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11/23/25

 


Rudolf Heberle elaborou em 195 1 um dos primeiros livros

com título específico sobre os movimentos: Movimentos sociais:

uma introdw;ao a sociologia política. Sua meta era ambiciosa:

desenvolver urna teoria comparativa e sistemática dos movimentos sociais dentro do sistema da sociologia compreensiva. Sua

filiac;ao as teorias alemas levou-o a busca de fundamentos em

Tonnies ( 1955), Stein ( 1964) e Sombart (1909). Segundo

Wilkinson (1971), Heberle rejeita a identificac;ao exclusiva que

Stein faz do conceito de movimento social, restringindo-o ao

universo da classe operária, aos movimentos proletários da sociedade industrial. Para ele o conceito tem apHcabilidade mais ampla. De Tonnies, Heberle assimila os conceitos de coletivo social e

da bipolaridade comunidade-sociedade.

Para Heberle os movimentos sociais sao um tipo especial de

grupo social com urna estrutura particular. Eles conteriam grupos

organizados e nao-organizados. O autor se preocupa em distinguir

38 O paradigma norte-americano

os movimentos dos gro.pos corporativos de interesses, assim como

procura distinguir também movimentos genuínos, com caráter de

profundo significado histórico, de movimentos menores, efemeros,

e simples protestos. Haveria alguns critérios para a ac;ao de um

gru.po ser um movimento social: consciencia gro.pal, sentimento de

pertenc;a ao gru.po, solidariedade e identidade. Além disso, os movimentos estariam sempre integrados por modelos específicos de

compromissos coletivos, idéias constitutivas ou ideologías. Já nos

anos 50 ele apontava para urna tendencia dominante dos movimentos sociais que diz respeito a sua internacionalizac;ao. Ele

afirmava que um movimento nao necessariamente confina-se

num território nacional, podendo ter dimensoes multinacionais,

internacionais e supranacionais.

Heberle afirmava que os movimentos teriam duas func;oes­

-chave na sociedade: formac;ao da vontade comum ou da vontade política de um grupo, auxílio no processo de socializac;ao,

treinamento e recrutamento das elites políticas.

Os movimentos seriam sintomas de descontentamento dos

indivíduos com a ordem social vigente e seus objetivos principais seriam a mudanc;a dessa ordem. Em determinadas condic;oes, eles poderiam se tornar um perigo para a própria existencia dessa ordem social. O autor nao inova portanto ao tratar

das causas que dao origem aos movimentos sociais, porque elas

também situam-se na capacidade de satisfac;ao/insatisfac;ao dos

indivíduos diante das normas e valores vigentes. Assim, "o acordo

sobre valores e normas é a essencia da solidariedade social ou

do senso de comunidade. O senso de comunidade é o fundamento

de urna ordem social. Mesmo certas entidades sociais que existem por mero utilitarismo - como a maioria da.s relac;oes contratuais e associac;oes - nao podem ser mantidas a menos que

haja um mínimo de senso do comunitário entre seus membros"

(Heberle, 195 1, e Lyman, 1995: 57).

A questao do senso de comunidade é aplicada por Heberle

para analisar o comportamento de líderes e lideranc;as nacionais,

assim como movimentos de natureza sociopolítica. É aqui que

Heberle tem certa originalidade, ao tratar da dimensao política

dos movimentos. Ele amplia o leque das ac;oes coletivas a serem

As teorías clássicas sobre as ai;oes coletiuas 39

1 11n1iideradas movimentos sociais, incluindo as lutas dos campo1 1 1 1H s, dos negros, dos socialistas e dos nazi-fascistas. Além disso,

diH ingue movimentos sociais e políticos, segundo seus objetivos.

Ao assinalar os perigos para a sociedade, Heberle relacio1 1 11 rnovimento social a regimes políticos autoritários e totalitá­

' oH, que destruiriam o senso comunitário existente por meio de

w'd¡r"ncias baseadas no fanatismo de grupos entusiastas, gerando

d1 1Hi ntegrac;ao social. Observamos portanto o eixo funcional-sis­

! 1 in ico que norteia a análise do autor, baseado no binomio inte1 1·nc,:ao/desintegrac;ao social.

Heberle continuou produzindo estudos sobre os movimentos

1wi is até os anos 70. Com J. Gusfield, escreve para a Enciclop11dia Internacional de Ciencias Sociais, publicada em Londres

• 111 1972, o verbete "Movimento social".

1 - Quarta teoria sobre os movimentos soc1a1s no

paradigina clássico: o comportamento coletivo sob

a ótica do funcionalismo -Parson.s, Turner, Killian

e Smelser

4. 1 - Pressupostos teóricos básicós: a influencia de

Parsons

Como sabemos, em 1951 Parsons concluii sua teoría do siste1 1 111 social, combinando conceitos como valores centrais, normas,

p11 p is, estrutura, func;ao-equilíbrio e diferenciac;ao estrutural.

l 1

11 ra Parsons existem quatro dimensoes básicas dos sistemas

de a<;:ao: adaptac;ao, consecuc;ao de metas, latencia ou manutenc;ao

dn padrao e integrac;ao, cada urna desempenhando urna func;ao

11 Lrutural na sociedade. Curiosamente, o desenvolvimento do

lHl ma de ac;ao social parsoniano nao leva ao desenvolvimento

1 lo o Lor ou agente de ac;ao, mas ao do sistema social, por meio do

de H nvolvimento das ac;oes individuais, ou seja, pelos papéis de

l<tlus que aqueles indivíduos passam a desempenhar. Talvez

l11 11ha sido este o principal fator que levou Smelser a buscar em

1 '; 1 1·sons respaldo teórico para entender o comportamento coletivo

r loH grupos sociais expresso em movimentos.

40 O paradigma norte-americano

A teoria da ac;ao social de Parsons desemboca, segundo l.

Bottomore e Nisbet (1980), na concepc;ao do homem utilitarista

de Hobbes, com urna orientac;ao normativa instrumental, visando racionalmente metas, usando meios económicos e culturais

eficientes para atender a suas necessidades, assegurar sua sobrevivencia e maximizar seu equilíbrio. Em suma, o homem utilitarista disfarc;ado de social.

A aplicac;ao da teoria parsoniana aos movimentos sociais

deu origem a abordagem funcionalista, em que sao vistos como

comportamentos coletivos originados em períodos de inquietac;ao social, de incerteza, de impulsos reprimidos, de ac;oes frustradas, de mal-estar, de desconforto. Os hábitos e costumes que

durante longo tempo serviram para resolver os problemas da

vida do povo estariam se afrouxando. Isso significaria que as

formas anteriores de controle social estariam se desintegrando

(Pierson, 1965: 223). As categorias básicas utilizadas sao de origem durkheimiana (anomia/disnomia) e baseadas na teoria funcionalista de Merton (organizac;ao/desorganizac;ao). Urna crise

social é vista em termos de inquietac;ao social, e como indicadora

de mudanc;a social. O ponto referencial básico sao os comportamentos e condutas dos indivíduos, portadores de tensoes que,

quando comunicadas a outras pessoas, podem formar "reac;oes

circulares". Acredita-se na existencia de urna ordem social estática, que necessita ser controlada. O nao-controle ou sua desintegrac;ao é que possibilita a emergencia dos movimentos sociais.

Portanto, a existencia de um movimento social é um objeto estranho, exterior, aos sujeitos históricos. O próprio termo movimento social era utilizado entre aspas, e isto atesta a resistencia de se conceder algum tipo de dinamica aos comportamentos,

tidos como fixos e estáticos.

Por outro lado esses movimentos sociais teriam urna história natural, já que estariam respondendo a impulsos e manifestac;oes interiores, inerentes a natureza humana. o indivíduo

(que era visto isolado) contrapunha-se a sociedade a medida que

esta o oprimía, o bloqueava e o frustrava. Assim que as tensoes

adquiriam um caráter de insuportabilidade, os indivíduos se

aglutinavam ero torno de um objetivo comum e criavam novas

instituic;oes. A isto davam o nome de mudanc;a social.

As teorías clássicas sobre as ai;oes coletivas 41

Os primeiros cientistas sociais, sob a ótica positivista, viam

os movimentos sociais como esfon;os para promover mudanc;as.

Os cientistas sociais neopositivistas viram os movimentos sociais

como "esforgos da coletividade para promover ou resistir as mudangas" (Lee, 1969; Wilson, 197 4). Para estes últimos, os movirnentos sociais se diferenciam das instituigoes, das associagoes,

dos grupos de pressao, por se aterem a "promogao ou resistencia

a mudanga de valores e normas sociais" (Horton e Hunt, 1980).

As condigoes que propiciariam a emergencia dos movimentos

sociais seriam de tres ordens: cultural (mudanc;a de valores), social

(desorganizagao e descontentamento) e política (injustiga social).

A categoria básica de análise continua sendo o comportamento e a agao dos indivíduos; a mudanga social dá-se por meio

da mudanga do comportamento dos indivíduos em instituigoes.

Os movimentos operariam num cenário de irracionalidade, ou

nao-racionalidade, em oposigao a ordem racional vigente.

Este elemento leva-os a situar os movimentos sociais nos

indivíduos, e a retomada da explicagao em termos de questoes

antigas como as do "isolamento social", falta de lagos de família,

"descontentamento", "desajustamento" etc., ou seja, aquelas da

dicotomia comunidade versus sociedade, de Tonnies, vem a tona,

acrescidas das análises de cunho antropológico sobre os usos e

costumes dos povos. Sem nos estender sobre as premissas básicas da "nova" abordagem dos movimentos sociais, podemos

sintetizá-la nos seguintes pontos, a partir do próprio discurso

elaborado por ela:

1 - Os movimentos sociais ocorrem porque há pessoas desajustadas na ordem vigente.

2 - Esta ordem está submetida a um processo de mudanga

muito lento, ao longo do qual algumas pessoas ficam

insatisfeitas.

3 - Em sociedades estáveis, bem integradas, com muito

poucas tensoes sociais ou grupos alienados, há poucos

movimentos sociais.

4 - Os movimentos sociais sao, portanto, característicos de

sociedades em processo de mudanga, portanto desorganizadas.

42 O paradigma norte-americano

5 - As precondic;6es estruturais para o aparecimento de urna

ac;ao coletiva que geraria um movimento social sao: a)

bloqueio estrutural (barreiras na estrutura social que

impedem as pessoas de eliminar suas fontes de descontentamento); contato (interac;ao com os descontentes);

eficácia (expectativa de que a ac;ao proposta aliviará o

descontentamento); e ideología (massa de crenc;as que

justificam e apóiam a ac;ao proposta).

6 - Há urna estreita relac;ao entre movimento social e marginalidade. "A maioria dos movimentos extrai muitos

de seus primeiros membros e líderes dentre as pessoas

ou grupos marginais da sociedade" (Stockadale, 1970).

Observamos nas colocac;6es anteriores que:

1 - a "matriz" teórica da análise é a teoria da estratificac;ao

social da corrente funcionalista parsoniana, cujos elementos básicos sao: indivíduo-sociedade opondo-se a comunidade, e indivíduo feliz, integrado versus indivíduo desajustado, marginal. Os fatores constitutivos, geradores de

"ac;6es coletivas", sao: isolamento, percepc;ao de injustic;a,

mudanc;a de status social, falta de lac;os primários.

2 - os movimentos sociais sao vistos como mecanismos desintegradores da sociedade, ac;6es externas a sua dinamica, controláveis desde que enfrentem suas causas. A

lógica que permeia a abordagem é de causa-efeito, feíta de forma linear.

3 - para que os movimentos sociais pudessem ser controlados (é esta urna grande preocupac;ao dos analistas)

seria preciso esperar seu ciclo de evoluc;ao (inquietac;ao,

excitac;ao, formalizac;ao e institucionalizac;ao).

Observamos que estas análises homogeneízam diferentes

movimentos sociais em decorrencia do ponto de partida adotado,

ac;6es coletivas. Mas, ao mesmo tempo, sao vistos como urna forc;a

social de mudanc;a e como auxiliares da sociedade democrática:

"Conquanto nem sempre racionais e algumas vezes aborrecidos,

os movimentos sociais ajudam a sociedade democrática a fazer

frente as defasagens culturais e a permanecer razoavelmente

integrada" (Horton e Hunt, 1980: 420).

As teorias clássicas sobre as ai;oes coletivas 43

4.2 - O retorno da psicologia social para analisar os

comportamentos coletivos: Turner e Killian

Turner e Killian (1957), e logo a seguir Smelser (1962), consi­

<L ravam que o approach sociopolítico ignorava as formas elementares de comportamento político. Por isso colocaram abaixo

os vínculos entre política e estrutura. Baseados na teoría de

t >arsons, resgataram vários componentes de natureza psicológica

da Escola de Chicago ou da psicologia sociial de alguns intera­

·i onistas simbólicos, principalmente Blumeir. Buscando formular

u rna teoria geral sobre os comportamentos coletivos, alegaram

que os movimentos sociais seriam urna das formas de expressao

das ac;oes coletivas.

Em 1957, Turner e Killian publicaram Collective Behavior,

urna coletane1 com quase 600 páginas, sendo 208 dedicadas ao

•studo dos m• 1·;imentos sociais, que contou com a colaborac;ao de

•xpressivos estudiosos do assunto dos anos 40 e 50 e o reaproveilamento de vários textos da Escola de Chicago. O livro tornou-se

um clássico da sociologia, ganhando várias edic;oes e sendo citado

pela maioria dos pesquisadores da área. Ele aborda as caracterísLicas e os processos de um movimento social, os valores que o

rientam, a emergencia e a constrm;ao de novas normas de rela­

<;oes sociais e de novos significados da vida social. Estes novos

significados emergem do processo de interac;ao entre as pessoas,

deles resultando novas concepc;oes de justic;a/injustic;a, moralidade,

realidade etc.

Outras questoes tratadas por essa corrente sao: o controle

e o poder nas orientac;oes dos movimentos; os movimentos separatistas e a participac;ao orientada; os líderes e seguidores; e os

produtos dos movimentos.

Turner e Killian definem um movimento como a ac;ao de

urna coletividade com alguma continuidade para promover a

mudanc;a ou resistir a ela na sociedade ou no grupo do qual faz

parte (Turner e Killian, 1957: 308). A questao da continuidade

é um elemento-chave para distingui-lo de outros tipos de ac;ao

coletiva. É ela que garante a formulac;ao de objetivos, as estratégias, a divisa.o de func;oes - inclusive o papel dos líderes e a

formac;ao de um sentido de identidade grupal. Tudo isso se confi-


44 O paradigma norte-americano

gura a partir de regras baseadas em trac!i<;oes, formando o esprit

de corps do movimento.

Turner e Killian afirmam que há tres tipos de grupo que podem ser chamados de quase-movimento, porque possuem algumas -

características dos movimentos. Sao eles: movimentos de massa

como a imigrac;ao, em que certa dose de contato social influencia

o fenómeno; grupos formados por seguidores/admiradores de alguma figura pública que promoveu, por exemplo, um programa de

mudanc;a social; e os cultos, basicamente religiosos, em que há

demandas somente sobre o comportamento de seus membros.

Trataram eles também do tempo de durac;ao dos movimentos,

observando que "um movimento social nao pode continuar como

tal indefinidamente. Distinto das organizac;oes institucionalizadas,

marcadas pela estabilidade, o movimento social é por definic;ao

dinfunico. Quando perde essa característica, cessa de ser um movimento social, desaparece ou torna-se urna forma social diferente"

(Turner e Killian, 1957: 480). A determinac;ao desse processo depende dos efeitos que o movimento social tem sobre o meio ambiente

e vice-versa. Um movimento se institucionaliza quando alcanc;a

um alto grau de estabilidade interna, ganha posic;ao reconhecida

dentro de urna sociedade mais ampla, passa a ter algumas func;oes

nela e estabelece algumas áreas de competencia. A institucionalizac;ao impoe estabilidade adicional ao movimento e um de seus

aspectos-chave é determinar procedimentos de conduta para o grupo. Os autores concluem que todos os movimentos podem vir a ter

um caráter institucionalizado.

A problemática do ciclo de vida de um movimento foi tratada por eles do ponto de vista interno, em seus diferentes estágios, desde a origem até seu sucesso ou outra forma de desfecho.

Eles chamam a atenc;ao para o valor deste approach por enfatizar o processo - e este elemento será retomado nos anos 90

pelo próprio paradigma norte-americano, que o considerará básico

para distinguir um movimento de outras ac;oes coletivas. Há um

processo social em andamento.

A abordagem de Turner e Killian foi denominada por Gamson

( 1992) como a das "normas emergentes", em que o processo pelo

qual ocorre a mobilizac;ao coletiva torna-se o problema central a

As teorias clássicas sobre as a�oes coletivas 45

ser investigado. Eles repudiam as afirmac;oes que dizem ser as

ac;6es dos movimentos mais emocionais ou i:Jrracionais que outras

formas institucionalizadas. Emoc;ao e razao nao sao necessariamente irreconciliáveis, e dividir as ac;6es ern racionais e irracionais significa negar a complexidade do comportamento humano

(cf. Gamson, 1992: 54).

A abordagem de Turner e Killian foi criticada por Wilson

(1973), entre outros pontos, porque rejeitava a clássica distinc;ao

entre movimentos reformistas e movimentos revolucionários. Esta

distinc;ao foi retomada por Aberle ( 1966), outro estudioso do assunto, que a desdobrou em tres formas (rnovimentos transformativos, reformativos e redentores), e utilizada posteriormente

por Hobsbawm (1970). Em 1989, Guiddens iincluiu a classificac;ao

de Aberle em seus estudos sobre os movirnentos sociais.

Cumpre destacar ainda que a teoría de Turner e Killian foi

recuperada nos anos 90 por Gusfield (1996), como urna via frutífera para o entendimento dos novos movimentos sociais.

4.3 - Smelser e a teoria estruturc.il-funcionalista

sobre os movimentos sociais

O trabal�er é o segundo destaque em nossa exposic;ao das teorias comportamentalistas sob a ótica da psicología

social. Em 1963 ele publicava hra QQ_rtlll1).I1amen.tn coletivo.

Posteriormente, sua abordagem foi considerada por Bobbio, Pasquino e Matteucci, nocYerbete "movimento social" do conhecido

Dicionário de política (1985) por eles organizado, como urna das

correntes significativas no estudo dos movimentos sociais.

A teoría de Smelser sobre os comportamentos coletivos nao­

-convencionais tenta demonstrar como eles diferem dos comportamentos rotineiros. Eles teriam componentes irracionais e excepcionais e seriam respostas cognitivas inadequadas para as tens6es estruturais que emergiam da modernizac;ao. Para Smelser,

a terminología "comportamento coletivo" incluí fenómenos .e.orno

respostas ao panico, ciclos da moda, desfiles e carreatas, boom

financeiro, ressurgimento de religioes, explos6es hostis e movimentos de valores orientados - incluindo revoluc;6es políticas

e religiosas, formac;ao de seitas, movimentos nacionalistas etc.

46 O paradigma norte-americano

1 (Smelser, 1963: 2). Rejeitando os conceitos de "comportamento dl1

1 massas", de Orte u Gasset (1987) e Brow (1954), de "dinamicu

, coletiva", de Lang e Lang (1961), e o critério físico/temporal e aH

� c aracterísticas particulares da comunicac;ao ou interac;ao de

l Blumer - de quem extrai muitos elementos para sua análise -,

8 Smelser elege o termo "comportamento coletivo" e as categoriaH

'' "explos6es coletivas" e "movimentos coletivos" para expressar o tipo

0 de fenómeno social analisado como comportamento coletivo. As ex-

-

¡:¡ plosoes coletivas referem-se a panicos, loucuras, hostilidades e outraH

�situac;oes abruptas. Os movimentos coletivos referem-se aos esfor­

<;¡

c;os coletivos para modificar normas e valores, os quais freqüentcrjffiente (mas nao sempre) se desenvolvem por longos períodos. Pod -

nJIIlOS observar que, para Smelser, o universo dos comportamentoH

c�oletivos se refere a comportamentos nao-institucionalizados.

Smelser também tentou formular urna explicac;ao global

pipara os movimentos sociais, buscando nos comportamentos cole-etivos os(parametros para detectar processos de mudanc;a social

:nfllais geril.. As tensoes sociais seriam um dos indicadores básiC1J�os. Durante episódios de comportamento coletivo, tem-se a oport'1:unidade de observar certos elementos sociais como os mitos, as

¡cjdeologias e o potencial de violencia da sociedade, pois todos

e}eles ·vem a tona. Tais episódios seriam urna espécie de laboratórijio de estudo de comportamentos usualmente dormentes (ou

q(Ue, ao se manifestar, revelam processos latentes na sociedade,

p;;·ara usar a terminología de Merton, também pertencente a esccPla funcional-sistemica norte-amencana):-E ntretanto, a preocupc;;ac;ao fundamental de Sµielser foi diagñosticar eomQ se instituciSonalizam as ac;oes sociais nao-estruturadas que se encontram

sa;:>b tensoes. Ou seja, � busca da integrac;ao social� do controle

soc>cial, é urna meta desta corrente.

Seriam quatro os componentes básicos das ac;oes sociais na

te.eoria de Smelser: l. as metas gerais e os valores - que fornece �m o mais amplo guia ao comportamento social orientado; 2.

as ll regras - que regem a consecuc;ao dos propósitos e esta.o base.'-adas em normas; 3. a mobilizac;ao da energía individual -

pa1tra atingir os fins estabelecidos dentro da estrutura normativa;

4. as facilidades de que dispoem os agentes para o conhecimento

do , ambiente. A dinamica do social se dá pelo encontro desses

As teorias clássicas sobre as a�oes coletivas 47

'

¡11 d rn componentes. Os comportamentos coletivos podem se ex1 "' 111· com valores previamente orientados ou nao. Os movimen1 • mm valores orientados sao a«;oes coletivas mobilizadas em

111111111 le cren«;as geralmente imaginadas para a reconstitui«;ao

11 v11 lores perdidos; os movimentos nao-orientados mobilizam-se

111 r iorne da reconstitui�ao de normas (Smelser, 1963: 9).

1 ' •gundo urna abordagem eminentemente funcionalista,

1 1 111IH 'r ve no funcionamento do sistema social a resposta para

11 111·gi mento de novas cren«;as e indaga como elas interferem

1111 romportamentos coletivos.

I' ra concluir este tópico, registre-se apenas que os estudos

d1 Hrnel ser nao tem sido citados no resgate de teorias do pas1trlo que iremos encontrar nos anos 90. Embora o campo da

I ' lc-ologia social ganhe centralidade neste último período, serao

l l l11n1cr e Tumer/Killian os autores mais citados. A rejei«;ao ao

• 1 1 1111 •rvadorismo da abordagem funcionalista parece explicar o

1 qu cimento contemporaneo de Smelser", embora se trabalhe

• 1 1 111 ulgumas de suas categorias, como a die estrutura de oporf 11 r ddades políticas, que já estava presente em Merton, um clás1·0 da análise istemica-fimcioeal. Retomaremos esta questao no

p roximo capítulo.

·

Quinta teoria sobre os movimentos sociais

no paradigma clássico: as teori.as

organizacionais-comportamentalistas

- Selzinick, Gusfield, Messinger

Selzinick (1952), Gusfield (1955) e Messinger (1955) foram

11 principais pesquisadores desta corrente teórica que buscou

1 1 11 produ«;ao de Weber sobre a burocracia e na de Mich�lls

! 1 !>59) sobre a lei de ferro das oligarquias os fundamentos para

1 1 11L nder os comportamentos coletivos agn1pados em organiza1·n s com objetivos específicos. Gusfield ( 1966), ao analisar o

111ovimento American Temperance, dividiu os movimentos em

f 1· s categorias: de classe, de status e expressivos. Movimentos

e le classe organizam-se instrumentalmente, ao redor de alguns

1 1 1L resses de seu público-alvo, de sua clientela. Movimentos de

48 O paradigma norte-americano

status sao aqueles voltados para si próprios, para alcanc;ar ou

manter o prestígio do grupo. Movimentos e�pressiv:os sao marcados por comportamentos menos objetivos ou pela procura dl•

metas relacionadas com descontentamentos (Gusfield, 1966: 23).

No início dos anos 70, Gusfield chamou a atengao para a importancia dos recursos comunais, a despeito da modernizac;ao, do

desenvolvimento económico, da racionalidade etc. Tilly ( 1978)

também caminhará nesta direc;ao.

Assim como a corrente da sociedade de massas, este approach

nao criou nenhuma teoría específica sobre os movimentos sociais,

mas abriu caminho para a gerac;ao da teoría que viría a ser um

novo marco no paradigma norte-americano, a da Mobilizac;ao de

Recursos. Zald, urna das pioneiras da nova corrente, publicou em

1966, em co-autoria com Roberta Ash, um estudo em que procuraram ampliar a abordagem dos institucionalistas, examinando

os movimentos sociais em termos de resultados e processos.

Segundo Zald ( 1992), o approach organizacional-institucional permanece viável na agenda do futuro, e podemos observar sua retomada nos trabalhos de Zald e McCarthy ( 1987) e de

Lofland ( 1985).

CAPÍTULO 11

l O RIAS CONTEMPOIRÁNE,AS

NORTE-AMERICANAS

DA Af;AO COLETIVA

DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

'11. oria da Mobiliza�ao de Recursos:

01 on, Zald e McCarthy

l rn nsformac;6es políticas ocorridas na sociedade norte1111 1 1•1111n nos anos 60 levaram ao surgimento de urna nova

111 1 • 111 P i n terpretativa sobre os movimentos sociais, a chamal 1 1 1 •1 11 111 da Mobilizac;ao de Recursos (MR). Ela comec;ou por

1 1 1 11 1· n ··nfase que o paradigma tradicional dava aos senti1 1 11111 1• ressentimentos dos grupos coletivos, assim como o

1/ 1•1 1 1111•/i e minentemente psicossocial dos clássicos, centrado

111 r1111d iGües de privac;ao material e cultural dos indivíduos.

p 1rnlogia foi rejeitada como foco explicativo básico das ac;6es

1 1 11 l 1 v1 1H, assim como todas as análises centradas no compor1 11111 111 o coletivo dos grupos sociais e a visao dos movimentos

1 11 1 11 11 romo momentos de quebra das normas daqueles gru1 > papel das crenc;as compartilhadas e o da identidade .

1 11il, LraLados pelo paradigma clássico, foram rejeitados por1

1'' 1 • 1·1 1 1n analisados sob o prisma do comportamento irracio111tl d11H massas (visto como sinónimo de alta dose de patologia

1 11 111 I ) .

49

50 O paradigma norte-americano

A fragilidade do paradigma tradicional para explicar os movimentos sociais da década de 60 (que emergiram desde os anos

50), os dos direitos civis, aqueles contra a guerra do Vietna, os

do feminismo etc., que também contavam com a participac;ao de

militantes advindos das camadas médias da populac;ao, levou a

formulac;ao da teoria da MR. As teorias das tens6es estruturais,

privac;oes, descontentamentos etc. eram, para os criadores da MR,

insuficientes para explicar os novas movimentos. A nova teoria

enquadrou as ac;oes coletivas em explicac;oes comportamentalistas

organizacionais, rejeitando portanto a enfase anterior dada pelo

paradigma clássico aos sentimentos, descontentamentos e quebras

de normas, todos de origem pessoal.

Margit Mayer ( 1991) elaborou urna hipótese bastante sugestiva sobre o sucesso do paradigma MR nos Estados Unidos. Ela

afirma que a teoría "surgiu numa certa conjuntura histórica e

representa a racionalizac;ao teórica de contradic;oes historicamente determinadas e sua práxis correspondente. Em outras palavras, a MR emergiu de um esforc;o para analisar os movimentos

sociais dos anos 60 e, como conseqüencia, reflete suas condic;oes

de emergencia, dinamica, desenvolvimento, estrutura de organizac;ao etc., em contraste com as abordagens clássicas que procuravam explicar os movimentos de massa dos anos 20 e 30, os

quais eram totalmente diferentes dos tipos de movimento dos

anos 60" (M. Mayer, 1991: 182).

Olson ( 1965) foi um autor que muito contribuiu para as

mudanc;as no paradigma tradicional. Seguiram-se a ele os trabalhos de Oberschall ( 1973), McCarthy e Zald ( 1973), Gusfield

( 1970). Outros autores, como Tilly ( 1978), com approachs específicos e de natureza mais histórica - conforme apresentaremos

adiante -, também contribuíram para o desenvolvimento da MR.

Durante duas décadas a MR predominou na maioria dos

estudos feitos sobre os movimentos sociais nos Estados Unidos.

Ela se alterou ao longo deste período, incorporando temas e

problemas que nao vinham senda contemplados, bem como críticas, mas manteve sua base explicativa principal: os movimentos sociais sao abordados como grupos de interesses. Enquanto

tais sao vistos como organizac;oes e analisados sob a ótica da

J

Teorias contemporiineas norte-americanas da a�i:io coletiva e dos MS 51

burocracia de urna instituic;ao. As ferramentas básicas utilizadas na abordagem advem de categorias económicas. Eckstein

( 1989) afirma que a MR é talvez a escola de pensamento naomarxista mais bem estruturada, explicando os movimentos

sociais nao em ambito individual mas organizacional.

A variável mais importante da MR, como o próprio nome

indica, é a dos recursos: humanos, financeiros e de infra-estrutura

variada. Os movimentos surgiriam quando os recursos se tornas- /

sem viáveis. Posteriormente esta asserc;ao foi alterada: os movimentos surgem quando se estruturam oportunidades políticas para

ac;oes coletivas, assim como quando facilidades ie líderes estao em

disponibilidade. Os movimentos também estruturam o seu cotidiano

segundo o estoque de recursos que possuem, sendo os principais

os económicos, humanos e de comunicac;ao.

Na MR os movimentos nao sao vistos de forma distinta dos

partidos, lobbies e grupos de interesses, como no paradigma

clássico. Ao contrário, eles jogam e disputam seu público consumidor, de adeptos ou financiadores, num mesmo campo. Eles

também competem entre si pelas mesmas fontes de recursos e

oportunidades. Em 1975 Gamson afirmou que "em lugar da

velha dualidade entre políticas extremistas e políticas pluralistas, há somente políticas". A rebeliao é somente outra política,

com outro significado. Ou seja, o protesto político passou a ser

visto como um recurso como qualquer outro, que pode ser trocado num mercado de bens políticos. Demandatários e seus adversários trocam bens num mercado de barganhas, num processo

em que todos os atores agem racionalmente, segundo cálculos

de custos e beneficios. A enfase toda é colocada numa visao exclusivamente economicista, baseada na lógica racional da interac;ao entre os indivíduos, que buscam atingir metas e objetivos,

e em estratégias que avaliam os custos e benefícios das ac;oes.

A base do modelo é a teoria do utilitarismo.

Olson ( 1965) comec;a e termina sua teoria pelos indivíduos.

O problema da ac;ao coletiva era agregativo: como envolver um

grupo em possíveis interesses por determinados bens coletivos.

Em seu livro sobre a lógica da ac;ao coletiva, Olson estuda nao

movimentos sociais mas grupos de interesses, observando que

52 O paradigma norte-americano

nos grupos compostos por muitos membros é mais fácil organizar os interesses coletivos do que nos pequenos, destacando o

papel dos líderes organizadores daqueles interesses.

McCarthy e Zald ( 1973 e 1977) foram os autores mais

importantes da primeira fase da MR no tocante a explicac;ao dos

movimentos sociais. Utilizando-se de conceitos correntes nas

análises das corporac;6es económicas, no mundo das organizac;oes empresariais, desenvolvidos particularmente por Olson,

avaliavam os membros de um movimento como um grupo de

interesses, que, como tais, eram consumidores de um mercado

de bens. O modelo de compra e venda e competic;ao por produtos

também foi aplicado. Os líderes de um movimento eram considerados gerentes ou administradores de um grupo de interesses. Enquanto tais, os diferentes grupos sociais competiriam

entre si para obter recursos para suas ac;6es, assim como a

adesao de suas clientelas e as atenc;oes das agencias governamentais. Eles competiriam também na luta pela manipulac;ao

de imagens pela mídia, assim como por sua atenc;ao. McCarthy

e Zald utilizaram metáforas avanc;adas do capitalismo burocratizado para descrever as relac;6es entre movimentos e grupos de

interesses, assim como suas relac;6es com outras parcelas da

sociedade. Eles trabalharam com categorías como "organizac;ao

de movimentos sociais". Isto porque os movimentos seriam estimulados nao apenas pelos interesses de seus membros, mas

também pelos de agentes governamentais, entidades particulares e muitas outras organizac;6es interessados na promoc;ao do

produto objeto de demanda do movimento ou que ganhariam

algo com ela.

Os movimentos que teriam sucesso seriam aqueles que possuíssem atributos de urna organizac;ao formal hierárquica. Seus

líderes eram seus organizadores: profissionais com dedicac;ao

integral ao trabalho e capacidade para mobilizac;ao efetiva de

suportes externos. Podemos observar que os pioneiros da MR

concebiam os movimentos sociais em termos de um setor de

mercado, livre, em competic;ao com outros grupos, num mercado �berto de grupos e idéias. Os movimentos competiriam com

outras organizac;6es, nao-movimentos, para obter adeptos, recursos, e no cálculo e execuc;ao de suas tarefas.

Teorias contemporfineas norte-americanas da a1;iio coletiva e dos MS 53

A mobiliza<;ao das bases do movimento é também analisada

segundo a ática económica. Existiria um modo de administra<;ao

empresarial dos recursos disponíveis e as bases demandatárias

seriam um deles. As estratégias de mobiliza<;ao de recursos financeiros junto as bases - demandatárias ou simpatizantes

das causas em a<;ao - seriam cuidadosamente planejadas. O

correio, a mala direta, os eventos, a utiliza<;ao de urna rede de

infra-estrutura de apoio - escolas, igrejas,. sindicatos, associa­

<;ües etc. - seriam instrumentos básicos para viabilizar a mobili- ,

za<;ao. Em síntese, os movimentos nao deveriam ser analisados/

apenas como se analisa urna organiza<;ao empresarial. Eles seriam, por si sós, indústrias económicas.

Zald e McCarthy subdividiram os movimentos em duas

grandes categorias: de consenso e de conflito. Os primeiros nao

produziriam as mesmas mobiliza<;ües que os segundos, mas

poderiam até obter mais sucesso, dado sua maior possibilidade

de aceita<;ao pela sociedade e, conseqüentemente, de mobiliza<;ao

e apoio para a obten<;ao de recursos financeiros. Esta classifica­

<;ao norteou o trabalho de vários pesquisadores nos Estados

Unidos ao longo dos anos 70 e 80, sendo ainda bastante utilizada nos anos 90. Em 1988, McCarthy, em colabora<;ao com

Woolfson, aprofundou aquela tipologia inserindo a questao da

mudam;a social. Os movimentos da esfera do conflito objetivariam mudam;as sociais - como os movimentos feminista, dos

trabalhadores, de pessoas pobres, pelos direitos civis etc. Os

movimentos na área do consenso - que nao contestam a ordem

e o status quo vigente - buscariam apenas alargar algumas

fronteiras dentro de seus objetivos. Mas estas considera<;oes

foram feitas nos anos 80 e já se referem a outra etapa do paradigma norte-americano.

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