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11/23/25

 


1 J rn teórico proveniente da Escola de Frankfurt, Habermas,

i¡11 11111 melhor desenvolveu a análise interpretativa da vida

• l ii l 1 1 1 1n. Para entende-la, ele usa o conceito de "mundo da vida".

¡•1111do Arato e Cohen ( 1994), o mundo da vida possui duas di111 11 c tl'H distintas; de um lado, "ele se refere a um reservatório

11 l 1 1 1d ic,:oes implicitamente conhecidas e de pressupostos auto11111 1rnH que estao imersos na linguagem e na cultura e sao uti1 i1d11H pelos indivíduos na sua vida cotidiana. Por outro lado, o

1 1 1 1 1 1 1do da vida, de acordo com Habermas, contém tres componen­

!• '' 1 ruLurais distintos: a cultura, a sociedade e a personalidade.

1 111l'clida em que os atores se entendem mutuamente e concor1 1 1111 Hobre sua condic;ao, eles partilham urna tradic;ao cultural.

N 1 1 1 1Pclida em que coordenam suas ac;oes por intermédio de nor111 11 1 1 1t •rsubjetivamente reconhecidas, eles agem enquanto mem1 1 1 1 d1• um grupo social solidário. Os indivíduos que crescem no

i1il1 rior de urna tradic;ao cultural e participam da vida de um

1 38 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

grupo intemalizam orientac;oes valorativas, adquirem co1 1 1 1

1

H�ncia para agir e desenvolvem identidades individuais e Hm

ais. A reproduc;ao de ambas as dimensoes do mundo da vul

envolve processos comunicativos de transmissao da cultura , J

integrac;ao social e de socializac;ao" (Ara to e Cohen, 1994: 1 r1:1

O mundo da vida é diferenciado dos sistemas econom i ·o

estatal. Ele é um subsistema da sociedade civil, é parte d •lu

nao sua totalidade, e engloba várias formas institucionais - p

manentes ou nao - que atuam como organismos de limita� o

de mediac;ao entre o Estado e o mercado. Essas instituic;oes p 1

derao se estabilizar a partir de normas juridiscionais específicu

que ajudam a construir por intermédio de suas práticas e demun

das. Ou seja, as instituic;oes podem ter o papel de agenciador

na produc;ao de novos direitos, desde que estejam atuando num

sociedade que valorize a auto-organizac;ao e possibilite a publi •

zac;ao das ac;oes dos grupos coletivos organizados, por interméd

da mídia ou de outras formas de publicidade. Assim, o mundo 1

vida é fundamental para a análise da sociedade civil, e esta últ l

ma possui duas lógicas: urna dada pelo sistema económico-poli

tico mais amplo, outra dada pelo mundo da vida.

A diferenciac;ao estrutural do mundo da vida é um dos nH

pectos dos processos de modernizac;ao e ocorre por meio da emt•

gencia de instituic;oes especializadas na reproduc;ao de tradic;ot1 ,

solidariedades e identidades. Para Cohen e Arato, é esta dim(•ll

sao do mundo da vida a que melhor corresponde ao conceito el

sociedade civil.

Para Habermas, a compreensao do "mundo da vida" pasH

pela compreensao da consciencia, mas, ao contrário de Huss<•rl

e Schutz, que veem a consciencia como fator primordial, obscun•

cendo tudo o que é material, ele ve a análise da consciencia como

algo inseparável das circunstancias materiais. Ela está semprt

mergulhada nessas circunstancias. Habermas, já nos anos 70,

deu importante contribuic;ao para a formulac;ao de urna teori

sobre os movimentos sociais ao afirmar que eles criam possibi li

dades de novas relac;oes sociais e de novas formas de produc;ao,

ao gerarem processos novos quando da busca de soluc;oes alter

nativas aos problemas comuns enfrentados por seus participan

Les. Ele desenvolveu urna reflexao sobre os tipos de ac;oes cm

() paradigma dos novas movimentos sociais 1 39

11 1 1 1 l 1 1L ivos em sua teoria da modernizac;áo, particular111 11 118 versoes mais recentes ( 1987), quando trata das

• 111 t'(1 os atores e o mundo. J. Cohen ( 1992) foi a analis1 111 1v1 1 1 rnovimentos sociais que mais se deteve na análise

1 1 1 111 1 1 1111. Ela destacou teses de Habermas relativas a in­

" 1 11111 11nicativa na modernidade cultural contemporanea

1 ' l11horac;ao de urna teoria sobre os movimentos.

1 111 11 n nos teóricos, Habermas atribui dois papéis aos movi1 1rinis: eles sao vistos como elementos dinamicos no

11 t l 11 uprendizado e formac;ao da identidade social; e os

11111 1iloH com projetos democráticos tem potencial para ini1 1 1 1 11·1 HHOS pelos quais a esfera pública pode ser revivida

l 1 11, PJIJ:¿: 524-532). Ou seja, os movimentos sao vistos por

1 11 1 1 11 1 H ·omo fatores dinamicos na criac;ao e expansao dos

11 p11hl icos da sociedade civil. Embora o autor veja neles

1 • 11 • IO particularista e defensiva, Cohen afirma que ele

11il11 ·1 1 11 1 o lado ofensivo dos movimentos quando da contes-

" . ¡, 11lguns aspectos negativos da própria sociedade civil.

1 11 t 1 1 1 1 1H dá também fundamentos para a compreensao da

11 1l1 111l'ÍU dos movimentos para além de suas formas históri­

' 1•oncebermos o ganho dos movimentos sociais em termos

111 l ll 11l'ionalizac;ao de direitos, tal como os definimos, o desa­

' l111111 1 Lo de movimentos sociais, seja em virtude de sua transfll 1 1 1 1 1 1 organizacional, seja devido a sua absorc;ao por identi1 1 11ILnrais recentemente constituídas, nao significa o <lesa­

' ' ' 111 1nnto do contexto que leva a sua própria gerac;ao e consti1 111 < )H direitos conquistados por eles nao somente estabili111 1 f

'ronteiras entre o mundo da vida e os movimentos sol , 1•1 1 t.r o Estado e a economia, mas também constituem

111d ¡, 1111 le possibilidade da emergencia de novas associac;oes"

11li 1

·

11, A rato, 1994: 176). Como os novos movimentos sociais

' 11volvcriam urna nova cultura política ou novas identida­

. 1 1 1111 base na famosa distinc;ao habermasiana entre sistema

1111111do da vida, é urna incógnita para a própria Cohen ( 1994).

n n l ise desenvolvida por Habermas trata os movimentos

1111111 111<l icadores do potencial de crise do capitalismo tardio

1 1 1:1 ) l�m sua obra Teoria da a<;iio comunicativa ( 1985), ele

ltl1 111 111 .. os novos movimentos sociais com a resistencia defensi-

1 40 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

va aos processos de extensa.o da racionalidade técnica dentro d

todas as esferas da vida social. Ao mesmo tempo os movim nlo

demandam altos níveis de justificativa racional na esfera mor

e cultural. Para o autor, os novos problemas sociais tém rela ·

com qualidade de vida, igualdade de direitos, auto-realiza ·

individual, participac;;ao e direitos humanos. Contrastando ·01

a velha política dos trabalhadores, a nova política advinda de

novos movimentos sociais advém basicamente da nova cla

média, da gerac;;ao dos jovens e dos grupos sociais com mais ul

grau educacional. Os novos movimentos esta.o localizadoH r

esfera sociocultural, e a énfase de suas atividades está em túm

como motivac;;oes, moralidade e legitimac;;ao.

Scott ( 1990) argumenta que a análise de Habermas sob

os movimentos sociais é útil em alguns casos - como para

tender o crescimento da moralidade comunicativa, no caso

movimento antinuclear -, mas insatisfatória quando as ali

dades e demandas dos movimentos sao reac;;6es contra as cara ·

rísticas industriais da sociedade capitalista recente. Scott criU

ainda a teoría de sistema (cultural) e outros subsistemas d • •o

rentes: combinada com modelos evolucionistas levaría a nao-cot

preensao de certas problemáticas. O autor afirma que Haberm

faz generalizac;;6es e que alguns casos, como a resisténcia d !>(

pos de moradores a projetos de renovac;;ao urbana em Bt•rl l

Ocidental, nao podem ser vistos como generalizac;;ao de crüw u

rejeic;;ao do sistema jurídico-legal como um todo, mas como

desejo de mudar a direc;;ao de certas políticas governament.11

Ele cita também os casos de apelo a comunidade e a algu

valores da vida tradicional - presentes em vários dos nove

movimentos sociais. Estes apelos nao se ajustam facilmt•n

dentro do quadro das estratégias de racionalidade de Habernu

Em síntese, a contribuic;;ao de Habermas a teorizac;;ao de

Novos Movimentos Sociais foi importante, como fundamento

como contribuic;;ao direta ao debate. Ele é um autor basta n

complexo. Sua obra nao é de leitura fácil e fluente, já qu l'WU

conceitos se estruturam a partir de urna multiplicidade de e111

pos e áreas de conhecimento. Dada a contemporaneidadt•

sua obra, a maioria dos pesquisadores está mais na fase dt• 1

Lendé-la do que na de criticá-la. Ele mesmo, em entr 'VI

O paradigma dos novos movimentos sociaiis 1 41

1 1 1 1 1 d11 a Barbara Freitag, publicada no "Caderno Mais" da

/1111 , ¡,. S. Paulo, em 1995, declarou-se decepcionado com os

• l111111 1 Los sociais contemporaneos, demonstrando receio de

1 1 p111l1•n:io se desenvolver também em dire<;6es adversas aos

1 1 111d10H da liberdade, porque nao tem projetos universalistas

1 1p1wn m a partir de demandas específicas.

N1 1 La breve revisao de algumas matrizes referencia.is bási1p11 • Hl lHLentam as formula<;6es teóricas dos NMS, observamos

11 11 1 1ovidades se encontram mais na composi<;ao, no arranjo

l 1 I 1 poHi c;ao das categorias explicativas do que na cria<;ao de

11 l111-1Lrumentos conceituais. A rigor, as categorias teóricas

1 ildl1t'(>n<;as demarcadas sao as mesmas que marcaram o

lt1 1l1 111 Lelectual desde o século XVIII. Ao mesmo tempo, estas

1 11 11 'llH Lrouxeram também várias novidades, nao apenas no

1111 l 1 •ol'ico mas também na prática. A principal diz respeito

f1 1 1 1 1111 do fazer política, basicamente a partir da sociedade civil,

1 11 " p11nas a política oficial, estatal, de luta pelo poder nas

f t 11l 1111 1H do Estado. Ao se negar o poder das determina<;6es

1 1 1 11 •HI ntLurais, valorizam-se os fatos conjunturais micro, do

1 1 l 1i1 1 1 1 1. Nesse aspecto, faz sentido atentar para o presente,

1 1 ' 1 11 l ugar e agora, para mudar a ordem das coisas, pois

1111 • " de HRa mudarn;:a está nos próprios atores e nao no entre1 11111 1 · d11H contradi<;6es estruturais.

, 1 As principais correntes teóricas européias

dos NMS

1 '1 111li ll"me já assinalamos, os NMS nao constituem urna teoria

1111 1¡:1 ·111 111, um bloco referencial teórico uno; há correntes diferen11 1 1 '11 rn fins didáticos vamos agrupá-las em tres blocos: a

11 1 11 com os estudos de Alain Touraine e seu grupo de pes1 1. 11 1 Lul iana - liderada por Alberto Melucci; e a alema, na

1 • dPHLaca o trabalho de Claus Offe. A sele<;3io destes autores

,. 110 fato de eles terem dedicado a maior parte de seus es11 l 1 1rnática dos movimentos sociais (caso de Touraine e de

111 1 1 ) cm por terem tido urna produ<;ao teórica de impactante

111 1 1 111 l 'HLudo dos movimentos sociais (caso de Offe). Reconhe111 1 1 1 1 1 1 1 1 m a importancia e a contribui<;ao de outros autores

1 42 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

nos países assinalados, assim como a existencia de outras corr

tes nacionais européias, adeptas ou simpatizantes dos NMS, 1•11

produc;ao de alta qualidade e regularidade: inglesa - Scott ( 1 !) t

a espanhola - Laraña ( 1994), Alvarez-Junco ( 1994), Villa1m

( 1991) etc.; assim como correntes na Holanda - Kladerm

( 1995) e R. Roth ( 1996); na Irlanda - J. Smith (1996); na Su

- Lindeberg ( 1996); e em Portugal - Souza Santos (1994 ). 1

conhecemos ainda que os NMS extrapolaram as fronteira 1111

péias, tendo produc;ao significativa nos Estados Unidos - oh

Arato ( 1992) e urna série de outros já citados na reformula<;1 o

paradigma da MR; e no Canadá - Hamel ( 1996), Vaillanco\

( 1996). A América Latina é o lugar geográfico espacial ond

paradigma dos NMS encontrou maior receptividade, com d1

que para o México - Foweraker ( 1995), e para o Brasil. N

último país, de certa forma todos os que produziram sobre OH 1

vimentos sociais após 1970 estabeleceram um diálogo com os NM

de incorporac;ao parcial ou plena de seus pressupostos, ou d 1111

milac;ao de algumas partes, ou ainda de sua negac;ao. A 11

desses autores é grande e será tratada no capítulo VIII.

3 - A corrente francesa: Alain Touraine

e o acionalismo dos atores coletivos

Alain Touraine é um dos pesquisadores que há mais u1111

trabalham com o tema dos movimentos sociais na Europa. 1 > 1

sua importancia na sociologia francesa e sua contribuic;ao CHp

fica sobre os movimentos sociais, faremos urna breve reconHI

c;ao de sua análise em termos históricos, destacando nela a pu

relativa aos movimentos sociais. A abordagem de Touraine <•HI

tura-se a partir do que se convencionou denominar paradiHI

acionalista. Em seus primeiros estudos, ele elaborou urna t1•0

das condutas e comportamentos sociais a partir da análist• 1

movimentos sociais; posteriormente, passou a estudar ness H 1

vimentos os sistemas e mudanc;as sociais. Sabemos que o a iot

lismo retoma um dos pressupostos básicos do funcionalismo: t.o

ac;ao é urna resposta a um estímulo social. O axioma aí impl f1•

enfatiza o comportamento social, ou seja, a conduta dos indl

duos e grupos em termos de conflito ou de integrac;ao.

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 43

N111 n nos 60, Touraine parte da noc:;ao de projeto para criar

1 1 11 1 1fo sobre os movimentos sociais. Sartre também escre1 11 HP ito de tal noc:;ao, e os estudos marxistas em geral preo1 1 11111 H' com a questao. Na época ele estudava o comportartl 1 1 t l 11 classe trabalhadora, o grande tema que ocupava as

11• 1 1 do sociólogos em geral. Guilhon de Albuquerque ( 1977)

1 1 ,.,11 11 posic:;ao de Touraine a esse respeito: "Projeto é usado

' l i 1 111·1 1 i nc num sentido teórico; nao designa., portanto, urna

1 1 1 1 1 1 1H um conceito, um conhecimento. Esse conceito nao ex1 o <'onhecimento de urna coisa, nem de um indivíduo, nem

11111 1 p 1·opriedade de um indivíduo. O termo projeto expressa

t lp11 dt l igac:;ao entre as propriedades observáveis de indiví1 1or; o de projeto refere-se ao fato de que, em urna situa11 1 1d11, u possibilidade de o ator dar sentido a suas próprias

1 d til1 1 p rmanece sempre aberta, por oposi<;ao ao sentido já

1111 1111 Hi Hiema social".

1 11 1111wva-se portanto que o mérito da abordagem de Touraine

ldl11 1111 importancia conferida aos sujeitos na história - ou

, 1•orno ele os chama - como agentes dinamicos, produtores

11 1 l 1 11 li c:;oes e demandas, e nao como simples representantes

p1 1 p111 nLribuídos de antemao pelo lugar que ocupariam no sis1111 1 , ¡, produc:;ao. O dinamismo dos sujeitos/atores é visto em

1 1 1 1•1 1•1 t l iurais, de confronto de valores (uns sao afinnados e

1 1 111 11 1vindicados). Estes elementos, Touraine denomina-os "dial 1 d1 criac:;ao e controle", afirmando que eles se fundamentam

1 r l Ir t i<• hipóteses levantadas por Marx sobre o funcionamento

111111 1111•0 da sociedade. Na realidade, ele já se distanciava das

¡ 1 1 1 . i 1·1 u 1H do marxismo ortodoxo ao enfatizar o papel dos indiví1 • 111 o da classe social, como atores na categoría projeto.

1 1 1 1tovimento social apresenta-se na abordagem acionalista

11111 11 1 H,:uo de um grupo, um ator coletivo. Para tal é neces1 1 11 q11 1 •J "se defina por sua situac:;ao nas relac:;oes sociais de

11 1111 lo, isto é, que situe suas reivindicac:;6es e sua oposic:;ao a

1 1 r 11 po adversário no interior dos problemas da sociedade

1l11 l 1 11 I ".

11d11 nos anos 60, Touraine afirmava que só existe movitlf 11 oc:i l se houver a combinac:;ao de tres dimens6es essen1 1 l 1 1Hs , nac:;ao e modernizac:;ao. Estas tres dimens6es da

1 44 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

chamada a<_;ao coletiva abrangiam movimentos de naturezas dil 1

renciadas, os quais ele denominava movimentos políticos. A id111

de na<;ao, nas observa<;oes de Touraine, e em todo o corpo t 11"11'0

do chamado modelo de análise dependentista, que será retomnch

quando do estudo sobre a América Latina, acarretava um CHVtl

ziamento do conteúdo das lutas entre as classes antagónicaH el

sociedade.

A partir da abordagem influenciada pela chamada tool'

I

dualista da moderniza<_;ao, Touraine assinalava que todo movl

mento social é ao mesmo tempo um movimento de classe, 1111

movimento anticapitalista, oposto a domina<;ao estrangeiru

voltado para a integra<;ao e a moderniza<_;ao nacional. A na1; 1

é um elemento presente todo o tempo na análise do autor, pri ncl

palmente quando aborda as chamadas "sociedades depend<'n

tes". Touraine, em artigo publicado na Fran<;a em 1974, dull

cou-se a análise dos movimentos sociais nas sociedades dep1 •n

dentes. Sua análise foi feita em termos comparativos aos mo

vimentos sociais das sociedades dominantes. Nela, a industri11 ll

za<_;ao é um elemento básico, já que o "modelo" teórico sub.in

cente é o dualismo entre as esferas do rural e do urbano, cl1

teoria da moderniza<_;ao. Ele afirma que nas sociedades depl n

dentes a industrializa<;ao é introduzida e dirigida por urna bu

guesia estrangeira, por meio do sistema de intercambios inl.t•I'

nac10na1s.

Enquanto nas sociedades dominantes ganham importanci

os movimentos sociais contestatórios, em nome dos direitos do

trabalho, nas sociedades dependentes, ao contrário, "o fato m11h1

visível é a coexistencia, sem verdadeira integra<_;ao, dessas di fo

rentes formas de a<_;ao coletiva dos movimentos sociais, de 11 ITI

lado, e da a<_;ao crítica, de outro" (Touraine, 1977: 33). Falta élO

movimentos unidade nas a<_;oes; eles sao frágeis, heterogencoM,

dilacerados internamente e tendem a fragmenta<;ao. Eles MI

apresentam como projetos, inten<_;oes. Sua consciencia é defon

siva e contestatória devido ao "atributo" fundamental da socit •

dade dependente: o dualismo estrutural. Devido as causas asHI

naladas, Touraine concluí que "nas sociedades dependentes, o

único agente capaz de aglutinar as for<;as presentes nos mov i

mentos populares é o Estado, enquanto for<;a política exterior,

O paradigma dos novas movimentos sociais 1 45

11l 1 111 ii ficador de urna sociedade cortada em dois" (Touraine,

l '7 ).

l11 111·1 1 i ne destaca tres elementos construtivos em um movi11111 10 ·ial: o ator, seu adversário e o que está em jogo no

1 111111 l•jxistiriam tres princípios de interpreta<;ao dos movi111 1 1, Ho · iais - identidade, oposü;ao e totalidade. Eles "real'""'· 110 ambito da a<;ao coletiva, as dialéticas de cria<;ao e

1 t 1 1 i ln, Hiluadas, desta vez, imediatamente no campo dos pro1 1 1 1 clu sociedade industrial (princípio de totalidade). Isto

p 1 1 l l n 11 análise reencontrar, por trás da a<;ao coletiva, o prol 11 111 1m l dos atores individuais".

l'1111 ra ine afirmava que os movimentos sociais sao sempre,

1 1ill 111 1u análise, a expressao de um conflito de classes. 'Por

l 1 • 1 l 1 1do, possuem duplo caráter: defensivos e contestatórios,

111 1 rnnlra-ofensivos. Ele afirmou também que todo movimento

1 11tl 11 vollado para urna a<;ao crítica, que repousa sobre a conil 1 .111 • nao sobre o conflito. Em 1973 ele estabeleceu urna

1 l11 1 110 ntre movimentos sociais e lutas históricas: estas resul1 1 11111 el<• modifica<;oes advindas dos movimentos sociais.

��11 fi nal dos anos 70, Touraine se distancia ainda mais da

1 11 1 d.1¡•<1m marxista ortodoxa, deixando de priorizar os estudos

1 1 11 o1 classe operária e se concentrando no estudo da a<;ao

1,d cl1• outros grupos. Publica um estudo sobre Maio de 68 na

1 11 1 11 1 1 , no qual analisa o movimento dos estudantes; em 1973

1ld l1·11 l'roduction de la societé, cujo capítulo sobre os movimen­

' 1 11·1 11is foi um marco referencial para muitos estudantes do

'"'' 1 1 11 época. Ali ele punha a questao da reflexividade da

11 ti 1 t • HOCial.

l 11 1 1·u Touraine, os movimentos sociais sao fruto de urna vont l• rnlt •Liva. "Eles falam de si próprios como agentes de liberdade,

h ,.1111ldade, de justi<;a social ou de independencia nacional, ou

l 1 1i l 1 1 mmo apelo a modernidade ou a libera<;ao de forc;as novas,

111111 111undo de tradi<;oes, preconceitos e privilégios" (Touraine,

11 / I :11)). Eles, movimentos, nao seriam heróis coletivos, aconte1111·11ioH dramáticos ou excepcionais, nem elementos ou for<;as

11a sociedade, mas simplesmente parte do sistema de for<;as

11 ltd <l •ssa sociedade, disputando a direc;ao de seu campo cultural.

1 46 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

Ao mesmo tempo, Touraine assinalou que os movimentos sao

fon;as centrais da sociedade por serem sua trama, o seu corn ·

Suas lutas nao sao elementos de recusa, marginais a ordem, 111

ao contrário, de reposic;ao da ordem. Ele chegou a postular qm

sociologia contemporanea seria o estudo dos movim�ntos soci 1

pois tratar-se-ia de um objeto de análise que traz o ator social

volta (ator que estava em crise desde as críticas e da descren<;a

teoria marxista sobre a existencia da classe social com urna mi

histórica - o proletariado, visto como agente e ator por excel n

das mudanc;as históricas).

O paradigma teórico de Touraine alicerc;a-se na teoriu

ac;ao social. O conceito central é o de relac;oes sociais, e o terna

dominac;ao tem grande importancia. Há urna recusa a idéia 111

xista de contradic;ao, a visa.o de urna sociedade dominada p1 1

macroestruturas, por leis naturais de um sistema social ou 1

>

determinac;oes de qualquer espécie. O que se prop6e é urna un

lise centrada no desempenho dos atores sociais. A noc;ao do m

vimento social nao descreveria parte da realidade, mas seria 11

elemento de um modo específico de construc;ao desta realidml

Assim sendo, a teoría dos movimentos deve ser constru 1 1

para Touraine, ao redor das ac;oes coletivas, das lutas, doH nt

res. Eles devem ser vistos dentro de urna teoría mais geral,

teoría dos conflitos. Nela, existiriam seis categorias básicaH

conflito: os que perseguem interesses coletivos; os que se d('H1•

rolam ao redor da reconstruc;ao da identidade social, cul t,111

ou política de um grupo; os que sao forc;as políticas que buHl'll

a mudanc;a das regras do jogo; os que defendem o status c¡1111

os privilégios; os conflitos derivados da busca de control • de

principais modelos culturais; e os conflitos derivados da bu

de construc;ao de urna nova ordem social. Para Touraine, os 11111

mentos sociais derivam fundamentalmente dos conflitos ao 1

dor do controle dos modelos culturais (Touraine, 1985).

Ele assinala ainda que é um erro ver os movimentos cor

agentes de mudanc;a histórica ou forc;as de transformac;ao

presente e construc;ao do futuro. Eles nao sao, em si mesmo

agentes negativos ou positivos da história, do processo d • 111

dernizac;ao ou da libertac;ao da humanidade. Eles sao fruto l

urna relac;ao de produc;ao e organizac;ao social, urna relac;ao d u pl

O paradigma dos novos movirrvientos sociais 1 47

lile 1 1 1.idade e de oposi�ao -, e nsao se dirigem fundamen1 1cl 1 c·onira o Estado, pois nao sao lutas por meras conquis11 p1 1dt·r. Um movimento social é aE3.o mesmo tempo um con1 11 11 I um projeto cultural. TourE3aine discorda da tese que

111111 111 1H movimentos urna racionalida:::B.de instrumental dirigida.

1 1 , 11 1 o studo dos movimentos é flfundamental para enten11 w1 1c sso de mudan�a no mund<>.o, mas isto nao significa

, 1 11111 agentes ou for�as privilegiE3adas deste processo. Sao,

111 l11 rc;as culturais indispensáveia.s.

1 , l 1 1 1.t•ressante recuperar també:rr:n a concep�ao de Estado

1 111 1 " 1 n , pois ela esclarece muito · sua abordagem sobre os

1 1 111·111.mi sociais. O Estado nao seeria apenas monopólio da

1 1 1 1 111 1 da busca da legitima�ao, acomo em algumas teorias

1 l 11H ortodoxas - embora tenh::; a sempre vínculos com a

, d11·1gente. Ele é também agent& e de transforma�ao históp111 d i rigir as mudan�as organizE3acionais, que sao também

1 11111•1 1¡; i nstitucionais. Portanto, o ::: Estado nao é apenas apal h11 cln poder. É um agente social d�e reagao e transfo magao,

1 1111 ·11 social de mudan�a históri() ca.

N1 llHt• sentido, o Estado, ao respon<> der aum movimento social,

1 lo1 1 t•pondo a ordem e abrindo cam::-'-inhos para a mudanga pela

1 1 1 1 11 1 1nalizagao de novas fo mas d� e relac;éies. Os movimentos

11 11 p1 1p L mais de agentes de pressooes sociais do que de atores

1 11 lp111H das transforma�éies sociais : propriamente ditas.

N nH 11 nos 80, Touraine prossegue � seus estudos sobre os mo111 1 1 1 1 1H Hociais centrando-se em que: "stoes metodológicas, crian11111 1111 1Lodo de investigagao sobre coomo pesquisá-los e analisá1 111 pi ricamente. Ele aperfeigoa e � desenvolve, com a coope11 dn M. Wieviorka e outros, o mE:étodo da intervenga.o socioli 111 q11 • busca resgatar a trajetór:ria de movimentos sociais.

1111111 11x1 mplo podemos citar suas poesquisas sobre o sindicato

1llil111 1nclade, da Polonia, ou sobre a . a�ao de grupos extremistas

ll 1d111, ·orno as Brigadas Vermelh:_as. Aquele método preconittt 1111 H itua�ao de intera�ao entre o • entrevistador e o entrevis111 p ui· um certo período de tempOQ, dividido em etapas. Pro11 1 1 r •construir os fatos e captar-:- as explica�éies que os atool 11 nc,:oes formulam por terem agido de determinada forma.

1 46 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

Ao mesmo tempo, Touraine assinalou que os movimentos sao aH

forc;as centrais da sociedade por serem sua trama, o seu corac;ao.

Suas lutas nao sao elementos de recusa, marginais a ordem, maH,

ao contrário, de reposic;ao da ordem. Ele chegou a postular que u

sociologia contemporanea seria o estudo dos movimi:mtos sociaiH,

pois tratar-se-ia de um objeto de análise que traz o ator social do

volta (ator que estava em crise desde as críticas e da descrenc;a nu

teoria marxista sobre a existencia da classe social com urna missao

histórica - o proletariado, visto como agente e ator por excelenciu

das mudanc;as históricas).

O paradigma teórico de Touraine alicerc;a-se na teoria d

ac;ao social. O conceito central é o de relac;oes sociais, e o tema dn

dominac;ao tem grande importancia. Há urna recusa a idéia mar

xista de contradic;ao, a visa.o de urna sociedade dominada pelaH

macroestruturas, por leis naturais de um sistema social ou por

determinac;oes de qualquer espécie. O que se prop6e é urna aná

lise centrada no desempenho dos atores sociais. A noc;ao de mo

vimento social nao descreveria parte da realidade, mas seria um

elemento de um modo específico de construc;ao desta realidade.

Assim sendo, a teoria dos movimentos deve ser construída,

para Touraine, ao redor das ac;oes coletivas, das lutas, dos ato

res. Eles devem ser vistos dentro de urna teoría mais geral, a

teoría dos conflitos. N ela, existiriam seis categorías básicas dt•

conflito: os que perseguem interesses coletivos; os que se desen

rolam ao redor da reconstruc;ao da identidade social, cultura l

ou política de um grupo; os que sao forc;as políticas que busca111

a mudanc;a das regras do jogo; os que defendem o status quo 1•

os privilégios; os conflitos derivados da busca de controle doH

principais modelos culturais; e os conflitos derivados da buscn

de construc;ao de urna nova ordem social. Para Touraine, os movi

mentos sociais derivam fundamentalmente dos conflitos ao r<1

dor do controle dos modelos culturais (Touraine, 1985).

Ele assinala ainda que é um erro ver os movimentos como

agentes de mudanc;a histórica ou forc;as de transformac;ao do

presente e construc;ao do futuro. Eles nao sao, em si mesmoH,

agentes negativos ou positivos da história, do processo de mo

dernizac;ao ou da libertac;ao da humanidade. Eles sao fruto cl11

urna relac;ao de produc;ao e organizac;ao social, urna relac;ao duplu

O paradigma dos novas movimentos sociais 1 47

e 1 • identidade e de oposic;ao -, e nao se dirig:em fundamenl 1i l1 ri nte contra o Estado, pois nao sao lutas por meras conquis1 1 de poder. Um movimento social é ao mesmo tempo um con1 1 1 o social e um projeto cultural. Touraine discorda da tese que

1 1 1 ihui aos movimentos urna racionalidade instrumental dirigida.

l 11 1 1·n ele, o estudo dos movimentos é fundamental para entend1•1' o processo de mudanc;a no mundo, mas isto nao significa

1p1n sejam agentes ou forc;as privilegiadas deste processo. Sao,

p1 1dm, forc;as culturais indispensáveis.

É i nteressante recuperar também a concepc;ao de Estado

d1 'l'ouraine, pois ela esclarece muito sua abordagem sobre os

1 1 1nvimentos sociais. O Estado nao seria apenas monopólio da

ni ncia e da busca da legitimac;ao, como em algumas teorías

11111 1·xistas ortodoxas - embora tenha sempre vínculos com a

1 l 11 HHe dirigente. Ele é também agente de transformac;ao histó1 1 1·11 por dirigir as mudanc;as organizacionais, que sao também

11111danc;as institucionais. Portanto, o Estado nao é apenas apa­

' 11 1 ho de poder. É um agente social de reac;ao e transformac;ao,

11111 11 forc;a social de mudanc;a histórica.

Nesse sentido, o Estado, ao responder a um movimento social,

1 t 11 ria repondo a ordem e abrindo caminhos para a mudanc;a pela

l 1 1Ht.itucionalizac;ao de novas formas de relac;6es. Os movimentos

l 1 1 1 1 o papel mais de agentes de pressoes sociais do que de atores

1

11 1 ncipais das transformac;6es sociais propriamente ditas.

Nos anos 80, Touraine prossegue seus estudos sobre os mo­

· 1111 • ntos sociais centrando-se em quest6es metodológicas, criani l 1 1 um método de investigac;ao sobre como pesquisá-los e analisál 1 1H mpiricamente. Ele aperfeic;oa e desenvolve, com a coope1 1wno de M. Wieviorka e outros, o método da intervern;;ao socioli 111 i ·a, que busca resgatar a trajetória de movimentos sociais.

t 11 1 1 no exemplo podemos citar suas pesquisas sobre o sindicato

: 11lidariedade, da Polonia, ou sobre a ac;ao de grupos extremistas

1111 1 Lál ia, como as Brigadas Vermelhas. Aquele método preconi11 111na situac;ao de interac;ao entre o entrevistador e o entrevist 1 1do, por um certo período de tempo, dividido em etapas. Pro1 1 1 1·1 1-se reconstruir os fatos e captar as explicac;6es que os ato11 H das ac;6es formulam por terem agido de determinada forma.

1 48 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

A metodologia visava, fundamentalmente, criar condic;;6es

distanciamento ideológico entre o pesquisador e o objeto da an

lise. Em 1985, Touraine destacou que "muito freqüentement 1

os autores, enquanto pensam estar descrevendo ac;;6es coletiv

ou eventos históricos, expressam cruamente suas próprias opl

ni6es ... é indispensável comparar nossas próprias categori

com outros tipos de construc;;ao da realidade social. . . O problem ,

entretanto, nao é perseguir urna objetividade pura, abstrat 1

mas determinar os limites da ideologia e realizar discuss()

entre os cientistas sociais mais significativos, submetendo no

sos trabalhos a crítica" (Touraine, 1985: 750-751).

Ainda nos anos 80, Touraine publicou Le Retour de l' Acteur

( 1984) e um livro que enfocava a América Latina, Palavra

sangue ( 1989). Neste último, ele reafirma que os movimento

sociais ocupam lugares centrais na sociedade, lugares onde ten

dem a se formar os conflitos mais centrais, onde a capacidad

dos homens de fazer a história atinge seu ponto mais elevado

Eles levam a formac;;ao de atores sociais (Touraine, 1988: 28ú l.

Na realidade, progressivamente, o tema dos movimentos sociai

ganhou, na obra de Touraine, nao apenas maior importanci :

ele o elegeu como o centro de estudo da própria sociologia. Estn

disciplina passou a se organizar, em seus livros, ao redor do

conceito de movimento social.

Mas Touraine ve várias limitac;;6es nos movimentos, entrt

elas sua subordinac;;ao a ac;;ao do Estado. Na ocasiao, ele atribu í u

ao Estado o papel de ator principal porque sua atribuic;;ao serin

manter a continuidade da sociedade por meio de mudanc;;as eco

nómicas e sociais, sendo o principal agente de desenvolvimento

social, intervindo na própria sociedade civil. As lutas históricuH

sao vistas como conflitos sociais em situac;;ao de mudanc;;a, e u11

modificac;;6es nos próprios movimentos sao vistas como resulta

do da intervenc;;ao do Estado.

A reflexao sobre alguns tipos de movimentos sociais latino

-americanos foi outra contribuic;;ao de Touraine. Em Palavra "

sangue ( 1989), ele tratou dos movimentos camponeses, indíg(1

nas, messianicos, étnicos, movimentos de reivindicac;;oes urbanaH,

comuhitarismo religioso, movimentos de lutas nacionais ek.

Todos eles sao analisados como lutas gerais entre adversários t

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 49

1

1

1 1 1 1ntam vários tipos de conduta: reivindicativa, revolucio1111 1 11, populista e comunitarista.

( >s elementos constitutivos dos movimentos sociais foram

1 1 l t'llmente reformulados em relac;ao aos anos 60. Seriara eles

¡ 1 1 1 11: a definic;ao do próprio ator social, a de seu adversário, a do

' 111 1 po de disputa e a do campo de conflito. Apesar de ter se afast 11111 do marxismo, Touraine continuou analisando a sociedade e

" 111ovimentos em termos de classes e conflitos sociais. Muitos

I" 1pt isadores norte-americanos consideram que Touraine é, e

' 1 1 1 pr teria sido, um marxista. Trata-se d'le urna polemica que

11 111 fitz mais o mínimo sentido nos anos 90, mas que é importante

1 p 11 Hl1 registre porque explica, em parte, por que sempre houve

1 1 1 1 c l silencio sobre sua abordagem na maioria da produc;ao

1 11 1111 >gica norte-americana sobre os movimentos sociais. Para

1111 , 'lburaine sempre esteve mais próximo de Weber do que de

1 11rx, mas sempre dialogou com este último em seus trabalhos.

'l'ouraine afirma que os movimentos op6em urna classe a

1111 1 1·1 1, urna categoria social a outra. Diferentemente do para1 1 11 1111 1 americano, Touraine nao se preocupa com a intencional o l .11le dos atores, com os motivos que os levara a se engajar em

11 1 11 H coletivas. Sua preocupac;ao é entender a dinamica de um

ol 1rl11 processo social em que há a presenc;a de movimentos.

Apesar de Touraine ter alterado sua análise ao longo do

11 111po, permaneceram nela certos trac;os um tanto quanto nor111.11 i vos sobre os movimentos. Tratara-se de ac;6es orientadas

11 1 1 1 1 i nterac;6es entre adversários em conflito, de interpretac;oes

• 1 1 1 1 1clclos societais opostos, assim como de campos culturais divit11d111-1, separados. Os movimentos sociais sáo ac;6es coletivas que

• c 1, 1i;envolvem sob a forma de lutas ao redor do potencial ins1 ll r t('Íonal de um modelo cultural, num dado tipo de sociedade.

i m , os conflitos sociais entre os atores devem ser entendidos

111 t ermos normativos e culturais.

Cohen e Arato distinguem tres pontos na abordagem de

1 1111·a ine em relac;ao a tradic;ao clássica norte-americana. Primei111 ni • nao aceita a tese da anomia. Segundo: ve os movimentos

11 11 <'Orno fatos excepcionais ou anormais, mas como criadores de

1.!11 l:!Ocial, por meio de suas práticas, normas e instituic;oes.

1 50 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

Terceiro, diferentemente de Parsons, Touraine nao ve as orientac;;oes culturais de urna determinada sociedade como incontestavelmente dadas. Ele argumenta que o caminho que urna sociedade

utiliza para institucionalizar suas orientac;;oes culturais envolve

conflitos e relac;;oes sociais de dominac;;ao (Cohen, Arato, 1992:

5 14). Assim como Arato, Touraine atribuí importancia a sociedade

civil, só que num sentido contrário. Nao se trata de reafirmar a

sociedade civil mas de negar práticas nela existentes. É a sociedade civil que, prioritariamente, os movimentos esta.o questionando, tentando mudar suas orientac;;oes culturais, e nao o Estado ou

o mercado. A sociedade civil focaliza a ac;;ao coletiva dos agentes

sociais e aí os movimentos sociais sao os grandes destaques.

Observa-se que para Touraine a sociedade civil é um espac;;o

de disputas, lutas e processos políticos. É o espac;;o onde se localiza o processo de criac;;ao de normas, identidades, instituic;;oeH

e relac;;oes sociais de dominac;;ao e resistencia, porque nele há

urna capacidade de auto-reflexao. E é esta capacidade que

importante analisar nos movimentos sociais, e nao o seu repcr

tório de ac;;oes. Touraine cría urna hierarquía das formas do

lutas sociais, urna espécie de tipología, sem desenvolver umu

teoría da auto-reflexao. Ainda segundo Cohen e Arato, Tourainc

"faz urna sociología da ac;;ao social quando trata dos novos mo

vimentos sociais, mas nao formula urna teoría da sociedaclo

civil. Fica-se num dilema: interpretar os movimentos segundo

a lógica estratégica da organizac;;ao - envolvendo a pressao d

grandes estruturas como o Estado e a economía; ou optar pu

urna enfase sobre a identidade, as normas, os modelos cultural

e as formas associativas articuladas pelos próprios atore o

institui<;oes da sociedade civil" (Cohen e Arato, 1992: 520). Seo

( 1990) também fez várias críticas a teoría de Touraine, al

mando que suas formulac;;oes falham porque ele subordinu

significado empírico das atividades dos movimentos sociaiH

urna teoría de desenvolvimento societal, caindo nos mesmos er

de teorías que critica. Scott concluí que Touraine também d t.

urna análise normativa, na qual se observa que há um agtin

social privilegiado: os movimentos sociais (Scott, 1990: 6).

Nos anos 90, Touraine volta-se para a reflexao sohr

sociedade em geral e os rumos da humanidade. Publica < 'rtl

:1-

le

re

2:

le

a

en­

>U

es

O paradigma dos novos movimentos sociais 151

que de la modernité ( 1992) e reve sua teorila sobre os movimenLos em func;ao de transformac;oes acorridas neles e, fundamenLalmente, no sistema capitalista, mais precisamente as transíormac;oes na sociedade e no mundo do trnbalho. Partindo da

·oncepc;ao de movimento social como urna representac;ao geral

da vida social antes que um tipo particular de fenómeno social,

Touraine assinala que esta representac;ao difere da imagem liberal, que ve a sociedade como um mercado aberto, assim como

d quela que a identifica com um poder central ou urna série de

mecanismos implacáveis para manter a ordlem social. Ele identilica urna crise na noc;ao de movimento social advinda de mudan­

'llS na natureza do conflito social. No século passado e em boa

pn rte deste século, a lógica de tal conflito esteve guiada pelos

nLeresses antagónicos entre a burguesia e os trabalhadores. O

processo de trabalho era o espac;o em que as relac;oes entre as

d11 s categorias se desenvolviam. As recentés transformac;oes

tln ra da globalizac;ao levaram Touraine a assinalar a perda da

l111 portancia do processo de produc;ao, a transformac;ao do mundo do consumo como o grande espac;o de socializac;ao das relac;oes

1 wiais, a importancia das comunicac;oes etc. Estas mudanc;as

11 1 1 1 levado ao crescimento do individualismo, os indivíduos esta.o

1 1111is centrados em si próprios, sobre seus desejos e interesses

1 1 1 1dos a saúde, a educac;ao, ao lazer etc. As demandas nao esta.o

1 11 ¡•11nizadas em torno de um princípio central. Há urna dissociac;ao

• 111 1· o mundo dos negócios e o da cultura. Das lutas sociais,

l\i 1 1 ruine assinala que o que restou foi a luta contra o totalitarismo,

• 111 11uas várias formas. O tema dos movimentos sociais como ele

11!11 H o definira tornou-se sem significado, porque os movimentos

'" 1lis nao sao concebidos sem o reconhecimento de que as rela11 el produc;ao tem papel central na determinac;ao das relac;oes

• l'ol has políticas.

'l'ouraine argumenta que a idéia de movimento social é mais

p 1 1 1p riada a países que tem experimentado o desenvolvimento

1

11l11lista genuíno. Os movimentos op6em atores da sociedade

1, pressupondo nao somente que a sociedade civil seja distindo l•�stado (Touraine, 1994: 380). Em Qu-est-ce la democracie

1 1 t l l, le retoma a tese do sujeito (histórico) afirmando que

l 1 "H > existe como movimento social, como contestac;ao da

I 52 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

lógica da ordem, tome esta urna forma utilitarista ou seja sim

plesmente a busca da integra¡;ao social" (Touraine, 1994: 24 HI

Ele explicita suas diferen<;as em rela<;ao a Marx afirmando qu

"a no¡;ao de movimento social deve tomar o lugar da no¡;ao d

classe social", porque atualmente "nao se trata mais de lutn

pela dire¡;ao dos meios de produ¡;ao e sim pelas finalidades da

produ¡;oes culturais, que sao a educa<;ao, os cuidados médicoi;

a informa¡;ao de massa": "As novas contesta<;oes nao visam crin

um novo tipo de sociedade, menos ainda libertar as for<;as d

progresso e de futuro, mas 'mudar a vida', defender os direitoH

do homem, assim como o direito a vida dos que estao amea<;a

dos pela fome e pelo extermínio, e também o direito a livre expre¡.¡­

sao ou a livre escolha de um estilo e de urna história de vida pessoais" (Touraine, 1994: 257, 260, 261, 262). Ele conclui afirmando que os movimentos sociais mobilizam princípios e sentimen

tos. O que está em crise e em vias de desaparecimento é o papel

dos partidos políticos como representantes da necessidade histó·

rica, acima dos atores sociais e muitas vezes contra eles. Os novo¡.¡

movimentos sociais falam mais de urna autogestao que de um

sentido de história, e mais de democracia interna que de tomada de poder. Cabe aos intelectuais, em especial aos sociólogos,

resgatar sua tradi<;ao, "descobrir o que está oculto, sair de si

mesmo e de seu meio para restabelecer a distancia com o objeto

estudado". "Descrever e analisar os modelos culturais, as rela­

<;6es e os movimentos sociais que lhes dao forma, as elites políticas e as formas de mudan<;a social que agitam o que pode

aparecer por um breve instante como um mundo além da

historicidade" (Touraine, 1994: 267, 268) sao as novas tarefas

dos pesquisadores dessa temática.

Em 1996, Touraine afirmou que hoje precisamos revisar o

conceito de movimento social nao apenas em rela¡;ao a cem anos

atrás, em rela<;ao ao movimento dos trabalhadores, mas revisá­

-lo na produ¡;ao recente, dado as mudan<;as e o impacto da globaliza<;ao na territorialidade e na soberania das na<;oes, a crise

e o declínio das institui¡;oes, as tensoes individuais e dos grupos

sociais entre o que querem ser (seus valores) e o que realmente

sao na sociedade (Touraine, 1996, Conference ISA, Califórnia).

Ele passou a enfatizar a importancia do político na análise das

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 53

, 1 1 1t 1H dos movimentos e volta-se novamente para o seu estudo

11 1 A mérica Latina: "Hoje, vemos os movimentos sociais e cultu1 1 H voltarem-se ao sistema político para firmar alianc;as e conl 1 1l>uir para o renascimento de urna vida política que, seja no

1 I HO do México ou da Colómbia e mesmo da Vienezuela, atingiu

11111 grau avanc;ado de decomposic;ao. Aqueles que veem na ac;ao

i loH zapatistas de Chiapas um novo surto guerrilheiro, responsáv1d por criar de forma esporádica focos de violencia nas várias

1

1 1 rLes do território mexicano, enganam-se profundamente. A

11 ·110 armada nao é mais essencial para os zapatistas; o que importa a Marcos e aos demais líderes do movimento é desempe1 d1ar um papel decisivo na transformac;ao do sistema político"

1 !1'olha de S. Paulo, 13-10-1996, caderno "Mais", p. 3).

1 - A corrente italiana: Alberto Melucci e a enfase

na identidade coletiva

Alberto Melucci estudou os movimentos socia1s por várias

el cadas, e no final dos anos 80 sua produc;ao se tornou um eixo

referencial paradigmático em funbito internacional. Atribuí-se a ele

o crédito de ser um dos fundadores do paradigma da identidade

coletiva. Sua produc;ao, ao contrário da de Touraine, que enfatiza

f:listemas macrossocietais, está centrada mais no plano micro, na

ac;ao coletiva de indivíduos, tendo um enfoque mais psicossocial.

Em 1980, ele publicou um artigo que demarcou seu trabalho a

partir de entao: a preocupac;ao com as questoes teóricas. "The New

Social Movements: A Theoretical Approach" criou um conceito (Novos Movimentos Sociais), um campo de análise (o cultural) e demarcou as principais diferenc;as entre estes e as análises anteriores

sobre os movimentos sociais (centradas no estudo da classe operária).

Dada sua formac;ao e atuac;ao profissional - nas ciencias

sociais e na psicologia clínica -, Melucci combinou a análise da

subjetividade das pessoas com a análise das condic;6es político­

-ideológicas de um dado contexto histórico. Em 1989, publicou

Nomads of the Present, no qual estabeleceu a conexao entre movimentos sociais e necessidades individuais na sociedade contemporanea. As experiencias individuais foram retomadas em Il

1 54 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

gioco dell'io ( 199 1), reescrito e publicado em 1996 coro o título

The Playing Self Ainda em 1996 publicará sua obra máximu :

Challenging Codes-Collective Action in the Information Ag1 • .

Segundo Touraine, este livro é "o mais abrangente estudo anall

tico dos movimentos sociais e urna elaborada análise da nova ge

ra<;ao de a<;5es coletivas, que tenta incorporar a experiencia priva

da e coletiva os efeitos da globaliza<;ao em contextos sociais quo

esta.o mudando rapidamente".

Melucci retoma na obra de 1996 a tradi<;ao dos clássicos daH

ciencias sociais e reelabora a teoria da a<_;ao social. O ponto d

partida de sua análise é a teoria da a<_;ao coletiva, porque, segundo

ele, só ela pode prover urna base analítica significativa para o

estudo dos movimentos sociais. Ele a define como "um conjunto d

práticas sociais que envolvem simultaneamente certo número de

indivíduos ou grupos que apresentam características morfológicas

similares em contigüidade de tempo e espa<;o, implicando um campo

de relacionamentos sociais e a capacidade das pessoas de incluir

o sentido do que esta.o fazendo" (Melucci, 1996: 20).

Objetivando distinguir entre os vários tipos de comportamento, ele estabeleceu urna distin<;ao analítica entre solidariedade e

agrega<_;ao, conflito e consenso, quebra dos limites e compatibilidade, competi<;ao e aceita<;ao das "regras do jogo". Existe portanto

um sistema de a<;5es coletivas, e ele nao deve ser confundido coro

os lugares da práxis social onde aquelas a<;5es tero lugar (institui­

<;5es, organiza<;5es, associa<;5es etc.). É importante registrar que

Melucci utiliza a no<;ao de sistema para fugir da caracteriza<;ao da

realidade social como algo metafísico ou portador de urna essencia.

Um sistema é simplesmente um complexo de relacionamentos entre

elementos. No caso da a<_;ao coletiva estes elementos esta.o agrupados

em quatro grandes sistemas: o sistema de produ<;ao e apropria<;ao

dos recursos da sociedade, o sistema político, que toma decisoes

sobre a distribui<;ao destes recursos, o sistema organizacional e o

sistema do mundo da vida, no funbito da reprodu<_;ao das rela<;5es

sociais (conforme exposi<;5es anteriores, o conceito "mundo da vida"

foi bastante desenvolvido por Habermas).

A análise da a<_;ao coletiva pode se dar em cinco níveis: no

que concerne a sua defini<;ao, a sua forma<;ao na estrutura social, a seus componentes, as formas e aos campos onde ocorre.

O paradigma dos nouos mouimentos sociais 1 55

e) autor define a ac;ao coletiva como a uniao de vários tipos de

t·onflitos baseados no comportamento dos atores num sistema

Hocial. As formas mais comuns de ac;oes sociais conflituosas, relacionadas na literatura com o estudo dos movimentos sociais,

Hao as revoluc;oes, a violencia, o comportamento da multidao e

os conflitos decorrentes da participac;ao em ac;oes diretas.

Para Melucci, movimento social é urna construc;ao analítica e nao um objeto empírico ou um fenómeno observável. "Ela

designa formas de ac;ao coletiva que invocam solidariedade,

manifestam um conflito e vinculam urna ruptura (ou quebra)

nos limites de compatibilidade do sistema onde a ac;ao tem lugar"

( 1996: 28). A dimensao analítica é construída com vistas a indicar certas qualidades dentro do campo das ai;oes coletivas. Os

movimentos nao sao entidades que se movem com a unidade de

objetivos a eles atribuídos por alguns ideólogos. Movimentos

sao sistemas de ac;oes, redes complexas entre os diferentes níveis e significados da ac;ao social. A distinc;ao feita por Melucci

entre forma e representac;ao de imagens e idéias constituindo

um conjunto de novos significados é um ponto-chave para o

entendimento de sua teoria. Significa afirmar que a enfase dada

pela MR ao fator organizac;ao - materializado numa associac;ao - nao o torna o elemento básico e distintivo que atesta a

existencia de um movimento. Ao contrário, Melucci se respalda

mais nas teses dos interacionistas simbólicos, mais preocupados com o nível ideacional e com o conjunto de representac;oes

que um movimento cría ao longo de sua existencia. O movimento

como urna organizai;ao poderá ter decrescido ou até mesmo desaparecido, mas existirá na sociedade por meio das representac;oes que criou e que passam a mediar ou servir de parámetro

para as relac;oes sociais cotidianas.

Nesta conceituac;ao, a mera existencia de um conflito nao

é suficiente para qualificar urna ac;ao como movimento social.

Também a quebra de regras e normas nao é suficiente para

identificar um movimento social. O que caracterizaría sua existencia seria a luta entre dois atores por urna mesma coisa. Os

conflitos principais que gerariam esta luta sao de dois tipos: conflitos baseados na ac;ao organizacional e aqueles com base na

ac;ao política.

1 56 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

Portanto, numa sociedade concreta, o sistema político e a

organizac;;ao social sao as mediac;;oes pelas quais aparecem os

comportamentos coletivos, que nao sao genéricos mas tem caráter de classe (no sentido weberiano). Os movimentos sociais de

classe geram ac;;oes que mudam o sistema de dominac;;ao. Eles

envolvem conflitos sobre o modo de produc;;ao e sobre a apropriac;;ao e a orientac;;ao da riqueza social.

Na realidade, Melucci faz urna análise em que nega nao

apenas a validade de urna abordagem estrutural e a existencia de

determinac;;oes e contradic;;oes que geram antagonismos e demarcam movimentos, mas também as análises funcionalistas, atribuidoras de total autonomia a ac;;ao do sujeito. Para ele o conflito nao

é algo natural, imanente a natureza humana. Ele pode ser aplicado em termos de relac;;oes sociais. Sendo assim, Melucci afirma

que o essencial é construir um espac;;o analítico a respeito das

relac;;oes de classe e analisar como elas sao produzidas.

Outro destaque na análise de Melucci é que ele chama a

atenc;;ao dos analistas para o fato de que nos movimentos sociais

atuais os iniciadores das ac;;oes nao sao os marginalizados mas

sim lideranc;;as com experiencia anterior. Os primeiros a se rebelar numa dada situac;;ao de opressao nao sao os mais oprimidos

e desagregados, mas os que experimentam urna contradic;;ao intolerável entre a identidade coletiva existente e as novas relac;;oes sociais impostas pela mudanc;;a.

Por que os mais experientes se mobilizam? Melucci afirma

que é porque contam com experiencia de participac;;ao, isto é, já

conhecem os procedimentos e métodos de luta. N estes movimentos, eles já possuem líderes próprios e um mínimo de recursos de organizac;;ao. Outro elemento explicativo é o fato de utilizarem redes de comunicac;;oes já existentes para veicular novas mensagens e novas palavras de ordem.

Melucci propós, nos idos de 1976, baseado em Touraine,

urna distinc;;ao entre movimentos reivindicatórios, políticos e de

classe, diferenciac;;ao baseada em seus objetivos. Os movimentos

reivindicatórios procuram impar mudanc;;as nas normas e nos

processos de destinac;;ao dos recursos públicos. Os movimentos

políticos pretendem influir nas modalidades de acesso aos ca-

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 57

111lis de participac;ao política e promover mudanc;as nas relac;oes

do forc;a. Os movimentos de classe buscam subverter a ordem

ocial e transformar o modo de produc;ao e as relac;oes de classe.

l•: I , investiga as novas formas de ac;ao coletiva, em sociedades

do capitalismo avanc;ado, e o advento de conflitos explosivos em

ociedades dependentes. Distingue diferentes tipos de ac;ao soc· i ul, tais como a de grupos em que nao há solidariedade entre

llH pessoas, ou comportamentos orientados exclusivamente do

11xLerior, que nao se referem ao grupo propriamente dito ( 1976).

Em 1992 Melucci afinna que "a análise dos movimentos

ociais oferece urna chave teórica e metodológica que pode ser

n plicada para além do campo empírico das ac;oes coletivas. Eles

n judam a entender a criac;ao da ac;ao social, assim como a ac;ao

1 ndividual, e levam a explorac;ao de novas possibilidades, pois

(.rata-se de urna ac;ao que mantém distancia, ela própria, das

h ranc;as e signos dos lugares e caminhos nos quais a sociedade

t•onstrói a si própria. Constituem aquela parte da realidade social

na qual as relac;oes sociais ainda nao esta.o cristalizadas em esLruturas sociais, em que a ac;ao é a portadora imediata da tecitura

,

. lacional da sociedade e do seu sentido" (Melucci, 1992: 43). Em

1 996, Melucci reafirma estas posic;oes e acrescenta: "Movimentos

Hao um sinal; eles nao sao meramente o resultado de urna crise.

l\.ssinalam urna profunda transfonnac;ao na lógica e no processo

que guiam as sociedades complexas. Como os profetas, eles falam antes: anunciam o que está tomando forma mesmo antes de

HUa direc;ao e conteúdo tornarem-se claros. Os movimentos conLemporaneos sao os profetas do presente" ( 1996: 1)

Observamos em tais declarac;oes algumas concordancias com

Touraine, quando se veem os movimentos sociais como urna

lente por meio da qual problemas mais gerais podem ser abordados. Eles também produzem modelos organizacionais, influenciam instituic;oes e atores sociais, públicos e privados. E mais,

os movimentos sociais produzem também elites políticas para

corporac;oes, servic;os públicos, empresas, escolas e sistemas

educacionais em geral. Existe urna transformac;ao na cultura e

nos mores a partir da atuac;ao dos movimentos sociais. Eles institucionalizam práticas sociais e mudam a linguagem cultural

de urna época. Como exemplos, Melucci cita as preocupac;oes

1 58 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

com ecología, ra<;a, genero, infancia etc. Ele concluí que os movimentos tem a capacidade de produzir novas formas de nomea­

<;ao da realidade e desmascarar velhas maneiras de agir (Melucci,

1994).

A inadequa<;ao da conceitualiza<;ao existente sobre os movimentos sociais é vista nao apenas como equívoco dos analistas, mas como fenómenos que apresentam, historicamente, novidades em termos de a<;oes coletivas. Negando a tradi<;ao marxista, que via os movimentos como meras expressoes de condi<;oes

estruturais da classe e de suas contradi<;oes, Melucci retoma nos

anos 90 a preocupa<;ao dos teóricos norte-americanos: por meio

de que processos os atores constroem suas a<;oes coletivas. Supondo que nao é possível estabelecer urna rela<;ao linear entre

ator (voluntário) e sistema (determinista), Melucci ve a intera<;ao

do ator numa a<;ao coletiva como resultado de múltiplos processos e diferentes orienta<_;oes. Há um processo relacional, e este

cría a identidade coletiva do grupo. Trata-se de um processo em

que se enfatiza a reflexividade da a<;ao social. Podemos observar que tal processo nao é novo na literatura sociológica. Ele

advém da psicologia social e de análises já tratadas pelo interacionismo simbólico, em que valores, símbolos e significados

da a<;ao social sao construídos por meio de intera<;oes múltiplas.

Processo relacional é a capacidade e a tendencia dos movimentos

para constituir, identificar e poder interrogar sua própria identidade. Os próprios atores coletivos sao criados no curso das atividades, eles se constituem a partir dos atributos que escolhem

e incorporam como sendo os melhores para definir suas a<;oes.

O ator individual transforma-se em membro de um ator coletivo no processo da a<;ao coletiva, ganha identidade nova, que

nao é só sua mas ganha existencia enquanto parte do coletivo.

Assim, "identidade coletiva é urna defini<;ao interativa e

compartilhada, produzida por certo número de indivíduos (ou

grupos em níveis mais complexos) em rela<;ao a orienta<;ao de

suas a<;oes e ao campo de oportunidades e constrangimentos

onde estas a<;oes tem lugar" (Melucci, 1996: 70). Ela é construída

e negociada por urna ativa<;ao de relacionamentos sociais que

conectam os membros de um grupo ou movimento. Isto implica

a presen<;a de marcos referenciais cognitivos, de densa intera-

O paradigma dos novos movimentos sociais 1 59

·110, de trocas emocionais e afetivas. A perspectiva construtivista

11Hlá presente na abordagem. "O 'nós' se constrói por urna lógica

que nunca pode ser completamente transcrita em urna lógica raC"Íonal de meios e fins, ou por racionalidades políiticas. Há sempre

u rna margem de negociac;ao" ( 1992: 49).

Em 1995, Melucci afirma que a identidade coletiva é o pro1· sso de construc;ao de um sistema de ac;ao, sendo este processo

1 nterativo e compartilhado produzido por muitos indivíduos -

ou grupos.

A questao da autonomia é apresentada por Melucci no paradigma dos NMS como urna capacidade do grupo; capacidade para

g rar a ac;ao autónoma, pois os movimentos desenvolvem a idenLidade coletiva em relacionamentos circulares entre o sistema de

oportunidades e de constrangimentos. Assim, os atores coletivos

devem ser capazes de se identificar e distinguir-se, eles próprios,

lo meio ambiente que os circunda. A identidade coletiva é um pro-

. sso que envolve tres mecanismos para sua definic;ao/constituic;ao:

n definic;ao cognitiva concernente a fins, meios e campo da ac;ao; a

l'ede de relacionamentos ativos entre os atores que interagem,

omunicam-se, e influenciam uns aos outros, negociam e tomam

<lecisoes; e, finalmente, a identidade coletiva requer um certo grau

de investimento emocional, no qual os indivíduos sintam-se, eles

próprios, parte de urna unidade em comum (Melucci, 1995: 44,45).

Melucci destaca que a identidade coletiva nunca é inteiramente

negociável, porque a participac;ao e a ac;ao coletivas sao dotadas de

8ignificados que nao podem ser reduzidos a cálculos de custo e

benefício, sempre mobilizam emoc;oes e sentimentos, tais como,

paixoes, amor e ódio, fé e medo etc.

A identidade coletiva é também um processo de aprendizagem - aprendizagem do sistema de relac;oes e representac;oes

que comp6em as ac;oes coletivas dos movimentos. Há urna auto­

-reflexao sobre o significado das ac;oes que é incorporada a práxis

do grupo. Este processo é histórico e tem caráter público, pois

os atores coletivos tem sempre urna identidade pública (Melucci,

1994b). "Os atores coletivos desenvolvem a capacidade de resol- l 1

ver problemas criados pelo meio que os circunda e tornam-se,

progressivamente, independentes e autónomos em sua capacidade para a ac;ao dentro da rede de relacionamentos nos quais

1 60 Os paradigmas europeus sobre os mouimentos sociais

esta.o situados. Portanto, o processo da identidade coletiva é tam

bém a habilidade para produzir novas definic,;6es, porque inte

gra o passado e elementos que esta.o emergindo no presente,

dentro da unidade e continuidade de um ator coletivo" (Melucci,

1996: 75).

"Os movimentos sociais sao vistos como fenómenos simultaneamente discursivos e políticos, localizados na fronteira entr

as referencias da vida pessoal e a política" (Melucci, 1994a: 185).

Dimensao pessoal porque as pessoas nao sao moldadas apenas

por condic,;6es estruturais, assim como nao sao indivíduos racionais apenas. Experiencias corporais, emocionais e afetivas também constroem o universo simbólico de representac,;6es dos indivíduos. Melucci se recusa a ver os movimentos como simples respostas as crises económicas (como em algumas análises de cunho

marxista ortodoxo) ou como meros efeitos de desvios e marginalidades (como na abordagem funcionalista clássica). Segundo

Avritzer ( 1994), Melucci busca urna forma de desvelar um sentido que os indivíduos podem produzir por si mesmos, e para tal

sao necessárias novas formas de abordar o social. Simplesmente

refletir sobre o que as pessoas pensam nao é suficiente no mundo

contemporaneo. Ele trabalha com categorias ideacionais: emoc,;ao, intuic,;ao, criatividade, percepc,;ao feminina do mundo etc., por

acreditar que elas podem tornar-se elementos legítimos do processo

por meio do qual a realidade é construí da. A ac,;ao social é vista como

um processo interativo dentro de um campo de múltiplas possibilidades, onde a incerteza e a diversidade poderao ser a base para a

criac,;ao de solidariedades.

Na abordagem de Melucci a ideologia é um nível analítico

decisivo para se entender os movimentos sociais. Ela nao é estática, atua num campo de conflitos e tens6es entre os diferentes

grupos e facc,;6es de um movimento e seu controle é urna fonte importante de lideranc,;a. Ela fornece os marcos que os atores usam

para representar suas ac,;6es e é urna das principais ferramentas para garantir a integrac,;ao, além de consolidar a identidade do grupo.

Melucci utiliza a categoria dos norte-americanos, o frame, para expressar o papel das ideologias em um sistema de relac,;6es sociais.

Ele retoma a afirmac,;ao de Touraine de que a ideologia inclui a

definic,;ao do ator, a identificac,;ao do adversário e a indicac,;ao de

O paradigma dos novos movimentos sociais 161

ll 1 111/objetivos e metas para os quais se luta. Ela preenche a func;ao

i l1 i ntegrac;ao para os movimentos sociais como um todo, e esta

l111 1c;ao é consumada por urna repetic;ao de valores e normas, pelo

1 1 111trole dos comportamentos desviantes e pela estabilizac;ao de

1 t1tfos rituais. Em resumo, a ideología tem urna fum;ao estratégica

111 11 relac;ao ao meio ambiente, pois pode ser utilizada para reduzir

1 11 custos e maximizar os beneficios (Melucci, 1992: 60).

Embora fac;a algumas críticas a abordagem da MR, ele desl 11 ·a que ela traz a tona a dimensao de como os movimentos se

111antem ao longo do tempo, como trocam reicursos com outras

111Htituic;6es societárias etc. Entretanto, observamos que ao fazer

11 análise do papel das ideologías como elemento organizacional

dos grupos, Melucci nao só retoma antigas teses das abordagens

11mericanas como outras mais recentes: por exemplo, a dos custos

1 benefícios da teoría das escolhas racionais, e aquela da impor11 ncia da organizac;ao e do processo político no estudo dos movi1 nentos. Sao estas semelhanc;as que levam vários analistas, entre

nles Cohen e Arato ( 1992), a nao ver diferenc;as significativas

nntre a teoría dos NMS e a da MR. No debate travado entre os

l. •óricos da MR e os dos NMS, Melucci teve grande participac;ao

t contribuiu para o avanc;o e superac;ao da própria MR, por meio

dos trabalhos de Klandermans e Tarrow, principalmente ao chamar a atenc;ao para o papel do contexto histórico e político, na

a nálise da direc;ao do conflito no interior de urna determinada

Hociedade. Este ponto embasou o conceito de oportunidades políticas de Tarrow, quando este buscou entender os ciclos de protestos

i;ociais. Só que, em vez de enfatizar os discursos - como fazem os

americanos citados, que estao em busca do significado dos discursos

dos líderes para construir os frames -, Melucci dá enfase ao significado de suas práticas.

Ao fazer um resgate das ideologías que fundamentaram os

movimentos ou que foram criadas por eles, Melucci afirma que

nos anos 80 "novas linguagens e novos símbolos foram criados

para definir os atores sociais em conflito" (Melucci, 1992: 59).

Em outro trabalho, ele concluí: "Os movimentos sociais dos anos

70 e 80 foram a última transic;ao de movimentos como atores

políticos para movimentos como forma. E esta nao é urna transic;ao fácil, porque ainda necessitamos de atores políticos. Sem

1 62 Os paradigmas europeus sobre os movimentos sociais

ac;ao política nada pode ser mudado em nossa sociedade. Mov í

mento como forma pura refere-se a um tipo de ac;ao que qu H

tiona a organizac;ao da política" (Melucci, 1994).

Melucci chama a atenc;ao para o papel do pesquisador como

produtor de conhecimento e nao missionário. Ele deve escapar do

papel de demiurgo ou pedagogo, pois falar da fraqueza dos aton•H

é também urna maneira de deformar o significado do poder. O

pesquisador de ve of erecer ao ator a possibilidade de aprender u

aprender, a produzir seus próprios códigos, envolvendo urna nov

ética e urna nova política do trabalho científico. O destino dos ato·

res nao deve ser sua preocupac;ao, pois os atores coletivos, em si,

nao devem ser objeto de análise mas sim o produto de suas ac;o s

e o significado delas. A lógica dos frames, como experiencias vi·

vidas pelos atores, deve ser pesquisada a partir do mundo int .

rior desses atores, do conteúdo ideológico de suas crenc;as, valores

etc., a partir do modo como estao estruturados. Esta postura metodológica se aproxima da de Touraine e se distancia da de muitos

trabalhos de pesquisa realizados na América Latina nos anos 70

e 80, conforme abordaremos no próximo capítulo. Mas está em

consonancia com as novas orientac;oes dos trabalhos de base na

mesma América Latina nos anos 90, que sao as de "ensinar a

pescar e nao dar o peixe".

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