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11/23/25

 


As preocupac;oes de ordem metodológica de Melucci se refletem em suas análises sobre a democracia e o sistema representativo no mundo contemporaneo, e nos explicam o porque do

crescente interesse por ela, na América Latina nos anos 90. Ele

afirma que é ilusório pensar que a democracia consiste meramente na competic;ao pelo acesso aos recursos governamentais.

A democracia em sociedades complexas requer condic;oes suficientes para que grupos sociais se auto-afirmem e sejam reconhecidos pelo que sao ou desejam ser. Estas condic;oes incluem

espac;os públicos independentes das instituic;oes e estruturas

governamentais e do sistema partidário. Espac;os públicos autónomos que representem novas formas de poder. E os movimentos sociais inserem-se nestes espac;os.

A questao que sempre preocupou os teóricos da MR -

quais as motivac;oes dos indivíduos ao participarem de um

O paradigma dos novos movimentos socia.is 1 63

1111 1vimento -, Melucci responde que ela nao pode ser conside1 11 In urna variável exclusivamente individual, porque os atores

1 111pre estao envolvidos em redes. Friedman e McAdam ( 1992)

1 . 111 1 bém trabalharam esta questao na linha de Melucci, afir11111 ndo que "a maioria dos movimentos sociais surge nao porque

l11divíduos isolados decidem participar de lutas. Antes, grupos

1 11.ubelecidos definem metas, planos, fazem acordos, estabele1 1 1m obriga<;oes etc. Em resumo, um movimento nunca é um

¡ ll'ocesso espontaneo, criado a partir apenas de necessidades ou

tl11 vontade de indivíduos isolados".

Para concluir este tópico, algumas considera<;oes a respeito

1 1111; lideran<;as dos movimentos sociais. Melucci destaca que sao

1 l ns que promovem a busca dos objetivos, desenvolvem estraté1 i ns e táticas para a a<;ao e formulam urna ideologia. A penetra<;ao

do movimento na sociedade, a lealdade e o envolvimento de seus

111 mbros, o consenso de diferentes grupos socia.is, tudo depende

d11 a<;ao dos líderes (Melucci, 1996: 332). Ou seja, as lideran<;as sao

111 'mentos-chave para construir e manter a identidade coletiva de

11m grupo, para gerar inova<;oes assim como para articular o movimento em suas conexoes e redes.

r, - A corrente alema: Claus Offe e a abordagem

neo marxista

Vários autores caracterizam o trabalho de Claus Offe dentro

el.a matriz neomarxista ou pós-marxista. Trata-se de urna abordagem que segue a teoria crítica iniciada pela Escola de Frankf"urt e bastante debatida contemporaneamente nos trabalhos de

1 Iabermas. Off e nao possui urna longa lista de trabalhos sobre

os NMS, mas publicou em 1985 um artigo na revista Social

Research que, assim como o de Jean Cohen, tornou-se emblemáLico para a própria constru<;ao do paradigma dos Novos Movimentos Sociais. Em 1988, este artigo se desdobrou em um livro,

Partidos políticos y nuevos movimientos sociales (Madri, Sistema).

Off e analisa nao apenas os movimentos sociais mas todo o cenário

da conjuntura sociopolítica após a Segunda Guerra Mundial, no

sistema capitalista avan<;ado; ao contrário de Touraine - que

1 64 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

prioriza a análise sociocultural - e de Melucci - que prioriza 11

psicossocial -, Off e prioriza a análise política, fazendo articulac;ocH

entre o campo político e o sociocultural. Ele afirma que "em qualquer

momento e em qualquer sociedade dada, há sempre urna configura

c;ao 'hegemónica' dos temas que, em geral, se consideram prioritárioM

e que sejam tratados como centrais" ( 1988: 169). Neste sentido, OM

temas políticos-chave predominantes desde a Primeira Guerr

Mundial até os anos 70 foram o do crescimento económico e o da

distribuic;ao da seguridade social.

Tomando a Alemanha como unidade de estudo, ele analisou

as teorias conservadoras que tomaram conta do debate internacional no final dos anos 70 e 80, e que analisavam a natureza

da crise e do desenvolvimento capitalista, em especial a crise

fiscal e de legitimidade do Estado de bem-estar social, a crise dos

partidos políticos ocidentais e a da própria esquerda. Adotando os

procedimentos da análise dialética, ele buscou a genese dos problemas na alterac;ao das relac;oes sociais, procurando ver as transformac;oes e os reflexos nas necessidades materiais e simbólicas da

sociedade, numa etapa de transic;ao do capitalismo que ele caracterizou como desorganizada.

Baseando-se nas análises de Habermas sobre o aprofundamento e a irreversibilidade das formas de dominac;ao e de privac;ao do mundo contemporaneo quando do exame das razoes dos

efeitos colaterais negativos das formas estabelecidas de racionalidade económica e política já nao estarem concentrados em

urna classe específica, mas dispersos no tempo e no espac;o, numa

ampla variedade de formas; baseando-se também em Foucault,

quanto a questao da natureza dispersa do poder e da impotencia

de controle quando da existencia de um conflito central e localizado (pelo fato de que os conflitos passaram a ser equacionados

com custos para vários setores da sociedade), Offe conclui pela

inadequac;ao da concepc;ao tradicional marxista sobre conflitos­

-chave e estruturas institucionais específicas. Apoiando-se ainda

em Habermas, Offe analisou o aprofundamento das privac;oes

que af etam os planos fundamentais da vida física, pessoal e

social dos indivíduos, levando a colonizac;ao do mundo da vida,

gerando novas formas de controle social, no ambito das informac;oes, processos e instituic;oes geradoras de símbolos, relac;oes

O paradigma dos novas mouimentos sociais 1 65

111 •rpessoais etc. (Offe, 1988: 208-210). A incapacidade das ins1 l 11 ic;oes políticas e económicas para perceber e atuar eficazmente

1 1hre as privagoes, os riscos e as ameagas globais que causam

1 L1 t ria levando a paralisagao da capacidade de aprendizagem e

tl11 uutotransformagao das instituigoes de racionalidade tecnoló1 ku, económica, política e militar.

Neste cenário, delineado por análises de cunho mais estrul 11 ral, surgem os "novos movimentos sociais, cujo modo de atuar

pol iLicamente aparece como urna resposta racional a um conjunto

1 pecífico de problemas" (Offe, 1988: 2 12). Contesta-se portanto

11 L •se da irracionalidade dos movimentos e destacam-se as condi­

' Ol'S da tese das respostas racionais: as demandas e reivindica100< 'S nao sao apenas dos ativistas mas compartilhadas por urna

1 1rnpla comunidade de pessoas, competentes e bem informadas,

1 que nao esta.o envolvidas em movimentos políticos: isto constil 11 i urna das principais causas dos NMS. A constituigao dos movi111 ntos surge a partir dos grupos mais propensos a serem afetat lw-i pelas conseqüencias negativas dos processos pelos quais lu1 nm. Os valores proclamados e defendidos fazem parte do repertó1 io da cultura dominante, e é difícil caracterizá-los como prove11i ntes de subculturas, ou de culturas pós-modernas, como quel'Ptn alguns analistas. Os modos de comportamento extra-institu1•1onais adotados pelos ativistas do novo paradigma sao usados

11 justificados devido a Íncapacidade de aprender e a falta estrul 11 ral de capacidade de resposta por parte das instituigoes estabel 1 •cidas, mas nao atuam em nome de nenhuma doutrina política

1·1 1volucionária (Offe, 1988: 2 12).

Off e se utiliza da concepc;ao marxista clássica de ideología

romo processo de consciencia deformada e que contém motivagoes

11 ·ultas. Ele detecta novas formas de expressao da vontade política

1 10 redor de problemas da vida cotidiana e da construgao da identidade de novos atores sociais a partir do aumento de ideologías e

el atitudes que levam as pessoas a servir-se cada vez �ais do

1· •pertório dos direitos democráticos existentes. Ele chama a aten­

·uo para a busca de um controle mais amplo e próximo das elites

políticas existentes. Embora tenha feíto prognósticos denominados

"dramáticos" para o desenvolvimento político das sociedades ociden1.uis - e a história tem registrado justamente o contrário (o drama

1 66 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

maior tem sido com o modelo nao-capitalista, porque o capitalista

tem construído novas caminhos com a globaliza<;;ao da economía,

a desativa<;;ao das políticas públicas etc.) -, Offe desenhou com

clareza o cenário dos anos 80 em dois paradigmas explicativos daH

a<;;oes coletivas, a saber: o antigo - dominante após a Segunda

Guerra Mundial -, e o novo - a partir dos anos 70. Utilizando

urna metodología com categorias da nova esquerda marxista, centrada em valores, temas, atores e práticas institucionais, ele formu

lou o seguinte cenário (Offe, 1988: 182):

O antigo paradigma caracterizava-se pela enfase no crescimento e na seguridade social, alicer<;;ado em tres argumentos: os empresários e gerentes de empresas atuavam em mercados livres segundo critérios de rentabilidade; esta liberdade de propriedade e d

inversao era justificada a partir de um discurso de filosofia moral

e direito natural, e o esquema constitucional do pós-guerra era urna

democracia política do tipo representativa. Os atores sociais atuam

no antigo paradigma como grupos económicos de interesse; os conteúdos básicos de suas a<;;oes sao: crescimento económico e distribui­

<;;ao, seguridade militar e social, e progresso material. Os valores

básicos sao: liberdade e seguran<;;a no consumo privado e progresso

material. O modo de atuar se divide em: interno - organiza<;;oes

formais, associa<;;oes representativas em grande escala; e externo -

intermedia<;;ao pluralista ou corporativista de interesses, competi<;;ao

entre partidos políticos e regra da maioria.

O novo paradigma pode também ser chamado paradigma do

"modo de vida" e abrange, entre outros, os Novos Movimentos Sociais. A partir de urna listagem organizada por Melucci ( 1981: 98),

Offe cita os seguintes movimentos: estudantil, feminista, de libera­

<;;ao sexual, movimento de cidadaos, lutas ecológicas, mobiliza<;;ao de

consumidores e usuários de servi<;;os, de minorias étnicas e lingüísticas, de comunidades e contraculturas, relativos as questoes de

saneamento, saúde etc. Offe acrescenta os movimentos pela paz,

afirmando que politizam questoes que nao podem ser "codificadas"

com os códigos existentes no universo da a<;;ao social, segundo a

teoría liberal, que distinguía as a<;;oes entre públicas e privadas.

Reivindicando urna categoría intermediária, nem pública nem privada, resultado da a<;;ao coletiva, o campo de a<;;ao dos Novos Movimentos Sociais se faz num espa<;;o de política nao-institucional, cuja

O paradigma dos novas movimentos sociais 1 67

1-1tencia nao está prevista nas cfoutrinas nem na prática da demo1 1 1 1 ·ia liberal e do Estado de bem-estar social. Os atores socia.is no

1111vo paradigma usualmente sao provenientes das camadas médias

1• h •m informados; atuam em nome da coletividade, em func;ao de

1 1 111teúdos que tratam dos direitos humanos, da paz, da ecología, de

, 1 H -riminac;ües, das formas alienadas de trabalho etc. Os valores

l 1111-1icos defendidos sao autonomía pessoal e identidade, em oposic;ao

11 formas de controle centralizadas. Os modos de atuar sao, intema111onte, predominancia de informalidade, espontaneidade, babeo grau

do diferenciac;ao horizontal e vertical. O uso de métodos nao-convt incionais ocorre nao por desconhecimento das formas convencio1 111i , mas por negá-las ou por conhecer suas limitac;ües.

Assim, para Offe, os movimentos sociais sao elementos novos

1 lontro de urna nova ordem que estaría se criando. Eles reivindim m seu reconhecimento como interlocutores válidos, atuam na

1 1-1íera pública e privada. Objetivam a interferencia em políticas do

11:1-1Lado e em hábitos e valores da sociedade, articulando-se em

l omo de objetivos concretos. O que é novo é o paradigma da ac;ao,

q ue tem caráter eminentemente político. Os valores defendidos

p •los movimentos em si nao contero nada de novo, pois eles se

1·1 f erem "aos princípios e exigencias mora.is acerca da dignidade e

du autonomía da pessoa, da integridade das condic;oes fisicas da

vida, de igualdade e participac;ao e de formas pacíficas e solidárias

d ' organizac;ao social. Todos estes valores e normas mora.is

propugnados pelos mantenedores do novo paradigma político esLao firmemente enraizados na filosofia política (assim como nas

L orias estéticas) moderna dos últimos séculos, e foram herdados

dos movimentos progressistas tanto da burguesía como da classe

operária ( 1988: 213). Ele concluí que os movimentos nao sao nem

pós-modemos (no sentido de assumir novos valores que nao tenham sido defendidos pela sociedade mais ampla), nem pré-molemos (resíduos de um passado idílico e irracional).

Apesar de compartilharmos da qua.se totalidade das formula­

<,:6es de Off e, acreditamos que há a generalizac;ao de um conjunto de

movimentos com características diferentes tanto quanto as problemáticas envolvidas como em relac;ao aos contextos sócio-históricos

m que ocorrem, gerando problemas nas suas análises. Os movimentos de gays e lésbicas, por exemplo, nao se enquadram na úl-

1 68 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

tima citac;ao, pois criaram nas últimas duas décadas urna série d11

novos valores que remetem a normas sociais que extrapolarn o

simples respeito a dignidade da pessoa humana ou a liberdadu

individual dos cidadaos. Eles criaram novos códigos éticos, abriram

novas possibilidades para seus direitos, como a escolha do próprio

sexo, por exemplo. Nao se trata de um valor defendido pela socio

dade como um todo; ao contrário, existe forte resistencia a esta d •

manda, por parte de conservadores e nao-conservadores, principal

mente nos países de tradic;ao religiosa crista-católica. Mas se tratu

de um valor novo, e é este o ponto que estamos querendo destacar.

Sublinhe-se, entretanto, a advertencia do próprio Offe: "O que est

em jogo nao sao os valores, sena.o o modo como eles se realizam

a relac;ao que se supoe entre a satisfaga.o de valores distintos" (Off e,

1988: 214). Trata-se, em síntese, de um novo paradigma político do

crítica "moderna" a modernizac;ao em marcha, usando os próprim1

termos do autor.

Off e destaca que, apesar das lacunas metodológicas para urna

boa teoría política, nao cabe nenhuma dúvida de que os atores, os

valores, os temas que lhes dao conteúdo, e os modos de atuar dos

movimentos sociais, no novo paradigma, expandiram sua base

social e seu impacto político; podemos medir sua forc;a individual

ou coletiva por seus modos de atuar tanto institucional como nao­

-institucionalmente, ou por seus impactos e resultados. Ele sugere

que para se obter urna avaliac;ao mais confiável "da forc;a e potencial da base social do novo paradigma devem-se combinar dados

acerca de sua situagao socioestrutural na sociedade com teorias acerca das possíveis transformac;oes e mudanc;as futuras na estrutura

social. Com este método, poderíamos obter urna resposta a questao do papel da base socioestrutural dos NMS" (Offe, 1988: 194).

Sugere ainda análises comparativas entre distintos movimentos,

assim como o estudo comparativo de movimentos em países distintos. Podemos observar nos destaques metodológicos do autor

suas diferenc;as em relac;ao as abordagens de Melucci e Touraine.

A centralidade na ac;ao social como ac;ao política e sua análise dos

movimentos em termos de forc;a social remetem a Gramsci.

Off e faz críticas tanto aos liberais-conservadores como aos

marxistas-ortodoxos. Ele critica, por exemplo, o uso das teses conservadoras de Michels sobre a lei de ferro das oligarquías; ve nas

O paradigma dos nouos mouimentos sociais 169

11 HOCia<;6es em geral tendencia a descentraliza<;ao e maior participl l<;' o de seus membros. Ao contrário das teses da esquerda tradi1 tnnal, centradas no controle e centraliza<;ao do poder, nos sindica1 nH e partidos por exemplo, Offe ve tendencia a d.emocratizac.;ao das

i 1 1HLitui<;6es em geral e urna certa dose de desinstitucionaliza<;ao ge­

'" •ralizada, tendencias estas resultantes do próprio desenvolvimento

1·1 1pitalista e das propostas e ideologias dos novos grupos emergen­

! 1 •H. Em rela<;ao aos N ovos Movimentos Sociais, sem entrar na pole111 ica entre estes e a MR, destaca seu caráter subjetivo e psicocog11i Livo, com procedimentos e métodos empregados mais adequados

1 10 estudo de atores individuais que coletivos; em contraposi<;ao ao

l'l lráter estrutural, objetivo-racional, sistemico e macrossocial e insti1.ucional do primeiro. Ele conclui pela necessidade de elabora<;ao de

11rna teoría integral para os movimentos sociais, que fa<;a urna ponte

1•ntre as explica<;6es causais e as auto-interpreta<;6es, propondo "respostas racionais as condi<;oes" e que as teoriza<;6es "dos" movimentos

( MR) absorvam o conhecimento causal existente "sobre" eles (NMS)

( ffe, 1988: 206).

Ao analisar os movimentos sociais, Offe também se utiliza das

categorías de estabilidade e equilibrio da ordem social. Quando a

Hociedade entra em crise, há desequilibrio e instabilidade. Isto faz

com que o Estado perca sua legitimidade <liante dos cidadaos. ConcreLamente, este processo tem ocorrido nas raízes do capitalismo no

•stágio do Estado de bem-estar social, no qual há um esgotamento

do modelo de convivencia entre as formas de atua<;ao deste Estado

e a operacionaliza<;ao da democracia representativa. As disparidades de condi<;6es de vida de alguns setores daqueles países (como as

dos imigrantes, dos negros etc.) e a incapacidade do Estado de integrá-los teriam sido urna das causas da crise e d.a perda de legitimidade. Ele destaca, entretanto, a importancia de se analisar o contexto

político no qual os movimentos operam, visando identificar suas

causas e seus objetivos concretos.

Quanto ao futuro dos movimentos, Offo chama a aten<;ao

para as dificuldades de sua continuidade. Datas comemorativas,

lugares simbólicos, grandes eventos como marchas e congressos

nao sao suficientes. Eles se assentam, geralmente, em estruturas

organizativas frágeis, tipo comites de coordiena<;ao, sem regras

claras para resolver os conflitos, baseados no trabalho voluntário,

1 70 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

com perspectivas estratégicas rudimentares e compromissos de

seus participantes ad hoc e nao permanentes, sem líderes mareantes e com muita suspeita sobre todos os que se poem como

porta-vozes do movimento. O resultado é o pragmatismo, o pluralismo e a experimenta�ao de diferentes ideologías, sem programas

políticos definidos. As lutas defensivas contra as irracionalidades

da moderniza�ao, para atingirem seus objetivos no novo paradigma da a�ao política, necessitam de novas leis, de alian�as com as

for�as parlamentares existentes ou a se formar. Ele examina a

tendencia de alian�as dos NMS com a esquerda tradicional, com

a corrente liberal-conservadora etc. e caracteriza cenários onde "a

imagem dos movimentos nao responde somente ao que sao por

sua composi�ao social, por suas posi�oes e reivindica�oes, mas

também a imagem de como sao percebidos, interpretam e tratam

simbolicamente as elites políticas e do grau em que as respostas

das tais elites produzem precisamente o que predizem, determinando o peso relativo dos diferentes componentes dos distintos

movimentos" (Offe, 1988: 235).

Offe publicou o livro que estamos sistematizando acima em

1988, quando a globaliza�ao da economia estava em marcha mas

nao era ainda um processo hegemónico em algumas regioes, como

na América Latina. Ele detecta, entretanto, a partir de um aumento

da tensa.o internacional, de índices de crescimento económico estagnados ou negativos, de cotas de desemprego crescente e da rápida

deteriora�ao dos sistemas de seguridade social, que estava havendo

um bloqueio na agenda política e nas possibilidades objetivas de

as elites responderem favoravelmente as reivindica�oes dos movimentos sociais. Estas tendencias foram diagnosticadas como favoráveis ao retorno ao antigo paradigma, sustentado sobre demandas de crescimento e políticas de bem-estar social.

Nos anos 90, Offe se dedica a estudar a rela�ao dos movimentos e grupos de interesse na constru�ao de processos democráticos (Offe, 1995). Em linhas gerais, e considerando-se as diferen�as históricas, a abordagem de Offe é, dentre as que apresentamos até agora, a mais significativa, porque combina as

perspectivas macro e micro na análise do social.

r··- -�

l CAPÍTULO V

O PARADIGMA MARXISTA

NA ANÁLISE DC)S

MOVIMENTOS SOCIAIS

1 - Características gerais: as abordagens clássicas

e a neolllarxista

A análise dos movimentos sociais sob o prisma do mandsmo refere-se a processos de lutas sociais voltadas para a transformac;ao das condic;oes existentes na realidade social, de carencias económicas e/ou opressao sociopolítica e cultural. Nao

He trata do estudo das revoluc;6es em si, também tratado por

Marx e alguns marxistas, mas do processo de luta histórica

das classes e camadas sociais em situac;ao de subordinac;ao. As

revoluc;6es sao pontos deste processo, qua.ndo há ruptura da

"ordem" dominante, quebra da hegemonía do poder das elites

e confrontac;ao das forc;as sociopolíticas em luta, ofensivas ou

defensivas.

O paradigma marxista aplicado a análise dos movimentos

sociais tem sido visto, de forma generalizada, erroneamente,

como sinónimo de análise do movimento operário e, como decorrencia, pertencente ªº universo do "antigo" paradigma, que se

contraproria ao novo, analisado no capítulo IV. Na realidade

esta posic;ao desconhece algumas análises sobre os movimentos

sociais nao-operários, tais como os reivindicatórios de bens e

171

1 72 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

melhorias coletivas, principalmente de equipamentos públicos,

realizadas nos anos 70 e 80. Outra diston;ao freqüente é a gcneralizac;ao do paradigma em urna só teoria, sem distinc;ao d

abordagens ortodoxas e nao-ortodoxas, mesmo no estudo da classe

operária. Assim, ignora-se que as análises da classe operária

feitas pela corrente dos historiadores marxistas ingleses foram

urna releitura do marr.ismo ortodoxo, deslocando o eixo das determinac;oes exclusivamente económicas para outros campos da

vida social, como o cultural. Embora estes estudos mantenham

as categorias básicas marxistas, representam urna releitura da

ala do marxismo clássico, tradicional, tido como ortodoxo.

Sabemos que o paradigma marxista clássico tem duas grandes correntes. Urna ligada ao jovem Marx e a seus estudos

sobre a consciencia, a alienac;ao e a ideologia etc., e que criou

urna tradic;ao histórica humanista que teve continuidade nos

trabalhos de Rosa Luxemburgo, Gramsci, Lukács, e da Escola

de Frankfurt após a Segunda Guerra Mundial. Será esta leitura

do marxismo que alimentará as análises contemporaneas sobre

os movimentos sociais. A outra corrente decorre dos trabalhos

do Marx "maduro", após 1850, e seus estudos sobre o desenvolvimento do capital, em que os conceitos básicos serao formac;ao

social, forc;as produtivas, relac;oes de produc;ao, superestrutura,

ideologia, determinac;ao em última instancia, mais-valia etc. Esta

última corrente privilegia os fatores econ0micos, macroestruturais da sociedade. O conflito entre capital e trabalho gera a

luta de classes, principal motor da história. A classe operária

industrial tem primazia no processo de luta social, e o movimento operário desempenha o papel de vanguarda nas transformac;oes sociais. Ele, junto com o partido político e com intelectuais organicos a classe operária, teria urna missao na história: transformar a sociedade das desigualdades sociais em

outra, sem opressao ou oprimidos. O privilégio dado a classe

operária se explicaria pelo papel que ela ocupa no processo de

produc;ao - arena central do processo de conflito social - e

pelas contradic;oes sociais do próprio sistema capitalista naquele processo. A classe operária seria o agente principal de um

novo devir histórico por ser a negac;ao de seu oponente básico:

a burguesia. Estes parametros gerais geraram leituras mecani-

O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 73

1 Ht.as e deterministas da realidade social, como as predominan11 H na Segunda Internacional, nas primeiras décadas deste

1 1<·ulo, ou as realizadas durante o período :stalinista na Rússia.

l •: lns foram rejeitadas tanto por teóricos nao-marxistas como

por marxistas. Entre estes últimos estao Manuel Castells, Jean

l 10.i kine, Claus Off e, Laclau e a corrente dos historiadores lide1·11da por Hobsbawm, E. P. Thompson e G. Rudé, os quais cons1 i Luíram a corren te de estudo sobre os movimentos sociais na

l•:uropa sob o paradigma denor,1inado neomarxista. Trata-se de

1 HLudos que significaram urna releitura do marxismo ortodoxo.

A abordagem dos fatores políticos tem centralidade, e a política

pnssou a ser enfocada do ponto de vista de urna cultura política,

1·osultante das inovac;6es democráticas, relacionadas com as experiencias dos movimentos sociais, e tem papel tao relevante quanto

11 economia no desenvolvimento dos processos sociais históricos.

1 )uas grandes referencias fundamentaram esta releitura: a teoria

da alienac;ao, desenvolvida por Lukács ( 1960) e pela Escola de

l<'rankfurt, e a de Gramsci sobre a hegemonia. A primeira aborda

n alienac;ao "em termos da dominac;ao dos sujeitos por forc;as

nlheias que impedem o pleno desenvolvimento de suas capacidades humanas e a emancipac;ao como a libertac;ao das garras destas

IOrc;as alheias, sejam elas "forc;as da natureza" ou advindas da

organizac;ao da sociedade" (Assies, 1990: ��4).

Entretanto, devemos reconhecer que o marxismo, aplicado

ao estudo dos movimentos sociais operários e nao-operários,

nao é apenas urna teoria explicativa mas é também urna teoria

orientadora para os próprios movimentos. Por isto muitas vezes I' suas análises se assemelham a um guia de ac;ao, porque estilo

voltadas nao apenas para o entendimento analítico dos problemas envolvidos mas refletindo a prática que se tornará práxis

histórica.

As teorias marxistas sobre os movimentos sociais nao abandonaram a problemática das classes sociais. Ela é utilizada

para refletir sobre a origem dos participantes, os interesses do

movimento, assim como o programa ideológico que fundamenta

suas ac;6es. Na abordagem clássica marxista, os aspectos organizacionais do movimento interessavam na medida em que eram

1 72 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

melhorias coletivas, principalmente de equipamentos públicos,

realizadas nos anos 70 e 80. Outra diston;ao freqüente é a generaliza<;ao do paradigma em urna só teoría, sem distin<;ao de

abordagens ortodoxas e nao-ortodoxas, mesmo no estudo da classe

operária. Assim, ignora-se que as análises da classe operária

feítas pela corrente dos historiadores marxistas ingleses foram

urna releitura do marxismo ortodoxo, deslocando o eixo das determinac;oes exclusivamente económicas para outros campos da

vida social, como o cultural. Embora estes estudos mantenham

as categorías básicas marxistas, representam urna releitura da

ala do marxismo clássico, tradicional, tido como ortodoxo.

Sabemos que o paradigma marxista clássico tem duas grandes correntes. Urna ligada ao jovem Marx e a seus estudos

sobre a consciencia, a alienac;ao e a ideología etc., e que criou

urna tradic;ao histórica humanista que teve continuidade nos

trabalhos de Rosa Luxemburgo, Gramsci, Lukács, e da Escola

de Frankfurt após a Segunda Guerra Mundial. Será esta leitura

do marxismo que alimentará as análises contemporaneas sobre

os movimentos sociais. A outra corrente decorre dos trabalhos

do Marx "maduro", após 1850, e seus estudos sobre o desenvolvimento do capital, em que os conceitos básicos serao formac;ao

social, forc;as produtivas, relac;oes de produc;ao, superestrutura,

ideología, determinac;ao em última instancia, mais-valia etc. Esta

última corrente privilegia os fatores economicos, macroestruturais da sociedade. O conflito entre capital e trabalho gera a

luta de classes, principal motor da história. A classe operária

industrial tem primazia no processo de luta social, e o movimento operário desempenha o papel de vanguarda nas transforma<;oes sociais. Ele, junto com o partido político e com intelectuais organicos a classe operária, teria urna missao na história: transformar a sociedade das desigualdades sociais em

outra, sem opressao ou oprimidos. O privilégio dado a classe

operária se explicaría pelo papel que ela ocupa no processo de

produc;ao - arena central do processo de conflito social - e

pelas contradic;oes sociais do próprio sistema capitalista naquele processo. A classe operária seria o agente principal de um

novo devir histórico por ser a negagao de seu oponente básico:

a burguesía. Estes parametros gerais geraram leituras mecani-

O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 73

1 tt l.as e deterministas da realidade social, como as predominan­

! 1 H na Segunda Internacional, nas primeiras décadas deste

1wulo, ou as realizadas durante o período stalinista na Rússia.

11:las foram rejeitadas tanto por teóricos nao-marxistas como

por marxistas. Entre estes últimos estao Manuel Castells, Jean

l .oj kine, Claus Off e, Laclau e a corren te dos historiadores lide1 1 1cla por Hobsbawm, E. P. Thompson e G. Rudé, os quais cons11 (,uíram a corren te de estudo sobre os movimentos sociais na

11:\l ropa sob o paradigma denorainado neomarxista. Trata-se de

t •HLudos que significaram urna releitura do marxismo ortodoxo.

A abordagem dos fatores políticos tem centralidade, e a política

passou a ser enfocada do ponto de vista de urna cultura política,

1· •sultante das inova�oes democráticas, relacionadas com as experiencias dos movimentos sociais, e tem papel tao relevante quanto

11 economía no desenvolvimento dos processos sociais históricos.

Duas grandes referencias fundamentaram esta releitura: a teoría

da aliena�ao, desenvolvida por Lukács ( IH60) e pela Escola de

l•'rankfurt, e a de Gramsci sobre a hegemonía. A primeira aborda

a aliena�ao "em termos da domina�ao dos sujeitos por for�as

11 lheias que impedem o pleno desenvolvimento de suas capacidades humanas e a emancipa�ao como a liberta�ao das garras destas

f'on;;as alheias, sejam elas "for�as da natureza" ou advindas da

organiza�ao da sociedade" (Assies, 1990: ��4).

Entretanto, <levemos reconhecer que o marxismo, aplicado

ao estudo dos movimentos sociais operários e nao-operários,

nao é apenas urna teoría explicativa mas é também urna teoría

orientadora para os próprios movimentos. Por isto muitas vezes

suas análises se assemelham a um guia de a�ao, porque estao

voltadas nao apenas para o entendimento analítico dos problemas envolvidos mas refletindo a prática que se tornará práxis

histórica.

As teorías marxistas sobre os movimentos sociais nao abandonaram a problemática das classes sociais. Ela é utilizada

para refletir sobre a origem dos participantes, os interesses do

movimento, assim como o programa ideológico que fundamenta

suas a�oes. Na abordagem clássica marxista, os aspectos organizacionais do movimento interessavam na medida em que eram

1 74 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

um dos fatores geradores de consciencia social, mas nas análises dos movimentos em si eles quase nao apareciam, e este

um dos pontos de crítica do paradigma americano aos marxistas, bastante centrado na análise institucional das organizac;oes. O que é destacado nos estudos marxistas contemporaneos

é que os movimentos nao surgem espontaneamente. O que gera

os movimentos sociais sao organizac;oes de cidadaos, de consumidores, de usuários de bens e servic;os que atuam junto a

bases sociais mobilizadas por problemas decorrentes de seus

interesses cotidianos. Eles nao existem a priori, tornam-se movimentos pelas ac;oes práticas dos homens na história. Organizac;ao e consciencia serao fatores decisivos para explicar o seu

desenrolar. A questao da existencia de urna lógica no processo

de desenvolvimento histórico é consenso dentro do approach

marxista. Isto significa que a realidade necessita de ferramentas da racionalidade científica para ser entendida, contém outras explicac;oes que sua aparencia imediata nao revela. Por

meio da objetividade pode-se ter acesso a forma e aos modos de

como os fatos, fenómenos e acontecimentos da realidade ocorrem e por que sao desta forma e se apresentam de outra. O

debate gira em torno da determinac;ao ou nao desta lógica, da

hierarquia ou nao dos setores que compoem as refac;oes sociais

dos homens entre si e com a natureza.

Assies ( 1990) destaca que elementos como socializac;ao,

processo educativo, interac;ao social, autoconsciencia, nao-consciencia, identidades coletiva e individual baseadas em fatores

de genero, preferencias sexuais, etnicidade etc. permaneceram

alheios as principais correntes marxistas de análise e reflexao.

O processo político e seus níveis de autonomia também nao foi

um ponto central naquelas análises. Por isso, os temas que

serao destacados pela maioria dos estudiosos marxistas dos movimentos sociais tem como ponto de partida as questoes estruturais, de forma a ter urna base para o entendimento dos conflitos sociais.

Scott ( 1990) afirma que os movimentos sociais tardaram a

aparecer nas abordagens marxistas, ortodoxas ou neomarxistas,

O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 75

p1 1 1·que nas primeiras os movimentos de classe eram vistos como

11 paradigma" e para as segundas haveria urna subordinac;ao

d11 outros tipos de movimentos aos movimentos de classe. Scott

1 l.11 Castells ( 1978) em sua análise da ideologia dos ambiental Mt.us como apolítica. Movimentos que nao eram de classe seriam

v HLos até mesmo com certa hostilidade.

Seguindo os mesmos passos metodológicos utilizados no

1 Ludo dos paradigmas e teorias anteriores, vamos caracterizar

11 matrizes referenciais clássicas marxistas que embasaram as

1•1 1 rrentes teóricas contemporaneas sobre os movimentos sociais

11 ste paradigma. Iniciaremos pelo próprio Marx, tomando aspocios de sua obra que remetem a problemática dos movimen1 w:> sociais e constituem o acervo de seu legado para a análise

obre os movimentos. O mesmo procedimento será utilizado

para os outros clássicos do marxismo, seledonados dentro dos

objetivos deste trabalho, a saber: Lenin, Rosa Luxemburgo,

'l'rotsky, Mao Tsé-tung e Antonio Gramsci. Nao entraremos na

polemica de suas divergencias ou polemicas e correntes políti1·as que geraram entre si. Apenas resumiremos pontos nas obras

que tratam dos movimentos ou serviram de fundamentos a

L orias sobre eles. Em alguns casos, a explicitac;ao de alguns

pontos é importante por ter servido nao como parametro apli­

·ável mas como forma que foi contestada, gerando outros olhares sobre a problemática da organizac;ao dos subordinados nos

movimentos sociais. Como exemplo, apresentaremos certas posic;oes de Lenin em relac;ao a organizac;ao conspirativa objetivando

a tomada do poder pela via revolucionária. Procuraremos destacar

as formas como foram analisadas algumas categorías como ideologia, consciencia de classe, partido, Estado etc.

Após a apresentac;ao dos fundamentos teóricos dos clássicos marxistas, abordaremos duas correntes básicas de análise

dos movimentos sociais já citadas acima: aquelas sobre os movimentos sociais urbanos realizadas por M. Castells, J. Lojkine

e J. Borja; e os estudos sobre o movimento social dos trabalhadores realizados pelos historiadores europeus, especialmente

ingleses, com destaque para os trabalhos de Hobsbawm, E. P.

Thompson e G. Rudé.

1 76 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

2 - Os fundamentos dos clássicos

2. 1 - Marx e os movimentos sociais

Sabemos que Marx nao se preocupou em criar urna teoria

específica sobre os movimentos sociais, sobre a classe operária,

o Estado ou qualquer outro ponto específico. Ele desenvolveu

um estudo da sociedade capitalista, a partir de sua genese histórica, e localizou no estudo da mercadoria o ponto de partida

para a compreensao de todo o processo de acumulac;ao e desenvolvimento das relac;oes sociais capitalistas. Por isso O capital

tem como ponto de partida o estudo da mercadoria. Ele é a

síntese de estudos anteriores contidos nos "Grundrisse", o chamado borrador ou primeira versa.o de O capital. O estudo da

mercadoria o levou a formulac;ao da teoria do valor e a caracterizac;ao de leis fundamentais que explicam o desenvolvimento

social. A mais-valia, as formas de acumulac;ao simples e ampliada, a jornada de trabalho, suas lutas e as estratégias da burguesia surgem dessas análises. O desenrolar das relac;oes capitalistas no interior das unidades produtivas levou a reflexao

sobre urna categoria que se tornará central no estudo do movimento social da classe operária e da própria burguesia: a práxis

social.

O termo práxis vem da Antiguidade. Na obra de Marx ele

está presente como elemento fundamental de transformac;ao da

sociedade e da natureza pela ac;ao dos homens. A práxis significativa refere-se a práxis transformadora do social, que se realiza em conexa.o com a atividade teórica, por meio da atividade

produtiva e/ou da atividade política. No campo da produc;ao

teórica, o conceito de práxis é fundamental no marxismo, como

articulador da teoria a prática. A práxis teórica é aquela que

possibilita a crítica, a interpretac;ao e a elaborac;ao de projetos

de transformac;ao significativos. A práxis como fruto da atividade produtiva é a mais importante no mundo social. Ela tem

como base fundamental o mundo do trabalho. A práxis política

surge como articulac;ao entre a práxis teórica e a práxis produtiva propriamente dita, mediada pelas condic;oes estruturais de

desenvolvimento do processo social.

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O paradigma marxista na análise dos rrwvimentos sociais 1 77

N este trabalho, nos interessa a práxis política como parte do

11•1:-1gate da categoria movimento social em Marx e sua contribuigao

pn ra a análise sobre os movimentos sociais. Em suas análises

l t iHtóricas, especialmente em Luta de classes na Franr;a ( 1850),

f)<'zoito Brumário de Luiz Bonaparte ( 1852) e Guerra Civil na

/1'ranc;a ( 1871), Marx explorou mais intensamente a questao da

práxis política dos movimentos.

Ilse Scherer-Warren ( 1987), num dos raros textos existen1 1 ·1:; sobre a contribuigao de Marx para a análise dos movimentos

ociais, observou que "Marx foi um dos mais importantes criadores de um projeto de transformagao radical da estrutura so1• i nl, projeto este de superagao das condigoes de opressao de

l'lasse. Para sua realizagao, além do amadurecimento de condi1·0 'S estruturais propícias, exige-se também urna práxis revolul' ionária das classes exploradas. A efetivagao desta práxis, po1·1•m, requer a formagao da consciencia de classe e de urna ideología autónoma de forma organizada, para as quais sugere o

pa rtido de classe". Exemplificando, a partir de citagoes da própria obra de Marx, Scherer-Warren conclui: "A manifestagao de

1nleresses comuns e a realizagao dos que vivem sob as mesmas

1·ondig6es de exploragao criam a possibilidade de urna conscien1· in de classe. Quando as classes conscientes geram um movi111 'nto social e urna organiza�ao de classe, desenvolvem urna

1d •ologia própria de classe" (Scherer-Warren, 1987: 34).

Em carta dirigida a F. Bolt, Marx se refere a questao dos

111ovimentos da seguinte forma: "Assim, além dos distintos mov i mentos economicos dos operários, surgem em todos os luga1·1•s movimentos políticos, isto é, movimentos de classe, com o

objetivo de impor os seus interesses de forma geral, de urna

lorma que possui for�a coercitiva-social geral. Se esses movilll ntos pressupoem certo grau de organiza�ao prévia, em comPl'nsagao eles igualmente significam meios de desenvolver esta

11rganiza�ao" ("K. Marx to F. Bolt in N. York - 23/11/187 1", in

.'ielected Correspondence, Moscou, Progress Publishers, 1965,

JI. 271.

Em Miséria da filosofia, Marx também se refere a questao

dos movimentos sociais nos seguintes termos: "Nao se diga que

1 78 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

o movimento social exclui o movimento político. J amais ha verá

movimento político que nao seja ao mesmo tempo social".

Marx defende ainda o ponto de vista de que todas as formas de luta, experiencias embrionárias e particulares de organizac;:ao sindical devem ser recuperadas - como as greves, liga1:1

e uniües -, precisamente pelo sentido geral de conteúdo político e revolucionário que indicam, nao no futuro abstrato, mas

no presente histórico de seu desenvolvimento, como processo

único, vivo e complexo.

No manifesto inaugural e nos estatutos provisorios da

Internacional dos Trabalhadores ( 1864), Marx afirma: "A emancipac;:ao económica das classes trabalhadoras é, conseqüentemente, a grande finalidade a que deve estar subordinado todo

movimento. Todos os esforc;:os tendentes a obter essa finalidad

fracassaram até o presente por falta de solidariedade entre os

múltiplos setores do trabalho em cada país e pela ausencia de

um vínculo fraternal entre as classes trabalhadoras dos diferentes países".

Observa-se, portanto, a importancia que Marx atribuía a

questao da solidariedade. Dado que esta categoría é fundamental na análise de várias das abordagens sobre os movimentos

sociais, é preciso contextualizar seus fundamentos para que,

quando depararmos coro movimentos reais, ou com análises

sobre eles, saibamos localizá-la. A solidariedade citada por Marx

refere-se a urna relac;:ao social, com os mesmos interesses, e

deveria estar voltada para um dado objetivo: a emancipac;:ao

dos trabalhadores. Ao destacar a ausencia daquela relac;:ao, como

fator impeditivo da realizac;:ao daquele objetivo, Marx demarca

a solidariedade como urna relac;:ao social a ser construída, no

caso, no interior das unidades produtivas, a partir das experiencias comuns compartilhadas. Nao se trata de um dom natural, imanente a natureza humana. Em Ideología alemii, Marx

também fornece subsídios para urna teoría sobre os movimentos

sociais quando analisa a divisao do trabalho na sociedade. Assim:

"A divisao do trabalho implica ainda a contradic;:ao entre o ínter se do indivíduo singular ou da família singular e o interesse

ol tivo de todos os indivíduos que se relacionam entre si. É

p1l 1tdq1111l'ft( 'd

O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 79

pt•t•cisamente esta contradic;ao entre o interesse particular e o

1 1Leresse coletivo que adquire, na qualidade de Estado, urna

lorma independente, separada dos interesses rea.is do indivíduo

1 do conjunto, e toma simultaneamente a aparencia da comunidad11 ilusória". Com esta citac;ao Marx conclui: "Daqui se depreende

q11c todas as lutas no seio do Estado, a luta entre a democracia,

11 ristocracia e a monarquia, a luta pelo direito do voto etc., sao

11 p nas formas ilusórias que encobrem as lutas efetivas das difernntes classes entre si". Isto remete diretamente a analise das

lf>rc;as sociais que atuam na sociedade e no interior do Estado,

1•omo os movimentos sociais organizados.

2.2 - A influencia de Lenin sobre a qiUestiio dos

movimentos sociais

Lenin, como Marx, estava interessado na transformac;ao

da realidade social, e a questao dos movimentos sociais era

1· ntral na luta dos trabalhadores enquanto práxis social revol ncionária. Entretanto, de sua vasta obra, destacamos um

111:1pecto de importancia capital para a problemática dos movitnentos sociais: as vanguardas.

Como sabemos, Lenin preconiza a necessidade de vanguardas políticas que atuem junto as massas no sentido de levá-las a

d senvolver urna consciencia social revolucionária. Esta prática,

que se tornou historicamente tarefa dos partidos comunistas, será

l'Ontestada pelos partidos de orientac;ao social-democrática e pelos

movimentos de origem anarquista. Em resumo, a questao básica

lo debate entre as correntes do final do século passado e das

primeiras décadas do século XX, no que diz respeito aos movimentos sociais, será: as massas devem ser organizadas ou nao? se

devem, de que modo e de que forma? deve-se atuar com diretrizes

preestabelecidas pelo partido ou com agentes meramente dinami­

:1.adores das energías latentes?

Trata-se de definir concepc;oes e estratégias básicas sobre

1 1s processos de mudanc;as e de transformac;ao da sociedade.

Quais os mecanismos geradores e/ou produtores da consciencia

Hocial? Qual o papel do partido e do movimento social propriarnente dito?

1 80 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

Em Lenin há um ponto muito claro: a determinac:;ao funda

mental do partido enquanto a vanguarda da classe. Dentro do

partido, a organizac:;ao e a disciplina ocupam papéis de desta

que. Contrapondo-se as posic:;oes de Rosa Luxemburgo quanto

ao desenvolvimento espontaneo da consciencia política entre aH

massas, Lenin preconiza a necessidade de urna direc:;ao ao movi

mento de massa, proveniente de fora dele, advinda dos quadroH

partidários, formada entre as elites das vanguardas de operá·

rios e intelectuais.

Em Lenin nao encontramos um texto preocupado especificamente com a questao da organizac:;ao da populac:;ao em ambito

local, mas ela está implícita em suas obras sobre a organizac:;ao

dos operários dentro da sociedade. Dentre estas obras destaca-se

Que fazer?.

Ele estabelece distinc:;oes nítidas entre a organizac:;ao operária para a luta económica e para a luta política. Na luta económica a organizac:;ao deve ser profissional, a mais ampla e a

menos conspirativa possível. Porém, este tipo de organizac:;ao

comporta urna contradic:;ao entre a necessidade de um efetivo

numeroso e urna ac:;ao estritamente conspirativa, que exigiria

preparac:;ao política. A superac:;ao de tal contradic:;ao estaria nao

na legalizac:;ao das associac:;oes corporativas mas na manutenc:;ao

da organizac:;ao secreta. A organizac:;ao profissional seria, além

de um dos esteios para o desenvolvimento e a consolidac:;ao da

luta económica, um auxiliar precioso da agitac:;ao política e da

organizac:;ao revolucionária (esses últimos elementos sao vistos

como instrumentos básicos da luta política).

A explicitac:;ao do tipo de organizac:;ao que deveria estabelecer-se entre os operários, e suas func:;oes, aparece nas críticas aos tipos de organizac:;ao existentes na época, na Rússia.

N elas surge a posic:;ao leninista com relac:;ao aos trabalhos nos

bairros. Ele afirma que a organizac:;ao no ambito dos bairros

deveria enquadrar-se dentro de urna ac:;ao conspirativa, objetivando o desempenho de func:;oes políticas: "Um pequeno núcleo

compacto composto de operários, os mais seguros, os mais experimentados e os mais firmes; um núcleo de homens de confianc:;a

nos principais bairros ligados segundo todas as regras da ac:;ao

conspirativa mais estrita; a organizac:;ao dos revolucionários

O paradigma marxista na análise dos mouimentos sociais 1 8 1

pt1derá perfeitamente, com o mais amplo apoio da massa e sem

1 Hl{Ulamenta<;ao alguma, realizar todas as fun<_;oes que incum1 111111 a urna organiza<;ao profissional" (Lenin, ¿ Que Hacer?, 1974).

Lenin critica duramente o trabalho no ambito dos bairros

1 l1 1H nvolvido na Rússia, articulado ao trabalho de fábrica de

l 1 11'1 na explícita, estatutária, regulamentada. As reivindica<_;oes

1 pH1 os operários querem formular deveriam ser transmitidas a

1 1 1111;1 organiza<;ao operária restrita e nao ampla. É importante

1 1 d, 1r que estas reflexoes foram feitas para a situa1_;ao concreta

v v >nciada pela classe operária russa. Lenin nao nega a necesd ude política de organiza1_;6es no ambito dos bairros, mas afir11111 que é absurdo e prejudicial confundí-las com a organiza<_;ao

doH revolucionários, eliminando-se a linha de demarca<_;ao que

,. iste entre elas. Por outro lado a organiza<_;ao dos revolucioná1 loH, embora restrita, deveria ser descentralizada, utilizando

'1 •quipes de dirigentes para cada bairro da cidade". Elas seriam

11 < lo com as outras organiza<;oes locais.

É bom lembrar que no Brasil a desconfian<;a em rela<;ao a

, 1 Lua<;ao política no ambito dos movimentos de bairros marcou

" posi<;ao da esquerda brasileira nas décadas de 50/60. Somente

110 final da década de 70, com a rearticula<_;ao da sociedade civil

' o ressurgimento de outros canais de participa<;ao que nao o

p1 1 rtido e o sindicato, a militancia política no ambito dos bairros

1 ti i revista por alguns setores da esquerda nacional.

2.3 - A contribuil;iLO de Rosa Luxemburgo

para as teorias dos movimentos sociais

Grande parte das abordagens que exaltaram a participa­

·110 das massas por meio dos movimentos sociais, no processo

d11 constru<;ao de urna nova realidade social, tem suas origens

nos fundamentos teórico-filosóficos de Rosa Luxemburgo, nos

q 1 1ais os seguintes pontos sao destacados:

1 - a espontaneidade das massas e suas iniciativas criadoras;

2 - a possibilidade de vencer etapas do desenvolvimento

do capitalismo pelo desenvolvimento gradual de suas

contradi<;oes;

1 82 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

3 - a revolu�ao é vista como um processo relativo a con.�

ciencia dos homens; é o produto de suas experiencias,

surge em fun�ao delas e atua como sua for�a integra

dora; age em defesa e transmuta�ao dessas mesmaK

experiencias.

4 - fiel ao marxismo humanista e libertário, Rosa acredita

va no idealismo das massas.

Nos dizeres de Paulo de Castro ( 196 1), "na concep�ao mar

xista do mundo de Rosa Luxemburgo nao há lugar para hegc

monias, tutelas, ditaduras, burocracias etc. ; ao contrário, h

lugar apenas para democracia, liberdade, respeito as opini6es,

como elementos inseparáveis do processo socialista. Afirma-s

que o socialismo pode apenas nascer da experiencia e da cons

ciencia das massas, das suas necessidades e do seu sentido d •

responsabilidade e espontaneidade, de forma alguma pode ser

preestabelecido. No sofrimento e na consciencia, na repulsa ñ

explora�ao e humilha�ao dos povos e do hornero é que reside a

dinamica da revolu�ao e nao na demonstra�ao sobre a inevitabilidade do socialismo".

A cita�ao acima sintetiza o pensamento de Rosa, denotando a importancia que tem para ela os movimentos de massas.

Ou seja, o socialismo apresenta-se como algo a ser construído a

partir das lutas, como urna nova forma de rela�ao social dos

homens e nao apenas como um novo modo de produ�ao. A posi�ao de Rosa defende a valoriza�ao de todas as a�6es das massas

contestatárias as formas de opressao, porque todas elas tem

caráter político. Em Greve de massas, partido e sindicatos, Rosa

observa: "Toda iniciativa nova, toda vitória nova da luta política se transforma em poderoso impulso para a luta económica,

porque ao mesmo tempo que defende as possibilidades exteriores aumenta a inclina�ao interior dos operários em melhorar

suas condi�6es, seu desejo de lutar".

Ao contrapor a capacidade das massas para compreender

as contradi�6es da ordem existente e seu desenvolvimento complexo ao poder dos sindicatos de impor diretrizes de a�6es aos

trabalhadores, Rosa Luxemburgo fornece todo o quadro analítico que sustentará a importancia da a�ao das massas, expres-

O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 83

1 1 1 1 do-se por meio de movimentos sociais auto-organizados, em

1 nnLraposii;ao a participai;ao pré-organizada definida pelos sind rntos e partidos, em funi;ao de objetivos específicos.

2.4 - Trotsky e as fort;as sociais

A contribuic;ao de Trotsky para urna teoría sobre os movimen1 nH sociais deve ser recuperada a partir de duas noi;oes-chave: a

1 1 1volui;ao permanente e o sistema de correlac;ao de forc;as de urna

o ·iedade. Sabemos que as posic;oes de Trotsky em relai;ao ao pro1•1 1Hso de transformac;ao social eram muito semelhantes as de Lenin:

11 via revolucionária, a necessidade do partido e o papel vital da

d i rec;ao destes pelas vanguardas. Entretanto, o desenvolvimento

do processo revolucionário na Rússia, as divergencias com Stalin,

o burocratismo do regime etc. levaram Trotsk.y ( 1931) a formular

1 xplicitar várias táticas e estratégias que Jpassaram a ser ele111 'ntos importantes na sua concepc;ao do proicesso de mudanc;a e

11n análise dos movimentos sociais. Ele postula que um governo

dos trabalhadores deve ser construído de assalto, enquanto um

d ndo concluído. A maturidade do proletariado é algo relativo. "A

vi Lória nao é de maneira alguma o fruto maduro da 'maturidade'

1 lo proletariado. A vitória é urna tarefa tática. l� necessário utilizar

11s condic;oes favoráveis de urna crise revolucionária para mobili­

�ar as massas, tomando como ponto de partida o nível dado de sua

'maturidade', é necessário empurrá-las adia.nte, ensinar-lhes a

dar-se conta de que o inimigo nao é de maneira nenhuma onipoL 'nte, de que está carregado de contradic;oes, de que por trás de

1;ua fachada onipotente reina o panico" (Trotsky, 1931).

A citac;ao acima nos revela a importancia que Trotsky atribuía ao processo de aprendizagem das massas, ao seu desenvolvimenfo cultural. Embora nao cite explícitamente movimentos so­

· iais, ele preconiza a necessidade de um trabalho contínuo, pedagógico, junto as massas. E concluí: "A direc;ao política nos momenLos cruciais de reviravolta histórica pode chegar a ser um fator tao

decisivo como é o papel de um supremo comandante nos momenLos críticos de guerra. A história nao é um processo automático.

enao, para que os dirigentes? Para que os partidos? Para que os

propomos? Para que as lutas teóricas?" (Trotsky, 1931). Observa­

-se que toda a realidade é analisada em tennos de urna grande

1 84 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

luta. Tudo deve ser visto como parte de estratégias e táticas, como

numa grande guerra. A discussao teórica também é parte desta

luta. Nao há espac;o para se pensar em outros temas ou problemas

que nao seja a grande luta contra os opressores.

Outro ponto interessante a destacar é a análise das condic;oes políticas das crises, propícias e favoráveis as mobilizac;oes.

O paradigma americano também absorveu estas colocac;oes ao

enfatizar as oportunidades políticas (Tarrow e outros). Só qu

no caso americano o que se destaca sao as oportunidades criadas

pela cena política, pelos que esta.o no poder. É como se a história fosse escrita, previamente, pelos que esta.o no comando dos

órgaos estatais. Quando advem momentos de crise ou de flexibilidade das regras existentes, criam-se oportunidades políticas

para avanc;os ou constrangimentos aos movimentos sociais.

Conforme já apresentamos no capítulo III, esta seria urna das

principais explicac;oes para a compreensao dos ciclos de protestos sociais. Em Trotsky a visa.o deste processo é completamente

oposta. O partido, os operários e os intelectuais é que devem

estar permanentemente criando aquelas oportunidades políticas, por meio do contínuo questionamento e luta contra o poder

económico da burguesia, representada pelos poderes estatais.

2.5 - Mao Tsé-tung e a prática social

A contribuic;ao de Mao Tsé-tung para urna teoria sobre os

movimentos sociais advém de seus trabalhos teóricos sobre as

categorias das contradic;oes e da prática social. Para Mao a

prática social dos homens nao se limita as atividades de produ­

�ao. Ela envolve várias outras formas tais como luta de classes,

vida política etc. A prática social é também, para Mao, o ponto

de partida para o conhecimento humano. A teoria depende da

prática e esta, por sua vez, serve a teoria. "A verdade de um

conhecimento ou de urna teoria está determinada nao por urna

apreciac;ao subjetiva mas pelos resultados objetivos da prática

social. A prática une o conhecimento sensível ao conhecimento

racional."

Observa-se que a contribuic;ao de Mao vai no sentido de

articular a participac;ao dos indivíduos aos acontecimentos de

O paradigma marxista na análise dos mouimentos sociais 1 85

1111 Lempo e a reflexao sobre estes mesmos acontecimentos, na

l111Hca da prodw;ao de conceitos teóricos que explicitem as conl 1·11dig6es existentes e levem a formagao de teorias. Nesse sen1 ido, a participagao dos homens nos movimentos sociais pode

1•r vista como parte deste processo. O importante a extrair do

i lt•t-La de Mao diz respeito a participagao dos intelectuais. "Para

1 unhecer diretamente tal fenómeno ou conjunto de fenómenos é

p l't c iso participar pessoalmente na luta prática que virá transl111·mar a realidade" (Mao, Sobre las contradiciones sociales).

"Queremos destacar que a produgao de um conhecimento

obre urna problemática atual, em andamento, sem que se te11 ha o devido tempo histórico para distanciamento e análise, e

11 reflexao feita durante o desenrolar dos fatos só sao possíveis

1 medida que nos apropriemos das múltiplas facetas do fenó111<•no. E isso, usualmente, só e possível penetrando em seu

n Lerior, por meio de categorías teóricas de análise" (Id., ibid.).

/\ lguns militantes de movimentos sociais interpretaram assim

l 11 is colocag6es de Mao: somente participando do fenómeno, no

l'l l SO o movimento, seria possível produzir sobre ele. Trata-se de

11 rn grave equívoco que levou muitos militantes de movimentos

rociais no Brasil a transformarem suas memórias ou experien1·1as pessoais em trabalhos de tese e dissertag6es academicas

1 •rn que nao havia a mediagao de categorías de análise.

Mao também aborda a questao do conhecimento direto e

1 ndireto. Diz ele: "Todos os autenticos conhecimentos sao oriundos da experiencia imediata. Entretanto, nao se pode ter em

todas as coisas urna experiencia direta. A maior parte do conhecitnento é obtida de forma indireta. Mas o conhecimento indireto

foi obtido de maneira direta ontem. Resulta que, tomados em seu

conjunto, qualquer categoría de conhecimentos é inseparável da

t'Xperiencia direta". A enfase na importancia da prática dos indivíduos, como ponto de partida para o conhecimento transformador (idéia central também em Marx), será um dos fundamentos

básicos da importancia da participagao cotidiana nos movimentos

Hociais, particularmente os de caráter popular. Este argumento

pxplicita-se melhor em Mao quando ele afirma: "Frisamos a importancia da prática social dentro do processo do conheci men.Lo

porque é somente sobre a base da prática social do homem qu

1 86 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

pode nascer nele o conhecimento que pode adquirir a experiencia sensível oriunda do mundo exterior objetivo. O conhecimento comega com a experiencia".

Observa-se que a contribuigao de Mao acentua a importancia da prática direta, mas ele acentua também a etapa de reflexao, de elaboragao, de produgao de um conhecimento sobr

aquela prática. Ele chama a atengao para o seguinte: "Considerar que o conhecimento pode parar no estágio inferior (do conhecimento sensível, prático), considerar que somente se pode confiar

nele e nao no conhecimento racional, é repetir os conhecidos erros

da história do empirismo". E prossegue: "A filosofia marxista considera que o essencial nao é só compreender as leis do mundo

objetivo para estar em condigao de explicá-lo, mas utilizar o conhecimento dessas leis para transformá-lo".

Com a citagao acima destacamos a contribuigao de Mao no

sentido de apelar para que a militancia nos movimentos tenha

realmente urna agao voltada para a mudanga transformadora e

nao apenas para a denúncia da situagao. Que tome iniciativas

de elaboragao e nao apenas de sistematizagao de demandas e

necessidades. A própria continuidade da agao necessita de um

guia que desempenharia o papel nao de um líder iluminado,

mas o de um analista objetivo dos fatos a partir de categorías

teóricas produzidas. Só assim se teria urna unidade entre o

saber e a agao, entendida nao apenas como um momento específico mas como um processo contínuo, de idas e vindas, entre a

prática e a teoría, com retorno a prática, nova volta a teoría etc.

2.6 - Antonio Gramsci e a questüo da

hegemonia popular

Gramsci tem sido, sem dúvida alguma, um autor que tern

servido as mais diferenciadas interpretagoes. Dada a fragmentagao de sua obra, pensadores, analistas e estrategistas políticos

tem se apropriado de trechos específicos da produgao gramsciana para "demonstrar" as premissas e hipóteses que apresentam.

O debate abrange perspectivas que vao do poder paralelo e da

via revolucionária pela luta armada no acesso ao poder do Estado

transigao gradual para o socialismo por meio da democracia

O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 87

1 d urna visao ampliada do Estado. Na América Latina, Gramsci

loi um autor de referencia básica para a análise dos movimentos

populares e a leitura destacada e mais utilizada de seus trabal hos adveio de interpreta<;oes da filosofia humanista contidas

nrn sua obra (ver Assies, 1990: 25).

A cultura popular, as tradi<;6es, o folclore e as reivindica­

'º 'S das massas urbanas foram alguns dos pontos mais destat' \ dos pelos analistas da questao urbana e dos movimentos

ociais nas análises de Gramsci. Trata-se da problemática da

c•o nstru<;ao da hegemonia popular ou contra-hegemonia a classe

dominante. Considerava-se que a articula<;ao de elementos disp 'rsos e fragmentados no cotidiano dos indivíduos, expressos

por representa<;6es e pela práxis, baseadas no senso comum,

C'Onteria o germe e a possibilidade da transforma<;ao social, pela

1 wl itiza<;ao e transforma<;ao da consciencia das massas. E os

ntelectuais teriam papel relevante neste processo.

A no<;ao de Estado ampliado constitui outro elemento para

11 compreensao da importancia das lutas e do cotidiano dos indiv duos, ainda que este cotidiano esteja marcado por contradi<;6es

lf rais da sociedade. Falar em Estado ampliado significa falar

d urna amplia<;ao de seu campo de atua<;ao e de seu significado

H imbólico. Ou seja, o Estado seria urna somatória da sociedade

C'ivil e da scciedade política, nao se resumiria aos órgaos de

poder das esferas governamentais. Usar esta concep<;ao signifi­

·a sair da no<;ao restrita de um mero espa<;o de poder a servi<;o

da classe dominante - um comite executivo da burguesía, como

l'oi denominado por alguns - e reconhecer que os conflitos so­

• i ais e a luta de classes perpassam os aparelhos estatais. Sign ifica também admitir que a conquista de espa<;os políticos dentro

dos órgaos estatais é importante, assim como sua democratizac;ao. Significa ainda admitir que a mudan<;a social é um processo

gradual, a tomada do poder por urna nova classe deve ser preedida de um processo de transforma<;ao da sociedade civil, em

Heus valores e práticas, pelo desenvolvimento de urna contra­

-hegemonia sobre a ordem dominante.

Os movimentos sociais seriam o fermento básico de tais

mudan<;as, agentes catalisadores dos elementos novos e inova-

1 86 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

pode nascer nele o conhecimento que pode adquirir a experien

cia sensível oriunda do mundo exterior objetivo. O conhecimen

to come�a com a experiencia".

Observa-se que a contribui�ao de Mao acentua a importan

cia da prática direta, mas ele acentua também a etapa de reflexao, de elabora�ao, de produ�ao de um conhecimento sobr

aquela prática. Ele chama a aten�ao para o seguinte: "Conside

rar que o conhecimento pode parar no estágio inferior (do conhecimento sensível, prático), considerar que somente se pode confiar

nele e nao no conhecimento racional, é repetir os conhecidos erroH

da história do empirismo". E prossegue: "A filosofia marxista con·

sidera que o essencial nao é só compreender as leis do mundo

objetivo para estar em condi�ao de explicá-lo, mas utilizar o conhecimento dessas leis para transformá-lo".

Com a cita�ao acima destacamos a contribui�ao de Mao no

sentido de apelar para que a militancia nos movimentos tenha

realmente urna a�ao voltada para a mudan�a transformadora e

nao apenas para a denúncia da situa�ao. Que tome iniciativas

de elabora�ao e nao apenas de sistematiza�ao de demandas e

necessidades. A própria continuidade da a�ao necessita de um

guia que desempenharia o papel nao de um líder iluminado,

mas o de um analista objetivo dos fatos a partir de categorias

teóricas produzidas. Só assim se teria urna unidade entre o

saber e a a�ao, entendida nao apenas como um momento específico mas como um processo contínuo, de idas e vindas, entre a

prática e a teoría, com retorno a prática, nova volta a teoria etc.

2.6 - Antonio Gramsci e a questito da

hegemonia popular

Gramsci tem sido, sem dúvida alguma, um autor que tem

servido as mais diferenciadas interpreta�oes. Dada a fragmenta�ao de sua obra, pensadores, analistas e estrategistas políticos

tem se apropriado de trechos específicos da produ�ao gramsciana para "demonstrar" as premissas e hipóteses que apresentam.

O debate abrange perspectivas que vao do poder paralelo e da

via revolucionária pela luta armada no acesso ao poder do Estado

transi�ao gradual para o socialismo por meio da democracia

O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 87

1 1 lt urna visao ampliada do Estado. Na América Latina, Gramsci

lid um autor de referéncia básica para a análise dos movimentos

¡ 111pulares e a leitura destacada e mais utilizada de seus traba1 1 108 adveio de interpretac;6es da filosofia humanista contidas

1 111 sua obra (ver Assies, 1990: 25).

A cultura popular, as tradic;6es, o folclore e as reivindica­

'ONl das massas urbanas foram alguns dos pontos mais desta1• i dos pelos analistas da questao urbana e dos movimentos

ociais nas análises de Gramsci. Trata-se da problemática da

1•onstruc;ao da hegemonia popular ou contra-hegemonia a classe

dominante. Considerava-se que a articulac;ao de elementos disp rsos e fragmentados no cotidiano dos indivíduos, expressos

por representac;6es e pela práxis, baseadas no senso comum,

conteria o germe e a possibilidade da transformac;ao social, pela

politizac;ao e transformac;ao da consciencia das massas. E os

l nLelectuais teriam papel relevante neste processo.

A noc;ao de Estado ampliado constitui outro elemento para

n compreensao da importancia das lutas e do cotidiano dos indivfduos, ainda que este cotidiano esteja marcado por contradic;6es

/' rais da sociedade. Falar em Estado ampliado significa falar

de urna ampliac;ao de seu campo de atuac;ao e de seu significado

1; imbólico. Ou seja, o Estado seria urna somatória da sociedade

·ivil e da scciedade política, nao se resumiria aos órgaos de

poder das esferas governamentais. Usar esta concepc;ao significa sair da noc;ao restrita de um mero espac;o de poder a servic;o

da classe dominante - um comité executivo da burguesia, como

füi denominado por alguns - e reconhecer que os conflitos sociais e a luta de classes perpassam os aparelhos estatais. Significa também admitir que a conquista de espac;os políticos dentro

dos órgaos estatais é importante, assim como sua democratizac;ao. Significa ainda admitir que a mudanc;a social é um processo

gradual, a tomada do poder por urna nova classe deve ser precedida de um processo de transformac;ao da sociedade civil, em

seus valores e práticas, pelo desenvolvimento de urna contra­

-hegemonia sobre a ordem dominante.

Os movimentos sociais seriam o fermento básico de tais

mudanc;as, agentes catalisadores dos elementos novos e i nova-

1 88 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

dores. A questao se complica quando entra em cena a rela�l\o

destes movimentos com o Estado. Nao há consenso nas interpru

tac;oes, mesmo nas que buscam citac;oes específicas em Gramsci .

Os conceitos de sociedade política e sociedade civil ajudam a CH

clarecer a problemática. Se o Estado nao é urna instancia espe

cífica mas um conjunto de instituic;oes que se diluem entre u

sociedade civil e a sociedade política, ainda que o poder de coer

c;ao e de dominac;ao esteja localizado predominantemente num

dos pólos (sociedade política), a sociedade civil possui mecaniHmos e organismos que forc;am as alterac;oes na correlac;ao daH

forc;as em luta. Isto faz com que o Estado atue por meio da coerc;ao e também por meio da busca do consenso.

Portanto, em determinadas conjunturas políticas, o Estado

teria de alterar suas políticas, incorporar ou abrir espac;os novos

as forc;as sociais que o pressionam (de forma contestatória ou nao).

Este aspecto tem sido erroneamente interpretado por alguns analistas que atribuem ao Estado o poder de indutor de mudanc;as sociais, mas esta nao é a posic;ao de Gramsci. Ele assinala que se

trata de um processo dialético, conflituoso e contraditório. Ninguém

induz ninguém sozinho, há um sistema de correlac;ao de forc;as no

qual a cada pressao há urna resposta ou urna atuac;ao antecipada as pressoes. É urna luta. Se algum grau de democratizac;ao

é obtido no processo, é grac;as as lutas e nao a clarividencia ou

a predisposic;ao de algum ator ou setor governamental.

Gostaríamos ainda de assinalar, nesta breve revisa.o das correntes marxistas que influenciaram as abordagens sobre os movimentos sociais, que Gramsci é o autor que mais contribuiu para

as análises das lutas e movimentos populares urbanos realizadas

na América Latina nos anos 70 e início dos 80. Entre os clássicos

do marxismo, ele é o autor que fez a ponte possível para a compreensao da realidade: a articulac;ao entre as análises estruturais

e as conjunturais. Ele resgatou a política e as conjunturas específicas, abrindo caminhos para se fugir das análises mecanicistas

e deterministas da história.

Urna das principais questoes debatidas no trabalho de Gramsci

pelos analistas que se utilizaram de seu referencial diz respeito

a autonomia do movimento popular em relac;ao ao Estado. Aque-


O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 89

h 11 nalistas estavam preocupados com os rumos dos movimenl 11 11 i ndagavam de que forma as mudarn;;as viriam gerar transli11 1w 96es e nao simples rearranjos no status quo vigente. Eles

1 .· 1<1·1:tm importantes indaga96es a partir das análises de Gramsci,

q11 11 f"oram alvo de debates entre os próprios movimentos popu­

¡, 1 1·1 1¡.¡ na América Latina no período acima assinalado. Dentre

1 l 118 indaga96es destacam-se: como pensar a autonomia, a partir

d11 C ramsci, sem cair no discurso dos anarco-autonomistas? Ao

1 1 loLar-se urna posi9ao de rejei9ao ao basismo e as atitudes incon1 1q üentes, exaltadoras da virtude das massas como únicas fontes

d11 Haber, assim como ao se fazer a rejei9ao ao dirigismo partidá1 to, como apreender o processo de transfigurac;ao do senso comum

popular em saber transformador? As respostas foram buscadas

1111 caracterizac;ao que Gramsci faz do papel de mediac;ao realizado

p1 1 los intelectuais organicos.

a - Análises contemporaneas neomarxistas dos

movimentos sociais

3.1 - A proposta de Castells - a construr;iio de

um novo objeto de estudo:

os rrwvimentos sociais urbanos.

Enfase na análise das práticas das estruturas

Conforme destacamos na apresentac;ao dleste livro, nossa

preocupac;ao nao é apresentar a ultima versao de determinada

teoria ou a última produc;ao de certo autor mas sim destacar as

L orias mais significativas e sua trajetória de construc;ao. O

'xame da obra de Castells é revelador <leste propósito. Nos

anos 70 ele encabec;ou um processo de renovac;ao no debate

sobre as quest6es urbanas, na corrente de análise marxista da

realidade social. Ele fez a crítica e rejeitou os estudos baseados

nas variáveis geográficas espaciais, argüindo que o espac;o é

produto de um feixe de relac;6es sociais. Destacou nestas relac;oes o papel de diferentes atores e suas práticas. Dentre eles,

os movimentos sociais em luta por melhorias urbanas tiveram

destaque. Eles ficaram conhecidos como movimentos sociais

urbanos. Posteriormente, Castells passou a denominá-los cita-

1 90 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

dinos ou de cidadaos, por trazerem em seu bojo a problemática

da cidadania. Assim, ainda que possa ser um tanto enfadonho

relatar posic;oes e abordagens já revistas pelo próprio autor,

consideramos importante o resgate da trajetória porque ela nos

revela como a problemática foi sendo construída.

Em 1973 ele escreveu um pequeno livro, Lutas urbanas e

poder político, posteriormente traduzido em várias línguas. O

livro foi um sucesso rápido no meio académico e em espanhol

passou a se chamar Movimientos sociales urbanos, pois esta era

a problemática central analisada. Ele continha, além do conceito

de movimentos sociais urbanos, o de contradic;oes urbanas, e relatava processos de resistencia contra projetos de renovac;ao urbana em París, políticas municipais em Montreal, protestos ecológicos nos Estados Unidos e movimentos de moradores no Chile.

Na América Latina este livro foi o suporte teórico de inúmeras

pesquisas sobre os movimentos sociais populares urbanos.

O quadro metodológico de análise dos Movimentos Sociais

Urbanos (MSU) de Castells consistía em entende-los a partir da

determinac;ao estrutural do problema que encerram (ou reivindicam). Isto implica captar nos movimentos suas perspectivas,

sua estrutura interna, suas contradic;oes, seus limites e possibilidades, suas relac;oes com a cidade e com o Estado. O método

de abordagem mais eficaz para o estudo dos MSU seria, para

Castells, a partir de sua observac;ao concreta, registrar a forma

pela qual se desenvolvem e as ac;oes e organizac;oes que integram.

Isto feito, dever-se-ia partir para urna nova etapa: relacionar o

observado anteriormente com: a) as contradic;oes estruturais do

capitalismo; b) a expressao estrutural do movimento no urbano;

e c) o processo político mais geral do país nos últimos anos.

Ao desenvolver tal metodología estaríamos relacionando o

movimento social com ·a problemática económica e política do

capitalismo, assim como relacionando-o também com a crise urbana. Isto porque o crescimento e o desenvolvimento dos MSU

decorrem de seu enraizamento na evoluc;ao contraditória dos elementos que configuram a sociedade capitalista, ou seja, o capital

monopolista e suas tendencias a crise, a luta do capital monopolista

m defesa de seus interesses, a luta política de classe, e o Estado.

O paradigma marxista na análise dos mouimentos sociais 191

A problemática dos MSU situava-se, para Castells, num

pl11 110 duplo, a saber: de um lado, na análise dos processos

1 ll' inis de mudarn;a e dos modos de consumo coletivo; de outro,

1 11 1H articula<;6es entre as novas contradi<;6es sociais que emer1 1 m na sociedade capitalista e as contradi<;6es económicas e

pnl lt,icas que se encontram na base de sua estrutura social.

Em 1973, ele atribuía grande enfase a análise das práticas

o ·iais dos sujeitos demandatários. Segundo a crítica formulai l 11 por Lojkine ( 1980), a análise de Castells teria incapacidade

d1 propor urna teoría da mudan<;a porque se fundamentava na

1 11 1c;ao funcionalista de sistema. A contradic;ao e a transforma1; io nao esta.o no sistema mas nas práticas. Nao há, segundo

l .ojkine, a apreensao das contradic;oes internas - que dao movirnento ao fenómeno. O indivíduo, o ator social, fica reduzido

11 Huporte de urna func;ao económica - ser membro do conjunto

tjlL compoe a for<;a de trabalho. Luta-se por meios coletivos

pnra a reproduc;ao <lestes indivíduos enquanto forc;a de trabal ho. O urbano se reduz a reproduc;ao da forc;a de trabalho.

< �11stells responderá a estas críticas.

Quanto ao Estado, nas abordagens de 1973, Castells afirrnava que ele apenas reproduzia as contradic;oes produzidas

p 'lo desequilíbrio do sistema entre oferta e demanda. Este

11;stado teria a func;ao de dar coesao social, integrar e unificar

1 1¡.¡ conflitos sociais, e, portanto, de desempenhar o papel de árhii,ro. Ainda naquele ano Castells afirmava: "Os movimentos

Hociais urbanos, e nao as instituic;oes de planificac;ao, sao os verdadeiros impulsionadores de mudanc;a e de inovac;ao da cidade"

( 1 973: 10). Com o mesmo entusiasmo que as análises iniciais

foram recebidas, as críticas também nao tardaram, em especial

categoría das contradic;oes urbanas, ao seu uso em realidades

' contextos adversos etc. Mas, apesar das críticas, pode-se dizer

que na questao dos movimentos sociais a elaborac;ao de Castells

foi o paradigma dominante nos estudos sobre os movimentos

¡,¡ociais na Europa e na América Latina.

Em 1975, Castells elaborou um posfácio a segunda edi<;ao de

sua obra mais conhecida, a Questfío urbana,, e respondeu a várias

críticas formuladas sobre ela: "Nao há transformac;oes qualitati-

1 92 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

vas da estrutura urbana que nao sejam produzidas por urna

articulac;ao de movimentos urbanos por outros movimentos,

em particular (nas nossas sociedades) pelo movimento operário

e pela luta política de classe. Nesse sentido, nao afirmamos

que os movimentos urbanos sejam as únicas origens da mudanc;a

urbana. Dizemos, antes, que os movimentos de massa (entre

eles os movimentos urbanos) produzem transformac;6es qualitativas, no sentido amplo do termo, na organizac;ao urbana por

meio de urna mudanc;a, pontual ou global, da correlac;ao de forc;as entre as classes".

Nos anos 80 Castells progressivamente abandonou o referencial marxista em sua vertente estrutural e passou a ser

fortemente influenciado pelo trabalho de Touraine, embora interprete certos conceitos deste último de forma diferente. Em

The City and the Grassroots ( 1983), Castells destaca que "a

história e a sociedade sao formadas por urna articulac;ao d<�

experiencia, produc;ao e poder. A experiencia está basicamente

estruturada ao redor de relac;6es de sexo e genero, a produc;ao

é organizada em relac;oes de classe e o poder está estabelecido

a partir do Estado". Assim, a cidade moderna é um espac;o de

alienac;ao coletiva e violencia individual. N este cenário ele ve os

movimentos sociais como urna forma de resistencia e distingue•

tres tipos básicos de protestos urbanos: sindicais - ao redor d

quest6es de consumo coletivo, tais como infra-estrutura urbana

ou quest6es relativas ao uso da terra; comunitários, que buscam identidade cultural e objetivam a criac;ao ou manutenc;ao

da autonomía de culturas locais, baseados etnicamente ou originados historicamente; e os movimentos de cidadaos, qul•

objetivam um aumento de poder local, descentralizac;ao das áreaH

de vizinhanc;a e auto-administrac;ao urbana. Os movimentoH

urbanos passaram a ser definidos como práticas coletivas conscientes originárias de problemas urbanos, capazes de produzir

mudanc;as qualitativas no sistema urbano, na cultura local e•

nas instituic;6es políticas em contradic;ao com os interesses sociais dominantes institucionalizados (Castells, 1983: 278).

Em 1985, Castells reafirmou as alterac;oes em sua proposta

inicial: "Os movimentos sociais nao sao agentes de transformac;ao

HOcial. Eles possuem limites políticos e técnicos. Estao sujeitos ao

ltlf11' (

711Vi1d1e

O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 93

o¡ro do clientelismo político, em troca de demandas imediatas.

11:i;Lao mais sob o fluxo da lógica política. Sao tolerados pelas

1 1 1i;Litui�oes. Eles possuem também limites profundos em termos

do sua capacidade de transforma�ao urbana". Entretanto, prosse­

¡•lle Castells, os movimentos sao fundamentais para urna gesta.o

1 ll mocrática da cidade, porque sao os verdadeiros diagnosticadores

dw:1 necessidades coletivas. As reformas nao ocorrem sem presMO 'S. Sem movimentos, nao há condi�oes para urna reforma urba1 1n democrática, porque nao há como detectar as reais necessidad11s. Esta reforma requer instrumentos políticos e técnicos. Porl 1 1 nto, os movimentos seriam os agentes formuladores das mudnn�as a serem implementadas pelo Estado, por meio de instru111 'ntos institucionalizadores. (Castells, palestra proferida na

: l'Cretaria Geral do Planejamento, Sao Paulo, Brasil).

Castells apontou também para urna interdependencia enl 1· 1 movimentos e Estado. Se nao há mudan�a sem a pressao dos

111ovimentos, nao há também possibilidade de sobrevivencia dos

111ovimentos sem os instrumentos técnicos institucionais. A que

11t.ribuir as novas coloca�oes de Castells? Ele mudou de opiniao?

< >n foi a realidade que mudou? Acreditamos nas duas hipóteses

11 •las necessariamente esta.o conectadas. Os MSU da década de

70 nao sao os mesmos dos anos 80. E a forma de abordá-los

l nmbém deve ser outra. Em 70, sob o contexto de sociedades

11nLoritárias (Brasil, Chile, Espanha etc.), os MSU representav11m urna grande esperan�a, urna reviravolta, urna a�ao da socied1 1de civil reagindo contra o arrocho, a espolia.;ao e a dilapida­

·no de um capitalismo voraz. Mas as transforma�oes preconiza1 lus nao ocorreram da forma proposta. N em os movimentos eram

l 110 fortes, nem a sociedade civil tao organizada. A autonomía

dos novos sujeitos históricos - como chegaram a ser exaltados

nao se realizou. Nao existem indica�oes neste sentido. Elas

11110 ocorreram porque no capitalismo deste final de século a

1wciedade civil e a sociedade política estao indissoluvelmente

1111 trela�adas. Qualquer mudan�a em um dos lados reflete-se, de

l mediato, no outro. O Estado autoritário respondeu as pressoes

populares e a era da redemocratiza�ao se impós.

Castells passou da exalta�ao dos MSU a nega�ao de suas

p()tencialidades transformadoras, embora nao negue sua impor-

1 94 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

tancia. Nos anos 80 ele ficou mais atento aos limites dos movl

mentos do que a suas possibilidades. O desenvolvimento dos MS

em vários países - europeus e latino-americanos -, a queda d

regimes autoritários e a prática de gestoes democráticas de go

vernos municipais foram os fatores básicos das alterac;o

conjunturais da realidade. Estes fatores, sornados a crise estrutur l

do capitalismo - hiperinflac;ao, desemprego, queda de produc; o

etc. -, obrigaram os analistas, e Castells certamente é um astuto

analista, a rever suas colocac;oes anteriores. Lowe ( 1986) afirm

que, embora Castells destaque que os movimentos podem inova ,

eles em si nao seriam portadores de transfonnac;oes da sociedadl ,

porque isto dependeria de sua adaptac;ao ao nível político.

Mas, na abordagem de Castells, existem determinadas 1i

mitac;oes enunciadas anteriormente que persistiram e impedi

ram um avanc;o explicativo nas suas novas colocac;oes, as quai

passaram a ter um caráter reformista, contrastando com suaK

posic;oes anteriores. Sua análise era indeterminada do ponto d

vista dos interesses de classes, conflitos e lutas. As lutas qu

ocorrem no urbano vao muito além dos processos analisadoH

por ele. Os movimentos sao importantes pelo que reivindicam,

pelas utopias que postulam etc. Ele afirma que os MSU podo

rao gerar consciencia para novas mudanc;as. Mas estas mudan

c;as serao incrementadas pelo Estado, porque foram reivindicadaH

e porque houve pressao popular. Mas as lutas em si, o processo

de embate, as trocas, as barganhas, as concessoes, tudo isto

ignorado. E mais, a quem servem tais mudanc;as?

Castells, devido a sua análise estrutural da realidade, níío

capta as lutas entre as facc;fíes de um mesmo bem demandado.

Fixa-se na demanda, habitac;ao por exemplo, e analisa-a segun

do a lógica do sistema. Disto conclui que é quase impossív 1

atuar de forma global sobre o problema, no que se refere aoH

setores populares, sendo necessárias atuac;oes pontuais. Políti

ca de terras, equipamentos etc. Ele via a prática dos agent H

sociais como homogenea, pressionando por melhorias que somente seriam obtidas quando o Estado transfonnasse seus ca

nais e criasse outros, específicos, para tratar de tais questoes.

A lógica é muito linear: pressao popular -> mudanc;as institu

cionais -> reformas urbanas. E as lutas? E os setores que tem

O paradigma marxista na análise dos movimentos sociais 1 95

1 118 projetos e propostas nao absorvidos ou transfigurados? Como

1 rn m? Será que nao se reestruturam para novas etapas de conl ro nto? Neste caso, seriam apenas movimentos ideológicos?

Outros pontos das antigas análises de Castells persistem,

1•nmo a questao da integra<;ao. Transformar a mobiliza<;ao popu1111· em vontades políticas - vía institucionaliza<;ao - pressup6e

11 possibilidade de transformar a domina<;ao do Estado capital HLa por meio de sua transforma<;ao interna. E voltamos a tese

dn transi<;ao democrática para o socialismo, utilizada por Castells

1 m Cidade, democracia e socialismo ( 1980),, que, mais que urna

l 1 1oria, foi urna estratégia dos partidos de esquerda na América

l ,uLina em sua luta contra os regimes militares. Mas a redemo1•ratiza<;ao dos aparelhos do Estado mostrou-se um processo longo

1 difícil, nao resolvível apenas com a ocupa<;ao de postos-chave

nfl política e na burocracia estatal.

 


1 J rn teórico proveniente da Escola de Frankfurt, Habermas,

i¡11 11111 melhor desenvolveu a análise interpretativa da vida

• l ii l 1 1 1 1n. Para entende-la, ele usa o conceito de "mundo da vida".

¡•1111do Arato e Cohen ( 1994), o mundo da vida possui duas di111 11 c tl'H distintas; de um lado, "ele se refere a um reservatório

11 l 1 1 1d ic,:oes implicitamente conhecidas e de pressupostos auto11111 1rnH que estao imersos na linguagem e na cultura e sao uti1 i1d11H pelos indivíduos na sua vida cotidiana. Por outro lado, o

1 1 1 1 1 1 1do da vida, de acordo com Habermas, contém tres componen­

!• '' 1 ruLurais distintos: a cultura, a sociedade e a personalidade.

1 111l'clida em que os atores se entendem mutuamente e concor1 1 1111 Hobre sua condic;ao, eles partilham urna tradic;ao cultural.

N 1 1 1 1Pclida em que coordenam suas ac;oes por intermédio de nor111 11 1 1 1t •rsubjetivamente reconhecidas, eles agem enquanto mem1 1 1 1 d1• um grupo social solidário. Os indivíduos que crescem no

i1il1 rior de urna tradic;ao cultural e participam da vida de um

1 38 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

grupo intemalizam orientac;oes valorativas, adquirem co1 1 1 1

1

H�ncia para agir e desenvolvem identidades individuais e Hm

ais. A reproduc;ao de ambas as dimensoes do mundo da vul

envolve processos comunicativos de transmissao da cultura , J

integrac;ao social e de socializac;ao" (Ara to e Cohen, 1994: 1 r1:1

O mundo da vida é diferenciado dos sistemas econom i ·o

estatal. Ele é um subsistema da sociedade civil, é parte d •lu

nao sua totalidade, e engloba várias formas institucionais - p

manentes ou nao - que atuam como organismos de limita� o

de mediac;ao entre o Estado e o mercado. Essas instituic;oes p 1

derao se estabilizar a partir de normas juridiscionais específicu

que ajudam a construir por intermédio de suas práticas e demun

das. Ou seja, as instituic;oes podem ter o papel de agenciador

na produc;ao de novos direitos, desde que estejam atuando num

sociedade que valorize a auto-organizac;ao e possibilite a publi •

zac;ao das ac;oes dos grupos coletivos organizados, por interméd

da mídia ou de outras formas de publicidade. Assim, o mundo 1

vida é fundamental para a análise da sociedade civil, e esta últ l

ma possui duas lógicas: urna dada pelo sistema económico-poli

tico mais amplo, outra dada pelo mundo da vida.

A diferenciac;ao estrutural do mundo da vida é um dos nH

pectos dos processos de modernizac;ao e ocorre por meio da emt•

gencia de instituic;oes especializadas na reproduc;ao de tradic;ot1 ,

solidariedades e identidades. Para Cohen e Arato, é esta dim(•ll

sao do mundo da vida a que melhor corresponde ao conceito el

sociedade civil.

Para Habermas, a compreensao do "mundo da vida" pasH

pela compreensao da consciencia, mas, ao contrário de Huss<•rl

e Schutz, que veem a consciencia como fator primordial, obscun•

cendo tudo o que é material, ele ve a análise da consciencia como

algo inseparável das circunstancias materiais. Ela está semprt

mergulhada nessas circunstancias. Habermas, já nos anos 70,

deu importante contribuic;ao para a formulac;ao de urna teori

sobre os movimentos sociais ao afirmar que eles criam possibi li

dades de novas relac;oes sociais e de novas formas de produc;ao,

ao gerarem processos novos quando da busca de soluc;oes alter

nativas aos problemas comuns enfrentados por seus participan

Les. Ele desenvolveu urna reflexao sobre os tipos de ac;oes cm

() paradigma dos novas movimentos sociais 1 39

11 1 1 1 l 1 1L ivos em sua teoria da modernizac;áo, particular111 11 118 versoes mais recentes ( 1987), quando trata das

• 111 t'(1 os atores e o mundo. J. Cohen ( 1992) foi a analis1 111 1v1 1 1 rnovimentos sociais que mais se deteve na análise

1 1 1 111 1 1 1111. Ela destacou teses de Habermas relativas a in­

" 1 11111 11nicativa na modernidade cultural contemporanea

1 ' l11horac;ao de urna teoria sobre os movimentos.

1 111 11 n nos teóricos, Habermas atribui dois papéis aos movi1 1rinis: eles sao vistos como elementos dinamicos no

11 t l 11 uprendizado e formac;ao da identidade social; e os

11111 1iloH com projetos democráticos tem potencial para ini1 1 1 1 11·1 HHOS pelos quais a esfera pública pode ser revivida

l 1 11, PJIJ:¿: 524-532). Ou seja, os movimentos sao vistos por

1 11 1 1 11 1 H ·omo fatores dinamicos na criac;ao e expansao dos

11 p11hl icos da sociedade civil. Embora o autor veja neles

1 • 11 • IO particularista e defensiva, Cohen afirma que ele

11il11 ·1 1 11 1 o lado ofensivo dos movimentos quando da contes-

" . ¡, 11lguns aspectos negativos da própria sociedade civil.

1 11 t 1 1 1 1 1H dá também fundamentos para a compreensao da

11 1l1 111l'ÍU dos movimentos para além de suas formas históri­

' 1•oncebermos o ganho dos movimentos sociais em termos

111 l ll 11l'ionalizac;ao de direitos, tal como os definimos, o desa­

' l111111 1 Lo de movimentos sociais, seja em virtude de sua transfll 1 1 1 1 1 1 organizacional, seja devido a sua absorc;ao por identi1 1 11ILnrais recentemente constituídas, nao significa o <lesa­

' ' ' 111 1nnto do contexto que leva a sua própria gerac;ao e consti1 111 < )H direitos conquistados por eles nao somente estabili111 1 f

'ronteiras entre o mundo da vida e os movimentos sol , 1•1 1 t.r o Estado e a economia, mas também constituem

111d ¡, 1111 le possibilidade da emergencia de novas associac;oes"

11li 1

·

11, A rato, 1994: 176). Como os novos movimentos sociais

' 11volvcriam urna nova cultura política ou novas identida­

. 1 1 1111 base na famosa distinc;ao habermasiana entre sistema

1111111do da vida, é urna incógnita para a própria Cohen ( 1994).

n n l ise desenvolvida por Habermas trata os movimentos

1111111 111<l icadores do potencial de crise do capitalismo tardio

1 1 1:1 ) l�m sua obra Teoria da a<;iio comunicativa ( 1985), ele

ltl1 111 111 .. os novos movimentos sociais com a resistencia defensi-

1 40 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

va aos processos de extensa.o da racionalidade técnica dentro d

todas as esferas da vida social. Ao mesmo tempo os movim nlo

demandam altos níveis de justificativa racional na esfera mor

e cultural. Para o autor, os novos problemas sociais tém rela ·

com qualidade de vida, igualdade de direitos, auto-realiza ·

individual, participac;;ao e direitos humanos. Contrastando ·01

a velha política dos trabalhadores, a nova política advinda de

novos movimentos sociais advém basicamente da nova cla

média, da gerac;;ao dos jovens e dos grupos sociais com mais ul

grau educacional. Os novos movimentos esta.o localizadoH r

esfera sociocultural, e a énfase de suas atividades está em túm

como motivac;;oes, moralidade e legitimac;;ao.

Scott ( 1990) argumenta que a análise de Habermas sob

os movimentos sociais é útil em alguns casos - como para

tender o crescimento da moralidade comunicativa, no caso

movimento antinuclear -, mas insatisfatória quando as ali

dades e demandas dos movimentos sao reac;;6es contra as cara ·

rísticas industriais da sociedade capitalista recente. Scott criU

ainda a teoría de sistema (cultural) e outros subsistemas d • •o

rentes: combinada com modelos evolucionistas levaría a nao-cot

preensao de certas problemáticas. O autor afirma que Haberm

faz generalizac;;6es e que alguns casos, como a resisténcia d !>(

pos de moradores a projetos de renovac;;ao urbana em Bt•rl l

Ocidental, nao podem ser vistos como generalizac;;ao de crüw u

rejeic;;ao do sistema jurídico-legal como um todo, mas como

desejo de mudar a direc;;ao de certas políticas governament.11

Ele cita também os casos de apelo a comunidade e a algu

valores da vida tradicional - presentes em vários dos nove

movimentos sociais. Estes apelos nao se ajustam facilmt•n

dentro do quadro das estratégias de racionalidade de Habernu

Em síntese, a contribuic;;ao de Habermas a teorizac;;ao de

Novos Movimentos Sociais foi importante, como fundamento

como contribuic;;ao direta ao debate. Ele é um autor basta n

complexo. Sua obra nao é de leitura fácil e fluente, já qu l'WU

conceitos se estruturam a partir de urna multiplicidade de e111

pos e áreas de conhecimento. Dada a contemporaneidadt•

sua obra, a maioria dos pesquisadores está mais na fase dt• 1

Lendé-la do que na de criticá-la. Ele mesmo, em entr 'VI

O paradigma dos novos movimentos sociaiis 1 41

1 1 1 1 1 d11 a Barbara Freitag, publicada no "Caderno Mais" da

/1111 , ¡,. S. Paulo, em 1995, declarou-se decepcionado com os

• l111111 1 Los sociais contemporaneos, demonstrando receio de

1 1 p111l1•n:io se desenvolver também em dire<;6es adversas aos

1 1 111d10H da liberdade, porque nao tem projetos universalistas

1 1p1wn m a partir de demandas específicas.

N1 1 La breve revisao de algumas matrizes referencia.is bási1p11 • Hl lHLentam as formula<;6es teóricas dos NMS, observamos

11 11 1 1ovidades se encontram mais na composi<;ao, no arranjo

l 1 I 1 poHi c;ao das categorias explicativas do que na cria<;ao de

11 l111-1Lrumentos conceituais. A rigor, as categorias teóricas

1 ildl1t'(>n<;as demarcadas sao as mesmas que marcaram o

lt1 1l1 111 Lelectual desde o século XVIII. Ao mesmo tempo, estas

1 11 11 'llH Lrouxeram também várias novidades, nao apenas no

1111 l 1 •ol'ico mas também na prática. A principal diz respeito

f1 1 1 1 1111 do fazer política, basicamente a partir da sociedade civil,

1 11 " p11nas a política oficial, estatal, de luta pelo poder nas

f t 11l 1111 1H do Estado. Ao se negar o poder das determina<;6es

1 1 1 11 •HI ntLurais, valorizam-se os fatos conjunturais micro, do

1 1 l 1i1 1 1 1 1. Nesse aspecto, faz sentido atentar para o presente,

1 1 ' 1 11 l ugar e agora, para mudar a ordem das coisas, pois

1111 • " de HRa mudarn;:a está nos próprios atores e nao no entre1 11111 1 · d11H contradi<;6es estruturais.

, 1 As principais correntes teóricas européias

dos NMS

1 '1 111li ll"me já assinalamos, os NMS nao constituem urna teoria

1111 1¡:1 ·111 111, um bloco referencial teórico uno; há correntes diferen11 1 1 '11 rn fins didáticos vamos agrupá-las em tres blocos: a

11 1 11 com os estudos de Alain Touraine e seu grupo de pes1 1. 11 1 Lul iana - liderada por Alberto Melucci; e a alema, na

1 • dPHLaca o trabalho de Claus Offe. A sele<;3io destes autores

,. 110 fato de eles terem dedicado a maior parte de seus es11 l 1 1rnática dos movimentos sociais (caso de Touraine e de

111 1 1 ) cm por terem tido urna produ<;ao teórica de impactante

111 1 1 111 l 'HLudo dos movimentos sociais (caso de Offe). Reconhe111 1 1 1 1 1 1 1 1 m a importancia e a contribui<;ao de outros autores

1 42 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

nos países assinalados, assim como a existencia de outras corr

tes nacionais européias, adeptas ou simpatizantes dos NMS, 1•11

produc;ao de alta qualidade e regularidade: inglesa - Scott ( 1 !) t

a espanhola - Laraña ( 1994), Alvarez-Junco ( 1994), Villa1m

( 1991) etc.; assim como correntes na Holanda - Kladerm

( 1995) e R. Roth ( 1996); na Irlanda - J. Smith (1996); na Su

- Lindeberg ( 1996); e em Portugal - Souza Santos (1994 ). 1

conhecemos ainda que os NMS extrapolaram as fronteira 1111

péias, tendo produc;ao significativa nos Estados Unidos - oh

Arato ( 1992) e urna série de outros já citados na reformula<;1 o

paradigma da MR; e no Canadá - Hamel ( 1996), Vaillanco\

( 1996). A América Latina é o lugar geográfico espacial ond

paradigma dos NMS encontrou maior receptividade, com d1

que para o México - Foweraker ( 1995), e para o Brasil. N

último país, de certa forma todos os que produziram sobre OH 1

vimentos sociais após 1970 estabeleceram um diálogo com os NM

de incorporac;ao parcial ou plena de seus pressupostos, ou d 1111

milac;ao de algumas partes, ou ainda de sua negac;ao. A 11

desses autores é grande e será tratada no capítulo VIII.

3 - A corrente francesa: Alain Touraine

e o acionalismo dos atores coletivos

Alain Touraine é um dos pesquisadores que há mais u1111

trabalham com o tema dos movimentos sociais na Europa. 1 > 1

sua importancia na sociologia francesa e sua contribuic;ao CHp

fica sobre os movimentos sociais, faremos urna breve reconHI

c;ao de sua análise em termos históricos, destacando nela a pu

relativa aos movimentos sociais. A abordagem de Touraine <•HI

tura-se a partir do que se convencionou denominar paradiHI

acionalista. Em seus primeiros estudos, ele elaborou urna t1•0

das condutas e comportamentos sociais a partir da análist• 1

movimentos sociais; posteriormente, passou a estudar ness H 1

vimentos os sistemas e mudanc;as sociais. Sabemos que o a iot

lismo retoma um dos pressupostos básicos do funcionalismo: t.o

ac;ao é urna resposta a um estímulo social. O axioma aí impl f1•

enfatiza o comportamento social, ou seja, a conduta dos indl

duos e grupos em termos de conflito ou de integrac;ao.

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 43

N111 n nos 60, Touraine parte da noc:;ao de projeto para criar

1 1 11 1 1fo sobre os movimentos sociais. Sartre também escre1 11 HP ito de tal noc:;ao, e os estudos marxistas em geral preo1 1 11111 H' com a questao. Na época ele estudava o comportartl 1 1 t l 11 classe trabalhadora, o grande tema que ocupava as

11• 1 1 do sociólogos em geral. Guilhon de Albuquerque ( 1977)

1 1 ,.,11 11 posic:;ao de Touraine a esse respeito: "Projeto é usado

' l i 1 111·1 1 i nc num sentido teórico; nao designa., portanto, urna

1 1 1 1 1 1 1H um conceito, um conhecimento. Esse conceito nao ex1 o <'onhecimento de urna coisa, nem de um indivíduo, nem

11111 1 p 1·opriedade de um indivíduo. O termo projeto expressa

t lp11 dt l igac:;ao entre as propriedades observáveis de indiví1 1or; o de projeto refere-se ao fato de que, em urna situa11 1 1d11, u possibilidade de o ator dar sentido a suas próprias

1 d til1 1 p rmanece sempre aberta, por oposi<;ao ao sentido já

1111 1111 Hi Hiema social".

1 11 1111wva-se portanto que o mérito da abordagem de Touraine

ldl11 1111 importancia conferida aos sujeitos na história - ou

, 1•orno ele os chama - como agentes dinamicos, produtores

11 1 l 1 11 li c:;oes e demandas, e nao como simples representantes

p1 1 p111 nLribuídos de antemao pelo lugar que ocupariam no sis1111 1 , ¡, produc:;ao. O dinamismo dos sujeitos/atores é visto em

1 1 1 1•1 1•1 t l iurais, de confronto de valores (uns sao afinnados e

1 1 111 11 1vindicados). Estes elementos, Touraine denomina-os "dial 1 d1 criac:;ao e controle", afirmando que eles se fundamentam

1 r l Ir t i<• hipóteses levantadas por Marx sobre o funcionamento

111111 1111•0 da sociedade. Na realidade, ele já se distanciava das

¡ 1 1 1 . i 1·1 u 1H do marxismo ortodoxo ao enfatizar o papel dos indiví1 • 111 o da classe social, como atores na categoría projeto.

1 1 1 1tovimento social apresenta-se na abordagem acionalista

11111 11 1 H,:uo de um grupo, um ator coletivo. Para tal é neces1 1 11 q11 1 •J "se defina por sua situac:;ao nas relac:;oes sociais de

11 1111 lo, isto é, que situe suas reivindicac:;6es e sua oposic:;ao a

1 1 r 11 po adversário no interior dos problemas da sociedade

1l11 l 1 11 I ".

11d11 nos anos 60, Touraine afirmava que só existe movitlf 11 oc:i l se houver a combinac:;ao de tres dimens6es essen1 1 l 1 1Hs , nac:;ao e modernizac:;ao. Estas tres dimens6es da

1 44 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

chamada a<_;ao coletiva abrangiam movimentos de naturezas dil 1

renciadas, os quais ele denominava movimentos políticos. A id111

de na<;ao, nas observa<;oes de Touraine, e em todo o corpo t 11"11'0

do chamado modelo de análise dependentista, que será retomnch

quando do estudo sobre a América Latina, acarretava um CHVtl

ziamento do conteúdo das lutas entre as classes antagónicaH el

sociedade.

A partir da abordagem influenciada pela chamada tool'

I

dualista da moderniza<_;ao, Touraine assinalava que todo movl

mento social é ao mesmo tempo um movimento de classe, 1111

movimento anticapitalista, oposto a domina<;ao estrangeiru

voltado para a integra<;ao e a moderniza<_;ao nacional. A na1; 1

é um elemento presente todo o tempo na análise do autor, pri ncl

palmente quando aborda as chamadas "sociedades depend<'n

tes". Touraine, em artigo publicado na Fran<;a em 1974, dull

cou-se a análise dos movimentos sociais nas sociedades dep1 •n

dentes. Sua análise foi feita em termos comparativos aos mo

vimentos sociais das sociedades dominantes. Nela, a industri11 ll

za<_;ao é um elemento básico, já que o "modelo" teórico sub.in

cente é o dualismo entre as esferas do rural e do urbano, cl1

teoria da moderniza<_;ao. Ele afirma que nas sociedades depl n

dentes a industrializa<;ao é introduzida e dirigida por urna bu

guesia estrangeira, por meio do sistema de intercambios inl.t•I'

nac10na1s.

Enquanto nas sociedades dominantes ganham importanci

os movimentos sociais contestatórios, em nome dos direitos do

trabalho, nas sociedades dependentes, ao contrário, "o fato m11h1

visível é a coexistencia, sem verdadeira integra<_;ao, dessas di fo

rentes formas de a<_;ao coletiva dos movimentos sociais, de 11 ITI

lado, e da a<_;ao crítica, de outro" (Touraine, 1977: 33). Falta élO

movimentos unidade nas a<_;oes; eles sao frágeis, heterogencoM,

dilacerados internamente e tendem a fragmenta<;ao. Eles MI

apresentam como projetos, inten<_;oes. Sua consciencia é defon

siva e contestatória devido ao "atributo" fundamental da socit •

dade dependente: o dualismo estrutural. Devido as causas asHI

naladas, Touraine concluí que "nas sociedades dependentes, o

único agente capaz de aglutinar as for<;as presentes nos mov i

mentos populares é o Estado, enquanto for<;a política exterior,

O paradigma dos novas movimentos sociais 1 45

11l 1 111 ii ficador de urna sociedade cortada em dois" (Touraine,

l '7 ).

l11 111·1 1 i ne destaca tres elementos construtivos em um movi11111 10 ·ial: o ator, seu adversário e o que está em jogo no

1 111111 l•jxistiriam tres princípios de interpreta<;ao dos movi111 1 1, Ho · iais - identidade, oposü;ao e totalidade. Eles "real'""'· 110 ambito da a<;ao coletiva, as dialéticas de cria<;ao e

1 t 1 1 i ln, Hiluadas, desta vez, imediatamente no campo dos pro1 1 1 1 clu sociedade industrial (princípio de totalidade). Isto

p 1 1 l l n 11 análise reencontrar, por trás da a<;ao coletiva, o prol 11 111 1m l dos atores individuais".

l'1111 ra ine afirmava que os movimentos sociais sao sempre,

1 1ill 111 1u análise, a expressao de um conflito de classes. 'Por

l 1 • 1 l 1 1do, possuem duplo caráter: defensivos e contestatórios,

111 1 rnnlra-ofensivos. Ele afirmou também que todo movimento

1 11tl 11 vollado para urna a<;ao crítica, que repousa sobre a conil 1 .111 • nao sobre o conflito. Em 1973 ele estabeleceu urna

1 l11 1 110 ntre movimentos sociais e lutas históricas: estas resul1 1 11111 el<• modifica<;oes advindas dos movimentos sociais.

��11 fi nal dos anos 70, Touraine se distancia ainda mais da

1 11 1 d.1¡•<1m marxista ortodoxa, deixando de priorizar os estudos

1 1 11 o1 classe operária e se concentrando no estudo da a<;ao

1,d cl1• outros grupos. Publica um estudo sobre Maio de 68 na

1 11 1 11 1 1 , no qual analisa o movimento dos estudantes; em 1973

1ld l1·11 l'roduction de la societé, cujo capítulo sobre os movimen­

' 1 11·1 11is foi um marco referencial para muitos estudantes do

'"'' 1 1 11 época. Ali ele punha a questao da reflexividade da

11 ti 1 t • HOCial.

l 11 1 1·u Touraine, os movimentos sociais sao fruto de urna vont l• rnlt •Liva. "Eles falam de si próprios como agentes de liberdade,

h ,.1111ldade, de justi<;a social ou de independencia nacional, ou

l 1 1i l 1 1 mmo apelo a modernidade ou a libera<;ao de forc;as novas,

111111 111undo de tradi<;oes, preconceitos e privilégios" (Touraine,

11 / I :11)). Eles, movimentos, nao seriam heróis coletivos, aconte1111·11ioH dramáticos ou excepcionais, nem elementos ou for<;as

11a sociedade, mas simplesmente parte do sistema de for<;as

11 ltd <l •ssa sociedade, disputando a direc;ao de seu campo cultural.

1 46 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

Ao mesmo tempo, Touraine assinalou que os movimentos sao

fon;as centrais da sociedade por serem sua trama, o seu corn ·

Suas lutas nao sao elementos de recusa, marginais a ordem, 111

ao contrário, de reposic;ao da ordem. Ele chegou a postular qm

sociologia contemporanea seria o estudo dos movim�ntos soci 1

pois tratar-se-ia de um objeto de análise que traz o ator social

volta (ator que estava em crise desde as críticas e da descren<;a

teoria marxista sobre a existencia da classe social com urna mi

histórica - o proletariado, visto como agente e ator por excel n

das mudanc;as históricas).

O paradigma teórico de Touraine alicerc;a-se na teoriu

ac;ao social. O conceito central é o de relac;oes sociais, e o terna

dominac;ao tem grande importancia. Há urna recusa a idéia 111

xista de contradic;ao, a visa.o de urna sociedade dominada p1 1

macroestruturas, por leis naturais de um sistema social ou 1

>

determinac;oes de qualquer espécie. O que se prop6e é urna un

lise centrada no desempenho dos atores sociais. A noc;ao do m

vimento social nao descreveria parte da realidade, mas seria 11

elemento de um modo específico de construc;ao desta realidml

Assim sendo, a teoría dos movimentos deve ser constru 1 1

para Touraine, ao redor das ac;oes coletivas, das lutas, doH nt

res. Eles devem ser vistos dentro de urna teoría mais geral,

teoría dos conflitos. Nela, existiriam seis categorias básicaH

conflito: os que perseguem interesses coletivos; os que se d('H1•

rolam ao redor da reconstruc;ao da identidade social, cul t,111

ou política de um grupo; os que sao forc;as políticas que buHl'll

a mudanc;a das regras do jogo; os que defendem o status c¡1111

os privilégios; os conflitos derivados da busca de control • de

principais modelos culturais; e os conflitos derivados da bu

de construc;ao de urna nova ordem social. Para Touraine, os 11111

mentos sociais derivam fundamentalmente dos conflitos ao 1

dor do controle dos modelos culturais (Touraine, 1985).

Ele assinala ainda que é um erro ver os movimentos cor

agentes de mudanc;a histórica ou forc;as de transformac;ao

presente e construc;ao do futuro. Eles nao sao, em si mesmo

agentes negativos ou positivos da história, do processo d • 111

dernizac;ao ou da libertac;ao da humanidade. Eles sao fruto l

urna relac;ao de produc;ao e organizac;ao social, urna relac;ao d u pl

O paradigma dos novos movirrvientos sociais 1 47

lile 1 1 1.idade e de oposi�ao -, e nsao se dirigem fundamen1 1cl 1 c·onira o Estado, pois nao sao lutas por meras conquis11 p1 1dt·r. Um movimento social é aE3.o mesmo tempo um con1 11 11 I um projeto cultural. TourE3aine discorda da tese que

111111 111 1H movimentos urna racionalida:::B.de instrumental dirigida.

1 1 , 11 1 o studo dos movimentos é flfundamental para enten11 w1 1c sso de mudan�a no mund<>.o, mas isto nao significa

, 1 11111 agentes ou for�as privilegiE3adas deste processo. Sao,

111 l11 rc;as culturais indispensáveia.s.

1 , l 1 1 1.t•ressante recuperar també:rr:n a concep�ao de Estado

1 111 1 " 1 n , pois ela esclarece muito · sua abordagem sobre os

1 1 111·111.mi sociais. O Estado nao seeria apenas monopólio da

1 1 1 1 111 1 da busca da legitima�ao, acomo em algumas teorias

1 l 11H ortodoxas - embora tenh::; a sempre vínculos com a

, d11·1gente. Ele é também agent& e de transforma�ao históp111 d i rigir as mudan�as organizE3acionais, que sao também

1 11111•1 1¡; i nstitucionais. Portanto, o ::: Estado nao é apenas apal h11 cln poder. É um agente social d�e reagao e transfo magao,

1 1111 ·11 social de mudan�a históri() ca.

N1 llHt• sentido, o Estado, ao respon<> der aum movimento social,

1 lo1 1 t•pondo a ordem e abrindo cam::-'-inhos para a mudanga pela

1 1 1 1 11 1 1nalizagao de novas fo mas d� e relac;éies. Os movimentos

11 11 p1 1p L mais de agentes de pressooes sociais do que de atores

1 11 lp111H das transforma�éies sociais : propriamente ditas.

N nH 11 nos 80, Touraine prossegue � seus estudos sobre os mo111 1 1 1 1 1H Hociais centrando-se em que: "stoes metodológicas, crian11111 1111 1Lodo de investigagao sobre coomo pesquisá-los e analisá1 111 pi ricamente. Ele aperfeigoa e � desenvolve, com a coope11 dn M. Wieviorka e outros, o mE:étodo da intervenga.o socioli 111 q11 • busca resgatar a trajetór:ria de movimentos sociais.

1111111 11x1 mplo podemos citar suas poesquisas sobre o sindicato

1llil111 1nclade, da Polonia, ou sobre a . a�ao de grupos extremistas

ll 1d111, ·orno as Brigadas Vermelh:_as. Aquele método preconittt 1111 H itua�ao de intera�ao entre o • entrevistador e o entrevis111 p ui· um certo período de tempOQ, dividido em etapas. Pro11 1 1 r •construir os fatos e captar-:- as explica�éies que os atool 11 nc,:oes formulam por terem agido de determinada forma.

1 46 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

Ao mesmo tempo, Touraine assinalou que os movimentos sao aH

forc;as centrais da sociedade por serem sua trama, o seu corac;ao.

Suas lutas nao sao elementos de recusa, marginais a ordem, maH,

ao contrário, de reposic;ao da ordem. Ele chegou a postular que u

sociologia contemporanea seria o estudo dos movimi:mtos sociaiH,

pois tratar-se-ia de um objeto de análise que traz o ator social do

volta (ator que estava em crise desde as críticas e da descrenc;a nu

teoria marxista sobre a existencia da classe social com urna missao

histórica - o proletariado, visto como agente e ator por excelenciu

das mudanc;as históricas).

O paradigma teórico de Touraine alicerc;a-se na teoria d

ac;ao social. O conceito central é o de relac;oes sociais, e o tema dn

dominac;ao tem grande importancia. Há urna recusa a idéia mar

xista de contradic;ao, a visa.o de urna sociedade dominada pelaH

macroestruturas, por leis naturais de um sistema social ou por

determinac;oes de qualquer espécie. O que se prop6e é urna aná

lise centrada no desempenho dos atores sociais. A noc;ao de mo

vimento social nao descreveria parte da realidade, mas seria um

elemento de um modo específico de construc;ao desta realidade.

Assim sendo, a teoria dos movimentos deve ser construída,

para Touraine, ao redor das ac;oes coletivas, das lutas, dos ato

res. Eles devem ser vistos dentro de urna teoría mais geral, a

teoría dos conflitos. N ela, existiriam seis categorías básicas dt•

conflito: os que perseguem interesses coletivos; os que se desen

rolam ao redor da reconstruc;ao da identidade social, cultura l

ou política de um grupo; os que sao forc;as políticas que busca111

a mudanc;a das regras do jogo; os que defendem o status quo 1•

os privilégios; os conflitos derivados da busca de controle doH

principais modelos culturais; e os conflitos derivados da buscn

de construc;ao de urna nova ordem social. Para Touraine, os movi

mentos sociais derivam fundamentalmente dos conflitos ao r<1

dor do controle dos modelos culturais (Touraine, 1985).

Ele assinala ainda que é um erro ver os movimentos como

agentes de mudanc;a histórica ou forc;as de transformac;ao do

presente e construc;ao do futuro. Eles nao sao, em si mesmoH,

agentes negativos ou positivos da história, do processo de mo

dernizac;ao ou da libertac;ao da humanidade. Eles sao fruto cl11

urna relac;ao de produc;ao e organizac;ao social, urna relac;ao duplu

O paradigma dos novas movimentos sociais 1 47

e 1 • identidade e de oposic;ao -, e nao se dirig:em fundamenl 1i l1 ri nte contra o Estado, pois nao sao lutas por meras conquis1 1 de poder. Um movimento social é ao mesmo tempo um con1 1 1 o social e um projeto cultural. Touraine discorda da tese que

1 1 1 ihui aos movimentos urna racionalidade instrumental dirigida.

l 11 1 1·n ele, o estudo dos movimentos é fundamental para entend1•1' o processo de mudanc;a no mundo, mas isto nao significa

1p1n sejam agentes ou forc;as privilegiadas deste processo. Sao,

p1 1dm, forc;as culturais indispensáveis.

É i nteressante recuperar também a concepc;ao de Estado

d1 'l'ouraine, pois ela esclarece muito sua abordagem sobre os

1 1 1nvimentos sociais. O Estado nao seria apenas monopólio da

ni ncia e da busca da legitimac;ao, como em algumas teorías

11111 1·xistas ortodoxas - embora tenha sempre vínculos com a

1 l 11 HHe dirigente. Ele é também agente de transformac;ao histó1 1 1·11 por dirigir as mudanc;as organizacionais, que sao também

11111danc;as institucionais. Portanto, o Estado nao é apenas apa­

' 11 1 ho de poder. É um agente social de reac;ao e transformac;ao,

11111 11 forc;a social de mudanc;a histórica.

Nesse sentido, o Estado, ao responder a um movimento social,

1 t 11 ria repondo a ordem e abrindo caminhos para a mudanc;a pela

l 1 1Ht.itucionalizac;ao de novas formas de relac;6es. Os movimentos

l 1 1 1 1 o papel mais de agentes de pressoes sociais do que de atores

1

11 1 ncipais das transformac;6es sociais propriamente ditas.

Nos anos 80, Touraine prossegue seus estudos sobre os mo­

· 1111 • ntos sociais centrando-se em quest6es metodológicas, criani l 1 1 um método de investigac;ao sobre como pesquisá-los e analisál 1 1H mpiricamente. Ele aperfeic;oa e desenvolve, com a coope1 1wno de M. Wieviorka e outros, o método da intervern;;ao socioli 111 i ·a, que busca resgatar a trajetória de movimentos sociais.

t 11 1 1 no exemplo podemos citar suas pesquisas sobre o sindicato

: 11lidariedade, da Polonia, ou sobre a ac;ao de grupos extremistas

1111 1 Lál ia, como as Brigadas Vermelhas. Aquele método preconi11 111na situac;ao de interac;ao entre o entrevistador e o entrevist 1 1do, por um certo período de tempo, dividido em etapas. Pro1 1 1 1·1 1-se reconstruir os fatos e captar as explicac;6es que os ato11 H das ac;6es formulam por terem agido de determinada forma.

1 48 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

A metodologia visava, fundamentalmente, criar condic;;6es

distanciamento ideológico entre o pesquisador e o objeto da an

lise. Em 1985, Touraine destacou que "muito freqüentement 1

os autores, enquanto pensam estar descrevendo ac;;6es coletiv

ou eventos históricos, expressam cruamente suas próprias opl

ni6es ... é indispensável comparar nossas próprias categori

com outros tipos de construc;;ao da realidade social. . . O problem ,

entretanto, nao é perseguir urna objetividade pura, abstrat 1

mas determinar os limites da ideologia e realizar discuss()

entre os cientistas sociais mais significativos, submetendo no

sos trabalhos a crítica" (Touraine, 1985: 750-751).

Ainda nos anos 80, Touraine publicou Le Retour de l' Acteur

( 1984) e um livro que enfocava a América Latina, Palavra

sangue ( 1989). Neste último, ele reafirma que os movimento

sociais ocupam lugares centrais na sociedade, lugares onde ten

dem a se formar os conflitos mais centrais, onde a capacidad

dos homens de fazer a história atinge seu ponto mais elevado

Eles levam a formac;;ao de atores sociais (Touraine, 1988: 28ú l.

Na realidade, progressivamente, o tema dos movimentos sociai

ganhou, na obra de Touraine, nao apenas maior importanci :

ele o elegeu como o centro de estudo da própria sociologia. Estn

disciplina passou a se organizar, em seus livros, ao redor do

conceito de movimento social.

Mas Touraine ve várias limitac;;6es nos movimentos, entrt

elas sua subordinac;;ao a ac;;ao do Estado. Na ocasiao, ele atribu í u

ao Estado o papel de ator principal porque sua atribuic;;ao serin

manter a continuidade da sociedade por meio de mudanc;;as eco

nómicas e sociais, sendo o principal agente de desenvolvimento

social, intervindo na própria sociedade civil. As lutas históricuH

sao vistas como conflitos sociais em situac;;ao de mudanc;;a, e u11

modificac;;6es nos próprios movimentos sao vistas como resulta

do da intervenc;;ao do Estado.

A reflexao sobre alguns tipos de movimentos sociais latino

-americanos foi outra contribuic;;ao de Touraine. Em Palavra "

sangue ( 1989), ele tratou dos movimentos camponeses, indíg(1

nas, messianicos, étnicos, movimentos de reivindicac;;oes urbanaH,

comuhitarismo religioso, movimentos de lutas nacionais ek.

Todos eles sao analisados como lutas gerais entre adversários t

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 49

1

1

1 1 1 1ntam vários tipos de conduta: reivindicativa, revolucio1111 1 11, populista e comunitarista.

( >s elementos constitutivos dos movimentos sociais foram

1 1 l t'llmente reformulados em relac;ao aos anos 60. Seriara eles

¡ 1 1 1 11: a definic;ao do próprio ator social, a de seu adversário, a do

' 111 1 po de disputa e a do campo de conflito. Apesar de ter se afast 11111 do marxismo, Touraine continuou analisando a sociedade e

" 111ovimentos em termos de classes e conflitos sociais. Muitos

I" 1pt isadores norte-americanos consideram que Touraine é, e

' 1 1 1 pr teria sido, um marxista. Trata-se d'le urna polemica que

11 111 fitz mais o mínimo sentido nos anos 90, mas que é importante

1 p 11 Hl1 registre porque explica, em parte, por que sempre houve

1 1 1 1 c l silencio sobre sua abordagem na maioria da produc;ao

1 11 1111 >gica norte-americana sobre os movimentos sociais. Para

1111 , 'lburaine sempre esteve mais próximo de Weber do que de

1 11rx, mas sempre dialogou com este último em seus trabalhos.

'l'ouraine afirma que os movimentos op6em urna classe a

1111 1 1·1 1, urna categoria social a outra. Diferentemente do para1 1 11 1111 1 americano, Touraine nao se preocupa com a intencional o l .11le dos atores, com os motivos que os levara a se engajar em

11 1 11 H coletivas. Sua preocupac;ao é entender a dinamica de um

ol 1rl11 processo social em que há a presenc;a de movimentos.

Apesar de Touraine ter alterado sua análise ao longo do

11 111po, permaneceram nela certos trac;os um tanto quanto nor111.11 i vos sobre os movimentos. Tratara-se de ac;6es orientadas

11 1 1 1 1 i nterac;6es entre adversários em conflito, de interpretac;oes

• 1 1 1 1 1clclos societais opostos, assim como de campos culturais divit11d111-1, separados. Os movimentos sociais sáo ac;6es coletivas que

• c 1, 1i;envolvem sob a forma de lutas ao redor do potencial ins1 ll r t('Íonal de um modelo cultural, num dado tipo de sociedade.

i m , os conflitos sociais entre os atores devem ser entendidos

111 t ermos normativos e culturais.

Cohen e Arato distinguem tres pontos na abordagem de

1 1111·a ine em relac;ao a tradic;ao clássica norte-americana. Primei111 ni • nao aceita a tese da anomia. Segundo: ve os movimentos

11 11 <'Orno fatos excepcionais ou anormais, mas como criadores de

1.!11 l:!Ocial, por meio de suas práticas, normas e instituic;oes.

1 50 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

Terceiro, diferentemente de Parsons, Touraine nao ve as orientac;;oes culturais de urna determinada sociedade como incontestavelmente dadas. Ele argumenta que o caminho que urna sociedade

utiliza para institucionalizar suas orientac;;oes culturais envolve

conflitos e relac;;oes sociais de dominac;;ao (Cohen, Arato, 1992:

5 14). Assim como Arato, Touraine atribuí importancia a sociedade

civil, só que num sentido contrário. Nao se trata de reafirmar a

sociedade civil mas de negar práticas nela existentes. É a sociedade civil que, prioritariamente, os movimentos esta.o questionando, tentando mudar suas orientac;;oes culturais, e nao o Estado ou

o mercado. A sociedade civil focaliza a ac;;ao coletiva dos agentes

sociais e aí os movimentos sociais sao os grandes destaques.

Observa-se que para Touraine a sociedade civil é um espac;;o

de disputas, lutas e processos políticos. É o espac;;o onde se localiza o processo de criac;;ao de normas, identidades, instituic;;oeH

e relac;;oes sociais de dominac;;ao e resistencia, porque nele há

urna capacidade de auto-reflexao. E é esta capacidade que

importante analisar nos movimentos sociais, e nao o seu repcr

tório de ac;;oes. Touraine cría urna hierarquía das formas do

lutas sociais, urna espécie de tipología, sem desenvolver umu

teoría da auto-reflexao. Ainda segundo Cohen e Arato, Tourainc

"faz urna sociología da ac;;ao social quando trata dos novos mo

vimentos sociais, mas nao formula urna teoría da sociedaclo

civil. Fica-se num dilema: interpretar os movimentos segundo

a lógica estratégica da organizac;;ao - envolvendo a pressao d

grandes estruturas como o Estado e a economía; ou optar pu

urna enfase sobre a identidade, as normas, os modelos cultural

e as formas associativas articuladas pelos próprios atore o

institui<;oes da sociedade civil" (Cohen e Arato, 1992: 520). Seo

( 1990) também fez várias críticas a teoría de Touraine, al

mando que suas formulac;;oes falham porque ele subordinu

significado empírico das atividades dos movimentos sociaiH

urna teoría de desenvolvimento societal, caindo nos mesmos er

de teorías que critica. Scott concluí que Touraine também d t.

urna análise normativa, na qual se observa que há um agtin

social privilegiado: os movimentos sociais (Scott, 1990: 6).

Nos anos 90, Touraine volta-se para a reflexao sohr

sociedade em geral e os rumos da humanidade. Publica < 'rtl

:1-

le

re

2:

le

a

en­

>U

es

O paradigma dos novos movimentos sociais 151

que de la modernité ( 1992) e reve sua teorila sobre os movimenLos em func;ao de transformac;oes acorridas neles e, fundamenLalmente, no sistema capitalista, mais precisamente as transíormac;oes na sociedade e no mundo do trnbalho. Partindo da

·oncepc;ao de movimento social como urna representac;ao geral

da vida social antes que um tipo particular de fenómeno social,

Touraine assinala que esta representac;ao difere da imagem liberal, que ve a sociedade como um mercado aberto, assim como

d quela que a identifica com um poder central ou urna série de

mecanismos implacáveis para manter a ordlem social. Ele identilica urna crise na noc;ao de movimento social advinda de mudan­

'llS na natureza do conflito social. No século passado e em boa

pn rte deste século, a lógica de tal conflito esteve guiada pelos

nLeresses antagónicos entre a burguesia e os trabalhadores. O

processo de trabalho era o espac;o em que as relac;oes entre as

d11 s categorias se desenvolviam. As recentés transformac;oes

tln ra da globalizac;ao levaram Touraine a assinalar a perda da

l111 portancia do processo de produc;ao, a transformac;ao do mundo do consumo como o grande espac;o de socializac;ao das relac;oes

1 wiais, a importancia das comunicac;oes etc. Estas mudanc;as

11 1 1 1 levado ao crescimento do individualismo, os indivíduos esta.o

1 1111is centrados em si próprios, sobre seus desejos e interesses

1 1 1 1dos a saúde, a educac;ao, ao lazer etc. As demandas nao esta.o

1 11 ¡•11nizadas em torno de um princípio central. Há urna dissociac;ao

• 111 1· o mundo dos negócios e o da cultura. Das lutas sociais,

l\i 1 1 ruine assinala que o que restou foi a luta contra o totalitarismo,

• 111 11uas várias formas. O tema dos movimentos sociais como ele

11!11 H o definira tornou-se sem significado, porque os movimentos

'" 1lis nao sao concebidos sem o reconhecimento de que as rela11 el produc;ao tem papel central na determinac;ao das relac;oes

• l'ol has políticas.

'l'ouraine argumenta que a idéia de movimento social é mais

p 1 1 1p riada a países que tem experimentado o desenvolvimento

1

11l11lista genuíno. Os movimentos op6em atores da sociedade

1, pressupondo nao somente que a sociedade civil seja distindo l•�stado (Touraine, 1994: 380). Em Qu-est-ce la democracie

1 1 t l l, le retoma a tese do sujeito (histórico) afirmando que

l 1 "H > existe como movimento social, como contestac;ao da

I 52 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

lógica da ordem, tome esta urna forma utilitarista ou seja sim

plesmente a busca da integra¡;ao social" (Touraine, 1994: 24 HI

Ele explicita suas diferen<;as em rela<;ao a Marx afirmando qu

"a no¡;ao de movimento social deve tomar o lugar da no¡;ao d

classe social", porque atualmente "nao se trata mais de lutn

pela dire¡;ao dos meios de produ¡;ao e sim pelas finalidades da

produ¡;oes culturais, que sao a educa<;ao, os cuidados médicoi;

a informa¡;ao de massa": "As novas contesta<;oes nao visam crin

um novo tipo de sociedade, menos ainda libertar as for<;as d

progresso e de futuro, mas 'mudar a vida', defender os direitoH

do homem, assim como o direito a vida dos que estao amea<;a

dos pela fome e pelo extermínio, e também o direito a livre expre¡.¡­

sao ou a livre escolha de um estilo e de urna história de vida pessoais" (Touraine, 1994: 257, 260, 261, 262). Ele conclui afirmando que os movimentos sociais mobilizam princípios e sentimen

tos. O que está em crise e em vias de desaparecimento é o papel

dos partidos políticos como representantes da necessidade histó·

rica, acima dos atores sociais e muitas vezes contra eles. Os novo¡.¡

movimentos sociais falam mais de urna autogestao que de um

sentido de história, e mais de democracia interna que de tomada de poder. Cabe aos intelectuais, em especial aos sociólogos,

resgatar sua tradi<;ao, "descobrir o que está oculto, sair de si

mesmo e de seu meio para restabelecer a distancia com o objeto

estudado". "Descrever e analisar os modelos culturais, as rela­

<;6es e os movimentos sociais que lhes dao forma, as elites políticas e as formas de mudan<;a social que agitam o que pode

aparecer por um breve instante como um mundo além da

historicidade" (Touraine, 1994: 267, 268) sao as novas tarefas

dos pesquisadores dessa temática.

Em 1996, Touraine afirmou que hoje precisamos revisar o

conceito de movimento social nao apenas em rela¡;ao a cem anos

atrás, em rela<;ao ao movimento dos trabalhadores, mas revisá­

-lo na produ¡;ao recente, dado as mudan<;as e o impacto da globaliza<;ao na territorialidade e na soberania das na<;oes, a crise

e o declínio das institui¡;oes, as tensoes individuais e dos grupos

sociais entre o que querem ser (seus valores) e o que realmente

sao na sociedade (Touraine, 1996, Conference ISA, Califórnia).

Ele passou a enfatizar a importancia do político na análise das

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 53

, 1 1 1t 1H dos movimentos e volta-se novamente para o seu estudo

11 1 A mérica Latina: "Hoje, vemos os movimentos sociais e cultu1 1 H voltarem-se ao sistema político para firmar alianc;as e conl 1 1l>uir para o renascimento de urna vida política que, seja no

1 I HO do México ou da Colómbia e mesmo da Vienezuela, atingiu

11111 grau avanc;ado de decomposic;ao. Aqueles que veem na ac;ao

i loH zapatistas de Chiapas um novo surto guerrilheiro, responsáv1d por criar de forma esporádica focos de violencia nas várias

1

1 1 rLes do território mexicano, enganam-se profundamente. A

11 ·110 armada nao é mais essencial para os zapatistas; o que importa a Marcos e aos demais líderes do movimento é desempe1 d1ar um papel decisivo na transformac;ao do sistema político"

1 !1'olha de S. Paulo, 13-10-1996, caderno "Mais", p. 3).

1 - A corrente italiana: Alberto Melucci e a enfase

na identidade coletiva

Alberto Melucci estudou os movimentos socia1s por várias

el cadas, e no final dos anos 80 sua produc;ao se tornou um eixo

referencial paradigmático em funbito internacional. Atribuí-se a ele

o crédito de ser um dos fundadores do paradigma da identidade

coletiva. Sua produc;ao, ao contrário da de Touraine, que enfatiza

f:listemas macrossocietais, está centrada mais no plano micro, na

ac;ao coletiva de indivíduos, tendo um enfoque mais psicossocial.

Em 1980, ele publicou um artigo que demarcou seu trabalho a

partir de entao: a preocupac;ao com as questoes teóricas. "The New

Social Movements: A Theoretical Approach" criou um conceito (Novos Movimentos Sociais), um campo de análise (o cultural) e demarcou as principais diferenc;as entre estes e as análises anteriores

sobre os movimentos sociais (centradas no estudo da classe operária).

Dada sua formac;ao e atuac;ao profissional - nas ciencias

sociais e na psicologia clínica -, Melucci combinou a análise da

subjetividade das pessoas com a análise das condic;6es político­

-ideológicas de um dado contexto histórico. Em 1989, publicou

Nomads of the Present, no qual estabeleceu a conexao entre movimentos sociais e necessidades individuais na sociedade contemporanea. As experiencias individuais foram retomadas em Il

1 54 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

gioco dell'io ( 199 1), reescrito e publicado em 1996 coro o título

The Playing Self Ainda em 1996 publicará sua obra máximu :

Challenging Codes-Collective Action in the Information Ag1 • .

Segundo Touraine, este livro é "o mais abrangente estudo anall

tico dos movimentos sociais e urna elaborada análise da nova ge

ra<;ao de a<;5es coletivas, que tenta incorporar a experiencia priva

da e coletiva os efeitos da globaliza<;ao em contextos sociais quo

esta.o mudando rapidamente".

Melucci retoma na obra de 1996 a tradi<;ao dos clássicos daH

ciencias sociais e reelabora a teoria da a<_;ao social. O ponto d

partida de sua análise é a teoria da a<_;ao coletiva, porque, segundo

ele, só ela pode prover urna base analítica significativa para o

estudo dos movimentos sociais. Ele a define como "um conjunto d

práticas sociais que envolvem simultaneamente certo número de

indivíduos ou grupos que apresentam características morfológicas

similares em contigüidade de tempo e espa<;o, implicando um campo

de relacionamentos sociais e a capacidade das pessoas de incluir

o sentido do que esta.o fazendo" (Melucci, 1996: 20).

Objetivando distinguir entre os vários tipos de comportamento, ele estabeleceu urna distin<;ao analítica entre solidariedade e

agrega<_;ao, conflito e consenso, quebra dos limites e compatibilidade, competi<;ao e aceita<;ao das "regras do jogo". Existe portanto

um sistema de a<;5es coletivas, e ele nao deve ser confundido coro

os lugares da práxis social onde aquelas a<;5es tero lugar (institui­

<;5es, organiza<;5es, associa<;5es etc.). É importante registrar que

Melucci utiliza a no<;ao de sistema para fugir da caracteriza<;ao da

realidade social como algo metafísico ou portador de urna essencia.

Um sistema é simplesmente um complexo de relacionamentos entre

elementos. No caso da a<_;ao coletiva estes elementos esta.o agrupados

em quatro grandes sistemas: o sistema de produ<;ao e apropria<;ao

dos recursos da sociedade, o sistema político, que toma decisoes

sobre a distribui<;ao destes recursos, o sistema organizacional e o

sistema do mundo da vida, no funbito da reprodu<_;ao das rela<;5es

sociais (conforme exposi<;5es anteriores, o conceito "mundo da vida"

foi bastante desenvolvido por Habermas).

A análise da a<_;ao coletiva pode se dar em cinco níveis: no

que concerne a sua defini<;ao, a sua forma<;ao na estrutura social, a seus componentes, as formas e aos campos onde ocorre.

O paradigma dos nouos mouimentos sociais 1 55

e) autor define a ac;ao coletiva como a uniao de vários tipos de

t·onflitos baseados no comportamento dos atores num sistema

Hocial. As formas mais comuns de ac;oes sociais conflituosas, relacionadas na literatura com o estudo dos movimentos sociais,

Hao as revoluc;oes, a violencia, o comportamento da multidao e

os conflitos decorrentes da participac;ao em ac;oes diretas.

Para Melucci, movimento social é urna construc;ao analítica e nao um objeto empírico ou um fenómeno observável. "Ela

designa formas de ac;ao coletiva que invocam solidariedade,

manifestam um conflito e vinculam urna ruptura (ou quebra)

nos limites de compatibilidade do sistema onde a ac;ao tem lugar"

( 1996: 28). A dimensao analítica é construída com vistas a indicar certas qualidades dentro do campo das ai;oes coletivas. Os

movimentos nao sao entidades que se movem com a unidade de

objetivos a eles atribuídos por alguns ideólogos. Movimentos

sao sistemas de ac;oes, redes complexas entre os diferentes níveis e significados da ac;ao social. A distinc;ao feita por Melucci

entre forma e representac;ao de imagens e idéias constituindo

um conjunto de novos significados é um ponto-chave para o

entendimento de sua teoria. Significa afirmar que a enfase dada

pela MR ao fator organizac;ao - materializado numa associac;ao - nao o torna o elemento básico e distintivo que atesta a

existencia de um movimento. Ao contrário, Melucci se respalda

mais nas teses dos interacionistas simbólicos, mais preocupados com o nível ideacional e com o conjunto de representac;oes

que um movimento cría ao longo de sua existencia. O movimento

como urna organizai;ao poderá ter decrescido ou até mesmo desaparecido, mas existirá na sociedade por meio das representac;oes que criou e que passam a mediar ou servir de parámetro

para as relac;oes sociais cotidianas.

Nesta conceituac;ao, a mera existencia de um conflito nao

é suficiente para qualificar urna ac;ao como movimento social.

Também a quebra de regras e normas nao é suficiente para

identificar um movimento social. O que caracterizaría sua existencia seria a luta entre dois atores por urna mesma coisa. Os

conflitos principais que gerariam esta luta sao de dois tipos: conflitos baseados na ac;ao organizacional e aqueles com base na

ac;ao política.

1 56 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

Portanto, numa sociedade concreta, o sistema político e a

organizac;;ao social sao as mediac;;oes pelas quais aparecem os

comportamentos coletivos, que nao sao genéricos mas tem caráter de classe (no sentido weberiano). Os movimentos sociais de

classe geram ac;;oes que mudam o sistema de dominac;;ao. Eles

envolvem conflitos sobre o modo de produc;;ao e sobre a apropriac;;ao e a orientac;;ao da riqueza social.

Na realidade, Melucci faz urna análise em que nega nao

apenas a validade de urna abordagem estrutural e a existencia de

determinac;;oes e contradic;;oes que geram antagonismos e demarcam movimentos, mas também as análises funcionalistas, atribuidoras de total autonomia a ac;;ao do sujeito. Para ele o conflito nao

é algo natural, imanente a natureza humana. Ele pode ser aplicado em termos de relac;;oes sociais. Sendo assim, Melucci afirma

que o essencial é construir um espac;;o analítico a respeito das

relac;;oes de classe e analisar como elas sao produzidas.

Outro destaque na análise de Melucci é que ele chama a

atenc;;ao dos analistas para o fato de que nos movimentos sociais

atuais os iniciadores das ac;;oes nao sao os marginalizados mas

sim lideranc;;as com experiencia anterior. Os primeiros a se rebelar numa dada situac;;ao de opressao nao sao os mais oprimidos

e desagregados, mas os que experimentam urna contradic;;ao intolerável entre a identidade coletiva existente e as novas relac;;oes sociais impostas pela mudanc;;a.

Por que os mais experientes se mobilizam? Melucci afirma

que é porque contam com experiencia de participac;;ao, isto é, já

conhecem os procedimentos e métodos de luta. N estes movimentos, eles já possuem líderes próprios e um mínimo de recursos de organizac;;ao. Outro elemento explicativo é o fato de utilizarem redes de comunicac;;oes já existentes para veicular novas mensagens e novas palavras de ordem.

Melucci propós, nos idos de 1976, baseado em Touraine,

urna distinc;;ao entre movimentos reivindicatórios, políticos e de

classe, diferenciac;;ao baseada em seus objetivos. Os movimentos

reivindicatórios procuram impar mudanc;;as nas normas e nos

processos de destinac;;ao dos recursos públicos. Os movimentos

políticos pretendem influir nas modalidades de acesso aos ca-

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 57

111lis de participac;ao política e promover mudanc;as nas relac;oes

do forc;a. Os movimentos de classe buscam subverter a ordem

ocial e transformar o modo de produc;ao e as relac;oes de classe.

l•: I , investiga as novas formas de ac;ao coletiva, em sociedades

do capitalismo avanc;ado, e o advento de conflitos explosivos em

ociedades dependentes. Distingue diferentes tipos de ac;ao soc· i ul, tais como a de grupos em que nao há solidariedade entre

llH pessoas, ou comportamentos orientados exclusivamente do

11xLerior, que nao se referem ao grupo propriamente dito ( 1976).

Em 1992 Melucci afinna que "a análise dos movimentos

ociais oferece urna chave teórica e metodológica que pode ser

n plicada para além do campo empírico das ac;oes coletivas. Eles

n judam a entender a criac;ao da ac;ao social, assim como a ac;ao

1 ndividual, e levam a explorac;ao de novas possibilidades, pois

(.rata-se de urna ac;ao que mantém distancia, ela própria, das

h ranc;as e signos dos lugares e caminhos nos quais a sociedade

t•onstrói a si própria. Constituem aquela parte da realidade social

na qual as relac;oes sociais ainda nao esta.o cristalizadas em esLruturas sociais, em que a ac;ao é a portadora imediata da tecitura

,

. lacional da sociedade e do seu sentido" (Melucci, 1992: 43). Em

1 996, Melucci reafirma estas posic;oes e acrescenta: "Movimentos

Hao um sinal; eles nao sao meramente o resultado de urna crise.

l\.ssinalam urna profunda transfonnac;ao na lógica e no processo

que guiam as sociedades complexas. Como os profetas, eles falam antes: anunciam o que está tomando forma mesmo antes de

HUa direc;ao e conteúdo tornarem-se claros. Os movimentos conLemporaneos sao os profetas do presente" ( 1996: 1)

Observamos em tais declarac;oes algumas concordancias com

Touraine, quando se veem os movimentos sociais como urna

lente por meio da qual problemas mais gerais podem ser abordados. Eles também produzem modelos organizacionais, influenciam instituic;oes e atores sociais, públicos e privados. E mais,

os movimentos sociais produzem também elites políticas para

corporac;oes, servic;os públicos, empresas, escolas e sistemas

educacionais em geral. Existe urna transformac;ao na cultura e

nos mores a partir da atuac;ao dos movimentos sociais. Eles institucionalizam práticas sociais e mudam a linguagem cultural

de urna época. Como exemplos, Melucci cita as preocupac;oes

1 58 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

com ecología, ra<;a, genero, infancia etc. Ele concluí que os movimentos tem a capacidade de produzir novas formas de nomea­

<;ao da realidade e desmascarar velhas maneiras de agir (Melucci,

1994).

A inadequa<;ao da conceitualiza<;ao existente sobre os movimentos sociais é vista nao apenas como equívoco dos analistas, mas como fenómenos que apresentam, historicamente, novidades em termos de a<;oes coletivas. Negando a tradi<;ao marxista, que via os movimentos como meras expressoes de condi<;oes

estruturais da classe e de suas contradi<;oes, Melucci retoma nos

anos 90 a preocupa<;ao dos teóricos norte-americanos: por meio

de que processos os atores constroem suas a<;oes coletivas. Supondo que nao é possível estabelecer urna rela<;ao linear entre

ator (voluntário) e sistema (determinista), Melucci ve a intera<;ao

do ator numa a<;ao coletiva como resultado de múltiplos processos e diferentes orienta<_;oes. Há um processo relacional, e este

cría a identidade coletiva do grupo. Trata-se de um processo em

que se enfatiza a reflexividade da a<;ao social. Podemos observar que tal processo nao é novo na literatura sociológica. Ele

advém da psicologia social e de análises já tratadas pelo interacionismo simbólico, em que valores, símbolos e significados

da a<;ao social sao construídos por meio de intera<;oes múltiplas.

Processo relacional é a capacidade e a tendencia dos movimentos

para constituir, identificar e poder interrogar sua própria identidade. Os próprios atores coletivos sao criados no curso das atividades, eles se constituem a partir dos atributos que escolhem

e incorporam como sendo os melhores para definir suas a<;oes.

O ator individual transforma-se em membro de um ator coletivo no processo da a<;ao coletiva, ganha identidade nova, que

nao é só sua mas ganha existencia enquanto parte do coletivo.

Assim, "identidade coletiva é urna defini<;ao interativa e

compartilhada, produzida por certo número de indivíduos (ou

grupos em níveis mais complexos) em rela<;ao a orienta<;ao de

suas a<;oes e ao campo de oportunidades e constrangimentos

onde estas a<;oes tem lugar" (Melucci, 1996: 70). Ela é construída

e negociada por urna ativa<;ao de relacionamentos sociais que

conectam os membros de um grupo ou movimento. Isto implica

a presen<;a de marcos referenciais cognitivos, de densa intera-

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 59

·110, de trocas emocionais e afetivas. A perspectiva construtivista

11Hlá presente na abordagem. "O 'nós' se constrói por urna lógica

que nunca pode ser completamente transcrita em urna lógica raC"Íonal de meios e fins, ou por racionalidades políiticas. Há sempre

u rna margem de negociac;ao" ( 1992: 49).

Em 1995, Melucci afirma que a identidade coletiva é o pro1· sso de construc;ao de um sistema de ac;ao, sendo este processo

1 nterativo e compartilhado produzido por muitos indivíduos -

ou grupos.

A questao da autonomia é apresentada por Melucci no paradigma dos NMS como urna capacidade do grupo; capacidade para

g rar a ac;ao autónoma, pois os movimentos desenvolvem a idenLidade coletiva em relacionamentos circulares entre o sistema de

oportunidades e de constrangimentos. Assim, os atores coletivos

devem ser capazes de se identificar e distinguir-se, eles próprios,

lo meio ambiente que os circunda. A identidade coletiva é um pro-

. sso que envolve tres mecanismos para sua definic;ao/constituic;ao:

n definic;ao cognitiva concernente a fins, meios e campo da ac;ao; a

l'ede de relacionamentos ativos entre os atores que interagem,

omunicam-se, e influenciam uns aos outros, negociam e tomam

<lecisoes; e, finalmente, a identidade coletiva requer um certo grau

de investimento emocional, no qual os indivíduos sintam-se, eles

próprios, parte de urna unidade em comum (Melucci, 1995: 44,45).

Melucci destaca que a identidade coletiva nunca é inteiramente

negociável, porque a participac;ao e a ac;ao coletivas sao dotadas de

8ignificados que nao podem ser reduzidos a cálculos de custo e

benefício, sempre mobilizam emoc;oes e sentimentos, tais como,

paixoes, amor e ódio, fé e medo etc.

A identidade coletiva é também um processo de aprendizagem - aprendizagem do sistema de relac;oes e representac;oes

que comp6em as ac;oes coletivas dos movimentos. Há urna auto­

-reflexao sobre o significado das ac;oes que é incorporada a práxis

do grupo. Este processo é histórico e tem caráter público, pois

os atores coletivos tem sempre urna identidade pública (Melucci,

1994b). "Os atores coletivos desenvolvem a capacidade de resol- l 1

ver problemas criados pelo meio que os circunda e tornam-se,

progressivamente, independentes e autónomos em sua capacidade para a ac;ao dentro da rede de relacionamentos nos quais

1 60 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

esta.o situados. Portanto, o processo da identidade coletiva é tam

bém a habilidade para produzir novas definic,;6es, porque inte

gra o passado e elementos que esta.o emergindo no presente,

dentro da unidade e continuidade de um ator coletivo" (Melucci,

1996: 75).

"Os movimentos sociais sao vistos como fenómenos simultaneamente discursivos e políticos, localizados na fronteira entr

as referencias da vida pessoal e a política" (Melucci, 1994a: 185).

Dimensao pessoal porque as pessoas nao sao moldadas apenas

por condic,;6es estruturais, assim como nao sao indivíduos racionais apenas. Experiencias corporais, emocionais e afetivas também constroem o universo simbólico de representac,;6es dos indivíduos. Melucci se recusa a ver os movimentos como simples respostas as crises económicas (como em algumas análises de cunho

marxista ortodoxo) ou como meros efeitos de desvios e marginalidades (como na abordagem funcionalista clássica). Segundo

Avritzer ( 1994), Melucci busca urna forma de desvelar um sentido que os indivíduos podem produzir por si mesmos, e para tal

sao necessárias novas formas de abordar o social. Simplesmente

refletir sobre o que as pessoas pensam nao é suficiente no mundo

contemporaneo. Ele trabalha com categorias ideacionais: emoc,;ao, intuic,;ao, criatividade, percepc,;ao feminina do mundo etc., por

acreditar que elas podem tornar-se elementos legítimos do processo

por meio do qual a realidade é construí da. A ac,;ao social é vista como

um processo interativo dentro de um campo de múltiplas possibilidades, onde a incerteza e a diversidade poderao ser a base para a

criac,;ao de solidariedades.

Na abordagem de Melucci a ideologia é um nível analítico

decisivo para se entender os movimentos sociais. Ela nao é estática, atua num campo de conflitos e tens6es entre os diferentes

grupos e facc,;6es de um movimento e seu controle é urna fonte importante de lideranc,;a. Ela fornece os marcos que os atores usam

para representar suas ac,;6es e é urna das principais ferramentas para garantir a integrac,;ao, além de consolidar a identidade do grupo.

Melucci utiliza a categoria dos norte-americanos, o frame, para expressar o papel das ideologias em um sistema de relac,;6es sociais.

Ele retoma a afirmac,;ao de Touraine de que a ideologia inclui a

definic,;ao do ator, a identificac,;ao do adversário e a indicac,;ao de

O paradigma dos novos movimentos sociais 161

ll 1 111/objetivos e metas para os quais se luta. Ela preenche a func;ao

i l1 i ntegrac;ao para os movimentos sociais como um todo, e esta

l111 1c;ao é consumada por urna repetic;ao de valores e normas, pelo

1 1 111trole dos comportamentos desviantes e pela estabilizac;ao de

1 t1tfos rituais. Em resumo, a ideología tem urna fum;ao estratégica

111 11 relac;ao ao meio ambiente, pois pode ser utilizada para reduzir

1 11 custos e maximizar os beneficios (Melucci, 1992: 60).

Embora fac;a algumas críticas a abordagem da MR, ele desl 11 ·a que ela traz a tona a dimensao de como os movimentos se

111antem ao longo do tempo, como trocam reicursos com outras

111Htituic;6es societárias etc. Entretanto, observamos que ao fazer

11 análise do papel das ideologías como elemento organizacional

dos grupos, Melucci nao só retoma antigas teses das abordagens

11mericanas como outras mais recentes: por exemplo, a dos custos

1 benefícios da teoría das escolhas racionais, e aquela da impor11 ncia da organizac;ao e do processo político no estudo dos movi1 nentos. Sao estas semelhanc;as que levam vários analistas, entre

nles Cohen e Arato ( 1992), a nao ver diferenc;as significativas

nntre a teoría dos NMS e a da MR. No debate travado entre os

l. •óricos da MR e os dos NMS, Melucci teve grande participac;ao

t contribuiu para o avanc;o e superac;ao da própria MR, por meio

dos trabalhos de Klandermans e Tarrow, principalmente ao chamar a atenc;ao para o papel do contexto histórico e político, na

a nálise da direc;ao do conflito no interior de urna determinada

Hociedade. Este ponto embasou o conceito de oportunidades políticas de Tarrow, quando este buscou entender os ciclos de protestos

i;ociais. Só que, em vez de enfatizar os discursos - como fazem os

americanos citados, que estao em busca do significado dos discursos

dos líderes para construir os frames -, Melucci dá enfase ao significado de suas práticas.

Ao fazer um resgate das ideologías que fundamentaram os

movimentos ou que foram criadas por eles, Melucci afirma que

nos anos 80 "novas linguagens e novos símbolos foram criados

para definir os atores sociais em conflito" (Melucci, 1992: 59).

Em outro trabalho, ele concluí: "Os movimentos sociais dos anos

70 e 80 foram a última transic;ao de movimentos como atores

políticos para movimentos como forma. E esta nao é urna transic;ao fácil, porque ainda necessitamos de atores políticos. Sem

1 62 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

ac;ao política nada pode ser mudado em nossa sociedade. Mov í

mento como forma pura refere-se a um tipo de ac;ao que qu H

tiona a organizac;ao da política" (Melucci, 1994).

Melucci chama a atenc;ao para o papel do pesquisador como

produtor de conhecimento e nao missionário. Ele deve escapar do

papel de demiurgo ou pedagogo, pois falar da fraqueza dos aton•H

é também urna maneira de deformar o significado do poder. O

pesquisador de ve of erecer ao ator a possibilidade de aprender u

aprender, a produzir seus próprios códigos, envolvendo urna nov

ética e urna nova política do trabalho científico. O destino dos ato·

res nao deve ser sua preocupac;ao, pois os atores coletivos, em si,

nao devem ser objeto de análise mas sim o produto de suas ac;o s

e o significado delas. A lógica dos frames, como experiencias vi·

vidas pelos atores, deve ser pesquisada a partir do mundo int .

rior desses atores, do conteúdo ideológico de suas crenc;as, valores

etc., a partir do modo como estao estruturados. Esta postura metodológica se aproxima da de Touraine e se distancia da de muitos

trabalhos de pesquisa realizados na América Latina nos anos 70

e 80, conforme abordaremos no próximo capítulo. Mas está em

consonancia com as novas orientac;oes dos trabalhos de base na

mesma América Latina nos anos 90, que sao as de "ensinar a

pescar e nao dar o peixe".

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