categoria - Movimentos sociais construldoH a

partir de ideologias

A rigor, conforme já abordamos na primeira parte desl

l.rabalho, todo movimento social tem urna ideologia. Entretan1 o, determinadas ideologias constroem, ao longo da história,

1 1 ma utopia, ou seja, um ideal, urna meta, um propósito que

111obiliza as pessoas para a luta; sao dotadas de um conjunto de

1·1· 'nc;as que negam o instituído e repoem um novo paradigma

pnra a ac;ao e para o pensamento.

O anarquismo, o marxismo, o cristianismo etc. foram ideol 1 11.{ias com forc;as motoras próprias. Elas foram, e ainda o sao,

1•1 1pazes de sensibilizar milhares de pessoas. Geraram movimenl 1 1H sociais específicos; alimentaram, enquanto paradigma de

1 ni" réncia, vários movimentos sociais concretos .. Por suas idéias,

1 losofias e propostas, aquelas ideologias criaram raízes na sociei l 1 1de, em certos momentos estiveram em voga, ganharam fluxos

1 ,. fluxos, mas tém certa perenidade. Em suma, criaram �ovi111nntos sociais que aparecem e desaparecem segundo as con1 1111 turas históricas.

Após quase duas décadas de estudos e pesquisas sobre a

l 1 111 tica dos movimentos sociais retomamos, neste capítulo, a

1111 origem: procuramos fundamentar a categoria enquanto

1 il 1j1 to de estudo. Partimos do estudo de suas fases e componen­

' 1 para chegar a proposic;ao de urna grade de tipos de movi1111 11tos sociais, segundo as categorias que os determinam: inst ll 1 l i<;6es, natureza (social e humana), problemas da sociedade,

p1 1l1t.icas socioeconómicas e ideologias. O longo percurso até aqui

111 1 1 11itiu-nos indicar alguns caminhos para superar a dicotomia

1 1 111 1 l/urbana, possibilitou-nos chegar a urna visao integrada dos

11111v1 mentos sociais sem privilegiar a questa.o das classes so­

' 111 o, ao mesmo tempo, reconhecer que existem nos movimenl 11 p roblemáticas que nao decorrem das classes sociais, embora

• j 1 1 1 n perpassadas por elas.

I'

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1

l

--- -�--�

CAPÍTULO V I II

MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL

NA ERA DA PARTICIPA�A.O:

1 978- 1 989

1 - Primeiras abordagens nos anos 70 e 80 no

Brasil: breve historiografia dos estudos

sobre os movimentos sociais

Desde logo é bom destacar, como o próprio subtítulo indica,

q ue vamos nos ater a realizar um breve balarn;o bibliográfico da

l i Leratura brasileira dos últimos vinte anos relativa apenas aos

movimentos sociais urbanos. Isto significa que do universo dos

ostudos sobre os movimentos sociais, muito rnais amplo, estaremos mapeando urna de suas facetas. Destaco neste universo,

como indica<_;ao para levantamentos futuros, os trabalhos s<¡bre

os movimentos das mulheres, os rurais, o movimento ecológico,

os movimentos e grupos de estudos sobre os negros e índios,

assim como o próprio movimento operário, entre outros. Selecionamos os movimentos sociais urbanos por terem sido grandes

novidades no cenário latino-americano nas últimas décadas; por

1:iua expressividade numérica; e pelo fato de nossa própria produ<_;ao ter se concentrado majoritariamente naquela temática.

Acrescente-se ainda o fato de os estudos sobre os movimentos

Lerem se desenvolvido de forma bastante isolada. Assim, os grupos que estudavam a realidade rural tiveram pouco contato

com os que estudavam a realidade urbana. Cada área acade273

274 O paradigma latino-americano

mica criou seu grupo de pesquisadores - que dialogavam

debatiam quase que exclusivamente entre si, nas reunioes dn

associac;oes científicas, fóruns universitários' etc.

Apesar de recente, a produc;ao teórica sobre os movimento

sociais urbanos no Brasil já possui vários balanc;os: Jacobi ( 198(

e 1989), Torres Ribeiro e Machado da Silva ( 1984), Cardo 1

( 1983, 1994), Kowarick ( 1987). Alguns foram realizados vário

anos atrás e contemplaram um número pequeno de estudo

entao existentes (Jacobi, 1980). Outros foram parciais, concun

trando-se nas linhas gerais de alguns dos estudos realizado

(Cardoso, 1983 e 1995). Outros, ainda, nao tinham o objetivo d

realizar um balanc;o propriamente dito, mas destacaram as pri n

cipais orientac;oes teóricas utilizadas (Doimo, 1995; Gohn, 1987

1995). Alguns levantamentos bibliográficos também destacarnr

a questao (Burgwal, 1990; e Warren, 1995). Um dos dados rnul

significativos que estes balanc;os nos apontam é o de que a rnuio

ria dos estudos foi realizada nos anos 80; nos anos 90 houve ur

declínio do interesse pelo estudo dos movimentos em geral,

pelos populares em especial, assim como declinou a preocupa<;

com seu registro histórico contemporaneo, desde que o resgu t

histórico do passado das lutas e movimentos semp�'e foi um

área de pouca atenc;ao dos pesquisadores.

Os balanc;os foram importantes para chamar a atenc;ao pnr•

inúmeros aspectos, entre os quais se destacara: a falta de n1f'

renciais teóricos e o volume de descric;oes sera análises; a n ·1•

sidade de construc;ao de esquemas explicativos que abordasHl'I

as especificidades do processo histórico brasileiro e o conH

qüente uso abusivo de esquemas teóricos pertencentes a outra

realidades socioeconómicas e político-culturais; a valorizac;ao d

paradigmas que exaltavam o espontaneísmo e voluntarisrno d

massas sem considerar a importancia do papel do Estado n

questao; a enfase do caráter novo dos movimentos, sern d

monstrá-lo bem, e a desconsiderac;ao pelas experiencias histo

cas já existentes; o isolamento dos movimentos urbanos •r

relac;ao aos movimentos rurais e também a outros movimcn to

sociais, como os sindicais; a confusa.o em torno do próprio 1·1 11

ceito de movimentos sociais urbanos, utilizando-o de mant•i

Mouimentos sociais no Brasil na era da par1!i ·iµar lo. J I) 1t I 11111 1 I

1 1<liscriminada para lutas de naturezas diversas , ·onH11q1 1111

l 1 mente, problemáticas distintas.

Em suma, os balarn;os, de forma mais ou menos com pl1 1 1,

1 11'1' scentaram e enriqueceram o debate sobre os movi m n l.oH

o ·iais brasileiros e foram contribuic,;6es valiosas para as r vi

t l'S feitas pelos próprios estudiosos da temática.

Cumpre destacar, entretanto, que a maioria dos balan<;oH

i ll'Henvolvidos até a presente data nao avaliaram os pressuposlo

I Porico-metodológicos que tem embasado a Jproduc,;ao existente. Ou

t\ja, cada avaliac,;ao chamou a atenc,;ao para um conjunto de falhas

1• omissoes nas análises, mas eles próprios, balanc,;os, eram feitos

«'hrundo determinadas óticas analíticas. Assim, ao chamar a aten­

'l\o para o papel do Estado na dinamica dos movimentos sociais,

11110 se estava apenas apontando para a ausencia de um dado

li 11 portante nos estudos, mas também fazendo urna leitura dos

l 11 tos segundo urna matriz teórica de abordagem.

Acreditando que as considerac,;oes acima sao importantes,

1 olocamo-nos a campo para realizar estudos que focalizassem

llH questoes demonstradas pelos balanc,;os, que resultaram na

pt'Oduc,;ao deste livro. Pretendemos neste momento tao-somente

11omear as matrizes teóricas básicas que tem alimentado a prorl 1 1c;ao brasileira, a partir de estudos sobre a parcela dos movi111 ntos sociais que é o movimento popular. Buscaremos verifi1•1 1 1· a utilizac,;ao das correntes teóricas até entao apresentadas,

1• tando alguns dos principais estudos. Estamos conscientes do

1 iHCO que corremos: classificar e construir tipologias abst;ratas.

' l 'nrnbém estamos conscientes de que nao realizamos um levanta111 nto exaustivo: ele focaliza bastante Sáo Paulo e a produc,;ao

l 11·nsileira a presentada na ANPOCS (Associac,;ao Nacional de Pós1 \ I" duac,;ao e Pesquisa em Ciencias Sociais). Portanto, várias

111t1 iss6es sao possíveis.

Os primeiros estudos que surgiram no Brasil sobre os

1 1 1ovimentos sociais urbanos tinham urna filiac,;ao teórica explí1 11.n : Jordi Borja e Manuel Castells. Entre eles, os pioneiros

1 1 ! 1' m o de José Álvaro Moisés ( 1978) e Gohn ( 1979).0 primeiro

1 onsistiu numa tese de doutoramento apresentada na USP sal i r 1 os movimentos emancipatórios de Osasco e Pirituba na

276 O paradigma latino-americano

década de 50; foi um estudo de processos de emancipac;ao político-administrativa, emancipac;ao de bairros para municípios,

formal-institucional. As sociedades amigos de bairros pesquisadas e outras forc;as sociais presentes de forma embrionária foram estudadas posteriormente sob o prisma da emancipac;ao

social, de libertac;ao das forc;as sociais dominantes. O segundo

foi urna pesquisa sobre as sociedades amigos de bairros em Sao

Paulo, iniciada em 197 4 e a presentada como dissertac;ao d

Mestrado na USP em outubro de 1979. Paralelamente a conclusao destes dois primeiros estudos, inúmeros outros estavam s

desenvolvendo, destacando-se o de Vera Silva Teles sobre as

CEBs e o de Silvio Caccia Bava sobre as lutas populares na

zona sul de Sao Paulo ( 1980); o de Nabil Bonduki e Raquel

Rolinik sobre a periferia de Osasco; o de Ana Doimo ( 1984 )

sobre o movimento dos transportes em Vitória; o de Silvio Ma·

ranhao sobre lutas urbanas em Recife; algumas experiencias

em Brasília etc. Alguns deles foram sistematizados num debat

acorrido em encontro do Centro de Estudos Rurais e Urbanos

da USP, em 1979. Destaquem-se ainda alguns trabalhos desen

volvidos por pesquisadores alemaes sobre os movimentos popu

lares na América Latina e que vieram a influenciar muitos pes

quisadores nacionais quando de sua publicac;ao, nos primeir0tt

anos da década de 80. Entre eles os de Evers (.J.983 e 1984)

Muller-Platenberg e Spessart ( 1979).

Os estudos básicos sobre a realidade brasileira de apoio a

pesquisas da época foram de F. Weffort ( 1978) e O. Ianni ( 197ó )

sobre o populismo na política brasileira; Lúcio Kowarick ( 197ó )

e a crítica a teoria da marginalidade; Francisco de Oliveir

( 1972) e a crítica as interpretac;oes dualistas do modelo de d

senvolvimento; Paulo Singer ( 1973) e o estudo do milagre br

sileiro; Florestan Fernandes ( 1975) sobre a burguesia brasil 1

ra; Marialicci Foracchi sobre processos de participac;ao soci 1

( 1982) e o processo de acumulac;ao no Brasil; e Fernando 11

Cardoso ( 1972) e seus trabalhos sobre o Estado e o modelo d

desenvolvimento dependente e associado.

O ano de 1980 marcará algumas mudanc;as nas análil'I

s bre os movimentos urbanos. As causas estao na conjuntu

sociopolítica explosiva dos anos de 78/79, no surgimento d

Movimentos sociais no Brasil na era da parti iprt(flo: 1!1711 I 111'1 'I f

Jolí- ! números movimentos e formas organizativas populur H, 1 111 1

>ios, publica9ao de textos importantes que serviram de sub�rnlio 11

.isa- 11nálises da realidade urbana, como o de Lúcio Kowari ·I

L fo- /Cspoliar;iio urbana. O referencial histórico predominant 't lll L1

t<;ao n uava a ser o marxista, com enfoque na análise das contrndi

ndo

·oes sociais, embora já se iniciasse um processo de crítica a •HL(i

Sao t ¡.¡quema. Foram traduzidos dois textos básicos desta linha d

d 1 1bordagem - um ao propr10 aste Is "Cidade, democracia '

11ocia ��

ismo ( 1980) - e outro ae ----

:-Lojltin.e O Estado capitalista e a questiio urbana ( 1981). Eles ajudaram a divulgar as

11hordagens conheci as por meio de apostilas ou dos raros livros

rnportados.

Entretanto, nos novos estudos que iam surgindo sobre as

1·lasses populares, novas abordagens se incorporavam, vindo

dt conceitos e no96es entao bastante utilizados na antropología

( dentidade, por exemplo) e na educa9ao popular (principal111 •nte o esquema referencial gramsciano ou os trabalhos de

1 ,ofevre). Dentre eles destacam-se, em Sao Paulo: Tereza Pires

1 ! 1 1 ldeira ( 1987), José Guilherme C. Magnani ( 1985), Carlos

l fodrigues Brandao ( 1982), Marília Sposito ( 1986), Eunice

1 l11rhan (1984) etc.

Parte da produ9ao específica sobre os movimentos urbanos

11corporou as novas categorías em novas pesquisas como as de

1 ,11i z Eduardo Wanderley ( 1986) sobre o Movimento de Educa1 1 10 de Base (MEB), na década de 60; Pedro Jacobi e Edson

r�1 1 nes ( 1983) sobre as lutas por equipamentos di(

saúde e sa1111nmento em Sao Paulo; Ana Amélia Silva ( 1 79) sobre os

1p1 bra-quebras de trens; nosso estudo sobre a Luta por Cre­

' l1t s em Sao Paulo; Ana Luísa S. Souto ( 1983) sobre as CEBs;

1 lll Doimo ( 1984) sobre as lutas por transportes etc. Ainda no

11110 de 1980, o grupo de trabalho da Associa<;ao Nacional de

l 11 Hquisa e Pós-Gradua9ao em Ciencias Sociais se fortalece. Dois

111 1 ·l os vigorosos de pesquisas sobre os movimentos sociais se

1 1 111Holidam no Rio de Janeiro. O primeiro no IUPERG - Insl ll 1 1Lo Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro - com

l ,1riu Valadares, sobre os quebra-quebras na constru9ao civ1 e

1 l utas pela moradia; Luiz An ónio Machado ( 1983, T!J85) e

11111neros estudos sobre associa96es de moradores e movimen-

/8 O paradigma latino-americano

Los sociais populares; e Renato Boschi ( 1983) etc. O segundo, nu

Universidade Federal, com Ana Clara T. Ribeiro ( 1985) e Luiz

César de Queiroz Ribeiro ( 1982) e outros. Todos pesquisador H

e professores universitários. As contribuü;oes desses autor H

extrapolaram as prodm;oes individuais para a prodm;ao de seuH

orientandos, em teses e dissertac;oes. O Museú Nacional tam

bém formou equipes de estudo sobre movimentos sociais e o

ISER - Instituto de Estudos da Religiao - iniciou trajetóriu

de estudo sobre movimentos na área religiosa. O IBAM - In11

tituto de Administrac;ao Municipal - também concentrou umu

equipe de pesquisadores nessa área. Déstaque-se o trabalho dt

Carlos Nelson dos Santos ( 1981) sobre o associativismo em

favelas cariocas, numa perspectiva que contemplava variáv iH

da antropologia e do planejamento urbano.

Parte do núcleo do Rio de Janeiro acrescentou urna qual i

dade nova ao debate sobre os movimentos populares ao apro

fundar urna linha de abordagem antes timidamente esboc;adu :

a da institucionalizac;ao. Partindo da crítica a produc;ao dt

Castells, Lojkine etc., alguns pesquisadores retomaram as anú

lises do comportamento de grupos e estudo das organizac;o H,

baseadas em teorías com campo maior de desenvolvimento no

Estados Unidos. Destaque-se nesta linha, nos anos 80, a publ i

cac;ao de alguns trabalhos realizados no eixo Sao Paulo-RiJ soh

a influencia do paradigma da teoría da Mobilizac;ao de Recu r

sos, como os de Boschi e Valladares ( 1883) e Boschi ( 1987).

Os anos 80 trarao um panorama �ovo na prática e nu

teoría sobre os movimentos sociais populares urbanos. Na pr

tica, surgem novas lutas como pelo acesso a terra e por u 1

posse, pela moradia, expressas nas invasoes, ocupac;oes de 11

sas e prédios abandonados; articulac;ao do movimento dos tranH

portes; surgimento de organizac;oes macro entre as associac;< ••

de moradores; movimentos de favelados ou novos movimenLo

de luta pela moradia; movimentos de desempregados; movi

mentos pela saúde. Alguns movimentos perderam importan in,

como a Luta por Creches e o Movimento Contra os Loteament.o

Clandestinos, em Sao Paulo. O primeiro devido a desarticuln

Gao da luta das mulheres após a Anistia, ao gradual desapar

i mento do Movimento da Carestía - por brigas e disput.11

Movimentos sociais no Brasil na era da participa<;éio: 1978 l!)H!) ¡1¡

políticas internas -, e a rede de creches que a prefeitura mu

nicipal passou a construir na capital paulista, com a contraia­

<,:ao de inúmeras militantes do movimento para trabalhar nas

próprias creches. O segundo, a partir da Lei Lehmann - que

proibia e punía os responsáveis por loteamentos clandestinos

na capital, levando a um desencorajamento de atividades na

área da produc;ao de novos loteamentos populaires irregulares,

a diminuic;ao dos demandatários lesados.

Nos estudos sobre os movimentos sociais, algumas influen­

·ias difusas presentes ao final dos anos 70 se esclareceram. Isto

grac;as, também, a um crescimento da influencia de filósofos e

studiosos europeus, defensores de propostas tidas como novas:

f<'oucault, Castoriadis, Deleuze, Guattari, E. P. Thompson, Thoreau, Claus Offe etc. Pesquisar a identidade dos movimentos,

ouvir suas falas, captar suas práticas cotidianas foram se tornando os objetivos centrais nas preocupac;oes dos analistas, e nao

mais o estudo das determinac;oes estruturais da economía sobre as

ac;oes coletivas em andamento. Estudos iniciados na década de 70

vieram a luz sob a forma de teses, tais como os de Silvio Caccia

Bava, Vera Teles, Pedro J acobi, Ana Doimo, Goll.n etc.

As diferenc;as entre os movimentos sociais comec;am a ser

demarcadas. Conseqüentemente, a produc;ao foi se especializando, a exemplo das publicac;oes sobre o feminis�> e a mulher na

Hociedade, que tiveram em Eva Blay um centro gravitacional de

produc;ao em Sao Paulo.

A confusa.o conceitual comec;ou a se dissipar. Surgiram novos

'studos sobre os movimentos sociais entre os intelectuais bratúleiros, entre eles, Eder Sader. As contradic;oes da sociedade

deixarao o lugar central das investigac;oes para a procura dos

lementos que conferem identidade aos movimentos. As diferen­

<,:as sao pouco lembradas. N ovos núcleos de pesquisa sobre os

rnovimentos urbanos surgiram, destacando-se, em Sao Paulo,

os pesquisadores da USP, orientados por Lúcio Kowarick e Ruth

,ardoso, e os da PUC-SP, orientados por M. Carmo Falca.o, Maria

do Carmo Brant de Carvalho, M. Lúcia Carvalho, Lúcia Bógus,

Maura P. B.Véras, Aldaísa Sposati, Salvador Sandoval etc. Em

l�lorianópolis - na Universidade de Santa Catarina, formou-se

280 O paradigma latino-americano

um expresivo núcleo de estudo de movimentos sociais coorden

do por Ilse Scherer-Warren; além do trabalho de Paulo Krischk

naquela universidade. Em Belo Horizonte também formaram

se pesquisadores sobre a temática. Destaque-se ainda os núcl

os de pesquisas formados fora da universidade, como o CEDE

- Centro de Estudos de Cultura Contemporanea - e o CEBRAP

- Centro Brasileiro de Planejamento, em Sao Paulo; a FAS

- Federac;ao de Órgaos para Assistencia Social e Educacion 1

- e outras ONGs que abordaremos no capítulo seguinte.

As mudanc;as na conjuntura política brasileira e as polítl

cas participativas decorrentes da fase da Nova República fiz

ram com que outros profissionais, além dos sociólogos, antrop

logos, politicólogos, educadores e assistentes sociais, se inter 8

sassem pela temática. Dentre eles destacam-se os arquitetos

os profissionais da área de comunicac;ao, psicologia e direito.

Os anos 90 serao analisados mais detidamente no capítul

IX. Desde logo destacamos que o cenário dos movimentos so

ciais se altera no Brasil nesta década e com ele o quadro d

pesquisadores. Entre estes últimos, alguns passam a se preocu

par com os problemas da violencia, da exclusa.o social ou co

novas práticas civis e deixam a temática dos mQ-vimentos d

lado. A centralidade da maioria dos estudos passa a ser

redes de ONGs e os mecanismos institucionais da deinocra ·I

participativa. ONGs que funcionavam basicamente como m

deos de pesquisas, como o Instituto Pólis de Sao Paulo, reestru

turam-se em direc;ao a urna organizac;ao de assesssoria diretn

fazem de seu trabalho urna fonte de publicac;ao própria. Muito

pesquisadores dos movimentos sociais engajam-se neste nov

tipo de atividade nas ONGs, trabalhando em projetos atendt•

do demandas específicas. Algumas teses universitárias quo

tavam sendo elaboradas desde os anos 80 sao concluídas e p

blicadas. A produc;ao academica sobre os movimentos soci

continuou, mas nao com o mesmo ímpeto dos anos 80. Na úr

da educac;ao, arquitetura e do servic;o social ela declina. N

sociología e na política continua regular.

Cumpre registrar ainda que a produc;ao academica imh

OH movimentos sociais nas últimas décadas no Brasil criou u

Movimentos sociais no Brasil na era da participa(·1111: llJlH l l!.'111 ' H 1

grande acervo de conhecimento sobre a realidad ' 1 1 11r 101 1 11 I ,

Ocorreram centenas de encontros, seminários e publica<.;tWH. No

bancos de dados organizados, como o URBANDATA (um btUH'o

üe dados sobre estudos e instituic;oes sociais urbanal:l. V1 1'

Valadares, 199 1). Os movimentos sociais tem tido lugar cl1

ti staque nestes centros de informac;oes.

Ao final deste livro incluímos um quadro-síntese dos prin­

<'ipais movimentos sociais ocorridos na realidade brasileira a

partir de 1970. Trata-se do resumo de um mapeamento preliminar de urna nova publicac;ao que estamos organizando sobre

1• iclos históricos de movimentos sociais no Brasil a partir de

1 970 (vide Anexo I).

2 - Principais categorías teóricas utilizadas na

produ�ao brasileira a partir dos anos 70

No final dos anos 70, no Brasil, quando se falava em novos

111ovimentos sociais, em encontros, seminários e colóquios acad imicos, tinha-se bem claro de que fenómeno se estava tratando. Era sobre os movimentos sociais populares urbanos, parti1·1 1 larmente aqueles que se vinculavam as práticas da Igreja

1·11Lólica, na ala articulada a Teologia da Libertac;ao. A denomi1 1uc;ao buscava contrapor os novos movimentos sociais aos ditos

111 velhos, expressos no modelo clássico das soci�dades amigos

cll' bairros ou associac;oes de moradores. O que estava no cerne

da diferenciac;ao eram práticas sociais e um estilo de organizar

11 comunidade local de maneira totalmente distinta. Vários trahalhos apresentados entre 1977 e 1982 no Grupo de Trabalho

obre Movimentos Sociais Urbanos da ANPOCS, assim como o

l l'llbalho de Paul Singer no texto O pouo em mouimento ( 1981),

1 orroboram nossas afirmac;oes. Havia também um grande entuinsmo por parte dos pesquisadores da temática na época pelo

1 1 1 ráter inovador daquelas ac;oes, de forma que este entusiasmo

1·onfundiu por vezes a questao do novo com a da novidade que

1 11>1 movimentos traziam a tona. Isto fez com que alguns pesqui1 1dores exaltassem as novas práticas em termos de ac;oes pio1 1C'i ras, como se nunca dantes houvessem ocorrido. A categoría

X O paradigma latino-americano

to )rica básica enfatizada era a da autol}omia. Na realidadl •

traiava-se mais de urna estratégia política embutida no olhar

sobre os movimentos populares, pois reivindicava-se um duplo

d istanciamento. De um lado em relagao ao Estado autoritário.

e outro lado em relagao as práticas populistas e clientelistaH

presentes nas associagoes de moradores, nos sindicatos e na

relagoes políticas em geral (o corporativismo era também negu

do como prática nao-democrática e impeditivo para a manifi H

tagao das novas forgas sociais que estavam sufocadas no cená

rio de um regime militar autoritário).

Os fundamentos sobre a questao da autonomía eram difusoH.

Matrizes do socialismo libertário do século passado, assim como

do anarquismo, estavam embutidas, gerando concepgoes con

traditórias. Sabemos que o anarquismo foi um movimento dt

revolta do passado pré-industrial contra o presente, que rejei

tava a tradigao, a religiao e a Igreja, o Estado e a burocraciu,

e defendia as causas do progresso, da ciencia e -da tecnologiu .

Apoiava-se no desenvolvimento fundado no saber da razao,

acreditava nos processos educacionais como mola propulsora do

progresso. Retomava propostas do iluminismo e rejeitava qual

quer autoridade, pregando o socialismo libertário. Tudo i so

nao se coadunava com as diretrizes gerais das análises sobre OH

movimentos, nas quais se destacava, no geral, a análise mar

xista para compreender a realidade social e, simultaneamentt1,

armar estratégias para superá-la. Conforme já caracterizado

anteriormente, a abordagem do paradigma marxista enfatizn

mais os aspectos estruturais e analisa questoes da reprodm:;uo

da forga de trabalho, do consumo coletivo, da importancia H

tratégica dos movimentos para mudangas no próprio Estado

capitalista etc. A problemática da crise de hegemonia das elituH

é um outro ponto central nesses estudos.

Mas, embora tenham ocorrido alguns equívocos nas anál i

ses, dados pelas próprias contradigoes que traziam em seu in

terior, no plano da agao concreta elas contribuíram para subsi

diar um projeto de mudanga spcial em que os movimentos so

i is populares urbanos tinham papel de destaque. Eles er m

vi ios como fontes de poder social. A relagao dos movimento

·orn o Estado era vista em termos de antagonismo e oposiguo.

11: nfati

,. s -

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