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N Europa, ao falarmos sobre paradigmas, ternos de usar

11 plurnl porque há duas abordagens teóricas bem diferenciadas:

1 111111·xi:;La a dos Novos Movimentos Sociais. Cada urna delas

11 H11hdivid em urna série de correntes teóricas explicativas. A

1 11 11x1Hl.11 · •nLra-se no estudo dos processos históricos globais,

1111 1•01il,rnclic;o s xistentes e nas lutas entre as diferentes clasrn•1111H. AH cnL gorias básicas construídas por seus analistas

111 1'1111 t'H Ho ·ini:;, contradic;oes, lutas, experiencias, conscien-

Apresentar;éío 15

1 111, conflitos, interesses de classes, reprodU<;ao da forga de tral1nl ho, Estado etc. As nogoes e conceitos desenvolvidos sao: expe­

' H ncia coletiva, campo de forgas, organiza�;ao popular, projeto

polilico, cultura política, contradigoes urbanas, movimentos so1•111is urbanos, meios coletivos de consumo etc. O paradigma dos

Novos Movimentos Sociais parte de explica<;oes mais conjuntu1·11 ÍH, localizadas em ambito político OU dos microprocessos da

vid cotidiana, fazendo recortes na realidade para observar a

poi fLica dos novos atores sociais. As categorias básicas deste

p11 radigma sao: cultura, identidade, autonomia, subjetividade,

11Lores sociais, cotidiano, representagoes, interagao política etc.

( >H conceitos e nogoes analíticas criados sao: identidade coletivn, representagoes coletivas, micropolítica do poder, política de

I' rupos sociais, solidariedade, redes sociais, impactos das intern<;oes políticas etc.

Nos anos 80 o paradigma norte-americano desenvolveu um

intenso debate com urna das correntes européias - a dos Novos

Movimentos Sociais -, o que levou a alteragoes nas duas aborda1wns. O resultado foi a criagao de urna nova corrente teórica envolvendo americanos e europeus, que passou a predominar na

/\ mérica e na qual a grande enfase está no processo político das

rnobilizagoes e nas bases culturais que lhes dao sustentagao

(c•m vez da enfase nas bases económicas, característica da abordagem norte-americana entre os anos 70 e parte dos 80). Estruturu das oportunidades políticas foi a categoria-chave desenvolvida.

O paradigma latino-americano concentrou-se, em sua quaH ' totalidade, nos estudos sobre os movimentos sociais libertários

ou emancipatórios (índios, negros, mulheres, minorias em geral); nas lutas populares urbanas por bens e equipamentos

·oletivos, ou espago para moradia urbana (nas associagoes de

moradores e nas comunidades de base da Igreja), e nas lutas

pela terra, na área rural. As teorias que orientaram a produgao

u respeito foram as dos paradigmas europeus, tendo predominancia nos anos 70 a vertente marxista e nos anos 80 a abordagem dos Novos Movimentos Sociais. Os estudos baseados nas

L orias marxistas destacaram certas categorias: hegemonia, conLradigoes urbanas e lutas sociais. Os estudos que aplicaram o

paradigma dos Novos Movimentos Sociais :as categorias da au-

16 Teorias dos movimentos sociais

tonomia e da identidade tiveram maior destaque. Mas houve

certa releitura daquelas teorias, resultando também na criac;ao

de outras categorias de análise tais como: novos sujeitos históricos, campo de forc;a popular, cidadania coletiva, espoliac;ao urbana, exclusao social, descentralizac;ao, espontaneidade, redes

de solidariedade, setor terciário privado e público etc.

As novas categorias esboc;am, delineiam e ao mesmo tempo

podem ser o suporte para a elaborac;ao de um paradigma próprio e específico para a América Latina, ainda a ser construído

em sua plenitude, mas que está presente no debate incipiente

que se observa nas entrelinhas dos trabalhos e congressos academicos. Este debate tem suscitado vários dilemas. Um deles se

refere a enfase na estrutura (dada pelos marxistas em relac;ao

as classes sociais) versus a enfase no ator social (dada pelos

europeus dos Novos Movimentos Sociais). Este debate já ocorreu na segunda metade dos anos 80 entre americanos e europeus, resultando em outro dilema: qual o objetivo e o significado básico dos movimentos - construir estratégias (americanos)

ou identidades (europeus)? Nos anos 90 os americanos abandonaram o dilema e construíram outro eixo paradigmático: a estrutura das oportunidades políticas, responsável pelo surgimento

dos vários ciclos de movimentos sociais, em diferentes contextos

e lugares históricos.

Na América Latina a controvérsia se deu quanto a opc;ao

paradigmática, colocando de um lado estruturalistas e de outro

interacionistas. Os primeiros postulavam ser necessário antes

mapear as condic;oes estruturais, causas, conseqüencias e iníluencias dos movimentos, a partir de urna análise que enfocasse

s desigualdades sociais, as discriminac;oes, a repressao e a explorac;ao, dando-se atenc;ao também as ideologias, frustrac;oes,

qu ixas, reclamac;oes e demandas, assim como as possibilidades

d' conscientizac;ao e organizac;ao dos grupos e movimentos. Este

t. i po d análise enfatizava o potencial de transformac;ao dos movim nLos sociais. Os segundos enfatizavam os conflitos políticos,

HH 'Hlr l gias de mobilizac;ao, as relac;oes de poder, o papel das

licl1 r-Hn�as, as alianc;as, a func;ao das ac;oes estratégicas etc.

1 lc1¡.;l.arnva-s a capacidade dos movimentos de construir identidacl11H pol11.i 'HH por meio de processos discursivos e postulava-se a

Apresentar;ao 17

1111possibilidade de entender as ac;oes políticas como deduc;oes

dlrctas das estruturas económicas.

Outro dilema presente no paradigma latino-americano diz

t'oHpeito a controvérsia quanto ao terreno onde se deslocam OS

111ovimentos sociais. Uns advogam a enfase nos fatores sociopo11 Licos e outros nos político-económicos. Os primeiros se filiam a

rnrrente dos N ovos Movimentos Sociais e destacam o processo

e I<' construc;ao da identidade política dos movimentos e seu poi C111cial de resistencia (cultural). Os segundos enfatizam a quesl 110 do poder político segundo as concepc;oes do paradigma mar­

)( ÍHLa. Na América do Norte, as teorias que resultaram das dis1·11ss6es com os europeus nos anos 80 - e que levaram a reformulnc;ao da teoria da Mobilizac;ao de Recursos - também deram

pt·ioridade máxima ao processo político, em especial ao jogo de

poder entre a sociedade civil e as estruturas governamentais,

1·1 Hultando deste jogo as estruturas das oportunidades políticas,

11 Herem abordadas no capítulo III.

Situar os problemas gerados pela globalizac;ao da economia

1111 discussao do paradigma latino-americano e dos movimentos

11ociais no Brasil se faz necessário em virtude das conseqüen1•1ns que tem acarretado no cenário da.organizac;ao da populac;ao

c•rn geral. O estímulo que as políticas económicas neoliberais

L1•m dado ao setor informal da economia levou ao surgimento de

c•xtensas redes produtivas comunitárias nos países latino-amer•icanos, onde a mao-de-obra é farta mas tem alto custo social

(quando utilizada na economía formal). A economia informal

provoca a reduc;ao deste custo por vários fatores, destacando-se

" quase completa eliminac;ao dos custos sociais. Ela opera com

11 m grande conjunto de trabalhadores que nao tem seus direitos

Hociais respeitados. Opera ainda com trabalhadores nao-sindi­

('alizados, por isso está livre das press6es sindicais. Mas este

Hotor terciário, tao contraditório, tem tido também grande preH •nc;a de ONGs - Organizac;oes Nao-Governamentais. Elas deH nvolvem projetos com as populac;oes demandatárias de bens

I' servic;os, organizando-as em movimentos sociais. Para entrar

1•rn operac;ao, tais projetos necessitam de verbas, qualificac;ao,

11valiac;6es para que ganhem continuidade etc. Ou seja, a ac;ao

1•oletiva de pressao e reivindicac;ao, antes presente na maioria

18 Teorías dos movimentos sociais

dos movimentos sociais latino-americanos, converteu-se nos anos

90 em ac;oes voltadas para a obtenc;ao de resultados, em projetos de parceria que envolvem diferentes setores públicos e

privados. Para complicar o cenário, a globalizac;ao e as mudanc;as na conjuntura política do Leste Europeu levaram a alterac;oes nas políticas da cooperac;ao internacional. As agendas das

instituic;oes internacionais deixaram de priorizar o desenvolvimento de projetos na América Latina - por considerarem que

a transic;ao para a democracia já se completara - e mudaram

o sentido de seus programas. Em vez de auxílios ou subsídios

económicos, passam a fornecer apenas suporte técnico para os

movimentos e as ONGs nacionais. Estes devem demandar subsídios financeiros a seus governos e, fundamentalmente, gerar

receitas próprias. N este contexto, o panorama das lutas sociais

se alterou completamente, a mobilizac;ao cotidiana e os atos de

protestos nas ruas diminuíram e a militancia decresceu. Os

movimentos e as ONGs que sobreviveram se qualificaram para

a nova conjuntura em termos de infra-estrutura e do uso de

modernos meios de comunicac;ao, como a Internet. A tecnologia

chegou aos movimentos sociais e a institucionalizac;ao de setores e áreas das demandas e lutas é urna necessidade imperiosa para a sua sobrevivencia. Toda esta discussao será apresentada na terceira parte <leste livro, onde assinalamos que

urna teoria consistente para explicar os movimentos sociais latino-americanos está ainda por se construir. O que ternos sao

esboc;os explicativos.

Destacamos ainda nesta apresentac;ao a forma como organizamos a análise das teorias. Privilegiou-se o aspecto histórico, tanto na ordem de apresentac;ao do desenrolar das diferenLes teorias como na análise das obras de alguns autores. Embora tenhamos tentado abranger a quase totalidade dos principais autores de urna dada abordagem, alguns foram destacados

apresentados mais detidamente por terem um papel emblem Lic dentro de determinada teoria. Nao é nosso objetivo fazer

11 rn •) ociologia dos autores ou um quadro teórico explicativo do

rnnjunLo de suas proposic;oes. Ao contrário: o recorte é dado

tH' l:IH L •orias e os autores nelas se inserem enquanto exemplos.

M111-1, ('In a lguns casos, acompanhar a trajetória de produc;ao de

Apresentai;iío 19

d1•I t 1·rni nado autor foi urna forma de acompanhar as mudanc;as

d11 p roblemática, na prática e no debate teórico. Assim como os

1 1 11 1virnentos, que se apresentam em ciclos e apresentam enfapa rticulares a cada momento histór ico, as categorías criatl1111 para sua análise e os conceitos produzidos também sao

tl11L11d.os historicamente. Outro aspecto que nos levou a destacar

tl111111s autores foi a própria busca de diferenciac;ao nas expli1 11 ·o s teóricas dentro de um mesmo paradigma. Assim, a lite­

' 11 I 11 ra americana se refere muitas vezes ao paradigma dos N ovos

Movimentos Sociais como um todo. Ocorre que entre Touraine,

Mt· lucci e Offe (para citar apenas os autores mais conhecidos

d11qu le paradigma) existem grandes diferenc;as teórico-metotlolog icas. Só a análise individualizada permite destacá-las.

c·1·oscente-se a isto o fato de grande parte da literatura utili1,11da nao ter sido traduzida para o portugues e ser de difícil

i1t•n¡,.¡so no Brasil dado seu custo, falta de divulgac;ao ou de domí1110 de idiomas estrangeiros pelos estudantes. Este livro tem

l 11 m bém grande preocupac;ao em ser um vefculo didático para

e l.udantes universitários e interessados na temática dos movi111onLos sociais em geral. Por isso está repleto de referencias

l1 1hliográficas. Sempre procuramos explicitar a posic;ao de urna

1 e11 1 ria ou autor por meio do destaque de seus principais argu1 1 1t1nLos, das críticas existentes, do debate gerado e, finalmente,

c l11 nossa posic;ao a respeito. Consideramos que <levemos infor11111r o leitor de forma que este tenha acesso a argumentos e

t't 1 1' rencias bibliográficas qlie lhe possibilitem construir sua

pnípria opiniao.

Nos anos 90 os movimentos sociais tem sido diagnosticados

por alguns autores como estando em declínio, em crise, como

1

11•rLencentes ao passado etc. Mas se consultarmos o mercado

1t<'1tdemico editorial veremos que nunca houve tantas publica­

·cws como agora. O que se passa? Um deslocamento entre a

l 11oria e a prática? O diagnóstico de crise estava equivocado? A

p roduc;ao atual é apenas memória de ex-militantes sobre temprn; passados? Os movimentos estao se transformando em novos

l 11 1 1omenos e os analistas continuam a ve-los como movimentos?

c hamos que estas indagac;oes contem, em si mesmas, parte

c l 11H respostas. Os movimentos sociais sao fenómenos históricos

20 Teorias dos movimentos sociais

decorrentes de lutas sociais. Colocam atores específicos sob as

luzes da ribalta em períodos determinados. Com as mudarn;as

estruturais e conjunturais da sociedade civil e política, eles se

transformam. Como numa galáxia espacial, sao estrelas que se

acendem enquanto outras esta.o se apagando, depois de brilhar

por muito tempo. Sao objetos de estudo permanente. Enquanto

a humanidade nao resolver seus problemas básicos de desigualdades sociais, opressao e exclusa.o, haverá lutas, haverá movimentos. E deverá haver teorias para explicá-los: esta é a nossa

principal tarefa e responsabilidade, como intelectuais e cidadaos

engajados na luta por transformac;oes sociais em direc;ao a urna

sociedade mais justa e livre.

Finalmente, o último ponto decisivo para que este livro se

tornasse realidade. Ele era um projeto acalentado desde 1985,

quando desenvolvemos urna pesquisa na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Sao Paulo e a apresentamos como tese

de livre-docencia em 1987 naquela mesma universidade. Na ocasiao chegamos a produzir alguns papers introdutórios a respeito (alguns deles foram incorporados ao capítulo V do livro Movimentos sociais e lutas pela moradia, Gohn, Loyola, 1991). Mas

foi somente em 1996, a partir de um programa de estudos e pesquisa como Visiting Scholar na N ew School for Social Research,

em Nova York, com o apoio do CNPq - para o qual manifesto

meu agradecimento -, que

.

pudemos ter condic;oes de acesso a

material bibliográfico e de tempo físico para realizar todas as

leituras e análises necessárias. Contei neste trabalho com a

gentil colaborac;ao do Prof. Andrew Arato, do Departamento de

Sociologia da Graduate Faculty of Political and Social Science,

da N ew School, a quem expresso minha gratidao. Agradec;o

também a UNICAMP por me ter concedido o afastamento para

m us estudos no exterior; e a Edic;oes Loyola pelo imprescindível apoio editorial que tem me propiciado desde 1992.

0 PARADIGMA

NORTE-AMERICANO


--- · �- -�-

CAPÍTULO 1

1

AS TEORIAS CLÁSSllCAS

SOBRE AS A<;ÓES COLETIVAS

A abordagem clássica sobre os movimentos sociais nas cien­

' 11� HOciais norte-americanas está associada ao próprio desen1 1lvirnento inicial da sociología naquele país. Embora ela tenha

1tll t'!lpassado suas fronteiras, e seus autores nao sejam de nacio1111l i dade exclusivamente americana, foi nos Estados Unidos que

1·111 rnais se desenvolveu, tendo hegemonía neste país por vár ias

r l1•1·11das e de lá se espalhando para outros países. A importancia

111 H u estudo nos días atuais tem dois motivos: como memória

lt1Ht.órica das primeiras teorías dos movimentos sociais e a¡;6es

1 ol<•Livas; e como busca das referencias e matrizes teóricas de

v1 1t' ios conceitos que esta.o sendo retomados nos anos 90 pelo própt'io paradigma norte-americano.

Existe certo consenso em considerar o período da abordagem

1 l 11Hsica como aquele que predominou até os anos 60 deste sé­

' 1!10. Ela nao foi homogenea, houve diferentes enfases, o que nos

lnvn a considerar cinco grandes linhas, e su.as características

rnrnuns sao: o núcleo articulador das análises é a teoría da a¡;ao

· ocial, e a busca de compreensao dos comportamentos coletivos

1 n la a meta principal. Estes comportamentos, por sua vez,

,.1·11m analisados segundo um enfoque sociopsicológico. A enfase

'"' a¡;ao institucion.al, contraposta a nao-institucional, também

111·a urna preocupa¡;ao prioritária e um denominador que dividía

11H dois tipos básicos de a¡;ao: a do comportamento coletivo insti23

24 O paradigma norte-americano

tucional e a do nao- institucional. A ac;ao nao-institucional era

definida como aquela nao guiada por n� existentes

mas formada pelo encontro de situac;oes indefinidas ou desestruturadas, entendidas como quebras da ordem vigente. Estes

processos ocorreriam antes que os órgaos de controle social, ou

de integrac;ao normativa adequada, atuassem; restaurando a or7

dem antiga ou criando urna nova, que absorveria os reclamos

contidos nas agitac;oes coletivas. Durante todo o processo o que

se observava eram tens6es, descontentamentos, frustrac;oes e

agress6es dos indivíduos que participavam das ac;oes coletivas

(v. Cohen/Arato, 1992: 495).

Os autores clássicos analisavam os movimentos em termos

de ciclos evolutivos em que seu surgimento, crescimento e propagac;ao ocorriam por intermédio de um processo de comunicac;ao

que abrangia contatos, rumores, reac;oes circulares, difusa.o das

idéias etc. fAs insatisfac;oes que geravam as reivindicac;oes eram

vistas comb respostas as rápidas mudanc;as sociais e a desorganizaQao social subseqüente. A adesao aos movimentos seriam respostas cegas e irracionais de indivíduos desorientados pelo processo de mudanc;a que a sociedade industrial gerava. Nessas abordagens dava-se, portanto, grande importancia a reac;ao psicológica

dos indivíduos diante das mudanc;as, reac;ao considerada como

comportamento nao-racional ou irracional.

Assim, os comportamentos coletivos eram considerados pela

abordagem tradicional norte-americana como fruto de tens6es

sociais. A idéia da anomia social estava sempre muito presente,

assim como explicac;oes centradas nas reac;oes psicológicas as

frustrac;oes e aos medos, e nos mecanismos d

'

e qúebra da ordem

social vigente. Estes elementos, aliados as ideologías homogeneizadoras, eram precondic;oes importantes para a emergencia

dos movimentos sociais. O sistema político era visto como urna

sociedade aberta a todos, plural, permeável. Mas os movimentos

sociais nao teriam a capacidade de influenciar aquele sistema

clevido a suas características espontaneas e explosivas. Som nLc os partido,s políticos, os grupos de interesses e alguns líderes

t.criam tal capacidade. Cohen e Arato destacam que a abordagem

rll1HHica trabalhava com urna concepc;ao de democracia elitista

11 plurulisLa m que se observam: eleic;oes livres, competic;ao e

As teorías clássicas sobre as afoes coletivas 25

p11 rLicipac;ao ativa de minor ias por meio de partidos e grupos d

111L resses. Toda ac;ao coletiva extra-institucional, motivada por

fi wLes crenc;as ideológicas, parecia ser an�idemocr ática. e amea1,'lldora para o consenso que deveria existir na sociedade civil.

Podemos dividir em cinco grandes corren tes teóricas i;_ abord 11gem clássica sobre a ac;ao coletiva,, e ern tres delas os movi1 11 ' ntos sociais sao especificados. E�bora apoiada em vários

t 1HLudos anteriores, sabemos das dificuldades que toda classifi­

<'nc;ao envolve. Buscamos apenas sistematizar a produc;ao antel'ior. Observamos que nas primeiras fases do período clássico

1 1orte-americano encontramos vários trabalhos sobre as "ac;oes

1·oletivas": Zald ( 1988), Tilly ( 1983), Tarrow ( 1994), entre out t'OS. Mas eles nao se referem aquelas ac;oes em termos de "movimentos sociais". Assim, as cinco grandes correntes que lista1·1•mos a seguir foram agrupadas por nós; a tres delas chamamos teorias dos movimentos sociais; as outras duas, ac;oes colet 1vas, porque seus formuladores, originalmente, assim as caract.e rizaram. Elas sao:

1 - A Escola de Chicago e alguns interacionistas simbólicos do início <leste século. Como um dos produtos desta

corrente ternos a primeira teoría sobre os movimentos

sociais, no trabalho de Herbert Blumer ( 1949).

2 - A segunda corrente desenvolveu-se ao longo dos anos

40 e 50, com as teorias sobre a sociedade de massas de

Eric .Fromm ( 1941), Hoffer ( 195 1) -- também militante

de movimento social - e K. Kornhauser ( 1959). Este

último exerceu forte influencia sobre algumas produc;oes posteriores; ele caracterizava os movimentos como

formas irracionais de comportamento e os considerava

antimodernos.

3 - A terceira corrente predominou nos anos 50 com um

forte acento em variáveis políticas e está presente nos

trabalhos de S. Lipset ( 1950) e Heberle ( 195 1). Ela articulava as classes e relac;oes soc:iais de produc;ao na

busca do entendimento tanto dos movimentos revolucionários como da mobilizac;ao partidária, do comportam nto <l iante do voto e do poder político dos diferentes g ru-

26 O paradigma norte-americano

pos e classes sociais. Ela gerou a segunda grande teoría

específica sobre os movimentos sociais, expressa nos

trabalhos de Heberle.

4 - A quarta corrente foi urna combinac;;ao das teorías da

Escola de Chicago com a teoría da ac;;ao social de Parsons

e se fez presente nos trabalhos de Goffman (1959),

I

Turner e Killian ( 1957), N. Smelser ( 1962) e David

Aberle ( 1966). Eles analisaram desde formas elementares de comportamento coletivo até a construc;;ao das

ac;;oes coletivas em grande escala, retomando o approach

( psicossocial e deixando de lado os vínculos entre as

estruturas e a política, tao caros a corrente anterio�A

terceira grande teoría sobre os movimentos sociais na

abordagem dos clássicos decorre desta corrente, nos

trabalhos de Smelser.

5 - A quinta e última corrente da abordagem clássica, denominada organizacional-institucional, está representada pelos trabalhos de Gusfield ( 1955) e Selzinick

( 1952). Teve grande influencia nas teorías que substituíram o paradigma clássico, mas nao gerou, em sua

época, nenhuma teoría específica sobre os movimentos

sociais. Nos anos 90 foi retomada por alguns pesquisadores dos movimentos sociais, entre eles o próprio

Gusfield.

Observa-se que o recorte feito entre as diferentes correntes

nao é temporal, pois as teorías coexistiram no tempo, mas foi

construído segundo as enfases principais. A seguir passamos a

caracterizar as diferentes teorías.

1 - A Escola de Chicago e os interacionistas:

movimentos sociais como rea�oes psicológicas

as estruturas de priva�oes socioeconómicas

Resgatar a produc;;ao teórica existente sobre os movimmtos

HO •in iA passa, necessariamente, por um momento fundamental

d11 ·onHti tuiGaO da sociología como disciplina de investigac;;ao

<' 1111 Llli ·n: a Escola americana de Chicago. Sabemos que a Es-

As teorias clássicas sobre as a{:oes coletivas 27

l'Ola de Chicago durante quarenta anos ( 1910-1950) teve grande

111 portancia na valorizac;ao da sociologia como campo autónomo

d11 i nvestigac;ao. Fundada em 1892 por W. l. Thomas, a Escola

d1 Chicago gerou grande produc;ao no campo das relac;oes soci11 iH, dando origem a chamada tradic;ao do interacionalismo. Esta

p t"Oduc;ao emergiu num contexto histórico marcado por. grandes

1 ni nsformac;oes sociais, impulsionado pela idéia de progresso. A

11;14cola tinha urna orientac;ao reformista: promover a reforma

1wcial de urna sociedade convulsiona.da em direc;ao ao que se

1111 Lendia como seu verdadeiro caminho, harmonioso e estável.

In°

icialmente seus teóricos principais foram W. l. Thomas

( 1 966), Robert Park ( 1952) e George H. Mead (décadas de 30 e

1 0). Outros representantes importantes foram Everett C. Hughes

( 1 958) e Herbert Blumer ( 1939). A partir do desenvolvimento

du psicologia social surgiram vários outros teóricos, alguns dos

q uais continuaram a ter importancia após 1950, como Erving

( loffman ( 1959), Kurt Lang ( 1961) e Ralph Turner ( 1969).

O nexo fundamental que nos leva a um interesse pela Es1·ola de Chicago como urna das matrizes de produc;ao teórica

1 1xplicativa sobre os movimentos sociais é dado pela concepc;ao

d' mudanc;a social e pelo interesse particular de seus mestres

p<' los temas do "desenvolvimento de comunidade" e pelos procesos de participac;ao e educac;ao "para o povo". A participac;ao dos

l ndivíduos na comunidade teria um sentido integracionista, ou

H!'.ja, por meio daquela participac;ao, e utilizando-se de alguns me­

·n nismos educativos, acreditava-se que era possível ordenar os

p rocessos sociais. A sociología deveria buscar formular leis científi ·as para descobrir como a mudanc;a social ocorria. Deveriam ser

11Lil izados estudos comparativos e investigac;oes sobre as condi­

·o 'S particulares ocorridas onde se desenvolviam processos interncionistas, destacando-se aquelas relacionadas coro a,_particip_a­

<;1 o criativa dos indivíduos. O elemento da criatividade, visto

l'orno inerente aos indivíduos, era um dos pressupostos básicos

dn Escola. lsto implicava unir estudos institucionais (decorrentes

do método comparativo) e estudos psicossociais (decorrentes das

11nal ises sobre as atitudes humanas, comportamentos e reac;oes).

/\ i nierac;ao entre o indivíduo e a socie1qade era o enfoque básico.

28 O paradigma norte-americano

'.

A mudarn,;a social p assava, portanto, pela perspectiva da

reforma social. A sociologia enquanto ciencia forneceria o conhecimento. Como a reforma era necessária p ara o progresso, concluía-se que a sociologia também era útil p ara esta reforma. Os

agentes básicos neste processo de mudarn;as eram as lideranc;;as. Isto ocorria porque o binomio indivíduo-sociedade tendia a

privilegiar, ao final do processo, o primeiro termo e, conseqüentemente, a individualizac;;ao. Para Park, a sociedade era urna questao de comunicac;;ao e esta continha a possibilidade de maior

consciencia. Portanto, a necessidade era de líderes bem formados, que estimulassem a mudanc;;a por meio de seus próprios

exemplos, da realizac;;ao de suas próprias vidas e das relac;;oes

que estabeleceriam com os outros. A transformac;;ao passava

pela cooperac;;ao voluntária, vista como resultado natural da

interac;;ao grupal.

Em suma, as lideranc;;as seriam mais exemplos demonstrativos que agentes de prováveis sublevac;;oes. Na realidade seriam

elites reformistas, detentoras de um conhecimento científico útil.

Thomas chegou a propor "o desenvolvimento de técnicos sociais

para que o conhecimento fosse traduzido em p rogramas de ac;;ao

prática_ Quando as leis, que eram muito esperadas, fossem descobertas, esses técnicos poderiam ajudar a guiar a sociedade p ara

seu ideal democrático". As lideranc;;as teriam de desempenhar o

papel de reformadores sociais até que nao fossem mais necessárias. Isto porque, em sua trajetória de atuac;;ao, deveriam criar

instituic;;oes novas.

As instituic;;oes e a educac;;ao tornariam possíveis a autodirec;;ao do povo e sua cooperac;;ao. Obser amos que estes pressupostos estiveram bastante vivos e presentes nas concepc;;oes sobre

a mudanc;;a social preconizadas pelos movimentos sociais popular s nos anos 70 e parte dos 80, que seguiram a direc;;ao d�eologia

da Libertac;;ao na Igreja Católica da América Latina.

A articipac;;ao ativa e a interac;;ao eram elementos indisp •ns" s no cotidiano do trabalho <loo/líderes. Nao se admitia

que as lideranc;;as nao fossem engajadas ou que nao falassem e

viv 'HS m as necessidades dos grupos sociais considerados men oH · vu n�ados, dentro do marco referencial evolucionista que a

As teorias clássicas sobre as ar;oes coletiuas 29

1 1 1111•(1pqao mais ampla do grupo abrangia. Náo só os atos volun1 11 loH Linham grande espai;o. Também as a¡;oes espontaneas. As

1 11 IHO!.tS deveriam descobrir por si mesmas o comportamento

1 1 11 l'l •Lo no contexto da experiencia social. O conflito também era

1 1 1 1 1Hid rado natural e inevitável, decorrente do choque entre as

1 1 1ll 11ras e as diferentes realidades. Mas ele deveria ser trabal l 111do. Por quem? Pelos líderes, é claro. Surgem entao os movi1111111 Los sociais.

'rais movimentos seriam o resultado dos conflitos gerados

1 1t1,1· 1 as multidoes. Mas este resultado deveria ser equacionado

p1•loH líderes, como focos dinamizadores de mudani;as sociais.

1 lr1 l 1deres nao seriam causas - estopins -- dos movimentos,

11111H sim agentes apaziguadores) Suas tarefas seriam desmol11l 1 �ar o conflito, dissolver o movimento. Como? Transformand11 01:1 em instituii;oes sociais por meio do equacionamento das

d1•mandas em questao.

As mudani;as sociais seriam o clímax deste processo: choq 1111 encontro de grupos resultando numa acomodai;ao em ins1 1L11 ic;oes por meio do controle obtido por líderes. Os líderes,

p11 rn ser eficientes, deveriam compreender seus seguidores, inte1 1·a r-se suficientemente ao movimento e ser educados o bastante

p111·a tanto. Ou seja, { líder era u� instrumento básico da mudn n<,;a, da acomoda<;:ao, da reforma Os problemas surgiam quando os movimentos sociais nao conseguiam ser controlados por

1 1 •u s líderes, dando origem a descaminhos na direi;ao do movi111 •nLo. A solu<;:ao seria buscar, cada vez mais,(formar lideran¡;as

1'PHponsáveis.)

Resumindo os pontos básicos da teoria da mudan<;:a social

dn Escola de Chicago, diríamos que a educa¡;ao e a cria<;:ao de

t nHLiLui<;:oes sao seus eixos básicos. Os movimentos eram vistos

rnmo a<;:oes advindas de comportamentos coletivos conflituosos.

/\ •duca<;:ao, como um processo mais infonnal, que ocorria na

p 1·{ip ria vida urbana - a cidade moderna e seu contexto de luta

¡wla sobrevivencia seria a grande escola de conflitos e crises.

( :orno na fábula: para aprender seria preciso queimar as patas

1 10 L >ntar apanhar as castanhas. A solu<;:ao de quaisquer problet n:ts estaria na criatividade.

.o O paradigma norte-ameriéano

A criatividade e o individualismo eram coerentes com o

desenvolvimento do processo, e parte dele. Estes pressupostos

tiveram grande repercussao nas políticas de desenvolvimento

comunitário do pós-guerra e estiveram na base de várias propostas de educac;ao popular na América Latina nos anos 70 e

80. Eles serao retomados nos anos 90 pelas políticas neoliberais

da economia globalizada.

Do ponto de vista metodológico, a Escola de Chicago forneceu elementos para a pesquisa sobre movimentos sociais - a

partir de dados históricos e do umentais. Entretanto, dentro

dos objetivos de nosso trabalho, foi Blumer o grande teórico a

aplicar as análises do interacionismo simbólico para o estudo

dos movimentos sociais Alguns autores o consideram o pioneiro

na análise dos movimentos sociais. Dada a importancia de seu

trabalho, sua originalidade quando surgiu e se desenvolveu (anos

20 e década de 30), devido a sua importancia e contribuic;ao

para as décadas seguintes e em razao da retomada de seus

trabalhos nos anos 90, iremos nos deter de forma mais prolongada em suas formulac;oes sobre os movimentos sociais.

1.1 - Blumer - o grande teórico dos movimentos

sociais na abordagem clássica do

paradigma norte-americano

Blumer definiu os movimentos sociais comc{empreendimentos coletivos para estabelecer urna nova ordem de vida� Eles

surgem de urna situac;ao de inquietac;ao social, derivando suas

ac;oes dos seguintes pontos: insatisfac;ao com a vida atual, desejo e esperanc;a de novos sistemas e programas de vida. Esta

teoria, denominada das carencias sociais, será retomada nos

a nos 80 e 90, após intenso debate entre os pesquisadores do

assunto. Também Habermas retomou a tese central de Blumer

ao retratar a importancia dos movimentos sociais como possív is criadores de urna nova ordem social.

Para Blumer, "no início um movimento social é amorfo, orgn n izado pobremente, e indefinido; o comportamento coletivo é

pri rn i Livo e os mecanismos de interac;ao sao elementares. Com

o (,(•rnpo os movimentos se desenvolvem e adquirem as caracte-

As teorias clássicas sobre as a{:oes coletiuas 31

1 1 1 it•ns de urna sociedade: organizac;ao, forma, corpo de costu1 111 t• Lradic;oes, liderarn;as, divisao de trabalho duradoura, va111 1 1• (' regras sociais - em resumo, cultura, organizac;ao e um

1 1 1 1v1 1 'squema de vida" (Blumer, 1951: 199). Observa-se que o

l 1 11 in io comunidade-sociedade está presente nesta formulac;ao:

11 11iovimentos sociais seriam urna certa transic;ao entre estas

il 1 1 11 formas de organizac;ao social.

·

Os movimentos foram divididos por Blumer em tres catego1 1 11 genéricos, específicos e expressivos. Os primeiros incluíam

11 1 11ovimentos operário, dos jovens, das mulheres e pela paz.

l 11 v1•mos recordar que ele produziu essas formulac;6es nos anos

'I ) dt•ste século. Portanto, naquela época, tais movimentos já

l 1 1 d1nm algum destaque. O background da primeira categoría

il1 1r1ovimentos seria constituído por mudanc;as graduais e per1 1 11H ivas nos valores das pessoas, os quais poderiam ser deno111111 11dos tendencias culturais. Isto porque cada tendencia cull 111·1 11 Lem, atrás de si, um desejo de mudanc;a que está na cal 1n�·n das pessoas, em suas idéias, particularmente em relac;ao

,. 1·oncepc;ao que tem de si próprias, de seus direitos e privi11•1: 101-1, o que pode levá-las a desenvolver novas crenc;as e pontos

d1 vista ou a ampliar os já existentes, numa emergencia de

1 1 1 1vns escalas de valores a influenciar a forma como as pes1111H passam a olhar para si próprias. Maiores preocupac;oes

1 1 1 1 n a saúde, com a educac;ao, com a emancipac;ao da mulher, o

1111n •nto do cuidado com as crianc;as e o prestígio da ciencia,

!11d111-1 sao citados por Blumer como resultados do processo aci111 1 d scrito.

E:m resumo, os movimentos sociais seriam o resultado de

11111d· nc;as que operariam num ambito individual, e no plano

p 1rnl6gico. Tais mudanc;as provocariam as motivac;oes para o

11 rvi mento dos movimentos sociais genéricos, classificados na

p1 irn •ira categoría já assinalada. O processo de criac;ao e de1 1 11volvimento das motivac;oes, apesar de vir do exterior -

p111· H r de ordem cultural -, assenta-se em bases interiores,

111 div iduais. As novas concepc;oes dos indivíduos a respeito

d1•l1•H próprios chocar-se-iam com suas reais posic;oes na vida,

111q·1 1 ndo insatisfac;ao, disposic;ao e interesse pela busca de novas

rl l l'P<;O �s.

32 O paradigma norte-americano

Urna das características mais importantes dos movimentos

genéricos é o fato de serem indicadores de direc;ao. Quando surgem, seriam desorganizados e teriam objetivos vagos. A emancipac;ao da mulher, por exemplo, é citada como urna dessas bandeiras vagas, restrita a universos delimitados: na família, no casamento, na educac;ao, na indústria, na política. Ou seja, a enfase é no enquadramento dos movimentos nas instituic;oes sociais existentes. Eles teriam caráter episódico e poucas manifestac;oes. Seus líderes teriam papel importante nao tanto no controle sobre os movimentos sociais, mas no sentido de serem

portadores de novas vozes, pioneiros, muitas vezes até sem seguidores ou objetivos muito claros. Mas eles teriam o papel de

servir como exemplos e quebrar resistencias.

A segunda categoria de movimentos sociais, os específicos,

constituiriam formas desenvolvidas dos anteriores, os genéricos.

Eles representam a cristalizac;ao das motivac;oes de descontentamento, esperanc;as e desejos despertados pelos movimentos

genéricos. Blumer cita como exemplo o movimento antiescravagista, despertado pelo movimento humanitarista do século

XIX. Ao contrário dos genéricos, os específicos se caracterizariam

por ter metas e objetivos bem definidos, organizac;ao e estrutura

desenvolvidas, constituindo-se como urna sociedade. Eles possuiriam lideranc;as bem conhecidas - e reconhecidas - e seus

membros teriam consciencia do "nós". Além disso deteriam um

corpo de tradic;oes, valores, filosofias e regras.

Movimentos reformistas e revolucionários sao listados como

típicos dessa categoria. Eles tem urna trajetória evolutiva em

que o autor identifica alguns estágios: inquietac;ao individual,

inquietac;ao popular, formalizac;ao e institucionalizac;ao. No primeiro estágio o "agitador" - lideranc;a que internalizou a necessidade da mudanc;a - desempenha um papel fundamental. No

segundo estágio tomam forma os objetivos, no terceiro organizam-se as táticas, regras, políticas e disciplinas. O último estágio seria a cristalizac;ao da organizac;ao, estabelecida com personalidade definida e estrutura para desenvolver os propósitos do

movimento. O líder torna-se aqui um administrador.

A grande preocupac;ao de Blumer era entender os mecanismos e significados por meio dos quais os movimentos tornam-se

As teorias clássicas sobre as m;iíes coletivas 33

11 plos para crescer e se organizar. Ele identifica cinco mecanismos

11 ste processo, a saber: a agitac;ao, o desenvolvimento de um esprit

ti<' corps, de urna moral, a formac;ao de urna ideología e, finalmenl.1 -, o desenvolvimento de operac;oes táticas.

A agitac;ao é considerada de vital importancia, particularmente

nos estágios iniciais do movimento. Ela contribuí para o desenvolvi1 nento de novos impulsos e de novos desejos nas pessoas. Para que

n agitac;ao seja bem-sucedida ela deve despertaie e ganhar a atenc;ao

das pessoas, seduzi-las em seus sentimentos e impulsos, dando-lhes

d irec;ao por meio de idéias, sugestoes, críticas e promessas. Os tipos

<le agitadores e seus comportamentos também sao considerados por

Blumer. É importante destacar que ele nao atiribui urna conotac;ao

11 gativa ao agitador. Ao contrário, ele o ve como um dinamizador

ele mudanc;as. Este registro torna-se necessário porque algumas

t.corias do funcionalismo norte-americano utilizaram formulac;oes

de Blumer mas atribuíram conotac;oes negativas aos agitadores.

O desenvolvimento do espirit de corps é importante para criar

11 ma atmosfera de cooperac;ao entre os indivíduos de um moviinento social e para reforc;ar as novas concep1;6es de auto-leitura

de si próprios, concepc;oes geradas pelo proces:so de aprendizagem

1 1dquirido por meio da participac;ao nos movimentos. Trata-se do

i;entimento de pertenc;a, de identificac;ao com o outro e consigo

pi;-óprio, criando urna idéia do coletivo. O resultado deste procesHO gera fidelidade e solidariedade ao grupo e vigor e entusiasmo

para com o movimento. O espirit de corps pode se formar por tres

vias: nas relac;oes grupo a grupo de urna mesma categoria - esLudantes, por exemplo; nos relacionamentos iinformais desenvolvidos em associac;oes, por meio do compartilhar de experiencias

comuns; e por intermédio de cerimónias formais em que se cristal izam certos comportamentos. Reunioes, manifestac;oes, cerimoniais comemorativos, desfiles etc. sao citados como exemplos. Blumer

destacou, já nos anos 30, a importancia para os movimentos do

desenvolvimento de símbolos, como canc;oes, slogans, poemas, hinos,

gestos, indumentárias etc. Os estudiosos contemporaneos tem

chamado a este processo "a mística" dos movimentos sociais.

Na questao do desenvolvimento de urna moral, Blumer retoma a questao dos mitos, dos símbolos, da criac;áo de ídolos e heróis,

34 O paradigma norte-americano

personagens carismáticos, e o culto a certos textos tidos como sagrados, como O capital, no marxismo; Men Kampf, no nazismo etc.

A ideologia tem papel essencial na permanencia e desenvolvimento

do movimento. Ela se compoe de um corpo de doutrinas, crern;as

e mitos e é elaborada pelos intelectuais dos movimentos.

Quanto as táticas, elas envolvem tres linhas: adesao, manutenc;ao (dos adeptos), e construc;ao de objetivos. Elas irao depender

da natureza da situac;ao na qual o movimento está operando.

Blumer conclui que os cinco mecanismos considerados acima sao responsáveis pelo sucesso ou nao de um movimento.

Os movimentos específicos sao divididos por Blumer em duas

categorias: reformistas e revolucionários. As principais diferenc;as entre eles sao: o escopo e o alvo de seus objetivos, os procedimentos e as táticas. Como pontos em comum ternos seus ciclos

de vida e os cinco mecanismos que impulsionam seu desenvolvimento, tratados anteriormente.

Em relac;ao aos objetivos, os reformistas buscam mudanc;as

em pontos específicos enquanto os revolucionários querem reconstruir inteiramente a ordem social. D aí que para os reformistas a preservac;ao de um certo código ético-moral seja importante.

Para os revolucionários isso nao importa, porque esta.o em busca

de novos esquemas e valores morais. Blumer se perde num

intricado universo explicativo sobre a respeitabilidade do movimento reformista - que aceita as instituic;oes existentes e tenta

preservá-las, ao contrário dos revolucionários, que tentam destruí-las. Os reformistas estariam sempre tentando persuadir a

opiniao pública e os revolucionários estariam em busca da conversa.o dessa opiniao.

Os movimentos específicos podem ser vistos como urna

sociedade em miniatura e como tal representam a construc;ao e

a organizac;ao de comportamentos coletivos antes amorfos e indefinidos. Em seu crescimento, desenvolvem novos valores, novas

personalidades se organizam. Eles deixam como resíduos, atrás

de si, urna estrutura institucional e um corpo de funcionários,

novos objetivos e pontos de vista, e urna nova série de autoconcepc;oes.

As teorías clássicas sobre as a�oes coletiuas 35

Finalmente, como terceira e última categoria de movimentos sociais, os expressivos, Blumer inclui os religiosos e o que

'le denomina de movimento da moda. Eles nao tem objetivo de

mudanc;a e divulgam um tipo de comportamento expressivo que,

om o passar do tempo, torna-se cristalizado e passa a ter proíundos efeitos na personalidade dos indivíduos, e no caráter da

ordem social em geral. Os movimentos da moda atuariam nas

áreas da literatura, da filosofia, das artes etc. Eles nao possuem as características assinaladas nos demais movimentos.

Podemos observar que Blumer, apesar de suas idéias conservadoras, era um arguto analista da realidade social de seu tempo,

assinalando a importancia de fenómenos que só se tornaram

bastante visíveis muitas décadas depois, como o caso da mídia

- que ele percebe nos movimentos da moda.

2 - Segunda teoria sobre os movim.entos sociais no

paradigma clássico: sociedade de massas -

Fromm, Hoffer, Kornhauser

Eríc Fromm ( 1941), Hoffer ( 1951) e Komhauser ( 1959) foram

os príncipais representantes dessa teoría, que via os comportamentos coletivos como resultado de a¡;6es advindas de participantes

desconectados das rela¡;6es em a¡;oes normais e tradicionais. Tratava-se de urna corrente mais preocupada com o comportamento

coletivo das massas, vendo-o também como fruto da anomia e das

condi¡;oes estruturais de carencias e príva<;61es. Kornhauser ( 1959)

estudou o comportamento das pessoas em termos de anomia e

aliena¡; ao. Os autores desta corrente combinaram algumas formula¡;6es feítas no final do século passado e início deste por Le Bonn

( 1895), na Fran<;a, a respeito do comportamento cego e irracional

das massas, com imagens da massifica¡;ao e dos horrores

do fascismo. Le Bon estudara os motins durante a Revolu¡;ao Francesa, concluindo que os indivíduos sao capazes tanto de atos de .

heroísmo como de barbáríe, pois em episódios em que predomina

a espontaneidade das massas há sempre violencia, o que os leva

a perder o uso da razao crítica. (Le Bon será retomado nas teorías

contemporaneas, na obra de Oberschall.) A partir da fusa.o das

duas influencias assinaladas - Le Bon e o cenário do fascismo -,

36 O paradigma norte-americano

os autores desta corrente elaboraram um diagnóstico da natureza

dos movimentos sociais nos tempos modernos. Os movimentos eram

desenhados pelo desejo de pessoas marginalizadas de escapar para

a liberdade, dentro de novas identidades e utopías conforme assinalou Tarrow (1994: 82).

A nova corrente estava mais preocupada com o totalitarismo,

com os movimentos nao-democráticos, com a alienai;ao das massas, a perda de controle e de influencia das elites culturais, e com

o desamparo das massas para encontrar tipos substanciais de

racionalidade a elaborai;ao política, numa sociedade dominada

cada vez mais por tecnologías complexas. A corrente da sociedade de massas contribuiu para a elaborai;ao da teoría de Smelser

- a ser tratada logo a seguir - e para formulai;oes de Reich

( 1970), quando este afirmou que as massas "tinham se tornado

apáticas, incapazes de discriminai;ao, biopáticas e escravas, como

resultado da supressao de sua vitalidade" (Tarrow, 1994: 82).

Nos anos 90, esta corrente tem sido retomada por antigos pesquisadores dos movimentos sociais, como Gusfield ( 1996).

Offe (1988) destacou que esta corrente, assim como a de

que trataremos a seguir, formulou teorías sobre os comportamentos políticos "nao-convencionais", denominando-os de massas ou desviantes. Argumentava-se que "as mobilizai;oes políticas nao-institucionais eram conseqüencia das perdas infligidas

pela modernizai;ao económica, política e cultural a certas parcelas da populai;ao, que reagiam ante este impacto recorrendo a

modos de atuai;ao política desviante. As perdas se referiam ao

status económico, acesso ao poder político, integra¡;ao em formas

intermediárias da organizai;ao social e reconhecimento de valores culturais tradicionais" (Offe, 1988: 200).

3 - Terceira teoria sobre os movimentos socia1s no

paradigma clássico: abordagem sociopolítica -

Lipset e Rudolf Heberle

Nos anos 50, a conjuntura política internacional da Guerra

Fria e o surgimento de movimentos com fortes conotai;oes ideológicas estruturou um cenário em que, nos países do Primeiro

As teorias clássicas sobre as ac;oes coletivas 37

M 11 ndo, a discussao básica se resumia a desarticulac;ao da socieil 11d ', desorientada pelas inovac;6es da indústria ou pelo comporl 11111 nto coletivo das massas. Para alguns autores o tema Refor11111 ou Revoluc;ao era a agenda do momento, e a compreensao

doi; movimentos sociais deveria passar pela discussao política

d 11 q uestao.

S. Lipset e R. Heberle articularam a problemática das clast •H sociais e das relac;6es sociais de produc;ao - dais marcos

f11 ndamentais do paradigma das lutas sociais em sua versao

111urxista - para a compreensao de comportamentos coletivos

do Lipa político-partidário. O comportamento dos eleitores, a mohi l izac;ao partidária e o poder político dos diferentes grupos e

f'ncc;6es foram estudados para entender .processos de mudanc;a

ocial na América Latina, no caso de Lipset, e para entender

1· •voluc;6es e conflitos entre as nac;6es, como o nazi-fascismo etc.,

no caso de Heberle. As orientac;6es desta corrente sera.o retomadas nos anos 80 por Fantasia (1988) e MacNall (1988) em

HUa ligac;ao da análise de classes a teoria dos movimentos sociais,

l' por Tarrow (1994), no que concerne a preocupac;ao em compreender o comportamento político das redes dos movimentos

sociais.

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