É importante registrar os tipos de movimento que foram
analisados e serviram de base para os primeiros estudos da
MR. McCarthy e Zald, por exemplo, pesquisaram movimentos
de direitos civis (a NAACP -Associa<;ao Nacional para o Desenvolvimento de Pessoas Negras -, a Uniao Americana de Liberdades Civis etc.); movimentos de mulheres (NOW - Organiza<;ao
Nacional de Mulheres, e outros). Eram todos movimentos liderados pelas camadas médias da popula<;ao,. em que se destaca-
54 O paradigma norte-americano
vam, por um lado, a diversidade de temas e problemáticas ( ' 11
tratamento de algumas organiza1:;6es como movimentos sociu i
Por outro lado, aqueles movimentos de fato promoveram cam
panhas nacionais e utilizaram as técnicas mais avan1:;adas d iH
poníveis - em termos de equipamentos tecnológicos, contato
com a mídia e com a própria popula1:;ao, obten1:;ao de recurso11
financeiros. Estratégias isoladas de mobiliza1:;ao de recursos fo
ram profissionalizadas. Estes elementos nao serao encontrado
nos movimentos sociais populares latino-americanos dos ano
70 e 80, mas irao aparecer nos anos 90 em movimentos intt•r
nacionais, com demandas globalizadas, conforme discussao
ser apresentada na terceira parte deste livro.
Observa-se também que os primeiros estudos da RM, po
exemplo na análise do movimento pelos direitos civis nos Estado
Unidos, enfatizaram a rede endógena e os recursos internos versw1
o papel dos recursos externos. Foram feitos recortes e selecionu
dos dados que favoreceram a confirma1:;ao de suas hipóteses
pressupostos. Na MR as ideologias foram desprezadas, pois argu
mentava-se que as mobiliza1:;6es por descontentamento era m
constantes e nao específicas de certos períodos ou condi<;oes estru
turais. Segundo Mayer ( 1992), as ideologías e motiva<;oes ideo] 1
gicas nao teriam desempenhado papel importante nas mobiliz11
1:;6es dos anos 60, já que a maioria das a1:;oes tinha um discun111
que nada mais fazia do que reivindicar a extensao dos valor<•
liberais básicos que dominavam o discurso público america no
há mais de um século. Ou seja, nao teriam sido as ideologias dt•
origem alienígena que alimentaram ou fomentaram as mobi li
za1:;6es. Concordamos com as observa1:;6es de Mayer e achamoH
que a falta de enfase nas ideologias se deu pelo fato de nao ter hu
vido grandes conjuntos de novas cren1:;as ou valores a dar form11
a um novo corpo ideológico - corpo este desenvolvido pelas camadas médias da popula1:;ao norte-americana, ávidas por se int<•
grar a sociedade de consumo existente; mas a falta de enfase
também parte do próprio referencial teórico da RM, que excluíu
as ideologías como fator explicativo importante por e nao considerava a dimensao de luta social dos movimentos Tilly ( 197 )
e McAdam ( 1982) contribuirao para a incorpora1:;ao das ideologias como elemento importante dos movimentos no paradigma
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lf•orias contemporáneas norte-americanas da a{:ÜO coletiva e dos MS 55
11orte-americano,'° exemplo do estudo de McAdam sobre o mov1 mento dos dir os civis e o papel da Igreja Batista nele.
Apesar de a MR priorizar a análise económica em seus pri111 •iros estudos, observa-se que a análise política está presente
1 1 1 1s entrelinhas. lsto porque o campo de surgimento dos novos
111ovimentos sociais, a sociedade civil com suas associac;oes
1111L6nomas, passou a ser valorizado por se tratar de um espac;o
pl uralista, um canal de expressao. Deixou-se de ter a visa.o da
ociedade civil como um pesadelo, o espac;o da sociedade das
1 1 1assas irracionais que a abordagem tradicional descrevia. Os
1 1ovos grupos e movimentos, por serem dotados de racionalidade
n trumental, eram compatíveis com o jogo democrático e o refor1;11vam. Nao representariam um perigo para a democracia, ao
1·ontrário, eram um sinal de sua vitalidade. Mas a MR nao usa
11 categoría "sociedade civil". Ela atém-se ao campo das catego1·ias funcionalistas: organizac;oes, estruturas, instituic;oes etc.,
nao se libertando do funcionalismo que a princípio negara.
2 - Principais críticas a teoria da
Mobiliza�ao de Recursos
Provavelmente a principal crítica a MR nao foi formulada
11 ela em si, mas a teoría que lhe deu origem e sustentac;ao: a
da escolhas racionais. lsto porque esta última baseia-se no modelo das ciencias naturais, tratando os indivíduos como seres
1 1bstratos, universalizando a experiencia de um tipo particular
d ser humano: a rac;a branca, as camadas médias da populat;ao, em países do capitalismo desenvolvido do Ocidente. Com
isto introduziu o que se convencionou chamar de um bias político, um viés. Os grupos sociais subordinados, suas lutas, seus
princípios, cultura, valores, normas, objetivos, projetos etc. sao
Himplesmente ignorados, como se nao existissem.
Myra Marx Ferree ( 1985, 1992) é urna das :autoras que faz
ríticas contundentes a MR, sustentando que sua visa.o dos
movimentos sociais é burocrática.
Entretanto foi Jean Cohen ( 1985) que elaborou a crítica mais
completa e mais citada pelos próprios teóricos da MR, quando
56 O paradigma norte-americano
lhe fizeram alterac;oes ao final dos anos 80 e nos anos 90. Ela
destacou que a MR excluía valores, normas, ideologías, projetos, cultura e identidade dos grupos sociais estudados. A despeito das diferenc;as entre as várias versoes da teoría, ela analisou
as ac;oes coletivas segundo urna lógica de interac;ao custo-benefício, insistindo sobre a racionalidade instrumental e estratégica da ac;ao coletiva. Cohen argüiu ainda que Olson errou em
caracterizar aqueles que se mobilizam nas ac;oes coletivas como
indivíduos desorganizados, porque eles se organizam em grupos
de solidariedade.
Segundo Cohen e Arato ( 1992), os teóricos da MR compartilham os seguintes pressupostos: os movimentos sociais devem
ser entendidos em termos de urna teoría de conflito da ac;ao
coletiva; nao há nenhuma diferenc;a fundamental entre ac;ao coletiva institucional e nao-institucional; ambas as ac;oes (institucionalizadas e nao-institucionalizadas) envolvem conflitos de interesses construídos dentro de relac;oes de poder institucionalizadas; as ac;oes coletivas envolvem a busca racional de interesses pelos grupos; demandas e reivindicac;oes sao produtos permanentes de relac;oes de poder e nao podem explicar a formac;ao
dos movimentos; movimentos formam-se devido a mudanc;as nos
recursos, na organizac;ao e nas oportunidades para a ac;ao coletiva; o sucesso de um movimento envolve o reconhecimento do
grupo como ator político ou o aumento de beneficios materiais;
e, finalmente, a mobilizac;ao envolve organizac;oes formais em
ampla escala, burocráticas e com propósitos especiais. Concluem
os autores que organizac;ao e racionalidade sao palavras-chave
nesta abordagem (Cohen/Arato, 1992: 498).
Piven e Cloward ( 1992) argumentaram que a MR comete
um erro ao apontar similaridades entre o comportamento convencional e o de protesto, sem compreender suas diferenc;as. A
MR tendeu a normatizar o protesto coletivo, esquecendo-se das
diferenc;as entre os modos de ac;ao legais - permitidos - e os
proibidos pela ordem estabelecida, isto é, pela lei. Como resultado,
o impacto das ac;oes coletivas também é normatizado pela MR,
assim como outras formas convencionais de organizac;ao, reduzindo os protestos políticos das camadas populares a irrupc;oes irracionais e apolíticas. Tilly é um dos alvos das críticas de Piven e
Teorías contemporáneas norte-americanas da a�ao coletiva e dos MS 57
Cloward. Eles afirmam que Tilly confunde o nao-normativo com o
normativo, ignorando o poderoso papel das normas de regulamentac;ao na vida social, {Principalmente na esfera da dominac;ao e da
subordinac;ao Os autores destacam que os protestos sao contra a
política formaÍ; as pessoas buscam quebrar as regras definidas, os
modos permitidos da ac;ao política.
Piven e Cloward criticam também Zald, McCarthy e Gamson
por incluírem como movimentos sociais diferentes _formas de
a�let1va. le-s--tentam am a emonstrar que a refutac;ao as
abordagens clássicas americanas, premissa básica na primeira
fase da MR, também estava errada. Ou seja, as teorias sobre os
descontentamentos e privac;oes teriam muitos elementos para
explicar lacunas na MR, tais como o porque das alterac;oes no
comportamento das pessoas ao se juntarem as ac;oes coletivas e
adotarem posturas nao-normativas, caracterizadas como desordem ou rebeliao pela abordagem tradicional. Além disso, apontaram os equívocos da teoria do ponto de vista político: o de considerar os movimentos dos subordinados em geral como apolíticos
e irracionais.
Mas a crítica metodológica mais contundente a MR foi
realizada por Margit Mayer ( 1992). Ela refere-se ao individualismo metodológico implícito no approach. A sociedade é vista
nao como urna organizac;ao composta por classes sociais e suas
relac;oes, mas como um arranjo estático das elites e nao-elites,
relativamente homogeneo, em que há grupos incluídos e excluídos. O objetivo dos excluídos seria lutar para ser incluídos.
Pressup6e-se urna sociedade aberta, em que os diferentes grupos
terao sucesso conforme o grau de sua organizac;ao. Gamson ( 1975)
e Jenkins ( 1985) aventaram reformas sociais sui generis, em
que o Estado seria o agente da institucionalizac;ao dos movimentos sociais ao reconhecer sua legitimidade.
Mayer destaca que a MR silencia em relac;ao ao papel das
normas, crenc;as e emoc;oes nos comportamentos coletivos ou na
sociedade de massa, conforme a tradic;ao anterior. O approach
criado por ela foi "adequado" nos anos 60 e 70, na sociedade norte
-americana, porque o sistema de crenc;as dos movimentos estudados era extensao de conceitos básicos do liberalismo, na filosofia
americana. Aquele approach tinha forc;a motivacional e ideológica
58 O paradigma norte-americano
coincidente com valores já consagrados na sociedade local, e nao
precisava ser explicado. As categorias desenvolvidas pela MR para
a interpreta<_;ao dos métodos de organiza<_;ao e mobiliza<_;ao dos
movimentos, se aplicadas a outros períodos históricos, mostram-se
inadequadas, segundo Mayer, porque os movimentos nao exibem
mais aquelas características dos anos 60 e 70 e nao aparentam ser
dirigidos por racionalidades estratégicas. Assim, vários movimentos atuais da sociedade norte-americana, e de outras partes do
mundo, nao encontram lugar no esquema interpretativo da MR,
dentre eles o movimento pela paz, os ecológicos, os das mulheres,
os de grupos locais que defendem interesses de minorias étnicas
etc. Todos eles sao descentralizados, formados por grupos de afinidades, e ocupam lugares que eles mesmos constroem. Seus participantes estao constantemente correndo riscos (de ser presos, espancados, deportados, processados etc.). Possuem um sistema de cren
<;as e ideologias que desempenham importante papel no processo
de mobiliza<_;ao. Nenhuma destas características encaixa-se na imagem construída e projetada pela MR. Ao contrário, os movimentos
deveriam demonstrar e provar, segundo Gamson por exemplo, urna
clara divisao interna de trabalho, líderes que seriam planejadores
de decisoes inteligentes, administrando os recursos centralizadamente. As atividades de baixo risco seriam um dos indicadores de
seus sucessos (Mayer, 1992: 179).
Mayer ve ainda duas grandes lacunas na MR: a negligencia no processo de interpreta<;ao das carencias e descontentamentos, em que a enfase numa racionalidade instrumental-propositiva nao deixa espa<;o para tratar daquele processo; e urna
lacuna em rela<;ao ao sistema político. Ela conclui que a teoria
da Mobiliza<_;ao de Recursos exclui as novidades, e foram justamente estas novidades - nos movimentos ecológicos, pela paz,
das mulheres etc. - que criaram urna nova agenda e um novo
paradigma na Europa, expresso na teoria dos Novos Movimentos Sociais (NMS), que criaram ainda urna nova arena de rela
<;6es entre o Estado e a sociedade civil. A MR trata superficialmente esta última questao, e de forma enviesada, como resposta
das elites, como por exemplo em Tarrow. Poucos estudos atentaram para a institucionaliza<_;ao das demandas dos movimentos e para os efeitos deste processo sobre eles próprios e sobre
o sistema político como um todo.
Teorias contemporiineas norte-americanas da a<;iio coletiva e dos MS 59
Finalmente, Mayer destaca ainda que a constru<;ao de novos
canais e novas arenas do sistema político vigente, para estabilizar, como conquista, ou desestabilizar, como política de desestrutura<;ao, também nao é considerado na MR, assim como nao
se analisa o papel dos partidos e os conflitos ideológicos. Cumpre
registrar que estamos de acordo com a análisie de Mayer e acrescentamos: a MR possui todas as !acunas assinaladas e nao aborda,
ou o faz de forma equivocada, inúmeras questoes porque excluí da
análise política a problemática das rela<;6es entre as classes sociais,
o sistema de domina<;ao e as formas de reprodu<;ao do capital e da
for<;a de trabalho. Com isso a análise das relac;oes sociais torna-se
parcial e superficial. A MR nao se propoe a fazer este tipo de
abordagem nem tem instrumentos conceituais ou metodológicos
para tanto.
Zald e McCarthy também reformularam suas concep<;6es iniciais e continuaram produzindo estudos sobre os movimentos sociais
ao longo dos anos 80 e 90. Em 1988 criaram o conceito de micromobiliza<;ao, numa tentativa de inserir o nível micro em suas análises
macroestruturais. Esta categoria é retomada por K.landermans quando procura descrever a rede de grupos e associa<;6es informais que
sustentam um movimento. McCarthy, em conjunto com Woolfson
( 1992), destacou a importancia da rede de rela<;6es já existentes
em termos de suportes materiais, tais como telefone, fax, microcomputadores etc. , como potencializadores das a<;6es de um grupo. É
interessante que questoes importantes como esta, a da rede de rela<;6es anteriores, sejam apenas tangenciadas. Um mundo de problemas decorrentes do universo de rela<;6es sociopolíticas e culturais dos atores, amalgamados por urna dada cultura política, é
absolutamente ignorado. Primeiro porque o referencial teórico utilizado nao possibilita a visao daqueles fenómenos. Segundo porque,
deliberadamente, existe a recusa a urna análise do processo político mais geral. A teoria limita-se as constata<;6es empíricas: os
recursos materiais!
Clarence Y. H. Lo ( 1992), adepta da MR, procurou aperfei
<;oar a teoría a partir do conhecido conceito de comunidade. Lo
retomou os estudos de Janowitz ( 1951) para explicar que por
meio desse conceito é possível entender a importancia das comunidades étnicas na política local. Ela argumenta que várias
mudan<;as políticas foram obtidas na história patrocinadas por
60 O paradigma norte-americano
grupos com fortes la�os em certas comunidades geográficas. Assim, em alguns movimentos antinucleares da Califórnia, os principais ativistas estavam agrupados na Universidade de Berkeley
e em alguns colleges da regia.o. Organiza�oes e movimentos étnicos e raciais estruturaram-se ao redor de algumas Igrejas. Desse
modo, destaca-se nao apenas a demanda mas as estruturas de
suporte dos movimentos.
Lo argumentou também que, em vez de analisar os movimentos sociais apenas com categorías do capitalismo avan�ado,
deveriam ser utilizados conceitos derivados de épocas passadas,
similares aos da fase da manufatura artesanal, ou seja, categorías do pré-capitalismo. Isto porque considera que o esquema
de Zald e McCarthy nao abrange os movimentos oriundos dos
excluídos da política, aqueles que nao obtem recursos nas transa�6es de mercado, mas tem suas a�6es embutidas nas rela�6es
sociais da comunidade. Observa-se que o autor, ao categorizar
os movimentos em capitalistas e pré-capitalistas, comete vários
equívocos, já bastante criticados nas velhas teorías funcionalistas
da moderniza�ao e outras. A bipolaridade comunidade versus
sociedade é retomada. Disto resultou urna tipología para os
movimentos sociais que gira em torno da mobiliza�ao de recursos
para o mercado empresarial ou para o mercado comunal. Os
movimentos que atuam segundo lobbies seriam do primeiro grupo - incluindo-se os ambientalistas. Na segunda categoría teríamos os comunitários, como os movimentos reivindicatórios urbanos, de moradores, tanto de protesto como aqueles pela aquisi�ao de melhorias. A exclusa.o social - fenómeno típicamente
capitalista marca da era da globaliza�ao - nao é tratada como
fator gerador do movimento dos "excluídos da política", isto porque suas a�oes seriam vistas como pré-capitalistas.
A nosso ver, as lacunas principais da MR esta.o na ausencia
de urna análise do contexto social e político; no desconhecimento
das políticas públicas e do papel do Estado na sociedade em geral,
e junto aos movimentos sociais em particular; no fato de se ignorar o caráter das lutas dos atores, assim como as experiencias de
lutas sociais anteriores vivenciadas por eles; e na omissao do papel
da cultura nas a�6es coletivas em geral, e nos movimentos em
particular. Esta última lacuna foi o ponto principal dos críticos e
revisores da MR, baseados principalmente no papel que a MR tem
Teorias contemporaneas norte-americanas da a�ao coletiva e dos MS 61
no paradigma europeu dos Novos Movimentos Sociais e na abordagem clássica americana. As demais lacunas também iremos encontrar no paradigma dos N ovos Movimentos Sociais, parcialmente
superadas, depois do advento da MR, por Tarrow - quando resgata o processo político em sua análise -· e por Tilly - quando
traz de volta a agao do Estado junto as lutas sociais.
A seguir apresentaremos o trabalho de dois pesquisadores
norte-americanos que se destacaram no período da primeira
fase da MR e que tiveram contribuigao significativa para a fase
seguinte, ao final dos anos 80. Embora nao tenham se atido
exclusivamente as premissas da MR, eles representam um tipo
de transigao entre essa teoria e a da Mobilizagao Política (MP),
a ser tratada no próximo capítulo.
3 - A preocupa�ao com as causas: das mobiliza�oes:
Anthony Oberschall
Oberschall participa do debate e da produgao sobre a MR
desde os anos 70. Em 1973 ele publicou Social Confiict and
Social Movement. Em 1993, portanto vinte anos depois, publicaría Social Movements: Ideologies, Interests and Identities, em
que faz urna reflexao sobre as mudangas operadas na teoria e na
prática dos movimentos sociais. Ele afirma que este campo de
estudos cresceu aos trancos e barrancos, enriquecido por pesquisas empíricas e utilizando-se de urna grande variedade de métodos de investigagao. Admitindo mudangas na área que ajudou
a construir - a teoria da MR -, faz em 93 urna revisao de sua
produgao. A partir de urna abordagem eminentemente sociológica, analisa a organizagao social da socieclade como resultado de
adaptag6es as inovag6es tecnológicas, forgas económicas e mudangas populacionais; estuda ainda os esforgos coletivos propositivos para formar ou alterar as instituigoes existentes em fungao
das necessidades e aspirag6es humanas, concluindo que as reformas sao realizadas devido as pressoes dos rnovimentos sociais.
Mesmo quando um movimento social nao obtém sucesso imediato, seus ideais e metas sao adotados mais tarde. Ele afirma que
"o comportamento coletivo e os movimentos sociais tem moldado
as instituigoes contemporaneas e provavelmente continuarao a
62 O paradigma norte-americano
fazer isto no tempo futuro" (Oberschall, 1993: 2). Eles devem 11
estudados juntos e sao formas de ac;oes coletivas que derivam el
assuntos públicos que necessitam de ac;oes conjuntas.
O comportamento coletivo refere-se ao expectro do comport 11
mento da multidao desde grevistas em piquetes, manifestac;fü1H
concentrac;oes públicas, manifestac;oes coletivas de cidadaos x1•1
cendo pacíficamente seus direitos ·constitucionais de reuniao, ¡wt 1
c;oes ao governo, até ac;oes potencialmente destrutivas, de revolt 11
populares. O autor afirma que os comportamentos coletivos sao l•pl
sódicos, nao ocorrem com freqüencia e sao incomuns. Atraem a l'll
riosidade, provocam comentários, condenac;ao, apoio etc. Já os movl
mentos sociais sao, em larga escala, esforc;os coletivos em busca el
mudanc;as ou para resistir a elas. Eles alteram a vida das pessou
Oberschall retoma os estudos de Le Bon, teórico francés q11
produziu no final do século passado teorias bastante conservado
ras a respeito do comportamento das massas. Apesar de concor·
dar com as críticas dirigidas aquele autor, Oberschall diz que
alguns argumentos de Le Bon sao úteis para explicar, por ex m
plo, o comportamento de seguidores fanáticos de movimento
religiosos, como os da seita People's Temple do reverendo Jorn• ,
na Califórnia. Ele também utiliza-se de argumentos de Georg
Rudé, um marxista.
As variáveis básicas de Oberschall sao as mesmas utiliz11
das pela MR, tanto para entender os comportamentos coletivo
como os movimentos sociais: a escolha racional dos indivíduo
baseada na lógica custo/benefício. Os comportamentos coletivoH
seriam adaptativos e normativos. As escolhas ocorrem nao apl'
nas em func;ao de critérios individuais, elas sao influenciada
pelas decisoes dos outros e disto resulta o caráter coletivo da ac;ao.
Isto significa que os custos e beneficios que outros esta.o avaliando
influenciam a minha decisao.
Para Oberschall, devido ao caráter adaptativo e normativo doH
comportamentos coletivos, um encontro, urna manifestac;ao política,
urna celebrac;ao coletiva, mesmo um motim destrutivo, podem st•r
entendidos com conceitos usuais e hipóteses das ciencias sociais. A
diferenc;a é que nurn motim a escolha dos custos e beneficios t•
diferente daquela feíta em outras situac;oes. Após longa análise sobn •
1 111 1w1temporaneas norte-americanas da ai;ao coletiva e dos MS 63
1 1111poriamentos coletivos, Oberschall pergunta: o que ocasiona
1111 1vl11H 1ntos sociais? Como alguns de seus assuntos se tornam
1 l lt 1 11 t 1 outros ignorados? Ele afinna que muitos movimentos
1111 . 1 1 1 1 ·orno urna reac;ao as mudanc;as ou as novas políticas que
1 1 11111 rwg-ativamente os interesses ou o modo de vida de muitas
1 11 11 . 1 1orque as autoridades sao, direta ou indiretamente, respon1 p1 •lns mudanc;as, os ativistas organizam a oposic;ao, atraem
¡ 11 1 11 1 buscam ades6es públicas para suas metas e objetivos. O
11 1111111 11,el antimilitarista nos Estados Unidos nos anos 60 é citado
1 111 1 111 1111 reac;ao a intervenc;ao militar daquele país na Indochina.
11 1 111110, os movimentos nao surgem como resultado de aconteci1 1 1 1 11 1 1bruptos ou dramáticos, mas devido ao aumento de experienl li l11H como injustas e desiguais; e podem ser estimulados por
11 1d1 10H que aumentam sua capacidade para agir coletivamente.
1 >hH( rva-se que, para Oberschall, além de entender o com11 l 111111111Lo coletivo precisamos também compreender as teorias
111 111 l11 nc;a social para obter explicac;6es sobre os movimentos
1111 l nsatisfac;ao ou solidariedade sao dois opostos que atuam
11 1 11 1 l 11 t o res primordiais na análise das condic;oes societais que
1 11 11m a erupc;ao dos movimentos sociais.
l 11 1 1•1 1 se ter um movimento social nao bastam urna causa
t 1 1 11 rna mensagem atrativa, diz Oberschall. Ele afirma que
¡ 1 1 1 1 1� o que haja marcos referenciais significativos e atrativos.
1111 · 1 1H1 1gens tem de ser comunicativas, os assuntos de interes
¡i11li l ico, idéias, símbolos e palavras-chave devem ser criados.
1 1 1 11•1•HHidade de um corpo de ativistas, de fundos suficientes,
1t1 1 11 boletins, listas de nomes e enderec;os de membros e
1i ¡ i l 1 11 potenciais; é preciso preparar quadros, orc;amentos, obter
1l1 1 1 1 1111c,:o s a respeito das políticas e das prioridades públicas
le 11:1 1 1 Hu ma, organizar um movimento dá trabalho, assim como
1 1 1I111ll 1 oso organizar seus encontros, reu.ni6es e administrar
11 11111 ndas. Portanto, para Oberschall, rnovimento social sig1 1 1 11, prioritariamente, organizac;ao.
1 >l11 1t"l:lchall segue Gamson e outros ao tratar os movimentos
1111 11 1 11 Lenninologia Organizac;ao de Movimentos Sociais - OMS.
lt 1 1 11 wl ui que certo grau de estrutura formal está associado ao
11 1 11 P que há nela urna hierarquia interna com diferentes
1 '" 1• f"unc;6es. Há nonnatizac;6es internas em tennos de regu-
64 O paradigma norte-americano
lamentos e urna centraliza�ao do poder ao longo de urna linha de
autoridade. Mas estes requisitos sao construídos ao longo do tempo. No início as rela�6es sao predominantemente face a face.
As bases teóricas do pensamento de Oberschall, quanto a
tendencia a institucionaliza�ao das organiza�6es e movimentos,
estao em Weber - em seus estudos sobre os movimentos religiosos - e em Michels - nas já citadas leis de ferro das oligarquias. Embora discordando em parte, Oberschall utiliza-se da
abordagem do individualismo metodológico para analisar as
a�6es dos movimentos sociais, localizadas, no que se refere a
seu comportamento adaptativo e normativo. Identidade, coesao,
redes de trabalho, estrutura organizacional sao analisados como
fatores micro em rela�ao aqueles considerados macrossociais:
valores, ideologias, institucionaliza�ao. A transi�ao do micro ao
macrossocial esbo�a as teorias do Estado, do conflito, da mudan�a
social e da cultura. Os movimentos sociais sao vistos ao longo
de quatro dimens6es: reivindica�6es de descontentamento; valores e ideologias; capacidade de organiza�ao e mobiliza�ao; oportunidades de sucesso, cada urna delas tendo seu nível de abstra
�ao e análise.
Como conclusao destacamos que Oberschall é um dos teóricos mais citados e utilizados na produ�ao norte-americana sobre os movimentos sociais nas últimas duas décadas. Sua contribui�ao ao paradigma norte-americano foi fundamental na teoría da MR e em sua reformula�ao nos anos 80 e 90.
4 - A abordagem histórica no paradigma
norte-americano: Charles Tilly -
as seqüencias históricas e a
análise dos recursos comunais
Embora muitos autores incluam o trabalho de Charles Tilly
na teoría da Mobiliza�ao de Recursos (e eles tem suas raz6es
para tal), achamos que <leve haver urna diferencia�ao, já que
ele possui características próprias, um estilo de abordagem que
fez escola e urna abordagem essencialmente histórica. Outros
autores relacionam o trabalho de Tilly ao paradigma dos Novos
ll•orias contemporaneas norte-americanas da a{:ao coletiva e dos MS 65
M nvimentos Sociais, como Foweraker ( 1995). D iscordamos des1 1 posic;:ao porque o próprio Tilly destaca o caráter estrutural de
1111H análises e tece críticas a abordagem centrada apenas nas
1
1
1 111¡.¡LQes da identidade e na perspectiva microssocial. O que ele
p1 1 1'!,i lha com o paradigma dos NMS é a questüo da solidariedad11, particularmente a solidariedade comunal.
Em 1978, Tilly publicava o seu From Mobilization to Revol 11l1on, estudo que se tornou um clássico contemporaneo pelas
l 111 1vac;:6es introduzidas na abordagem do comportamento coletivo.
11: 11• comec;:a por urna retrospectiva das teorias sobre a ac;:ao cole1 1v11 segundo a divisao das ciencias sociais, em tres grandes
1 111 t' •ntes, que imperou nas academias de várias partes do mundo
11111-1 anos 70: Durkheim, Weber e Marx. Mas ele nao ficou apenas
1111H Lres clássicos, resgatando os autores contemporaneos que esl 1 1daram movimentos, revoluc;:oes e ac;:oes coletivas em geral se
¡i1111do aquelas abordagens. Após este trabalho, de caráter pio111• i ro, ele situa e inicia sua própria abordagem. Partindo de um
pro blema apontado por Marx, que considerou nao resolvido, sobre
1 1 1 i no as grandes mudanc;:as estruturais afetam os modelos preval 1 •1·ontes de ac;:ao coletiva, ele recorreu também a Weber e aos
l11HLoriadores ingleses marxistas, particulannente Hobsbawm,
.111 caracterizar o papel relevante da ideologia e das crenc;:as na
l11 rrnac;:ao das ac;:oes coletivas. Na Escola dos Annales, foi buscar
.1 rntegoria da longa durac;:ao, utilizada para. demonstrar como
11 Hol idariedade comunal interfere nas associac;:oes voluntárias.
O conceito de oportunidade de interesses - que se tornará
d1 •cisivo ao final dos anos 80 e nos 90, em relac;:ao ao paradigma
1111rLe-americano segundo a abordagem de Tarrow e outros -
l11i aplicado por Tilly para entender tanto as lutas históricas
violentas como os processos de barganha institucionalizados,
1111rna abordagem caracterizada por alguns autores como urna
110 va versao da teoria da modernizac;:ao, porque se reafirma que
11H rnudanc;:as coletivas em larga escala afetam as ac;:oes coletivas.
11: 1 mostra como o repertório das ac;:oes coletivas desenvolvido
poi· atores relaciona-se com suas formas de associac;:ao e com as
novas formas que emergem. Tilly aplica também a MR para
t 1 111-;sificar os tipos de mobilizac;:ao, em defensivas e ofensivas,
11 l1•m de desenvolver bastante a reflexao sobre a relac;:ao com as
66 O paradigma norte-americano
elites dos grupos organizados em ac;oes coletivas e os resultados
deste processo em termos políticos.
Ainda preocupado coro questoes abordadas pelas teorias
norte-americanas da ac;ao social, Tilly publicou em 1981, em conjunto coro Louise Tilly e Robert Tilly, Class Confiict and Collective Action, coletfmea de textos em que é retomado o trabalho
anterior na linha que o consagrará como um dos grandes pesquisadores norte-americanos sobre as ac;oes coletivas: seu estudo histórico nos séculos XVIII e XIX. A partir do impacto das mudanc;as locais nas estruturas de poder nacionais, Tilly chamou
a atenc;ao para os recursos comunitários, nos primeiros estágios
do capitalismo, particularmente os protestos comunais. Ele enfatizará a importancia de tais recursos também para o século XX
em movimentos, nos Estados Unidos, como aqueles pelos direitos civis e os dos estudantes, retomando teses de Gusfield.
A série de artigos publicada em 1981 pelos Tilly procurava
responder a urna questao de Moore ( 1978): quao freqüentemente,
e em que condic;oes, o conflito de classe prove as bases para a
ac;ao popular coletiva, ou seja, indagavam sobre as bases sociais
da revolta e da obediencia. A opc;ao pelo termo ac;ao coletiva, e
nao protesto, rebeliao, desordem ou qualquer outro, deu-se
porque ele entendia que nestes últimos termos já há um préjulgamento, do ponto de vista das autoridades, que prejudica o
entendimento dos fenómenos. Além disso, Tilly argumentou que
ac;ao coletiva é um termo mais amplo, nao se restringe aos protestos e rebelioes, e abrange também as petic;oes, marchas, manifestac;oes coletivas etc., num conjunto de ac;oes que contam
até coro o estímulo e/ou apoio das autoridades. Portanto, ele
C<?nclui, as ac;oes coletivas nao se resumem as manifestac;6es
contra a ordem vigente e podem ser assim definidas: "Toda
ocasiao na qual um conjunto de pessoas confiam e aplicam recursos, incluindo seus próprios esforc;os, para fins comuns". (Tilly,
1981: 17).
O trabalho histórico sobre as ac;oes coletivas consiste em
descobrir quais conjuntos de pessoas, recursos, fins comuns e as
formas de compromisso estao envolvidos em diferentes lugares
e tempos. Tilly procura estabelecer comparac;oes entre diferen-
ll 111 11111 1·ontemporáneas norte-americanas da arao coletiva e dos MS 67
1 11 riodos históricos, destacando o repertório das a�oes cole11 1 A sim, no século XVIII as pessoas aprenderam a fazer
11 v1 H, a invadir os campos e locais de trabalho, a realizar pro
' ' 1111 por meio de encena�oes teatrais nas ruas, a queimar publi1 1 1 1 11 1 1 1 (, imagens fictícias de seus oponentes etc. Estas a�oes se
1 1 1·1 HHaram nas rebelioes por alimentos, invasoes no campo
1 11111 1·11 os coletores de impostos etc. Menos visíveis foram as de�
111 1 1 1d11s populares nas festas e assembléias de grupos corpo1 11 voH (comunidades, guildas, congrega�oes religiosas etc.), as
1 p 111IH produziram peti�oes, processos jurídicos, condena�oes e
' ' ' 1 111 smo deliberaram sobre atos de rebeliao. Já o século XIX
" I '" H ntou um repertório de a�oes coletivas totalmente diferente
11 1 l•:u ropa. As formas mais visíveis foram as demonstra�oes em
I' 1 1 1 1 1d s eventos de protesto, a greve, a competi�ao eleitoral, em a�oes
111111 urbanas que rurais. Os participantes se articularam em
o1 o ·ia�oes de interesses, dirigiam suas mensagens para públicos
• ¡ 111 • ficos e utilizavam muito a mensagem escrita, via panfletos,
tludxo-assinados, porta-estandartes, emblemas e insígnias. Ou
1 ju, as formas do século XIX eram mais organizadas do que as
1 111 H culo XVIII.
Tilly atribui as mudan�as nos comportamentos ao processo
p1 1IJ Lico, ao Estado, a estrutura de poder e a organiza�ao política.
\ rnncentra�ao do capital e o surgimento do Estado nacional
1 1 1111pletam a análise sobre o porque do declínio do repertório do
1wu lo XVIII e o surgimento de um novo repertório no século
1 . Tilly afirmou que as a�oes estatais, ao atingirem comunid11 l s em nível local, geraram resistencias, legitimando ou desle1 1Limando o repertório das disputas. Nao há portanto nenhuma
1 11 l'nse no processo de aprendizado das massas mobilizadas ou
11111 um acúmulo de suas for�as políticas. O fator gerador básico
d11H mudan�as está no sistema político institucionalizado.
Segundo Cohen e Arato ( 1992), o trabalho de Tilly mostra
q11 a moderna a�ao coletiva pressupoe o desenvolvimento da
,111(,onomia do social e de espa�os políticos dentro da sociedade
Pi vil e política, espa�os estes garantidos por direitos e embasados
por urna cultura política democrática e por institui�oes políticas
l ormais representativas. Mas, ainda segundo Cohen e Arato,
'l'illy nao ve nas a�oes coletivas devido ªº approach adotado, que
68 O paradigma norte-americano
exclui a identidade política dos atores coletivos, a cria9ao de
novos significados, novas organiza96es, novas identidades e novoH
espa9os sociais. Estes aspectos foram enfocados por Cohen já em
1985 quando afirmou: "Ele nao focaliza a rela9ao entre a emergencia de princípios universalísticos nos novos espa9os públicos
e a nova identidade coletiva, baseada em novas formas de vida
associativa, de atores coletivos. Ele olha somente a dimensao
daqueles processos que sao relevantes para a mobiliza9ao de
grupos organizados competindo pelo poder" (Cohen, 1985: 683).
Em 1995 Tilly publicou novo estudo sobre os movimentos
sociais. Em 1996, em conjunto com Tarrow e McAdam, organizou
um amplo programa de pesquisa envolvendo um mapeamento
dos litígios coletivos (contentions politics). Este termo passou a
designar o estudo dos movimentos sociais, os ciclos de protesto,
as revolu96es e as a96es coletivas de forma geral. O mapeamento dos litígios deverá abranger as histórias políticas locais, regionais e nacionais; as mudan9as ocorridas em categorías sociais;
as políticas estatais orientadas aos movimentos sociais, redes
sociais, grupos de interesses, partidos políticos e outras áreas
da vida pública coletiva como cidadania, nacionalismo etc.; e os
conflitos e violencias isolados, como o banditismo, crimes etc.
Voltaremos a este assunto e a obra de Tilly no próximo capítulo,
ao tratarmos da teoría da Mobiliza9ao Política.
_ _.._..
CAPÍTULO 111
RIAS SOBRE MOVIMENTOS
SOCIAIS NA ERA
DA GLOBALIZA�AO:
MOBILIZA�AO POLÍTICA - MP
U ( f'ormula<;ao da teoria da Mobiliza<;ao de
U .t c ursos e a busca de novos caminhos:
1 n fase no processo político, a redescoberta_
cla cultura e da psicologia social
.In nos anos_70, a partir de críticas enderei;adas ao utilita1 1 1 1 1 1 <' ao individualismo metodológico da MR, delineia-se urna
1 1 1 1v11 < 'lapa no paradigma norte-americano em que se destaca a
1 1 11 1·11 d' elementos conceituais que preencham as lacunas exis11 1 ti 1 •H d vi do ao enfoque exclusivamente económico da MR, amp l 111 1 1do assim seu campo explicativo. Disto resultou que, enquanl 11 11 M R destacou os aspectos organizacionais, principalmente
111 1·11 l ados a lógica económica que presidia as a¡;6es dos movi111 1 111 1.ol:l - tratados como urna organiza¡;ao formal -, a segunda
1 l 1 1 p11 destacou o desenvolvimento do processo político, o campo
d11 r1tl Lura foi reativado e a interpreta¡;ao das a¡;6es coletivas foi
1·1 d o<·ada como processo. Passou-se a enfatizar a estrutura das
1 1 1 1111·!,unidades políticas, o grau de organiza¡;ao dos grupos de1111111daLários, e a se aplicar a análise cultural na interpreta¡;ao
rl11H d iscursos dos atores dos movimentos. Ou seja, a linguagem,
69
70 O paradigma norte-americano
as idéias, os símbolos, as ideologias, as práticas de resistencia
cultural, tudo passou a ser visto como componente dos conflitos
expressos nos discursos, numa análise menos preocupada com
a desconstrur;ao de textos e mais interessada nos símbolos e
idéias presentes naqueles discursos, enquanto veículos de significados sociais que configuram as ar;oes coletivas.
Outro aspecto a ser assinalado refere-se aos tipos de movimento analisados na nova fase. Enquanto a MR se deteve a
analisar o movimento dos direitos civis, o das mulheres, aqueles
contra a guerra e as armas etc., agora observa-se que muitos
desses movimentos tiveram releituras, como o dos direitos civis.
As mudanr;as no tratamento metodológico acompanharam as
mudanr;as na vida real, onde passou a imperar a política do "politicamente correto", a exemplo dos conflitos raciais: os negros
deixam de ser chamados blacks e passam a ser denominados
african-american. Outros movimentos surgiram e passaram a
ser estudados: ecológicos, minorías nacionalistas, medicina alternativa, direitos dos animais, Nova Era, novos movimentos
religiosos etc. O movimento ecológico cresceu, se diversificou e
ganhou escopo internacional, na figura de organizar;oes como o
Greenpeace, a Rainforest etc. O movimento de gays e lésbicas
criou instituir;oes baseadas na era do políticamente correto, e o
movimento das mulheres, de forma geral, se alterou substancialmente. Conferencias internacionais, setores do feminismo radical e grupos institucionalizados passaram a compor, entre outros
temas, a nova agenda daquele movimento. O movimento pela
paz deixou de ser mera oposir;ao a guerra ou de se concentrar
em bandeiras do tipo paz e amor; a criar;ao de urna nova ordem
mundial holística passou a ser urna das grandes enfases.
Na nova fase destacam-se os trabalhos teóricos de Klandermas
( 1988, 1990, 1992, 1994, 1995), Friedman ( 1992), Tarrow ( 1988,
1992, 1994, 1996), Johnston ( 1994, 1995, 1996), Fantasía ( 1988,
1995), Taylor e Whittier ( 1995), Muller ( 1992, 1994), Morris
( 1992), Kriesi ( 1988, 1996), Laraña ( 1994), Inglehart ( 1990),
Amenta ( 1995), Meyer ( 1990, 1993 e 1996), Goodwin ( 1996),
Smith ( 1996), Traugott ( 1995), entre outros. (Tarrow, cuja obra
nao se iniciou na América mas na ltália, realiza o trabalho mais
abrangente, construindo urna ponte entre a abordagem ameri-
'ij?orias sobre MS na era da globalizai;iio: a MP 71
cana e a européia. Ele será estudado mais detalhadamente ao
final deste capítulo. Alguns autores que haviam produzido sob
a teoria da Mobilizac;ao de Recursos reformularam ou ampliaram suas abordagens em direc;ao dos aspectos político-culturais,
entre eles: Gamson ( 1988, 1992, 1995), Tilly ( 1994, 1995, 1996),
McAdams ( 1996), Snow e Benford ( 1988 e 199�2), Jenk.ins ( 1985),
Gusfield ( 1996), Oberschall ( 1993), Della Porta ( 1996) e o próprio
McCarthy ( 1996).
As abordagens dos autores nao sao uniforrnes, há enfases que
remetem a criac;ao de novas conceitos. Partindo de urna crítica a
análise inicial de Olson, · Zald e McCarthy, chamou-se atenc;ao,
para os recursos sociais da comunidade, para o contexto político
e para a rede de relac;oes sociais. Demonstrou-se que o movimento
dos direitos civis nos Estados Unidos, por exemplo, nao pode ser
explicado por variáveis só económicas. Com base em pesquisas
empíricas, argumentou-se que outros fatores macroestruturais
facilitaram a gerac;ao de protestos sociais, tais como: o nível de
organizac;ao do grupo em estado de carencia e a realidade política
de confrontac;ao posta pelos líderes desafiadores, num esquema
de rede de relac;oes sociais entre os grupos coletivos.
Em síntese, os protestos, descontentamentos, ressentimentos e outras formas de carencia existentes na comunidade - tao
caras aos teóricos clássicos das teorias da ac;ao social e desdenhadas inicialmente pela MR - foram também reconhecidos
como fontes de recursos. Ou seja: houve urna recuperac;ao dos
clássicos para explicar omissoes que a MR nao tratara. A enfase
na mobilizac;ao de recursos, como grande eixo articulador da
Leoria, continuou, mas a nova etapa nao considera apenas os
recursos económicos, e a lógica instrumental-racionalista deixou
de ser o eixo central condutor das análises. As táticas nao-convencionais - tratadas como atas anómalos pelos clássicos -
passaram a ser vistas como contendo um lado positivo para o
entendimento da mudanc;a social. Isto porque os protestos, por
exemplo, sao construídos socialmente e como tal geram energias
novas. Há a necessidade de intenso compromisso (pessoal e coletivo) para que um objetivo atinja suas metas.
O retorno da análise cultural na produc;ao teórica sobre a
ac;ao coletiva, especialmente nos Estados Unidos, realizou-se de
72 O paradigma norte-americano
forma um tanto peculiar. Trata-se da utilizac;ao de urna determinada interpretac;ao da cultura. Símbolos, valores, significados,
ícones, crenc;as, códigos culturais em geral, passaram a ser destacados segundo urna abordagem que lembra mais Durkheim do
que Weber ou Parsons, em suas teorias da ac;ao social e da cultura. Isto porque rejeitou-se a abordagem que trata a cultura como
um sistema, passando-se a ve-la como um processo. A cultura de
solidariedade, analisada por Fantasia por exemplo ( 1995), foi destacada segundo sua construc;ao num processo e nao como algo herdado e já pronto, ou criado a partir da inclusao em certo sistema
de relac;oes. Ela foi vista como sendo criada e recriada a partir de
um conjunto de representac;oes no desenrolar das ac;oes coletivas,
levando a formac;ao da consciencia coletiva. Neste ponto encontramos a forc;a do pensamento de Durkheim, quando ele afirma que
a cultura é constituída por representac;oes e nao por idéias, como
queria Weber. As representac;oes nao sao portanto as idéias de
indivíduos ou grupos perseguindo seus interesses, mas os veículos
de processos fundamentais nos quais símbolos publicamente compartilhados constituem grupos sociais (Durkheim, 1965, citado
em Swidler, 1995: 26). Ou seja, enquanto a perspectiva weberiana
toma o indivíduo como unidade da análise, a perspectiva durkheimiana toma o grupo e o processo que ele constrói. A consciencia
coletiva do grupo é algo muito similar a identidade coletiva da
abordagem da MP, por ser um repositório de normas e valores
que definem o comportamento dos movimentos. (Destacaremos
adiante outras limitac;oes ao uso da concepc;ao de cultura -
quando da análise do trabalho de Tarrow - e ao final deste
capítulo, ao sintetizarmos nossas críticas a MP.)
Weber e Parsons foram resgatados parcialmente por meio da
abordagem de Gertz, que redefine o objeto da análise cultural a
partir do estudo das práticas culturais. A análise das ac;oes coletivas buscará as representac;oes dos indivíduos sobre o objeto em
questao, a partir dos códigos e significados existentes. Ela se move
do interior dos indivíduos, de suas representac;oes mentais, para
o exterior, para suas práticas sociais. E para entender o exterior
entra-se na análise dos contextos. Os autores que avanc;aram mais
na criac;ao dos novos marcos explicativos destacarao a primazia do
contexto político (Tarrow, 1994).
Torías sobre MS na era da globalizar;ao: a MP 73
Pierre Bordieu e M. Foucault sao outras duas fontes refe
,. • nciais básicas a respeito das práticas culturais, dentre os au1 ores contemporaneos que fundamentam a nova teoria e o parad igma político que ela gerou. lsto porque os frames de at;6es
1•oletivas - conceito a ser discutido abaixo - incorporaram o
plano simbólico, advindo de símbolos e crent;as preexistentes
1 tHSÍm como de novos valores criados em oposit;ao ao status quo
vigente, que emergem no decorrer das lutas dos movimentos.
l1: stes valores constituem o que Bordieu denominou de
1·apital cultural do grupo, traduzindo-se em hábitos (Bordieu,
1 984, 1990). V. Taylor e N. Whittier ( 1995) assinalam que fato1·1•s como educat;ao, genero, rat;a, etnicidade e background de
c·lasse, usualmente vistos como fatores estruturais nas teorias
produzidas até entao sao revistos. Os grupos com distintos con111 ntos de crent;as e habilidades, e recursos culturais, passam a
i ncorporar as novas abordagens. Alexander ( 1990) verá neste
processo a format;ao da resistencia dos grupos.
A teoría da Mobilizat;ao Política reintroduziu a psicologia
1wcial como instrumento para a compreensao dos comportamentos coletivos dos grupos sociais. Tres elementos foram trabal liados: a reconceituat;ao da figura do ator; as microrrelat;6es
Hociais face a face; e a busca de especificat;ao para os elementos
1\ · rados dentro de urna cultura sociopolítica, com determinados
H ignificados. Os descontentamentos, os valores e as ideologias
lhram resgatados por intermédio de um olhar que busca entender a identidade coletiva dos grupos e a interat;ao com sua cultura. Ou seja, a MP aproximou-se das teorias européias denorn inadas "Novos Movimentos Sociais". Coehn e Arato ( 1992) já
l wviam afirmado que os dois approachs - MP e NMS - nao
c•ram necessariamente incompatíveis, porque, em parte, ambos
c·ontam com características-chave da sociedade civil. Também
1�'oweraker ( 1995) faz afirmat;6es neste mesmo ·sentido.
Após décadas do apogeu da Escola ele Chicago, um de seus
p rcssupostos básicos, o interacionismo, ressurgiu com bastante
vigor, sob a forma de interacionismo simbólico, por meio da recup rat;ao dos trabalhos de Irving Goffman. Utilizando-se de um
de seus argumentos - as condit;6es estruturais sao necessárias
mas nao suficientes para explicar a a�ao humana -, a MP
74 O paradigma norte-americano
voltou-se para os estudos psicossociais enfatizando as regras de
interac;ao. É importante registrar que Goffman foi o mais importante teórico empírico do movimento interacionista simbólico.
Ele desenvolveu urna sociología da vida cotidiana em que procura mostrar a natureza tenue da vida social. É urna sociología
para entender um mundo onde a vida é um drama, em que homens e mulheres lutam para criar ou projetar urna imagem convincente do seu "eu" para os outros. Ele focalizou os conflitos e
tensoes experimentados pelos indivíduos, em diferentes contextos sociais, e seus esforc;os em tentar preservar urna imagem
para os outros indivíduos. Os interacionistas, na época em que produziram suas teorías, foram alvo de críticas acirradas por parte
de seus opositores, críticas talvez mais fortes do que as que receberam alguns dentistas sociais anteriores, que tinham perspectivas elitistas, conservadoras ou cépticas. As críticas básicas aos
interacionistas foram quanto ao tratamento que deram a questoes como objetividade, racionalidade etc. Entretanto, a maioria
de suas posic;oes foi retomada nos anos 90, nao mais como problemas mas como soluc;oes, e muitos pontos das críticas que
haviam sido vistos como negativos - por exemplo, o papel da
subjetividade na determinac;ao das ac;oes dos indivíduos - passaram a ser considerados positivos - como pista para o entendimento das escolhas e opc;oes dos grupos sociais, dentro de urna
trama de relac;oes sociais e contextos de oportunidades políticas.
Apesar de Snow e Benford ( 1992) e Gamson ( 1995) terem
retrabalhado vários postulados do interacionismo - procurando
adequá-los a análise estrutural-política da MP -, a forc;a dos
argumentos psicossociais é bastante forte na nova teoría. Inicialmente pensamos até em chamá-la MPC - Mobilizac;ao Político
-Cultural. Mas depois observamos que a concepc;ao de cultura
oscila entre dois extremos: ou é restrita - muito próxima de urna
das versoes da abordagem antropológica de cultura, que a trata
como tradic;ao, valor, repositório do passado; ou é muito abrangente
e indeterminada - vista como processo de representac;oes. A
dimensao da práxis, da cultura como forc;a social transformadora,
constituinte de novas identidades sociais, nao é trabalhada, porque poucos autores da MP vinculam os próprios movimentos aos
processos de mudanc;a e transformac;ao social, preferindo abordá
-los dentro de marcos teóricos dados pela ac;ao dos grupos de inl,1;1 n 1 lll1'0
lhllHltlIL11111111,.lp1'I1
Teorías sobre MS na era da globalizar;iio: a MP 75
l t1resses num campo de disputa pelo poder (Kriesi, 1996). Quando
o processo de mudarn;a social é destacado, ele se refere a mudarn;as
nstitucionais. O que existe é urna grande preocu.pac;ao em saber
1•omo as mudanc;as estruturais se transformam em ac;oes cole1 ivas (Tarrow e Klandermans, 1988). Uns poucos autores enfatizam
llH mudanc;as culturais ao se referirem ao processo de constru
·1\0 da identidade. Mas estes estao mais próximos da teoría NMS
do que da MP (Taylor e Whirttier, 1995). Sendo assim, alteramos
nossa nomeac;ao inicial, reduzindo-a para MP - Mobilizac;ao
l 1olítica.
Mas nao só a psicología social foi acionacla pela MP, por
111 io do resgate de outras teorías do paradigma clássico aciona1 IHla. Progressivamente teorías de outros paradigmas foram
1 1corporadas, num esforc;o de articular explicac;oes gerais, de nivel
rnacro - com enfase em processos políticos e nao no campo de
1 1 Leresses económicos da MR - e explicac;oes do universo micro,
11Hpecíficas - com enfase na cultura e na política dos grupos e
111ovimentos. A política é vista associada a cultura dos grupos
1 t l'ganizados que criam espac;os próprios, por rneio de práticas
1•1 1 lturais, incorporando suas ideologías e suas crenc;as (Fantalu e Hirsch, 1995). Alguns autores ampliaram o leque de contrih11 ic;oes de outros paradigmas, introduzindo por exemplo persf H'Ctiva histórica, recuperada principalmente na linha de traballio dos historiadores ingleses: E. Hobsbawm, G. Rudé e E. P.
'l'hompson. A história nova reaparece especialmente nos traba1110 de Charles Tilly. Morris ( 1984) retomou a questao do pro1·11¡,¡so de formac;ao da consciencia política utilizando-se de algu1 1rns observac;oes de Gramsci. Ele analisou que:stoes de genero e
d1• rac;a na América, buscando compreender a consciencia de
11posic;ao. Procurou inserir as ac;oes coletivas em suas determina1;0 •s estruturais para obter um quadro de como aquelas intera1•11m, gerando estímulos ou inibindo a ac;ao coletiva. Sua enfase
1111 problemática da consciencia política é aplicada para entendl'r os movimentos de conflito e os de consenso, tipología assu11i ida pela maioria dos teóricos da MP.
Estudos recentes da MP tendem a enfatizar o papel da mídia,
1·11 1·· eterizando-a como filtro ou espelho dos movimentos sociais. A
1 1¡:or, esta questao nao é nova. Turner, em 1969,, já trabalhara em
76 O paradigma norte-americano
um artigo denominado "The Public Perception of Protest". Blumer
também a destacara ao falar dos movimentos da moda. A novidade está nos tipos de meios de comunicac;ao enfatizados nos anos
90, incluindo aí o uso da informática nas redes da Internet e a
utilizac;ao das teorias sobre as comunicac;oes, principalmente as de
Habermas.
Observe-se que chamamos a nova teoria de Mobilizac;ao
Política e afirmamos que busca referencias em diferentes paradigmas analíticos das ac;oes e movimentos sociais, vindo a se
constituir numa teoria diferenciada dentro do paradigma norte
-americano. Alguns autores passaram a denominá-la "teoria do
processo político", como Goodwin ( 1996). Originalmente, esta
denominac;ao é atribuída a McAdam ( 1982), em seu livro sobre
o movimento negro nos Estados Unidos, onde destacou a importancia da Igreja Batista e do contexto político dos anos 50 e 60
para aquele movimento. Preferimos utilizar para tal abordagem
a primeira denominac;ao, "mobilizac;ao política", porque ela faz
urna análise restrita em termos políticos, nao captando de fato
a política como um todo, como um processo que envolve a sociedade política e a sociedade civil, fixando-se mais nas oportunidades políticas da sociedade política e nao vendo dinamismo na
sociedade civil. Retomaremos estes pontos ao final deste capítulo.
Por ora é importante destacar que a nova abordagem continua
atribuindo grande importancia as mobilizac;oes e preocupada
em entender seus motivos. O que há de comum entre estas mobilizac;oes e a MR e por que se trata de urna nova teoria? O que
mudou no paradigma até entao existente para lhe atribuirmos
algumas características novas?
Destaque-se, em primeiro lugar, que a nova teoria foi gerada a partir do debate e de análises comparativas entre os paradigmas predominantes na análise das ac;oes coletivas nas últimas
tres décadas, o da MR e o dos Novos Movimentos Sociais (ao
qual chamaremos NMS e analisaremos no capítulo IV). O paradigma da NMS sempre esteve fincado no primado da cultura
sobre outros campos e dimensoes da realidade social. A cultura,
conforme assinalamos anteriormente, já ti vera um lugar de destaque na abordagem clássica do paradigma norte-americano,
para explicar as privac;oes etc. Ela retornou como instrumento
Teorias sobre MS na era da globalizar;iio: a MP 77
• pi 1cuLivo, sendo urna categoria relevante na análise da MP.
lol 111 1(,1dades e ideologias passaram a ser vistas como recursos
, 1ill 11 rais. As precondic;oes culturais para as mobilizac;oes e para
" p 1•opria militancia também sao extremamente relevantes.
1°;m segundo lugar, a nova teoría foi buscar elementos junto
1 11111.ro paradigma que, no passado, só era lembrado em momen111 111uito específicos, quando se precisava reafirmar as próprias
1 111 11;oes ou para negá-lo: o paradigma marxista. É interessante
1 li 1 l1 1car que este processo ocorreu justamente no momento de crise
l 1 il . ti ' mundial do paradigma marxista, incluindo até a negac;ao
, ¡ 1 v11lidade de sua teoria a partir da queda dos regimes políticos
q11n o abrac;aram em seus processos revolucionários. Portanto, a
11i11u•nsao política, tanto no que se refere a conjuntura como a esf 1 11 l 11 ra, foi o grande elemento resgatado da abordagem marxista
1
1 1 1·1 1 a compreensao dos contextos em que atuam os atores, como
1· 111obilizam, e das estruturas de oportunidades políticas produ1d11H ou apropriadas pelos atores daquelas ac;oes. Mobilizac;ao e
1 1 ruLura das oportunidades políticas passarao a ser as duas cate1 1 11·i11s-chave e centrais. Destaque-se, entretanto, que os elemenl 1 11 pinc;ados do paradigma marxista foram codificados e utiliza
, ¡, 1 de outra forma. As condic;oes estruturais - vistas como oporl 111 l idades políticas - sao analisadas pela MP de forma despol 1 l 1�ada, do ponto de vista dos interesses políticos, projetos e for
' 111-1 sociais envolvidos. Todos os atores sao competidores num
llll'Hrno cenário, sem que haja contradic;ao de interesses, porque
11 11 nálise nao aborda a problemática das classes sociais.
Em terceiro lugar, a teoria da MP, ao resgatar algumas
1
11 t1rnissas do paradigma tradicional da ac;ao coletiva (como as
1 1 11vindicac;6es e privac;oes culturais) e alguns postulados de anál 11o1 s marxistas (de que reivindicac;oes sao frutos de condic;oes
e 11t.ruturais que criam as privac;oes), articulou estes resgates com
11 q uestao central da abordagem dos Novos Movimentos Sociais
1 1 1 da identidade coletiva) e construiu novas explicac;oes sobre
1 orno os adeptos de um movimento social pensam sobre si próp 1·ios, como compartilham suas experiencias e as reinterpretam
' tri contextos de interac;ao grupal.
Em quarto lugar, a nova teoría nao abandonou várias das
111· •missas da MR, entre elas a prioridade a análise estrutural.
78 O paradigma norte-americano
As oportunidades políticas, os símbolos e códigos construídos no
processo de mobilizac;ao etc. sao vistos como recursos, instrumentos, meios para certos fins, num ambiente onde se tem oportunidades e constrangimentos. Este ambiente tem fon;a de configurac;ao nos processos de litígios e contenc;oes. Ou seja, a questao da
lógica na racionalidade dos atores na ac;ao social nao foi abandonada, mas inserida num campo de disputas com variáveis mais
amplas do que as da pura racionalidade económica enfatizada
anteriormente pela MR. A objetividade daquelas ac;oes contém
a subjetividade dos indivíduos. A objetividade da MR, e também
do paradigma marxista, no que diz respeito a análise política
(nao a económica-determinista), buscará articulac;oes com a subjetividade do paradigma dos NMS. A enfase na análise institucional
e no papel das organizac;oes e instituic;oes junto aos movimentos
sociais também continuou, menos como organizac;oes de movimentos e mais como redes de articulac;oes que suportam e criam
as estruturas de oportunidades. Em síntese, o conjunto dos argumentos acima apresentados resultou em novos marcos referenciais
teóricos.
Finalmente, assinale-se que a nova teoria estabeleceu lac;os
entre as políticas institucionalizadas e os movimentos sociais
propriamente ditos. Os movimentos sociais tomam forma por
conjuntos de oportunidades e constrangimentos políticos externos existentes no contexto político em que estao inseridos. Algumas premissas da MR foram mantidas, como a que tratava
os movimentos sociais como processos de mobilizac;ao, que por
sua vez representavam a organizac;ao formal deste processo.
Outras premissas utilizadas já estavam presentes na análise
funcionalista clássica norte-americana, como o conceito de oportunidade estrutural de Merton ( 1968), retrabalhado sob um aspect¿ político. Mas, concordando com Goodwin ( 1996), os teóricos da MP nunca mencionaram o funcionalismo em seus trabalhos. De fato, existe grande diferenc;a entre o conservadorismo
da tradic;ao funcionalista e a MP. N ossa hipótese é que a questao da integrac;ao social constitui o ponto de aproximac;ao dos
dois approachs. Enquanto a integrac;ao dos indivíduos a sociedade moderna industrial de consumo era vista como algo natural, decorrente do progresso; na MP a integrac;ao ocorre num
Teorías sobre MS na era da globalizar;iio: a MP 79
1· mpo de lutas e disputas. Nao há mais uma ordem social de
oquilíbrio ou desequilíbrio, mas um contexto político favorável
ou desfavorável as mobilizac;oes.
2 - O debate da MR corn o paradig¡na europeu
dos Novos Movirnentos Sociais
na constru�ao da MP
O debate acima se fez a partir de críticas publicadas em
Social Research por Jean Cohen ( 1985), algumas das quais já
foram citadas no capítulo II; e dos trabalhos de Gamson, Snow,
'l'aylor, McAdam, Klandermans, Tarrow etc. Os dois últimos
1· alizaram acurada análise comparativa entre a MR e os NMS,
buscando a superac;ao desses últimos. A quase totalidade dos
autores criou urna nova categoria para explicitar ou aprofundar
() desenvolvimento de um aspecto das ac;oes coletivas, a luz das
críticas que aquele fenómeno ou problema recebera. O debate
ocorreu por meio de artigos e papers discutidos em congressos,
destacando-se urna conferencia realizada em 1988 na UniverHidade de Michigan, da qual resultou o livro Frontiers in Social
Movement Theory, 1992, organizado por A. Morris e C. M. Mueller;
c lestacaram-se também alguns encontros ocorridos em lthaca
( EUA) e Amsterda, em 1987, que resultaram em dois volumes
le International Social Movement Research, publicados na série
"Social Movements, Conflicts and Change'', editada desde 1979
pela JAI Press simultaneamente nos Estados Unidos e na
1 nglaterra.
Cohen contribuiu para o debate porque, além das críticas a
MR, mostrou as diferenc;as e as semelhanc;as entre esta abordag-em e o paradigma europeu dos Novos Movimentos Sociais,
nbrindo caminho para a MR buscar naquela abordagem formas
para superar o economicismo e a visao racional estratégica predominante em seus primeiros estudos. Cohen assinalou que "a
clespeito das diferenc;as cruciais ... ambos os paradigmas envolvem a contestac;ao entre grupos organizados com associac;oes
nutonomas e sofisticadas formas de redes de comunicac;ao, Ambos
nrgumentam que a ac;ao coletiva conflitual é normal e que os
participantes sao usualmente racionais, memhros bem integra-
80 O paradigma norte-americano
dos de organizac;oes. Em resumo, ac;ao coletiva envolve formas
de associac;ao específicas para o contexto de urna sociedade civil
moderna e pluralística. Além disso, as duas abordagens distinguem dois níveis de ac;ao coletiva: a dimensao manifesta em
urna mobilizac;ao em larga escala (greves, competic;oes, demonstrac;oes) e o nível menos visível, latente, de forma de organizac;ao e de comunicac;ao entre grupos relevantes para a vida cotidiana e para a continuidade da participac;ao do ator" (Cohen,
1985: 673).